Entrevista

“Amo Angola assim como amo a Suíça”

Ferraz Neto

Elisa Valentina da Costa Policarpo é uma jovem empreendedora de nacionalidade suíça e angolana. É filha de mãe suíça e de pai angolano. O amor pelas origens africanas levou-a a criar uma startup, ou seja uma empresa, vocacionada na comercialização e promoção de artistas das mais diferentes áreas, do continente berço da humanidade, na Europa. A Afrokaana tem a sua sede na Suíça e filiais na Áustria e Alemanha. Na sua recente estadia em Angola, Elisa Valentina da Costa Policarpo abriu-se ao caderno Fim-de-Semana, numa longa entrevista. Falou da sua trajectória de vida na Suíça e da sua experiência como prelectora na maior montra da Europa em matéria de tecnologias de informação, a Web Summit, em 2019 .

Fotografia: DR

O que é a startup Afrokaana e quais os seus objectivos?

Trata-se de uma plataforma comercial e de informação sobre produtos de origem africana como roupas e acessórios femininos e masculinos, feitos por artistas africanos e no continente africano. África é um continente rico e com fortes potencialidades em termos culturais. As obras de artistas africanos são pouco exploradas e até mesmo desconhecidas na Europa. A Afrokaana é uma porta de entrada para os artistas africanos na Europa. Vamos divulgar tudo. Desde a bijutaria, roupa, comida e até a música. Achei interessante criar esta plataforma, com a finalidade de ajudar os fazedores de arte de Angola e do continente. É uma excelente oportunidade para os nossos artistas serem conhecidos na Europa e no mundo.

Quando é que surgiu a ideia da criação da plataforma?
É algo que surgiu há vários anos. Desde pequena que sou apaixonada pela cultura africana. Os revezes da vida levaram a que só agora materializasse o sonho. As minhas ocupações foram e estiveram sempre na base dos constantes adiamentos do lançamento desta plataforma. O ano passado participei da Web Summit, em Lisboa, onde estive a apresentar uma startup de um amigo, oriundo da República da Nigéria. Depois de uma longa conversa e troca de experiências, fui convidado a fazer parte de um jantar de gala que juntou várias personalidades influentes afro-descendentes. Durante o jantar pediram aos presentes para que apresentassem projectos. Decidi apresentar o Afrokaana. Foi um autêntico sucesso. Pessoas das mais diferentes partes do mundo vieram ter comigo e impulsionaram-me para que implementasse já... De regresso à Suíça criei o logotipo e o design da página. Juntei também, na criação da página na Internet, o meu irmão, que é um exímio designer gráfico.

No mundo do empreedendorismo por vezes desistimos logo no primeiro teste. O que a motivou a continuar?
Levei duas semanas para partilhar a página com algumas pessoas na Internet. Os receios de comentários negativos assustaram-me. Felizmente, a reacção foi bastante positiva. Durante estes dias o projecto ganhou outra dimensão com a minha estadia em Angola. Nos próximos dias, isto é, no dia 14 de Fevereiro, irei fazer o lançamento nas diferentes plataformas da Internet. O mundo terá contacto com a página oficial da Afrokaana. Durante este período amadureci ideias sobre o que fazer e que elementos relevantes podiam fazer parte desta plataforma, isto é, para os artistas africanos. Não sou uma pessoa imediatista, por isso decidi manter contacto directo com as pessoas no terreno (Angola). Por outro lado, não gosto de trabalhar com qualquer artista. Sou muito exigente, até comigo mesma.

Em Angola nem sempre os artistas estão filiados nesta ou naquela organização. Há uma espontaneidade em termos de criação... Como conseguiu lidar com esta situação?
É verdade. Tendo em conta a realidade angolana, baseei-me na história de cada artista, a trajectória de vida e o trabalho realizado. Esses são alguns dos elementos que contam muito para que faça parte da plataforma Afrokaana. Não estou interessado na concorrência, nem no lucro fácil. Alerto também aos interessados, que pretendem filiar-se na plataforma Afrokaana, que sou uma pessoa bastante exigente em termos do cumprimento das tarefas. Detesto o bajulismo ou o amiguismo.

