Entrevista

''Angola é motor do progresso na região e no Mundo'

Paulino Neto | Angop

O Presidente da República de São Tomé e Príncipe, Manuel Pinto da Costa, considera que, apesar de Angola ter um percurso duro e difícil, existem razões para celebrar com orgulho os resultados alcançados nos 40 anos de independência .

''Angola vai se assumir cada vez mais como um motor de desenvolvimento na região e mesmo no plano das relações internacionais''
Fotografia: Rogério Tuti

Angop Senhor Presidente, que retrospectiva faz da luta de libertação de Angola e de outros países africanos, principalmente os colonizados por Portugal?

Manuel Pinto da Costa –  O povo angolano sabe hoje, melhor do que ninguém, o que ganhou com a passagem de um regime colonial para um Estado soberano e livre. Essa luta de libertação valeu a pena, valeu também por durante o processo da libertação termos feito a distinção entre o povo português e os nossos povos. Não lutávamos contra o povo português, porque era nosso aliado, aliado na luta anti-fascista, em Portugal, e aliado na luta anti-colonial, nos nossos países. E hoje verificamos que a relação entre nós e Portugal é fraterna. É uma relação boa.

Angop – Como foi esse percurso?


MPC – Foi um percurso bastante positivo, apesar das circunstâncias extraordinariamente difíceis que os angolanos tiveram de enfrentar no pós-independência, sobretudo devido à guerra. Gostaria de destacar a tenacidade do povo angolano, que lhe permitiu alcançar a paz, que é uma condição indispensável para o progresso e o desenvolvimento em qualquer parte do mundo.

Angop – Que avaliação faz do percurso de Angola ao longo dos 40 anos de independência?


MPC
– Durante 40 anos Angola teve percurso difícil, teve uma guerra civil e teve que consentir sacrifícios enormes. Mas, ao mesmo tempo, esse sacrifício novamente valeu a pena, não somente para permitir os angolanos serem hoje livres. Angola, apesar de ter tido uma guerra fratricida, hoje os angolanos entendem-se. Há vários partidos políticos que, pacificamente, vão discutindo, exercendo o seu papel para fazer Angola crescer. Durante 40 anos, não poderia deixar de sublinhar o papel histórico, decisivo, que teve para o fim do apartheid e o que isso representou para a libertação de África e o seu processo de desenvolvimento. Este é um legado que Angola e os angolanos dão para a grande importância na História moderna de África e do Mundo.

Angop – Como classifica a actual afirmação de Angola no plano internacional?

MPC –  No plano internacional, a afirmação de Angola é cada vez maior. Pela segunda vez o país é membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU e faz parte das duas organizações sub-regionais: a CEEAC (Comunidade Económica dos Estados da África Central) e da SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral). Faz também parte da Comissão Internacional dos Grandes Lagos e da Comissão do Golfo da Guiné. A presença nas duas sub-regiões e na Comissão do Golfo da Guiné confere a Angola um papel político muito importante na estabilidade e segurança de uma região, cuja importância no continente é por demais evidente. Nessas organizações, Angola pode exercer uma influência positiva, quer a favor dos angolanos, quer a favor dos países africanos. Angola, a nível dos Grandes Lagos, também tem ajudado a jogar um papel muito importante para o relacionamento pacífico entre os países dessa região. Angola tem jogado um papel muito importante, quer a nível africano, quer a nível internacional, para que haja paz e harmonia no relacionamento entre os nossos povos.

Angop – Treze anos depois da assinatura do acordo de paz, como avalia o desenvolvimento político, económico e social de Angola?

MPC – Quem visitou ou esteve em Angola nesses 13 anos – creio que estive lá duas ou três vezes – fica com a impressão de que se está num país totalmente diferente. É visível o progresso que Angola tem conhecido nos últimos anos de paz. A nível da agricultura, Angola era um país com uma importância muito grande, mas durante a guerra civil ficou praticamente quase esquecida. Eu estive, uma vez, com um embaixador dos Estados Unidos que me disse que Angola,  é um país que pode vir a ser um celeiro, não somente em África, mas também a nível de alguns países europeus  por ter potencialidades muito grandes e nestes últimos tempos tem verificado um avanço muito grande a nível da agricultura. Actualmente, embora o preço internacional do petróleo não esteja assim tão favorável, Angola tem outros recursos que podem compensar o desequilíbrio que o preço pode causar à economia angolana.

Angop – Angola em paz. Que futuro almeja para este país?


MPC – O futuro será sempre o que os angolanos quiserem, porque está nas suas mãos. Para o futuro de Angola desejo paz, felicidade e progresso. Desejo que o povo angolano possa beneficiar do esforço que fez para se libertar do colonialismo e do que está a fazer para realmente  construir a economia de Angola, de modo que os angolanos possam ter uma vida mais feliz.

Angop – Há a convicção de uma vida feliz?

MPC –  Estou firmemente convicto que Angola vai continuar no caminho do progresso económico e social que tem vindo a trilhar nos últimos anos. Com o espírito de generosidade e solidariedade do seu povo, estou certo de que Angola se assumirá, cada vez mais, como um motor de desenvolvimento na região e mesmo no plano das relações económicas internacionais.

Angop – Por ocasião do 40.º aniversário da independência de Angola, que mensagem endereça ao povo angolano?

MPC – Para o povo angolano, gostaria de endereçar uma mensagem de paz, amizade e solidariedade, em meu nome pessoal e do povo são-tomense. O percurso foi duro e difícil, mas existem razões para celebrar com orgulho os resultados alcançados nos 40 anos de independência. A conquista da liberdade e da paz é um bem inestimável e estou certo de que Angola prosseguirá o seu percurso de desenvolvimento com passos seguros  rumo a um futuro melhor para todos os seus filhos. Gostaria de aproveitar esta ocasião para sublinhar a excelência das relações bilaterais e fazer votos que as relações entre Angola e São Tomé e Príncipe continuem como até aqui e a serem aprofundadas.

Um grande político africano

Manuel Pinto da Costa, actual Presidente da República de São Tomé e Príncipe, é natural de São Tomé, onde nasceu a 5 de Agosto de 1939.
É Doutorado em Economia, na mais antiga universidade de Berlim, a Universidade de Humboldt. Em 1961, como estudante, foi eleito, em Rabat (Marrocos), secretário para a informação e propaganda da UGEAN (União Geral dos Estudantes da África Negra).
Assumiu a liderança do MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe) desde 1972, data da sua criação em Santa Isabel, na altura a capital da Guiné Equatorial, até à independência do seu país, em 1975.
Manuel Pinto da Costa desempenhou o cargo de Presidente da República de 1975 a 1991, ano em que se realizaram as primeiras eleições multipartidárias. Em 2011 concorreu às eleições  presidenciais são-tomenses como independente e venceu o pleito.
Nos tempos livres, quando há possibilidades, gosta de fazer caminhadas e praticar desporto. Sabe cozinhar calulu e já ousou preparar funje. A sua comida preferida é mesmo funje com peixe.
Dificilmente vai ao cinema, porque a televisão  em São Tomé e Príncipe, como em muitas partes do mundo, acabou com os cinemas.
Manuel Pinto da Costa gosta de ler. Os dois últimos livros que leu foram de Óscar Monteiro e Sérgio Vieira.

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