Entrevista

Angola dá passos nas energias renováveis

Manuel Albano

Divulgar e promover a "energia para todos" foi o grande objectivo da participação de Angola na Expo Astana 2017, que encerra no dia 10 de Setembro. A comissária do pavilhão de Angola, Albina Assis, fez um balanço da participação no evento


Fotografia: Paulo Mulaza |Edições Novembro



Que balanço faz da participação de Angola na Expo Astana 2017?
O balanço é positivo, embora tivéssemos tido alguns constrangimentos verificados inicialmente devido a atrasos no acabamento do pavilhão nacional. Em parte por causa das verbas que só foram disponibilizadas uma semana depois do início da expo. Angola participou, pela primeira vez na sua história, numa expo internacional com um pavilhão individual, com um espaço de 400 metros quadrados. Pequeno, mas muito bem elaborado. Por isso, conseguimos cumprir com uma das metas da organização. Fomos ainda visitados pelo Bureau Internacional de Exposição (BIE), uma comissão que analisa os pavilhões e os classifica. Recebemos vários elogios, não apenas por parte da organização, mas também dos representantes de outros países que participaram na expo.

Como está estruturado o pavilhão de Angola?
Logo à entrada do pavilhão tem um quadro com a imagem do Presidente da República, José Eduardo dos Santos. Depois, painéis com informações sobre o país, como tem sido noutras edições. Há uma sala de “pré-show”, com uma demonstração da actual situação da energia em Angola e vários depoimentos de quadros seniores do Ministério da Energia e Águas e do Ambiente. Tudo no contexto das energias convencionais, renováveis e da preservação do ambiente. Existe uma outra sala denominada “grande show”, que é a principal atracção do pavilhão. Nela, os visitantes podem assistir ao documentário “Angola, energia - passado, presente e futuro”.
 
Quais são os pontos chaves deste documentário?
O documentário começa com a história de uma criança que vive num ambiente saudável, com água e energia eléctrica. A ideia é mostrar as diferenças entre gerações, já que antes os mais velhos estudavam e viveram, grande parte das suas vidas, praticamente, sem energia eléctrica. Procuramos, assim, de uma forma pedagógica, reeducar as crianças a racionalizarem os recursos energéticos à sua disposição. No decorrer do documentário, vemos a história de uma jovem que sonha ser engenheira e trabalhar no ramo da energia. Depois de anos de formação e já adulta e formada, ela dá o seu contributo para o desenvolvimento do país. Temos ainda depoimentos de engenheiros sobre os investimentos feitos nas barragens de Laúca, Cambambe e Capanda, assim como de técnicos sobre a energia eólica e solar, que já têm sido desenvolvidos com maior frequência no interior do país. Há imagens ainda da representante do Ambiente a explicar o que deve ser feito, para melhorar o aproveitamento dos recursos naturais à disposição da humanidade, por forma a reduzir a quantidade de energia poluente a favor das limpas. O documentário termina com várias crianças a mostrarem objectos figurativos, que simbolizam as mais variadas fontes energéticas no mundo.
 
Como é feita a escolha do espaço?
A organização indica os espaços e os expositores montam os seus pavilhões em função dos seus objectivos. Temos sim que ter astúcia e sermos audazes na escolha destes, porque, em termos de localização, pode ser determinante para atrair mais visitantes. Eles nos entregam os módulos e nós os concebemos. O pavilhão nacional está localizado num espaço defronte a uma estrada principal, o que dá uma certa visibilidade e maior facilidade de acesso.
 
Este espaço favorável inclui a proximidade com outros países africanos?
Quando nos fazem essa pergunta, dá a sensação de que não queremos ficar no mesmo local dos demais países africanos. Mas não é isso. Já temos uma tradição e uma marca, por isso optamos pela construção de pavilhões independentes ao longo das expos. Não ficamos no espaço África Plaza, indicado para os africanos, por ser um projecto financiado pela organização e, normalmente, são construídos para os países com baixos rendimentos ou recursos financeiros. África do Sul, Marrocos, Tunísia e Argélia optam sempre por pavilhões independentes. Não somos os únicos e só desta forma conseguimos mostrar melhor as potencialidades do país, particularmente se queremos passar uma imagem positiva de Angola. Portanto, é importante fazer um projecto diferente, capaz de atrair potenciais investidores estrangeiros.
 
