Entrevista

Albano Lussati: “Há vários factores que impedem o avanço da agricultura”

António Eugénio

Presidente da Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas de Angola (UNACA) defende a necessidade de maior flexibilidade nos preços de insumos e equipamentos para que os camponeses tenham-no acesso com facilidade e aumentem a produção de alimentos.

Fotografia: DR

Como encara as medidas recentes tomadas pelo Governo viradas à Agricultura?

Felicitamos o Governo angolano por ter tomado medidas que visam o alívio económico. Precisa-se de apoiar o sector produtivo importante catalisador para contribuir na balança económica e aumento do Produto Interno Bruto (PIB). Porém, as medidas de apoio à agricultura familiar devem ser específicas e bem direccionadas.
É importante reforçar a capacidade financeira das instituições do Estado vocacionadas ao apoio à agricultura e o surgimento dos centros de formação dos intencionistas agrícolas.

Em sua opinião, é desta vez que os desbravadores da terra vão mostrar que o país deixe de depender somente do petróleo?

É difícil responder afirmativamente. Há vários factores que podemos considerar para analisar esta questão. Pensamos que o desenvolvimento agrário e a sua contribuição na economia devem ser medidos gradualmente. O país estaria longe se estivéssemos manifestado esta vontade de prestar atenção a agricultura muito antes.
Neste momento, precisamos de os preços de insumos e equipamentos sejam acessíveis para os camponeses, caso contrário, os resultados que se esperam não serão concretizados. Contudo, achamos que este ano será diferente, tendo em conta o investimento que o Executivo pretende fazer em apoio à agricultura familiar, sobretudo, para as Cooperativas de Pequenos Produtores.

Quais os critérios que devem ser seguidos à risca para o financiamento agro-pecuário, no sentido de se evitar os erros do passado?

Qualquer financiamento, em termos de crédito, deve ser avaliado e acompanhado. Não se brinca com o dinheiro (como se diz o dinheiro não pode ver o sol, fica assanhado).
Para as cooperativas, precisamos de acompanhar o investimento e o desempenho de cada cooperador na produção, para assegurar o reembolso a bom porto. Os bancos devem se associar a UNACA no processo de concessão de crédito. Importa dizer que os camponeses associados já têm a consciência que os créditos devem ser reembolsados porque o dinheiro é alheio. A maior atenção deve ser dada às cooperativas legalizadas à luz da Lei 23/15 e eliminar a burocracia no processo, considerando que muitas cooperativas não possuem título de propriedade de concessão de terra.

Senhor presidente da UNACA disse há tempos que a produção agrícola em Angola sempre foi assegurada pela agricultura familiar. Que apoios estão a ser direccionados aos associados?

É verdade, pois, a agricultura familiar sempre assegurou a produção em Angola. Isso não é o assunto a discutir. Esta agricultura precisa de um pouco mais de atenção para que se fortaleça e que possa desafiar a indústria e a exportação.
Dos apoios direccionados a este segmento, além de adubos subvencionados que não chegam a satisfazer a demanda, hoje fala-se do financiamento às cooperativas dos agricultores familiares que, pensamos, irão solucionar alguns problemas ligados à produção.
Por outro lado, as brigadas de mecanização agrícolas constituídas no intuito de apoiar a preparação de terras dos camponeses, infelizmente, não correspondem às expectativas pelas quais foram criadas. Queremos que haja mais apoios para tornarmos mais visível a contribuição da agricultura familiar na economia.

Acha que a auto-suficiência alimentar passa também em potenciar os pequenos produtores?

Sim, nas nossas condições, a auto-suficiência passa imperativamente em potenciar os pequenos agricultores, na medida em que são estes que sempre garantiram alimentos saudáveis à mesa dos angolanos. Se tiverem mais apoios e um bom enquadramento técnico, os resultados serão espectaculares.

No passado recente, os empresários do ramo agrícola beneficiaram de financiamento para alavancar o sector. Falou-se que os valores atribuídos serviram para outros fins. Será que agora estão sensibilizados com a causa?

É difícil responder por deles, mas achamos que a experiência ensina tanto para os bancos, tanto para os empresários.

Que medidas devem tomadas pelo Governo para impedir os mesmos erros?

