Entrevista

Angola pode impulsionar reforma das Nações Unidas

Josina de Carvalho |

A antiga representante especial do Secretário-Geral das Nações Unidas em Angola, Margareth Anstee, que participou no colóquio sobre “A dimensão cultural do Presidente José Eduardo dos Santos”, afirmou que as eleições de 1992 foram importantes para Angola, apesar dos resultados trágicos.

Anstee impressionada com a reconstrução
Fotografia: Mota Ambrósio

Vinte e dois anos após o seu retorno ao país, Anstee ficou impressionada com a reconstrução do país e enalteceu o papel de Angola na resolução dos conflitos em África e como candidata a membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. No seu ponto de vista, Angola pode impulsionar a reforma deste órgão e tem a possibilidade de ter um desenvolvimento integrado, assim como um Índice de Desenvolvimento Humano melhor. 
                                                    
Jornal de Angola (JA) - Com que impressão ficou ao regressar a Angola, após mais de duas décadas?

Margareth Anstee (MA) - Quando cá estive, entre Março de 1992 e Julho de 1993, encontrei um país completamente destruído. Tinha de estar em 69 lugares em todo o país, mas para lá chegar tive de usar o meu próprio avião. Não havia estradas, nem pontes. Nada funcionava. Agora vejo na televisão que há estradas novas em todo o lugar. Luanda tinha um milhão de habitantes e agora tem aproximadamente cinco milhões. Angola é hoje um país próspero e realmente isso é muito positivo. Naturalmente ainda há problemas como a pobreza e o desemprego. Queria ir também ao interior, ver como está, porque conheci quase todas as províncias, há 22 anos, mas não vai ser possível.

JA - Que outros progressos registou?

MA - O país tem progredido muito e a nível internacional está a jogar um papel muito importante em África. Antes quando se falava de Angola, referia-se sempre aos conflitos e desastres, mas agora tem tido também um papel muito importante nas Nações Unidas. Já foi uma vez membro não permanente do Conselho de Segurança e novamente tem essa possibilidade. Acredito que terá sucesso na sua candidatura.

JA - Que contribuição Angola pode dar como membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU?

MA - Pode fazer uma reforma no Conselho de Segurança, criado em 1955. É muito difícil. Houve várias tentativas, mas nunca se chegou a um acordo. Para Angola conseguir isso, teria de haver um acordo geral com todos os continentes, principalmente com os cinco países permanentes. Não é fácil, porque em todos os continentes há países muito importantes e cada um quer ter o seu lugar. Em 2005, mais ou menos, quase houve um acordo, mas os países africanos insistiram em ter o veto e ninguém quis. Deve-se eliminar o veto para todos, porque é um obstáculo para se chegar a acordos.

JA - Então, é impossível haver uma reforma? 

MA - Chego a conclusão que é impossível pensar numa reforma geral. É necessário concentrar-se em alguns pontos específicos importantes que podem ter um efeito multiplicador. Pode-se mudar a maneira de selecionar o Secretário-Geral e os directores gerais dos organismos especializados. As grandes potências não querem ter um Secretário-Geral forte. É um posto quase impossível. Deve haver primeiro um processo de selecção e uma lista de possíveis candidatos de todas as partes do mundo, com as qualificações necessárias, para que todos possam ter a mesma oportunidade de serem eleitos pelo Conselho de Segurança e a Assembleia Geral. Em segundo lugar, o Secretário-Geral deve ter apenas um mandato de sete anos, ao invés de cinco. Assim, a pessoa que ocupa o cargo pode fazer história pelo seu trabalho durante o período e não pelo número de vezes eleito. É uma forma de o Secretário-Geral ser mais independente.   

JA – Além de impulsionar a reforma, que outros contributos podem ser dados?

MA - Em Nova Iorque e no Conselho de Segurança dá-se muito valor à personalidade que representa o país e nem sempre o próprio país. Acho que Angola está muito bem representada. O Conselho tem muitos problemas por resolver como os do Médio Oriente e do Sudão do Sul. Mas muitas vezes a contribuição de uma voz de um outro continente pode ser muito importante. Quando cá estive, em 1992, o Conselho de Segurança enviou membros para negociar com Savimbi. O chefe desta missão foi o representante de Cabo Verde, um país pequeno. Ele já estava há muito tempo nas Nações Unidas, todo mundo o conhecia e respeitava. Infelizmente as negociações não deram certo, mas a sua contribuição foi muito importante. Tenho muita esperança de que Angola vai dar importantes contributos. 

JA - De que forma Angola pode apresentar as suas experiências nas Nações Unidas? 

MA - Durante os dois anos como membro não permanente - caso consiga este posto -, pelo menos uma vez por mês ou talvez duas, Angola vai ocupar a presidência do Conselho e ter um dia de sessões informais, cujo tema em abordagem será à sua escolha. Em Outubro de 2000, a Namíbia escolheu como tema “A mulher como mediadora de processos de paz e vítima de guerra”. Dessa abordagem saiu uma resolução muito importante, que também teve problemas para a sua implementação, tal como as outras. Estou muito contente em ver o progresso da mulher angolana, porque na altura das negociações de paz eu era a única mulher envolvida neste processo. Agora têm oito ministras. Hoje há muita mulher em diversas áreas, principalmente na área de negócios. É fantástico para o país, porque as mulheres têm muito talento.

JA - Que avaliação faz do seu trabalho enquanto representante da ONU em Angola?

