Entrevista

Angola tem que ser mais aberta e comunicar mais as mudanças actuais

Cândido Bessa

Aos 59 anos, Richard Attias talvez seja o africano mais conhecido e mais influente à escala universal, na actualidade. Nascido em Marrocos, foi, durante quase 15 anos, o organizador do Fórum Económico Mundial de Davos, um espaço de debates que integra líderes e decisores de vários pontos do planeta, com a missão de tornar o mundo num lugar melhor, no dizer dos organizadores. Publicitário, mas formado em Engenharia, prefere fazer conexões entre as pessoas. Richard Attias concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, em Abou Dhabi, durante a Semana da Sustentabilidade. Perfil Richard Attias Fundador do The New York Forum e co-fundador da Global Clinton Initiative e da Nobel Laureates Conference, que junta todos os anos os laureados da mais prestigiada distinção mundial. Organizador da “Future Investment Initiative” Criou o fórum anual de investimentos que se realiza em Riad, Arábia Saudita, e o “Build Africa Forum”, um encontro internacional de negócios e investimentos focado em infra-estruturas no continente africano. Assessor especial do Emirado de Dubai Em 2008, é nomeado para trabalhar num projecto estratégico abrangente, que deve tornar a cidade num destino obrigatório para grandes conferências, eventos culturais e desportivos.

Vamos começar por falar de Angola. Como vê as mudanças no país?

Angola é uma marca, com enorme potencial. Angola tem de ser mais aberta e comunicar mais as mudanças actuais. Angola poderia ser um dos países líderes em África.

Certamente que conversou com o Presidente angolano, já que foi moderador do painel em que participou, durante a Semana da Sustentabilidade, em Abou Dhabi. Do que é que falaram?
Durante o nosso diálogo no palco, falámos sobre corrupção, oportunidades de negócios, tecnologia, diversificação da economia, Agricultura e Educação. O Presidente tem um roteiro muito claro e eu acho que ele vai implementá-lo!

Como vê as ideias do Presidente João Lourenço sobre o continente?
O que o Presidente disse durante o nosso debate em Abou Dhabi é absolutamente crucial: que precisamos de manter a nossa juventude no continente. Precisamos de investir em tecnologia e o facto de Angola estar a investir na área espacial é estratégico.

Que papel Angola pode ter no continente?
Angola pode ser a força motriz do continente. Politicamente, economicamente e culturalmente. Vai levar tempo, mas o tempo é agora. África precisa de líderes fortes.

O Presidente falou de corrupção. Pensa que esta percepção negativa está a mudar?
O facto de o Presidente começar a nossa conversa falando da corrupção revela que é muito corajoso. A corrupção é uma das principais doenças do continente. A percepção mudará quando forem tomadas acções. O importante não é só punir as pessoas que são corrompidas, mas também as empresas ou entidades que usam a corrupção para conquistar negócios e projectos.

Participou, recentemente, em Abu Dhabi, na Semana sobre Sustentabilidade. Pode oferecer-nos uma visão geral do evento e o seu impacto no continente Africano?
A Semana da Sustentabilidade e a Cúpula do Futuro são dois eventos importantes que acontecem no início do ano, para moldar as discussões globais e as tendências sobre novas formas de energia. CEO’s globais e decisores políticos debatem os desafios e soluções para os problemas que o mundo enfrenta, em termos de sustentabilidade. Em paralelo, há uma exposição, onde as grandes corporações apresentam as suas inovações. Este ano, os organizadores convidaram alguns líderes africanos, porque eles, finalmente, perceberam que o futuro está em África.

Acredita mesmo que “o futuro está em África”?
Claro! África é parte do futuro. Um continente com 600 milhões de pessoas com idade inferior a 25 anos, com água, vento, sol, enormes recursos naturais e tanto talento representa o futuro. Imensos são os desafios para garantir um futuro brilhante e optimista.

Sente que existe hoje uma compreensão melhor de África?
Começa a haver, mas ainda há muito preconceito. As pessoas sequer sabem que falamos muitas línguas em África, incluindo o português! É necessário apresentar melhor a marca África, as regiões, os países e não apenas os safaris, desertos e refugiados!

Quais são as necessidades de África?
África tem tudo e precisa de tudo! Melhor sistema de ensino, melhor sistema de saúde, a transformação local dos recursos naturais, erradicar a corrupção, formação profissional, uma melhor governança, mais incubadoras. Para listar apenas alguns.

Até que ponto é importante ter líderes visionários e inovadores para o continente?
É crucial. Sem líderes visionários, um país não pode avançar. Mas líderes visionários devem estar rodeados de realizadores, que aplicam esta visão. Não há nada grande no mundo que tenha sido alcançado sem pensadores sábios, que pensam fora da caixa.

