Entrevista

"Angola proporcionou-me novos olhares sobre a humanidade"

Francisco Pedro

Assinala-se a 15 de Maio, o Dia Internacional das Famílias, uma data que se celebra todos os anos. Instituída pela Assembleia Geral da ONU, em 1993, a efeméride reflecte a importância que a comunidade internacional atribui às famílias. Em entrevista ao Jornal de Angola, a cidadã portuguesa Dalila Salvador revelou que o primeiro e principal motivo que a trouxe a Angola foi a necessidade de estar, ou viver, em família. Licenciada em Educação Básica, pela Universidade de Aveiro, experimentou o jornalismo e dedica-se à formação técnico- profissional. Fala do que há de melhor em Luanda, onde vive desde 2015, como concilia a vida profissional com a familiar, apresenta-nos uma lupa sobre a adaptação à realidade cultural angolana, narra os desafios pessoais e faz uma leitura da actual relação Angola/Portugal, à luz dos mais recentes protocolos assinados entre os Presidentes Marcelo Rebelo de Sousa e João Lourenço.

Dalila Salvador vive em Angola com a família e dedica-se à angariação de um mamógrafo para o Hospital Geral de Luanda
Fotografia: Cedida

O que a trouxe a Angola?

O primeiro e principal motivo foi estar em família. O meu marido veio uns anos antes e eu vim pela primeira vez em 2012, engravidei da minha filha mais nova e fiquei em Portugal mais dois anos. Depois recebi um convite para dar aulas num colégio privado e em 2015, começou a aventura!

 Angola é uma aventura...Em que sentido?

Sair, pela primeira vez, da nossa zona de conforto é sempre uma aventura, independentemente do sítio para onde vamos. Por outro lado, Luanda é uma cidade que exige um “jogo de cintura” diário: é a desordem no trânsito, a falta de estacionamento, as falhas de energia, a falta de água, uma cultura diferente, ou seja, durante os primeiros seis meses, todos os dias eram de aventura. O meu motorista, todos os dias percorria um caminho diferente (pensava eu...), tenho uma boa memória fotográfica e bom sentido de orientação, curiosamente, sentia-me sempre desorientada ao ponto de achar que a zona da Sagrada Família era muito longe do Alvalade!

Como lidou com a nova realidade?

Tive dias complicados. Primeiro, pela fragilidade emocional que estava a viver. A minha família é muito unida e eu nunca me tinha separado dos meus pais e das minhas irmãs. Além disso, sentia, diariamente, o peso da responsabilidade de trazer as minhas filhas para um mundo novo e a adaptação ser difícil, ou mesmo impossível. Deste modo, esteve sempre iminente a possibilidade de regressar à casa, após três meses de experiência. Não foi necessário! Todos nos adaptámos bem e em pouco tempo estava rodeada de portugueses e angolanos, com alguns dos quais ainda hoje mantenho relações de cordialidade e amizade.

 Falou de portugueses e angolanos. Que leitura faz dos recentes acordos estabelecidos entre os dois países, aquando da visita do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa?

Angola e Portugal têm uma ligação que se perpetuará no tempo. Entre angolanos e portugueses existe um vínculo histórico muito grande, que ninguém pode ignorar. Obviamente, existem diferenças culturais e vivências pessoais muito relevantes e nem sempre a implementação de projectos corresponde ao inicialmente expectável, mas os acordos que foram feitos aquando da visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa têm por finalidade, manter e ou estreitar as relações entre os dois países, numa dinâmica “ganhar -ganhar”.

Dos acordos estabelecidos algum beneficia a sua área profissional?

Não foi feito qualquer acordo, especificamente, para a área da Formação Profissional. Tudo o que há protocolado é de 2009 e portanto, os benefícios são os mesmos!

 A sua actividade profissional está ligada à formação técnica?

Sim, mas eu costumo dizer que sou “multiprofissional” tendo em conta a variedade de coisas que já fiz nestes quase quatro anos: já dei aulas, explicações, corrigi trabalhos académicos, estruturei projectos de várias índoles, realizei eventos, coordenei um departamento de formação, fui directora geral em dois centros de formação profissional e sou formadora.

Em todos os contextos por onde passei, relacionados com a formação profissional, os "outputs" recolhidos convergem para uma só leitura: há muito trabalho a fazer nesta área. E, não me refiro apenas à necessidade de formar quadros, de atribuir competências e habilidades, nem dos outros pressupostos intrínsecos aos objectivos da formação. Refiro-me a uma questão de atitude, de postura comportamental entre todos os intervenientes. A formação profissional não deve ser apenas um negócio, para quem a ministra nem um escape ao trabalho, para quem a recebe. Como condição primeira, todos devem assumir uma relação de comprometimento, de seriedade e de respeito pela importância real que a formação profissional exerce, na co-construção de conhecimento e saberes.