O facto de não estarmos no espaço África Plaza não cria constrangimentos?
Acredito que não. Mesmo em pavilhões separados, os africanos têm um carinho especial entre eles. Alguns dizem que Angola dá força a África e não ficam zangados pelo facto de termos um pavilhão independente. Pelo contrário, procuramos sempre, dentro do contexto da africanidade, mostrar o que podemos fazer de melhor. Prova disso, foram os cincos prémios conquistados na Expo Milão na Itália, em 2015. Lembro que um desses prémios foi uma medalha de prata, atribuída depois da distinção da Alemanha. Não é fácil, um africano competir com países europeus e ser considerado um dos melhores.
 
Podemos repetir a proeza nesta edição?
Não estou muito convicta pelos vários aspectos que já mencionei. Embora tenhamos cumprido com um programa rigoroso, no respeito do tema central “O futuro da energia” e do nacional “Energia para todos”, cujo objectivo principal é conseguir reunir conteúdos compatíveis com o tema geral. Mesmo que as pessoas tenham saído do pavilhão nacional maravilhadas com as actividades recreativas e os espectáculos culturais, mostrarmos um país focado no progresso, ou o primeiro-ministro do Cazaquistão ter visitado o pavilhão e dito que ficou impressionado, ainda não tenho a certeza se conseguiremos repetir o feito.
 
Qual foi o principal objectivo de Angola nesta expo?
O pavilhão está estruturado com base em duas teses e mostra os últimos projectos e políticas sugeridas pelo Executivo, particularmente os ligados ao Plano Nacional de Energia. Portanto, neste plano de longo prazo, foi recomendada a utilização de energia ecologicamente limpa que reflicta os esforços de mitigação das mudanças climáticas e também as novas aspirações do sector, visando assegurar o acesso a soluções energéticas ecologicamente limpas e eficientes para todos. Seria também um método de superação da pobreza, assim como para incentivar a assistência no desenvolvimento de um modo de vida mais sustentável para as gerações futuras.
 
Os técnicos nacionais antes do início da expo participam em alguma formação?
Sim. Temos sido convidados a participar em vários fóruns. Nesta edição, como em todas as outras, assim o fizemos, porque é importante também colhermos as experiências positivas dos outros países mais desenvolvidos no domínio das energias renováveis.
 
O lema desta expo já é uma realidade a nível nacional?
Angola tem vindo a dar passos positivos e significativos no desenvolvimento das energias renováveis, embora ainda existam lacunas quanto a esse assunto. Mas temos tudo para melhorar, pois temos recursos para tal e condições de sermos um baluarte em África do sector. Somos um país novo e a crescer. Às vezes, é melhor dar um passo firme e seguro do que longos e inseguros. Claro que ainda existe muito a ser feito quanto à sensibilização da população, porque já houve locais em que o Governo através do Ministério da Energia e Águas colocou pequenas centrais solares e a população as danificou. Caso um dia conseguirmos, acredito que o uso de energia solar seria muito mais barato, em termos de custos financeiros, para todos, quer o Estado quer a população.
 
E quanto à questão da energia eólica?
Ainda precisamos desenvolver programas para a produção deste tipo de energia. Porém, tenho conhecimento de que já existem estudos a serem feitos e levantamentos para que o país comece a trabalhar também neste sentido, sobretudo, na região do Namibe, por ser uma zona desértica e onde faz muito vento.
 
Até que ponto a crise afectou a participação de Angola na expo?
A crise global, por ser uma situação vivida por outros países, afectou de certa forma a participação de todos, embora no caso do país, em particular, fomos obrigados a uma racionalização e maior criatividade no uso dos recursos financeiros e humanos disponíveis. As crises trazem, às vezes, algo benéfico. Este ano, por exemplo, não conseguimos fazer funcionar o restaurante. Tivemos que fazer muitas alterações, o que ajudou a reduzir o projecto quase pela metade do orçamento. Antes, tínhamos de custear as despesas mensais, incluindo os salários de quatro ou cinco cozinheiros, o que tornava o projecto mais caro. Prescindir desses serviços foi a medida mais certa, até porque os habitantes do Cazaquistão não gostam muito de experimentar pratos africanos, são muito fiéis aos seus. Convidámos apenas alguns russos para experimentarem as iguarias nacionais.
 
Qual era a principal curiosidade dos visitantes do pavilhão nacional?
Os visitantes procuravam, acima de tudo, conhecer a realidade do país. Montámos vários sistemas interactivos onde cada um poderia descobrir mais sobre a história do país, as suas potencialidades. Desta forma, a maioria deles conheceu mais sobre o Plano Nacional de Energia, através de um programa dirigido, fundamentalmente, às crianças. Sempre que preparamos um pavilhão, nunca esquecemos as crianças. Estamos sempre preocupados com a questão pedagógica. Os bazares também foram dos locais mais procurados pelos visitantes, porque era onde poderiam comprar uma lembrança. Entre as mais procuradas, constam as decorações com as palavras “Angola no coração” e figuras do manatim, um animal marinho.
 