Como o continente pode erradicar a pobreza?
É uma questão que implica muitos biliões de dólares! A pobreza não está só em África. É um dos mais importantes desafios da sociedade actual. Para lutar contra a pobreza, precisamos de desenvolver os nossos sistemas de educação, apoiar o empreendedorismo, incentivar a solidariedade entre pessoas e países, envolver o sector privado nos programas de desenvolvimento e, por último, mas não menos importante, colocar essa luta contra a pobreza como prioridade máxima, não só do Governo e da ONU. Além disso, há necessidade de tornar as pessoas mais responsáveis: quando você é pobre, não deve ter 10 filhos. Precisamos de ter um melhor controlo do nascimento. Não estou a dizer que devemos fazer como na China, mas devemos olhar mais para a forma como a Europa e a América estão a lidar com esta matéria.

Vê os líderes africanos empenhados naquilo que as pessoas precisam?
Acho que eles começam a ter uma melhor compreensão e a perceber o poder do povo, graças à Media Social. Eles ouviram e estão a mudar. Nem todos, mas é um processo. Novos líderes são agentes para mudar o jogo.

Alguns dizem que há muita conversa, mas pouca acção de líderes africanos. Como avalia esta preocupação?
Como disse, precisamos de realizadores! Precisamos de líderes fortes, com ministros que têm de ser responsabilizados e avaliados em função das suas performances e dos resultados. Os países devem ser geridos como empresas, com conselhos consultivos e ferramentas de medição de resultados. Os governos devem incluir mais pessoas provenientes do sector privado, na minha modesta opinião. África não deve ser o campeão do mundo de Memorandos de Entendimento, mas o campeão do mundo em contratos assinados e implementados.

“Os países devem ser geridos como empresas”

Na Semana de Sustentabilidade, mencionou uma frase do Presidente Clinton, que dizia que "não há nada de ruim na América que não possa ser resolvido, pelo que é bom na América". Este princípio pode ser adaptado em África?
Claro! Como foi para a China, para o Vietname e muitos outros países subdesenvolvidos que hoje estão num patamar muito melhor.

Mas o que é bom em África que pode ser melhorado e o que é errado que deve ser corrigido? E como?
É preciso ouvir as pessoas, ser mais inclusivo. O que é bom para os teus cidadãos é bom para o teu país. O principal activo de África é o seu povo. Olhe o que está a acontecer hoje aos países que não ouvem os seus cidadãos, mesmo na Europa! Os líderes devem adoptar um roteiro e fixarem-se nele. Nada de compromissos. Precisamos de entrega total.

Quais os sectores-chave para o desenvolvimento do continente?
Agricultura, Tecnologia, Infra-estruturas e, claro, cuidados de Saúde, Educação, através de parcerias público-privadas.

Até que ponto é determinante o investimento do Governo na Educação?
Eu acho que deveria ser um dos tops três da despesa no orçamento nacional. Na verdade, não é uma despesa, é um investimento. Se não educarmos o nosso povo, estamos a falhar.

O que tem dito aos investidores sobre a África?
Como deve saber, sou dos que começou a trazer os grandes investidores para África, graças aos meus diferentes fóruns internacionais dedicados ao Investimento Directo Estrangeiro. Ajudamos muitos países, como o Gabão, Congo, Guiné Equatorial, Rwanda, Senegal, África do Sul, etc, a atrair investidores. O que lhes digo é que a liderança está empenhada em diversificar a economia, com projectos financiáveis. Há reformas em curso, vigor e a força de trabalho local é boa.

O que diz aos investidores que ainda mencionam questões de segurança e estabilidade como obstáculos ao investimento no continente?
Podes adicionar a corrupção, como um grande risco! Digo-lhes que devem confiar na liderança. Quando organizei a conferência “Egypt the Future”, não foi fácil convencer os investidores. Mas a forma como o Governo estava envolvido e como as pessoas do Egipto apoiaram e se manifestaram favoráveis aos seus líderes fez a diferença. Conseguimos angariar 25 mil milhões de dólares!

Pode citar alguns casos de sucesso que podem servir de modelo de criação e estímulo ao desenvolvimento do continente?
Acabei de mencionar o Egipto, mas posso adicionar o Rwanda, Marrocos, Senegal, Costa do Marfim, para citar apenas alguns modelos que estão a caminhar muito bem. Os seus programas de desenvolvimento económico são apoiados pelo Banco Africano de Desenvolvimento e outras instituições. As coisas estão a mover-se nesses países.

Em que áreas fundamentais os africanos precisam concentrar-se hoje no mundo?
Tecnologia, é claro. Está a afectar todas as áreas, todos os sectores e a nossa vida do dia-a-dia.

