Entrevista

"Angola é exemplo de emancipação económica"

Gaspar Francisco* |

O antigo Presidente da Namíbia Sam Nujoma afirmou em entrevista exclusiva à Angop que a independência de Angola serviu e continua a ser uma vitória para o seu país e, também, para as nações da África Austral.

Ex-Presidente namibiano destaca os esforços feitos por Angola em prol da região e para desenvolver a sua economia
Fotografia: Tarciso Vilela | Angop

Sam Nujoma falou sobre a importância da batalha do Cuito Cuanavale para a queda do regime do apartheid e destacou os ganhos alcançados por Angola durante os 40 anos de Independência. O líder histórico da SWAPO considerou que o desenvolvimento em Angola é “visível, tangível e concreto”, principalmente no que se refere às infra-estruturas.

ANGOP (AP) - A República de Angola assinala a 11 de Novembro do ano o 40º aniversário da sua independência. O que representa para o senhor e para a Namíbia este acontecimento?

Sam Nujoma (SN) -
A Independência de Angola serviu e continua a ser uma vitória para o povo da Namíbia, em particular, e da África Austral em geral. Angola não só nos providenciou as bases de retaguarda para sermos capazes de lançar uma luta armada de libertação eficaz, como também deu apoio político, material e moral à nossa luta até a realização da liberdade e independência genuínas. Assim, como disse o Dr. Agostinho Neto, Angola manteve-se para nós como uma trincheira firme e a Independência de Angola serviu como a continuação da nossa luta armada de libertação. As nossas relações estão cimentadas no sangue e forjadas na luta. Além de continuar a ser uma retaguarda segura para nós, é também um verdadeiro exemplo de emancipação económica na região.

AP - Que avaliação faz do desenvolvimento de Angola ao longo destes anos de Independência?

SN -
Há desenvolvimento visível, tangível e concreto em Angola desde a independência, especialmente em termos de desenvolvimento de infra-estruturas, tais como estradas asfaltadas, portos, hospitais e escolas, bem como em outros bens e serviços sociais para as pessoas. A última vez que visitei Angola consegui observar os desenvolvimentos em termos de estradas que ligam Luanda às restantes províncias do país e, também, no domínio da construção de escolas. Estas são muito importantes para a formação da nova geração,   capaz de continuar com o desenvolvimento económico para o bem-estar da população, não só de Angola, mas incluindo da Namíbia e outros países vizinhos.

AP - Angola e a Namíbia foram subjugados, um pelo colonialismo português, e o outro pelo regime do apartheid. Na sua opinião, qual é a particularidade ou similitude entre um e outro povo?

SN -
As semelhanças entre as duas nações são de que somos  ambas nações africanas, que partilham uma história e destino comuns. Fomos ambos sujeitos à opressão do colonialismo e do regime de apartheid de minoria da África do Sul e do regime português de Caetano, respectivamente. Assim, os nossos povos não puderam participar no desenvolvimento económico dos seus países e decidir o seu próprio destino. Em Angola estiveram os portugueses que escravizaram o povo e recusaram a sua educação, o mesmo aconteceu na Namíbia. A minoria branca dominava a maioria negra. Por isso é que as populações tiveram que se levantar e lutar pelas independências. Em Angola tivemos o Dr. Agostinho Neto que liderou a luta de libertação, com o MPLA que ajudou a SWAPO a lutar pela independência da Namíbia, para derrubar o sistema do apartheid, que até então estava aqui implantado. Isso só foi possível depois da vitória na batalha do Cuito Cuanavale. Hoje ambas as nações e povos estão a participar nos esforços de desenvolvimento dos seus países e a traçar o próprio destino como nações independentes e soberanas.

AP - Falou sobre o Cuito Cuanavale. Que importância teve esta batalha para o virar da página na região Austral de África?