Quem serão os rostos angolanos a integrar a primeira fase da Afrokaana?
São vários. Tenho a Andreia Cruz, a fundadora da Lady Acessórios, que faz acessórios femininos. Também faz parte a jovem Maria Mateus. É uma empreendedora que fabrica carteiras para senhoras. Integra a lista a Iracelma, dona da empresa Cheiro Artesanais. Trata-se de algo interessante. A Iracelma produz sabonetes artesanais, com diferentes aromas, recorrendo a componentes naturais e sem químicos. O artista plástico Guilherme Maunga também é parte da equipa Afrokaana. O Guilherme Maunga faz parte de uma família de pintores. Outras parcerias são com o jovem fotógrafo Leonel e com a Chimuma Comunicação. Neste meu regresso ao país estabeleci parcerias com inúmeros artistas angolanos.
O projecto é amplo e estende-se a outros países africanos. Que passos já deu para que o sonho se torne realidade?
É verdade. Nesta vertente, ainda não há nada de específico. Apenas ideias e conversas superficiais. Há uma semana fui contactada pelo criador de uma das maiores empresas no ramo do comércio e promoção de negócios de África, com sede na África do Sul. Neste momento, a organização encontra-se a identificar os artesãos sul-africanos e estrangeiros residentes naquele país. Constou-me que, recentemente, esta companhia sul-africana estendeu as suas actividades para os Estados Unidos da América, onde nas cidades de Nova Iorque e Los Angeles fizeram contactos com artistas afro-descendentes. Veja que durante o jantar de gala na Web Summit 2019 eles questionaram e procuraram saber dos passos que demos, visando a materialização do projecto. Recentemente, da República do Ruanda, recebi uma ligação telefónica, a saber do projecto. Trata-se de uma senhora, que está a criar uma plataforma comercial, cujo objectivo é juntar vários empreendedores e fazedores de arte do Ruanda. Ela pretende estabelecer uma parceria, ou seja, quer que os artistas ruandeses sejam conhecidos também em Angola, e não só. Outra das parcerias a estabelecer será com a Shasha, uma marca de manteiga feita no Ghana. Tenho recebido milhares de emails com pedido de adesão.

Os leitores quererão saber porquê que o projecto estará apenas delimitado para a Suíça, Alemanha e Áustria? Porquê é que não deu o pontapé de saída em África?
É uma pergunta inteligente. Há artistas angolanos com enormes potencialidades. Isso é visível nas ruas de Luanda, e não só. O meu foco não é a concorrência. Como nasci e cresci na diáspora, isso forçou que o projecto fosse criado no exterior. A minha casa e vida serão sempre na Suíça. Formei-me lá e trabalho como directora de comunicação. Nunca pensei em mudar para Angola. Hoje, que conheço a realidade angolana, vou ganhando ânimo para tal, mas nunca pensei em deixar os meus pais e irmãos, para fixar-me em Angola. Mesmo assim, a minha ligação com Angola sempre foi forte. Desde criança que sinto-me angolana. Sempre interessei-me em conhecer Angola, os seus hábitos e costumes. Desde o dia que cheguei sinto-me uma verdadeira angolana. Até parece que nasci cá...

O seu regresso para a Suíça está para breve. Que balanço faz destes 30 dias?
É positivo. Estabelecemos vários contactos e tive a oportunidade de entrevistar vários parceiros, que vão fazer parte da plataforma Afrokaana. Em cada sessão fizemos fotografias e gravamos entrevistas. Conheci a história de cada uma das pessoas que irão constar da minha plataforma. Acho isso importante. Cada artista que entra para a página deve conceder uma entrevista sobre quem é que trabalho faz. Os europeus são muito exigentes e curiosos. Quem não aceitar conceder entrevista, não é admitido na Afrokaana.