 Que balanço faz da sua experiência profissional?

Tem sido um desafio constante, pela amálgama de assuntos que trabalho e pelos reptos que me têm sido propostos! Como referido, anteriormente, eu sou uma pessoa muito bem-disposta, mas profissionalmente sou muito séria e rigorosa, empenhada e disciplinada. Assumo que tenho o pavio curto, em aceitar a hipocrisia e falsidade e não sei lidar com a falta de pontualidade aos compromissos. Acredito que este meu carácter pragmático tenha incomodado (e incomode) algumas pessoas , com quem me relacionei profissionalmente, mas o resultado final é positivo e enriquecedor.

 Qual foi o projecto que mais gostou até agora?

Vou repetir-me: se a actividade/trabalho/projecto me despertar paixão, pode ser qualquer um, mas confesso que eu gosto muito da área de Comunicação e Relações Públicas e da Formação Profissional. Já organizei eventos que me deram tanto de trabalho, como de regozijo. Por exemplo, recentemente, repeti “Segurança e Cidadania” um evento que iniciei no ano passado, a convite da Hipergest e do Avennida Shopping, e fiz a inauguração da Sede da Protector – Segurança e Vigilância.

Na esfera da Formação Profissional inaugurei a Academia Portuária de Luanda e o Meeting Point Center, como formadora foram muitas as entidades que representei. Mas os meus maiores projectos chamam-se “J & AR”. Tenho recusado excelentes propostas em prol delas: refiro-me claro está, às minhas filhas.

 É difícil conciliar a vida pessoal com a profissional?

Não tem sido como gostaria, mas tenho conseguido equilibrar as coisas. Salvo raras excepções, eu gosto de trabalhar como independente, precisamente para ser dona e senhora da minha agenda. Já trabalhei 15 horas seguidas, tive períodos que fazia sistematicamente 21 horas por dia, fiz directas, mas gosto de ter dias de ociosidade. De poder apreciar a paisagem no terraço do Hotel Presidente, a qualquer dia da semana e a qualquer hora. E, quando existe vínculo contratual, sob o ponto de vista ético e moral, não podemos nem devemos fazer isso.

 O melhor de Luanda é…?

A marginal, o terraço do Hotel Presidente, o Bar -Bar e os convívios em minha casa.

 Qual é a sua opinião sobre a actualidade angolana?

A conjuntura não é atractiva, o custo de vida é caro, não há divisas, a moeda está em constante desvalorização, o sistema de saúde é periclitante e por aí, adiante. Esta é uma análise que encaixa hermeticamente na minha visão de emigrante, ou de quem pretende apenas fazer transferências para pagar as propinas dos mestrados, que tenho para terminar.

Mas também tenho uma visão de Angola, como sendo o sítio onde trabalho e vivo. E, como “angolana” não posso esquecer, que o país está a viver um novo paradigma e é premente que todos participem activamente na construção dessa mudança. Se cada um de nós alterar hábitos, comportamentos e atitudes que possam melhorar o nosso quotidiano; se cada um de nós praticar o exercício da cidadania; se abraçarmos a solidariedade como parte integrante da nossa condição humana, acredito que viveremos numa sociedade mais saudável e justa.

 Então, Angola recomenda-se ou não?

Angola é dicotómica: as lixeiras a céu aberto, contrastam com um inigualável pôr do sol; a boa música opõe-se aos maus hábitos de higiene, a falta de pontualidade contrasta com a magia que os angolanos têm a dançar, enfim!...o tema é longo e abrangente. Mas Angola proporcionou-me novos olhares sobre a humanidade, sobre o amor e a vida!

 Há algum episódio que a tenha marcado, particularmente?

Tenho imensas e extraordinárias situações mas vou seleccionar apenas dois: uma pelo encanto e graça do elogio e outra pelo lado triste da realidade. A primeira, aconteceu numa bomba de gasolina. Eu ia efectuar o pagamento no terminal multicaixa e levantei os óculos de sol para marcar o código. O funcionário olhou para mim e disse “Madrinha, os teus olhos são lindos. Quando eu for rico eu vou-te resgatar!” A segunda aconteceu com um jovem formando, que me pediu se lhe podia arranjar algum trabalho extra, uma vez que ele era órfão de pai e mãe e tinha mais de meia dúzia de irmãos para sustentar. Fiquei tão sensibilizada, que paguei o ano escolar a uma das irmãs.

