Entrevista

Ameaças no Atlântico

Adelina Inácio e Adalberto Ceita|

O vice-presidente do Centro de Estudos Estratégicos de Angola declarou ontem estar preocupado com a imigração ilegal e pediu mais atenção às ameaças que vêm do Oceano Atlântico. O general Manuel Correia de Barros referiu a pirataria, a pesca, a imigração ilegal e o tráfico de drogas e de pessoas como “sérias ameaças” aos Estados banhados pelo Oceano Atlântico.

General Manuel Correia de Barros defendeu a realização de um estudo para combater as ameaças aos Estados banhados pelo Oceano Atlântico
Fotografia: José Cola

Correia de Barros, que falava à imprensa à margem da abertura da Conferência Internacional “Atlântico Via Estratégica para a Ligação dos Povos e das Nações”, afirmou que o CEEA está preocupado com a imigração ilegal no país e anunciou a realização, para breve, de um estudo sobre o fenómeno. 
O vice-presidente do CEEA defendeu a realização de um estudo para combater este tipo de ameaças, através do reforço de meios marítimos para detectar eventuais perigos vindos do mar.  Correia de Barros acentuou que a imigração ilegal em Angola, com recurso à via marítima através do Oceano Atlântico, tem vindo a crescer, por isso entende que o país deve estar preparado para responder da melhor maneira a estes fenómenos.
O Oceano Atlântico é considerado uma das vias principais de entrada e saída de produtos e de riquezas de Angola. “Tudo o que importamos vem por via do Atlântico, além de que a nossa principal riqueza, o petróleo, é extraído no Oceano Atlântico”, disse.
O centro pretende fazer, ainda este ano, apontou Correia de Barros, um estudo profundo sobre a posição estratégica de Angola. O CEEA, lembrou, tem colaborado com a Comissão de Desarmamento da População Civil na recolha de armas em posse ilegal da população civil. A conferência, que começou e terminou ontem, teve como oradores o ex-presidente do Congresso dos Deputados de Espanha, José Bono Martinez, e o ex-ministro dos Negócios de Cabo Verde, Victor Borges.

Negociação é preferencial

O Oceano Atlântico é o segundo maior oceano do mundo em extensão, com aproximadamente 106,4 milhões de quilómetros quadrados,  um quinto da superfície total da Terra.

Jornal de Angola – De quem é a iniciativa e que propósitos nortearam a sua realização?

Manuel Correia de Barros –
A iniciativa pertence ao CEEA e enquadra-se no conjunto de iniciativas que anualmente realizamos. Esta conferência é a mais importante de 2013 e foi escolhido um assunto que diz respeito e é de interesse para o país. Angola é banhada pelo Oceano Atlântico, parte considerável  da sua riqueza é explorada na sua envolvente. Além disto, a esmagadora maioria das exportações e importações são feitas por esta via. Portanto, a sua importância é inquestionável.

JA – O fim do conflito armado  atribuiu muito mais importância ao Oceano Atlântico?

MCB –
Apesar de toda a riqueza ter como proveniência o mar, na maior parte a guerra foi feita em terra. Naquela época, o mar tinha pouca importância e o espaço áereo era uma das principais vias de entrada e saída de pessoas e bens.

JA – A escolha dos prelectores obedeceu a critério específico?

MCB –
A ideia era ter na conferência dois prelectores com visões e percursos diferentes. Daí a escolha de um espanhol, José Bono Martínez, ex-ministro da Defesa e antigo presidente do Congresso dos Deputados de Espanha, e noutro contexto, Víctor Borges, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde.

JA – Pretende-se obter uma comparação em relação às diversas formas de utilização deste recurso marítimo?

MCB –
O que se pretende é que os prelectores demonstrem a importância estratégica do Atlântico, não só na ligação dos povos e nações, mas também o seu aspecto. Apesar da importância de que se reveste, a maior parte das pessoas não possui um conhecimento real desta situação.

JA – A continuar, pode haver consequências alarmantes?

MCB –
Exacto. Existe o problema o problema da fiscalização da pesca, a imigração ilegal, a pirataria, que felizmente ainda não atingiu o nosso país mas que é sentida no Golfo da Guiné, sobretudo nas águas da Nigéria e Guiné Equatorial. Para conter esses fenómenos precisamos de meios e homens.

JA – O  CEEA sublinha que o Oceano Atlântico continua disponível para, com o apoio de todos os países e povos, continuar a ser um elo imprescindível de ligação nas relações futuras dos países ribeirinhos do Oceano, principalmente da Europa e de África. Ao longo da História foi mais um factor de desunião?

MCB –
Foi, efectivamente, mas  foi, também, de união. Por exemplo, as primeiras navegações feitas pelos portugueses em Angola tinham como objectivo conhecer novos povos e, posteriormente, o comércio. Mas o tráfico de escravos manchou por completo o primeiro propósito.

JA – Que caminhos sugere para o Atlântico ser um factor de união entre os povos?

MCB –
Aquilo que se pretende é que o Atlântico e outros oceanos sejam salvaguardados pelos países ribeirinhos e que as suas riquezas estejam disponíveis a todos. O controlo e cooperação entre os países deve ser fundamental. O contrário, naturalmente, abre caminho para conflitos. É fundamental a estreita ligação entre os povos e os governos.

JA – Que vantagens Angola pode retirar desta conferência com vista a melhorar a segurança marítima regional e internacional?

MCB – 
O propósito do CEEA é analisar os assuntos, levantar as questões e dar sugestões. A conferência proporciona discussões, com perguntas e respostas. Vamos tirar as nossas conclusões e, muito provavelmente, publicaremos as comunicações da reunião.

JA – Que futuro antevê para o Atlântico numa perspectiva de posicionamento de interesses estratégicos das principais potências e aliados?

MCB –
Todos os países têm os seus interesses, sejam grandes ou pequenos. Obviamente, o interesse das grandes potências por vezes são hegemónicos e outras vezes tentam que eles sejam. Aquilo que consideram as suas áreas de interesse estratégico, ainda que estejam no território que não lhes pertence, defendem-no a todo o custo. Claro que os países que se vêem envolvidos têm de se defender e, de preferência, na base da negociação.

JA – Acredita que o mundo e em particular as grandes potências estão capacitadas para assumir o potencial de paz que o Oceano Atlântico oferece?

MCB –
O mundo mudou muito e essa mudança permitiu que, ao contrário da Guerra-Fria, em que as potências escolhiam os seus aliados e a escolha por outro caminho tornava-se difícil. Entretanto as coisas hoje processam-se de modo diferente e na maior parte das vezes prevalece o interesse mútuo.

JA – O que mais se pode dizer em relação à conferência?

MCB –
As pessoas hão-de retirar o máximo de proveito dos conhecimentos dos oradores, que são pessoas com muita experiência na abordagem do tema. Precisamos de trabalhar numa perspectiva de futuro.

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