SN -
Naquela batalha, o maior inimigo, que era o sistema do apartheid, foi enfraquecido e isto levou a sua queda na África do Sul. Por isso, a batalha do Cuito Cuanavale foi a chave e um facto histórico para a região da África Austral.

AP - Teve o privilégio de privar com o primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, e com o Presidente José Eduardo dos Santos. Como caracteriza cada um deles?

SN -
O Presidente Agostinho Neto foi um líder visionário, perspicaz do nosso tempo, que trouxe a Independência para o povo de Angola. O Presidente José Eduardo dos Santos continua a construir a nova Angola, sobre fortes, inabaláveis e sólidas bases estabelecidas pelo falecido Presidente Neto. Gostaria de enfatizar que temos de continuar a implementar a visão deixada pelo Dr. Agostinho Neto, porque se não fosse a sua visão, não sei se a Namíbia estaria hoje Independente.

AP - Está a referir-se àquela célebre frase de Neto segundo a qual “Na Namíbia, no Zimbabwe e na África do Sul está a continuação da nossa luta”?

SN -
Sim. Recordo-me muito bem desta frase. Ele tinha uma grande visão que até hoje estamos a seguir em termos de desenvolvimento económico.

AP - Como conheceu o Presidente Agostinho Neto?

SN -
Conheci pessoalmente o Dr. Agostinho Neto no início dos anos 60, em Dar-es-Salam, República Unida da Tanzânia, antes da Independência da Zâmbia e de Angola. O Presidente Neto foi na verdade muito útil. Eu já me encontrava em Luanda em 26 de Março de 1976, a participar na Conferência da Organização de Solidariedade entre os Povos de África e Ásia, quando as últimas tropas sul-africanas recuaram para lá da fronteira da Namíbia. Comecei a organizar a transferência para Angola de algumas das nossas forças na Zâmbia. Em Maio de 1976, o Presidente Neto convidou-me a acompanhá-lo numa excursão ao sul e viajamos juntos para Menongue, Lubango e Namibe. Demo-nos bem com as pessoas locais e outras no Leste e Norte da Namíbia. Pude encontrar muitos recém-chegados da Namíbia e recrutá-los para o PLAN (braço armado da SWAPO). Em meados de Maio de 1976, os combatentes do PLAN encontravam-se em pleno vigor para garantir a manutenção de uma rota segura para os novos recrutas que entravam para Angola a partir da Namíbia. Até finais de 1976, o PLAN tinha estabelecido para a frente operacional bases que destacavam combatentes para atacar qualquer base militar sul-africana no interior da Namíbia, a partir do Oceano Atlântico, Faixa de Caprivi, ao longo da fronteira com a Zâmbia. Tivemos a nossa Frente Leste a cobrir a agora região do Zambeze; a frente Norte-Leste cobria a região do Kavango e as frentes Norte e Noroeste que cobrem as áreas do ex-Ovamboland e Kaokoland; com a sede do comando na Villa da Ponte. Assim, o Governo angolano, sob liderança dinâmica do Dr. Agostinho Neto, deu-nos a oportunidade de estabelecer a sede provisória do PLAN no Lubango, no sul de Angola, e mudar a sede provisória da SWAPO de Lusaka para Luanda.

AP - Que importância teve a Independência de Angola para o fim do apartheid e a libertação dos povos do Sudoeste Africano?

SN -
Politicamente, sempre tivemos o apoio do Governo angolano. Assim, Angola fornecia e serviu como base de retaguarda permanente para os nossos combatentes do PLAN. Como o Dr. Agostinho Neto dizia, Angola foi para nós uma trincheira firme, já que a Independência de Angola serviu como a continuação da nossa luta de libertação até que conseguimos a nossa liberdade e verdadeira independência, no dia 21 de Março de 1990.

AP - Qual foi o melhor e o pior momento da sua trajectória como líder da SWAPO, enquanto movimento libertador da Namíbia?