 Já vivenciou alguma situação xenófoba ou racista?

Tive, apenas, uma situação. Um dia estava à espera de uma senhora para uma reunião e o propósito da mesma foi provocar-me com comentários xenófobos e racistas e eu tive de a expulsar do escritório.

 Projectos em Angola no futuro?

Isto, roça a redundância, mas não sou muito dessa coisa do futuro, numa perspectiva a longo prazo. Uma pessoa que vive intensamente como eu, aproveita a vida todos os dias. Mas gostaria de fazer algumas coisas, nomeadamente, desfilar um vestido que a Celeste Mampuya há-de fazer para mim; desempenhar o papel de aristocrata numa peça teatral sobre Angola esclavagista; adaptar o livro "Clandestinos no Paraíso" do escritor Luís Fernando e participar na sua exibição cinematográfica; coordenar projectos relacionados com a CPLP e gostava de realizar o sonho da Fundação Mulher contra o Cancro da Mama, na aquisição de um mamógrafo. Aliás, estou dedicada de alma e coração nesta causa. Mas há realmente um sonho, que gostava realizar em Angola: encontrar empresários angolanos interessados em investir na importação de produtos agrícolas, como o azeite, vinho e castanha, na aldeia onde nasci em Portugal, Ferreirim.

 

Campanha Solidária: Luta contra o cancro da mama

Dalila Salvador é associada da Fundação Mulher e neste momento está inteiramente dedicada à angariação de um mamógrafo, para diagnosticar o cancro da mama.

Desde 2017 que a Fundação Mulher, através de um acordo com o Hospital Geral de Luanda, realiza exames primários e diagnósticos do cancro da mama para mulheres mais carenciadas.

Colabora na Campanha Solidária, através da divulgação do Cartão+, agenda reuniões, promove acções de sensibilização e estabelece contactos com grupos económicos nacionais e estrangeiros no sentido de alcançar o desiderato. O projecto tem a coordenação da médica Dúnia, especializada na área de oncologia.

As pessoas que aderirem ao Plano (Cartão +) da Campanha Solidária têm várias vantagens: benefícios ilimitados; não tem limite de utilização; não tem limitações por certas enfermidades (exemplo diabetes, hipertensão); não tem limites de idades nem períodos de carência (cerca de duas horas depois da aquisição já pode utilizar); com descontos até 50 por cento na Maior Rede Médica Privada de Angola e dispõem de vantagens tais como: A primeira consulta (até 15.000,00 kz) é gratuita, Primeiro Exame Laboratorial (análise) até 7.500,00 kz é oferta. Consultas de Especialidade e Urgência, Exame Diagnósticos, Análises Clínicas, Enfermagem, terá de 10 a 30 por cento de desconto nos medicamentos, Medicina Estética e Internamento Hospitalar.

Inclui, também, Parto Normal ou Cesariana e tem direito, anualmente, a um rastreio do cancro da mama até 17.000,00 kwanzas, nas clínicas especializadas. O Plano é individual e dá para qualquer pessoa (crianças, homens, mulheres e idosos). Este Plano, de acordo com Dalila Salvador, oferece muitas vantagens sobretudo para as mulheres, visto que "é o nosso foco”. Recentemente, foi introduzido no nosso leque a Medicina Dentária (Estomatologia) com consultas grátis (e alguns exames também), sendo necessário pagar somente os tratamentos, os quais também beneficiam de descontos. Tudo isto e muito mais, por apenas 35.000,00 kwanzas por ano".

Acrescentou que as pessoas ao adquirirem o Plano de Saúde Fundação Mulher C. C. Mama, "vão contribuir para a compra do Mamógrafo que será colocado nas instalações do Hospital Geral de Luanda".

De sorriso fácil, Dalila Salvador é uma pessoa alegre, bem-humorada e inquestionavelmente simpática. Define-se como simples, cheia de energia, "mãe galinha” e apaixonada pela vida. Em criança queria ser advogada, porque achava ter o “dom” da palavra, mas por outros motivos ingressou no mundo académico na área de Relações Públicas, na qual se revê“ Adoro falar e de estar com as pessoas. Tenho de viver tudo intensamente. Sou cheia de vida e portanto, tudo tem de ser “a fervilhar”, seja nas relações pessoais ou nas profissionais. Eu tenho de me identificar com as causas, com os sentimentos, com as ideias, com as pessoas, com tudo o que vivo no momento. Se isso não me despertar paixão, não adianta!”

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