MA - O problema básico foi que Angola já não tinha tanta importância para a comunidade internacional. Durante a Guerra Fria, foi muito importante porque os EUA, juntamente com a África do Sul, estavam a apoiar a UNITA. E a União Soviética estava a apoiar o MPLA, com Cuba. Depois da queda do Muro de Berlim eles não queriam mais nada com Angola. A instrução que tive do Secretário-Geral da ONU é que o Conselho de Segurança teria uma missão pequena e manejável. À primeira impressão, percebi que Angola não era pequena e que o conflito não era tão manejável. Tive somente 350 militares e 130 polícias da ONU não armados para um país tão grande como a França, Alemanha e Espanha, onde estavam envolvidos no conflito, em ambos os lados, quase 200 mil soldados. Era uma coisa impossível. Os representantes das Nações Unidas não integravam a Comissão Conjunta Político-Militar (CCPM), nem como membro observador como os EUA, a União Soviética e Portugal. Eram convidados, mas quando começou a guerra queriam que fossem mediadores do conflito. Hoje, não aceitaria uma missão como aquela, sem um contingente maior. Vivi momentos muito difíceis na minha vida. Senti que a minha missão tinha fracassado.

JA - Por que razão aceitou a missão?

MA - Uma das razões foi o facto de ter sido a primeira mulher em muitos postos na ONU. Fui a primeira representante chefe de missão, primeira subsecretária-geral, primeira secretária-geral adjunta. Nenhuma mulher até aquela altura tinha encabeçado uma missão militar de paz. Acho que as mulheres também têm que correr riscos. E o risco não era somente físico, mas o de fracassar também. Muitas pessoas aqui me disseram que não foi um fracasso. Para mim foi, porque ao invés de consolidar a paz, a guerra voltou.

JA - Qual era a opinião do MPLA?

MA - O ministro das Relações Exteriores, Georges Chikoti, disse-me agora que a minha declaração de que as eleições foram livres e justas foi muito importante. Antes dessa declaração fiz muitas pesquisas, porque houve acusações de fraude da parte da UNITA. Mas os EUA, a União Africana e a Comissão Europeia, que também tiveram os seus observadores, concordaram com a declaração.

JA - Valeu a pena ter havido eleições em 1992?

MA - Foram importantes para a história de Angola, apesar dos resultados trágicos. Nunca me esquecerei daqueles dois dias. No primeiro, não sabíamos o que iria acontecer. Tivemos que ficar no acampamento. Mas no segundo dia fui ao Sumbe, no Cuanza Sul, para observar o processo de votação. Vi tanta gente rural acordada toda a noite, porque o processo para votar pela paz estava lento. Mas depois receberam novamente a guerra. Não estou arrependida. Decidi deixar a missão, porque não tinha nada nas mãos para persuadir as duas partes em conflito. 

JA - Como especialista da ONU em questões de desenvolvimento, como perspectiva o futuro de Angola?

MA - O país tem grande vantagem de ser rico em petróleo e outros minerais e em agricultura. Daí o desinteresse naquela altura da comunidade internacional relativa aos pedidos de Angola para ter uma reunião de doadores. Para mim, o desenvolvimento é muito mais do que isso, é saber utilizar os recursos. Como já não tinha intervenção oficial, eu escrevia em jornais importantes da Inglaterra dizendo que Angola tem muito dinheiro, mas que, após o alcance da paz, necessitam mais do que nunca de assistência técnica.

JA - Acredita no desenvolvimento de Angola?

MA - Angola tem todas as possibilidades de ter um desenvolvimento integrado. Mas fico triste com o Índice de Desenvolvimento Humano, sobretudo com os factores sociais ligados à Saúde e à Educação. É triste ver que Angola está no fim de uma lista de mais de 160 países. Não deve ser assim. O ministro Georges Chikoti disse que estão a ser desenvolvidos vários programas para melhorar os indicadores. Se essas situações não melhorarem pode haver outros conflitos. Mas este não é só um problema de Angola. No meu país também há diferença entre ricos e pobres. A questão da desigualdade social é problema mundial. Existe entre os países e dentro de cada país, rico ou pobre.

JA - Como África pode alcançar o desenvolvimento?

MA - Muitos países desenvolvem-se bem e outros não. O Gana, por exemplo, é um país estável. Há muitos conflitos em África e todos esses conflitos comprometem o desenvolvimento dos Estados e dos povos. A ideia de que África é um continente sem muita esperança, tem mudado, porque há muitos indicadores de progresso. Países como EUA, China e a Inglaterra estão agora mais interessados em investir em África. Há possibilidades de um futuro muito próspero e brilhante para o continente. Para isso acontecer, é muito importante que se reduzam os conflitos. É um desperdício de recursos. Agora surgiu a ébola. Os Estados devem ver este problema, não só como uma tragédia humana, mas também económica, sobretudo para as companhias aéreas que não vão puder voar em muitos países. Actualmente o mundo tem muitos problemas. Mas também há muita esperança para África em geral, e Angola em particular.

JA - O que mais a marcou durante os mais de 40 anos a trabalhar para a ONU?

MA - Tenho lembranças muito simpáticas de muitos países em que trabalhei. Mas foi muito marcante a minha missão no Chile, quando aconteceu o Golpe de Estado, encabeçado por Augusto Pinochet. Depois foi a missão em Angola. Sabia que a missão era de vida ou morte, mas vivi tão intensamente o processo de paz. Criei uma relação muito especial com o povo angolano. São muito afectivos. Fui muito acarinhada por muitas pessoas no hotel, na rua e no colóquio, inclusive pelos jovens. Gostei de ver tanta juventude, que quase me sufocou com as fotos e autógrafos. Essas coisas me marcaram muito e vou lembrar para sempre. Lamentavelmente pela idade e pela saúde acho que provavelmente não voltarei à Angola. Fica muito longe. Agradeço o Executivo angolano pelo convite e pela recepção.

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