Como foi o Dia de Angola na expo?
Neste dia, preparámos uma cerimónia especial. Geralmente, o Presidente da República é a figura de destaque, mas caso este esteja indisponível indica o seu representante. Na altura, devido à ausência no país do Chefe de Estado, o Vice-Presidente da República, Manuel Vicente, em coordenação com a Casa Civil da Presidência, nomeou o ministro da Economia, Abraão Gourgel, como o seu representante. Assim, tivemos a tradicional festa oficial, onde a cultura marcou presença nos espectáculos do grupo de dança tradicional Kilandukilo e nas músicas do Duo Canhoto e Nelo de Carvalho. No final do dia, recebemos a visita de vários comissários e delegações de outros países participantes, em particular de africanos. Tivemos igualmente a presença do embaixador de Angola na Rússia, António de Lemos, e a sua esposa, bem como o ministro da Educação e Comunicação do Cazaquistão.
 
Como foi a troca de experiências com os outros participantes?
Normalmente realizamos uma mesa-redonda. Nesta edição, falámos sobre “As oportunidades de negócios e investimentos em Angola”, que contou com a participação do ministro da Economia, Abraão Gourgel, e do secretário de Estado das Águas, Luís Filipe da Silva. O objectivo foi convencer os empresários a investirem mais no país. Durante a mesa-redonda, Abraão Gourgel falou sobre a diversificação da economia e as políticas utilizadas para se ultrapassar a crise no país, enquanto Luís Filipe da Silva destacou os programas de investimento ligados ao sector da Água. Participaram na mesa-redonda representantes da Malásia e Ucrânia. No final, algumas individualidades quenianas mostraram interesse em conhecer o país.

 

  “O que me compete é dar as indicações e mostrar as potenciais áreas de investimentos”

Quantas actividades vão ser realizadas até o final da expo?
Nesta fase, quase que já não temos actividades a realizar. Mas realizámos algumas reuniões, no sentido de começar já a desmontar as estruturas do pavilhão, já que, sempre, começa-se a preparar o encerramento da expo, um mês antes. Por isso, não haverá mais nenhuma actividade de relevo.
 
Quantas pessoas visitaram o pavilhão?
Segundo dados estatísticos, até ao dia 13 de Agosto deste ano, um total de 280 mil visitantes, de vários países tinham passado pelo pavilhão de Angola. Foram números que superaram as expectativas. Não esperava ver tantas pessoas. Foi uma surpresa. Acredito que o facto de termos tido um pavilhão bem organizado também contribuiu bastante.
 
Angola está em condições de, no futuro, realizar uma expo internacional?
Infelizmente, o país ainda não tem condições para albergar um projecto dessa envergadura, principalmente pelos gastos financeiros que acarreta. Quase todos os países que realizam expos têm ouvido reclamações dos seus populares que fazem, às vezes, manifestações por causa dos gastos financeiros.

A realização de uma expo só representa gastos para o país organizador?
Claro que não. Também tem a sua contrapartida financeira no fim de tudo. Sou a presidente da Comissão de Administração e Finanças do BIE e tenho conhecimento dos valores monetários que os países organizadores angariam com esses eventos, fundamentalmente devido ao turismo.

Pode apontar um exemplo deste ganho numa das expos em que participou?
Na Itália, por exemplo, foram mais de três milhões de euros arrecadados só no sector do Turismo, com base nos últimos dados obtidos no final da Expo Milão 2015, realizada sob o lema “Alimentar o Planeta, Energia para a Vida”.
 
A participação de Angola reflecte-se na vida quotidiana dos angolanos?
Sinto apenas o que me dão a conhecer. Por exemplo, alguns japoneses mostram-se interessados em conhecer o país, mas no aspecto económico ou o que representa em termos de entrada directa de investimentos já não me compete sentir. As pessoas é que têm de dizer se, depois da participação de Angola, o país recebeu um número maior de investidores. São estatísticas económicas que têm de ser feitas, para saber se estamos a desempenhar bem o nosso trabalho. O que me compete é dar as indicações e mostrar as potenciais áreas de investimentos do país.

Neste caso quem poderia fazer melhor este balanço avaliativo sobre todo o trabalho de Angola nas expos?
Há outras estruturas económicas nacionais que precisam fazer esse balanço para se saber se houve um aumento nos investimentos por parte dos empresários internacionais. Alguns países têm sabido explorar convenientemente os seus temas, como o pavilhão do Mónaco, ou da Turquia, sem falar do país organizador que na minha opinião superou todas as expectativas.

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