Pensamos que a canalização de qualquer financiamento deve ser bem pensada e ter um propósito claro: o apoio à economia. Neste caso, devem ser tomadas todas as disposições necessárias para proteger o financiamento. Uma prévia avaliação é sempre importante e sobretudo um acompanhamento minucioso é o aconselhável e obrigatório.

Que medidas a tomar para escoar o produto entre o campo e a cidade?

O escoamento dos produtos do campo implica existência de vias secundárias e terciárias em bom estado de transitabilidade e o mercado para a comercialização. Temos problemas de defeituosidade de muitas vias de interesse agrícola e que carecem de uma atenção particular. Reconhecemos o esforço que está a ser feito pelo Executivo no sentido de recuperar estas vias, mas ainda há caminho por andar.
Apoiamos a iniciativa do Ministério da Indústria e Comércio na implementação do Plano de Acção para a comercialização que visa o melhoramento do escoamento e da comercialização dos produtos.

Por que razão, os fertilizantes chegam sempre ao preço alto aos camponeses?

Os fertilizantes são insumos que mais recebem subvenção do Estado. Infelizmente, não chegam para todos os camponeses. Por outro lado, os camponeses recorrem aos fornecedores onde encontram o produto a preços altos.

Como pensa ultrapassar este problema?

Pensamos que, com a implantação de uma fábrica de fertilizantes no país, o preço poderá baixar substancialmente. Uma outra questão é a eliminação dos intermediários comerciais na venda do adubo subvencionado. Neste caso, as Cooperativas dos Produtores podem muito bem jogar este papel e facilitar a aquisição do referido produto pelos camponeses.

Como devem ser aproveitados os milhares de hectares agrícolas em posse de pessoas que nada fazem para a produção alimentar?

Acompanhamos os trabalhos que estão a ser feitos pelo Executivo, com vista a viabilização das terras agrícolas abandonadas. Este trabalho permitirá que as terras estejam redistribuídas e aproveitadas para os fins agro-pecuários.

A falta de sementes melhoradas tem sido um factor que concorre para níveis baixos da colheita. Quais as medidas a tomar para se inverter o quadro?

Angola já produz sementes melhoradas, em particular, de milho em níveis muito baixos. Precisamos de mais investidores para elevar a produção de sementes melhoradas.
Um outro factor que concorre para a baixa da produção é o surgimento de pragas nas culturas. Para tal, advogamos que haja investimento na investigação agronómica para se poder dar resposta a fitossanitária correspondente.

Quantos associados controla a UNACA neste momento?

A UNACA controla 880.161 associados. Este número sobe dia após dia por que há sempre solicitação para a filiação.

Como especialista, que passos a seguir para incrementar a produção do café, algodão, sisal, cacau e óleo de palma?

Temos de trabalhar no fomento e engajar activamente as cooperativas neste processo. No passado, havia fazendas que produziam produtos em maior escala. Pode-se reabilitar as referidas fazendas e alinhar algumas cooperativas nessa cadeia produtiva.
Com os programas específicos e concebidos de forma participativa com os produtores, é possível chegarmos aos resultados visíveis, pois o café, o algodão, o sisal, o cacau e o óleo de palma sempre foram a riqueza ou marca do país.

Que apoios necessitam os camponeses para começarem a ganhar riqueza?

Para ganhar riqueza, deve haver programas de fomento virados à agricultura familiar, assim como a inserção dos camponeses nas cooperativas, que poderiam ajudar na criação de riquezas às suas famílias.

PERFIL

Nome: Albano da Silva Lussati.

Albano da Silva Lussati, de 66 anos de idade, filho de Silva Lussati e de Vitória Nguendalerié, natural do Huambo, e co-fundador da Cooperativa Agropecuária Centro Lufefena.

É formado em Gestão Cooperativa e em Agro-negócio no Instituto António Sérgio em Portugal. Tem uma larga experiência de extensionista rural, pois está no movimento cooperativo no país desde 1978.

Participou no primeiro seminário sobre o movimento cooperativo no Moxico, em 1978, e com as experiências acumuladas nos países como Cuba, Ex-União Soviética, Brasil, Bulgária, etc, na UNACA, desempenhou sucessivamente as funções de secretário para área Social, secretário do Departamento de Organização e de Quadros, secretário para Administração e Finanças, vice-presidente e, desde 2015, foi eleito presidente.

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