As pessoas querem mudança. Até que ponto é fundamental comunicar o papel de África como um agente de mudança no mundo? Os jovens africanos entendem este esforço?
Temos de mudar as nossas mentalidades. É necessário incluir mais mulheres nas nossas sociedades. Precisamos de ser mais tolerantes e apoiar as mudanças. Não podemos construir o futuro, ignorando as nossas raízes, as nossas tradições, a nossa História. É por isso que é importante manter o diálogo entre gerações.

Qual é a chave para atrair e reter os melhores talentos em África?
Precisamos de lhes dar esperança de que terão oportunidades para realizar os sonhos. Se já não sonhas, estás morto. Talentos estão em toda a parte. Temos de criar um ambiente favorável para os talentos terem sucesso: incubadoras, incentivos financeiros e de impostos, bons salários.

Qual é a sua opinião sobre o estado actual de África?
O mundo no geral não está bem, mas África é muito resiliente. Se os líderes africanos trabalharem juntos para proteger os seus recursos naturais, homogeneizar a mineração e os códigos fiscais, para facilitar a integração regional e comunicar melhor, o continente vai estar bem.

Que papel atribui a África como parte desse mundo?
África deve ter uma voz forte em matéria de refugiados, no capítulo das alterações climáticas, na segurança e no que diz respeito ao terrorismo. Quando isto acontecer, quando mostrar ao mundo que no continente existem muito boas ideias e soluções, as coisas vão mudar.

O que os investidores estrangeiros precisam de saber sobre as oportunidades em África?
Precisam de saber com mais precisão o que cada país tem para oferecer e quem são os reais promotores de decisão.

Como enfrentar esses desafios?
É necessário criar as plataformas para receber esses investidores e garantir o acompanhamento. O acompanhamento é crucial!

 

Fórum Económico Mundial é hoje o principal espaço de debates

Foi durante 15 anos o organizador do Fórum Económico Mundial. Como avalia a presença de líderes africanos no evento e qual o impacto em África?
Como poderia ser um fórum mundial e ignorar a África? Quando saí, depois de 15 anos de produção do Fórum de Davos, a primeira coisa que fiz foi criar o “New York Forum África”. Graças ao sucesso do nosso fórum, muitos outros nasceram no continente e os líderes africanos são convidados para toda a parte. Infelizmente, em Davos, a Media é mais atraída pelos chineses, europeus e líderes americanos. Eu tenho algumas ideias sobre como falar sobre a nova África. Falei brevemente com o Presidente João Lourenço sobre isso. Vamos ver o que acontece.

Sente que a elite mundial está empenhada nos problemas de África?
Depende de quem... Muitos falam acerca disso, mas não tenho a certeza se é com sinceridade. África pode resolver os seus problemas internamente. O poder de 54 países a actuar em conjunto é imenso.

Como prevê as discussões?
O Reino Unido tem de lidar com o Brexit, os Estados Unidos têm de lidar com a discordância entre o Presidente Trump e o Congresso, a França tem de lidar com o movimento social dos “Coletes Amarelos”, a China tem de lidar com o abrandamento da sua economia, a Europa tem de lidar com o populismo e a crise dos refugiados. Por isso, África não deve esperar nada dos outros. Deve ter o destino em suas mãos!

O que mais o anima neste papel de comunicador e organizador do Fórum Económico Mundial?
Sou um catalisador, um engenheiro civil, mas, em vez de construir pontes nas cidades, estou a construir pontes entre as pessoas, entre países e investidores, para apoiar a criação de emprego e ajudar as novas gerações. As pessoas são a minha paixão.

É um africano bem sucedido. Qual é o conselho que deixa aos jovens de todo o continente, quanto às oportunidades disponíveis para eles?
Sonhem grande, não renunciem e, mais importante do que isso, criem o seu próprio negócio, olhando para o que é necessário, o que faz falta. Não tentem ser advogados ou médicos se o seu país precisar de arquitectos ou enfermeiros. Ser feliz na vida não depende apenas do dinheiro, depende dos valores assumidos, da família, amigos. Se fores aberto aos outros, as oportunidades surgirão.

Qual tem sido a chave para o sucesso de Richard Attias & Associates e o que o fez tornar-se líder da organização?
A paixão pela excelência. A vontade de ser o melhor naquilo que fazemos. O compromisso completo com os nossos clientes e a obsessão pela criatividade e inovação. Graças a estes valores, os nossos clientes, que são muito exigentes, como Chefes de Estado, CEOs globais, são-nos muito leais. Esta é a melhor recompensa.

Qual é o seu foco para o futuro?
As economias emergentes: África, países do Médio Oriente e Europa Oriental. É onde podemos ajudar a criar empregos, atrair investidores, para sermos agentes da mudança. É nestes lugares onde podemos construir um legado. E o mais importante: é necessário enaltecer o continente onde nasci e cresci e os países que me apoiaram e confiaram ao longo dos anos.

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