Entrevista

Aguinaldo Jaime aponta África como prioridade

Eugénio Campos |

O presidente da Federação Angolana de Xadrez (FAX), Aguinaldo Jaime, foi eleito vice-presidente da Federação Internacional - FIDE (do francês Fédération Internationale des Échecs), no 85º Congresso, em Tromso, Noruega, no dia 11 do corrente.

Presidente do Conselho de Administração da ENSA ( à esquerda ) quando fazia a entrega de um diploma de mérito ao responsável máximo da Federação Angolana de Xadrez
Fotografia: Eduardo Pedro

O recém-eleito vice-presidente da FIDE respondeu on line às seguintes perguntas do Jornal de Angola.

Jornal de Angola - Quais as suas impressões sobre as eleições para a presidência da FIDE?

Aguinaldo Jaime  - O ambiente pré-eleitoral foi de alguma crispação, com suspeição de fraude e falta de transparência, suscitada pela lista de Garry Kasparov. Houve, também, alguma controvérsia sobre quem seriam os legítimos representantes de algumas federações de xadrez africanas, como foi o caso do Gabão. Mas, tudo isso foi ultrapassado. Chegou-se ao ponto de inspeccionar as urnas, os boletins de voto, e nomear fiscais independentes para supervisionar todo o processo de votação e contagem dos votos. O resultado, de 110 votos para a lista de Kirsan Ilyumzhinov, de que faço parte, e 61 votos para a lista de Garry Kasparov traduz a vontade livremente expressa das 174 federações de xadrez aqui presentes, de África, Europa, América e Ásia.

JA - Sabemos que é o terceiro nome da Lista de Kirsan, com a categoria de vice-presidente. Quais serão as suas funções?

AJ - Amanhã, vai reunir-se o novo Colégio Presidencial da FIDE e acredito que haverá distribuição de pelouros. O meu vai ser, certamente, o continente africano que, nestas eleições, foi a região que surgiu mais dividida. No quadro da CPLP, esta divisão foi notória. Angola, Brasil e Moçambique votaram na lista vencedora, ao passo que Portugal e S. Tomé terão votado na lista de Kasparov. Na SADC e na CEAC, a África do Sul, a Nigéria, o Senegal e a Costa do Marfim terão votado em Kasparov, enquanto a África do Magreb e os restantes membros da SADC votaram em Kirsan. Sendo o nosso continente aquele onde os xadrezistas têm o elo mais baixo e onde as federações e os clubes de xadrez têm maiores dificuldades humanas e materiais, os desafios são enormes.

JA - Onde é que vai trabalhar?

AJ - Em Luanda, pois tenho as minhas responsabilidades públicas, que em nada vão ficar prejudicadas com este cargo. As tecnologias de informação e comunicação permitem esta maravilha de sermos actuantes, mesmo sem estar fisicamente presentes. Da lista apresentada, só o secretário-geral, que é o filipino Abraham Tolentino, vai ser funcionário assalariado da FIDE e trabalhar na sede da organização, em Atenas. As assembleias anuais têm lugar uma vez por ano e as reuniões do Colégio Presidencial acontecem uma vez por quadrimestre, sempre aos fins-de-semana, para não prejudicar as funções de cada um.

JA - Nas eleições passadas, esteve com Garry Kasparov e este ano foi seu opositor. Como foi o seu reencontro com ele?

AJ - Nas eleições passadas, eu integrei a lista de Anatoly Karpov, também ex-campeão mundial, que era apoiada por Garry Kasparov. Este ano, Karpov não concorreu, porque Kirsan soube criar uma lista de consenso, convidando alguns dos seus antigos opositores, nos quais reconheceu valor. Se bem se recorda, ele visitou Angola, para me formular o convite para integrar a sua equipa. Sem surpresa, Karpov também apoiou a sua lista. O meu reencontro com Kasparov e Nigel Short foi, por isso, absolutamente normal e urbano, embora agora tivéssemos sido adversários.

JA - Quais serão as suas prioridades, enquanto vice-presidente da FIDE?

AJ - Colocar o desenvolvimento do xadrez em Angola, na CPLP e, em geral, no continente africano, no centro da agenda da FIDE. A este respeito, consegui já que o próximo Campeonato Africano de Xadrez, na categoria de juniores, se realize em Angola, na Lunda Sul. Fica, assim, aberta a porta para a realização, no nosso país, de outros eventos de xadrez de âmbito continental. E, quando tivermos infra-estruturas adequadas, vamos poder candidatar-nos à realização de provas de xadrez a nível mundial.

Prestígio para Angola

Aguinaldo Jaime fez parte da lista liderada pelo multimilionário russo Kirsan Ilyumzhinov, que renova o mandato, no reinado desde 1995, tendo obtido 110 votos a favor, contra os 61 dos opositores que tinham no comando o lendário Grande Mestre, ex-campeão do mundo e activista político Garry Kasparov. Embora o Congresso tenha decorrido num ambiente de mútuas acusações de corrupção, a vitória da lista de Kirsan não deixa dúvidas. Foi clara, na opinião do presidente da Federação Alemã de Xadrez, Herbert Bastian. Ilyumzhinov prometeu aos delegados das 174 federações membros um investimento de 20 milhões de dólares na modalidade.

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