O tráfico de escravos e a migração levaram a cultura africana a outros continentes. Falo concretamente da América...
Exactamente. Mas a plataforma Afrokaana só vai limitar-se ao continente africano. Se expandir para outros continentes irei perder o foco da minha iniciativa. Lanço um repto para os interessados que residem nestes continentes para que abracem iniciativas do género. O meu foco é a Suíça, Alemanha e Áustria. São países que domino bem e conheço a realidade. Outro dos factores é a língua. O alemão é um idioma que poucas pessoas falam. Se surgir uma abertura para o mercado americano, estarei aberto, mas com muitas reticências. Aprendi a delimitar o meu trabalho e a fazer escolhas.

Em Angola existem instituições que dão a cara e representam alguns dos fazedores de artes. Já tentou contactar alguma destas instituições?
Já. Necessito de ajuda para que isso seja uma realidade. Sozinha é impossível estabelecer vários contactos. Fica aqui o alerta, estou disponível para que possamos elevar o nome de Angola na Europa. Peço desculpa por não ter contactado essas instituições. Como disse no início, o meu foco é o jovem artista, que carece de projecção internacional. Falo do artesão do bairro e do beco. Artistas anónimos, mas com talento.

De que forma as pessoas podem contactar os gestores da Afrokaana? Quais são os requisitos para ser membro?
É estabelecer o contacto. Basta aceder ao endereço www.afrokaana.com. Lá, o artista encontrará um formulário com contactos e basta preencher. A minha equipa na Suíça está atenta a cada um dos contactos estabelecidos. Nós ligamos nos instantes seguintes. Caso não, receberá uma notificação por email ou por outra rede social na Internet. Importa referir aqui que não pretendo trabalhar com intermediários, mas sim com os artistas directamente. São os artistas os beneficiários. Por essa razão evito contactar instituições.

Quais são os ganhos que o artista tem ao filiar-se na Afrokaana?
Muitos. Nós apenas somos intermediários. O artista vai publicitar e angariar clientes por via da nossa plataforma. Por exemplo, o artista estabelece um preço do seu produto e nós adicionamos os custos de publicidade. O valor é totalmente do artista e não nosso. A Afrokaana foi criada na base da promoção, divulgação das artes africanas e nunca para o enriquecimento dos seus administradores. A nossa fonte de sobrevivência é a publicidade dos produtos dos artistas. Foi sempre um sonho, criar algo que pudesse enaltecer as minhas origens africanas.

Nome: Elisa Valentina da Costa Policarpo.
Data de nascimento: 14 de Fevereiro de 1990.
Naturalidade: Suíça.
Mãe: Beatriz Berly. Por causa do casamento mudou o nome para Beatriz da Costa Policarpo.
Pai: Bernardo Simão da Costa Policarpo.
È casada ? Solteira e sem compromisso. Sou directa nestes assuntos.
Sabe cozinhar algum prato típico de Angola ?: Sei. Mufete e funge de bombó. Aprendi com a minha avó.
Sonho: Levar para frente a Afrokaana e salvar as crianças de rua. Quando passo e as vejo, choro. Não me contenho. Outro dos sonhos é abrir um centro para vítimas da violência doméstica em Angola.
Local de férias: Luanda.
Usa perfume de marca ? Sim. Sou amante da Dior.
Marca de roupa : Já usei diferentes marcas. Hoje, e por causa do espírito africanista, o meu guarda-fato está cheio de roupa africana. Tenho uma estilista que costura para mim.
Passatempo: Participar em festivais de música. Na infância toquei guitarra.
Músico: Matias Damásio e Toty Samed.
Poligamia: Reprovo. Não aceito. O meu pai é angolano e ele achava isso normal. Sou tão ciumenta que não aceito dividir.
Homossexualidade: Nasci e cresci na Europa e isso lá não é crime. É algo normal. Aceito.

Nasceu na Suíça e fala impecavelmente o português...
É um esforço diário que fazemos em casa. A minha avó paterna anualmente viaja para a Suíça. Ela não só ensina-nos a língua portuguesa e o kimbundu, como aconselha como fazer iguarias da gastronomia angolana. Veja que quando terminei o ensino superior decidi trabalhar. Poupei os salários até comprar as minhas passagens e hospedagem para Angola. Hoje já tenho passaporte e Bilhete de Identidade angolano. Sou cidadã angolana e não abdicarei disso nunca. Amo este país, assim como amo a Suíça.

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