SN -
O pior momento que tenho como recordação foi o ataque bárbaro ao campo de trânsito de refugiados de Cassinga (na província da Huíla), quando muitas mulheres civis desarmadas e crianças inocentes foram friamente assassinadas pelo regime de minoria branca da África do Sul. O regime do apartheid realizou incursões militares no interior de Angola. No entanto, o bárbaro e covarde ataque à Cassinga só reforçou a nossa determinação em intensificar a luta armada de libertação como a única forma eficaz para desalojar o regime a partir da Namíbia e alcançar a nossa liberdade e independência autênticas. Alguns dos melhores momentos foram quando lançámos a nossa luta armada de libertação e o reconhecimento da SWAPO como o único e autêntico representante do povo da Namíbia. Mas o mais importante foi quando conseguimos a vitória final com a derrota do regime minoritário do apartheid da África do Sul, na batalha decisiva do Cuito Cuanavale, que levou à Independência da Namíbia, no dia 21 Março de 1990, e ao desmantelamento do apartheid na África do Sul, em Abril de 1994.

AP - Que Angola gostaria de ver no futuro?

SN -
Ficava mais feliz em ver um contínuo desenvolvimento económico de Angola que garanta não só o desenvolvimento dos países da SADC, mas também de todo o continente africano. Angola, como o resto dos países de África, deve estar em paz consigo mesma e com os países vizinhos, que trabalham para a unidade do continente africano e seu povo. Acredito que um povo unido, lutando para alcançar um bem comum para todos os membros da sociedade, sempre sairá vitorioso.

AP - Que mensagem deixa por ocasião dos 40 anos de Independência de Angola?

SN -
Gostaria de pedir aos povos namibiano e angolano para permanecerem unidos e trabalharem para o sucesso do desenvolvimento económico dos nossos cidadãos.

AP - Nota-se um vigor físico ainda considerável. Qual é o segredo para estar em forma?

SN -
Eu cresci na luta, fui um guerrilheiro e, como tal, não baixo a guarda. Continuo a fazer exercícios físicos, ler, trabalhando aqui e acolá, porque só trabalhando arduamente nós podemos vencer.

Perfil

Samuel Daniel Shafiishuna, mais conhecido como Sam Nujoma, nasceu a 12 de Maio de 1929 de uma família da tribo Gambero. Estudou numa escola protestante da Missão de São Barnabé, na capital da Namíbia, Windhoek. Em 1958, fundou a SWAPO, juntamente com Herman Toivo Jatoivo. Em 1959 foi preso e exilou-se no ano seguinte. Em Junho de 1960 torna-se membro do Comité da ONU para os Assuntos do Sudoeste de África. No ano seguinte abre uma representação da SWAPO na capital tanzaniana, Dar es Salaam. Anos mais tarde, volta à capital da Namíbia onde é detido e expulso do país, em Março de 1966. Em Agosto, volta a intensificar a luta armada, após a rejeição do parecer do Tribunal Internacional de Justiça da África do Sul de se opor à administração sul-africana do território.
Namíbia tornou-se então uma responsabilidade directa das Nações Unidas. Sam Nujoma interveio no Conselho de Segurança da ONU em Outubro de 1971 para defender os interesses namibianos. Embora tenha iniciado negociações com o Governo de Pretória em 1980, lança ao mesmo tempo uma forte ofensiva de guerrilha a partir de bases em Angola e na Zâmbia. No ano seguinte, participa na Conferência de Genebra que decide o futuro da Namíbia. O braço armado da SWAPO intensifica as acções armadas, alternando com períodos de negociação, até que é alcançado o acordo de paz, em 13 de Dezembro de 1988. Em 1990, a Namíbia torna-se independente e Sam Nujoma é eleito Presidente da República. Em 1994 realizam-se eleições parlamentares e presidenciais e é confirmada a sua popularidade, tendo sido reeleito para um segundo mandato.

* Jornalista da Angop

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