Entrevista

Angola tem condições de erradicar a pólio

Manuela Gomes|

A Organização Mundial da Saúde (OMS), determinou a erradicação da poliomielite na segunda metade do século XX. A doença foi erradicada em várias partes do mundo como nas Américas (1994), na região Ocidental do Pacífico (2000) e na Europa (2002).

Rui Gama realçou o empenho das autoridades angolanas na luta contra a enfernidade
Fotografia: Adérito Cortez

A Organização Mundial da Saúde (OMS), determinou a erradicação da poliomielite na segunda metade do século XX. A doença foi erradicada em várias partes do mundo como nas Américas (1994), na região Ocidental do Pacífico (2000) e na Europa (2002). Entretanto, persistiram focos na África e no Sudeste Asiático. No início de 2005, o número de casos notificados tinha diminuído em 99 por cento e somente seis países mantinham casos endémicos de poliomielite pelo vírus selvagem: Nigéria e Índia, com o maior número de casos, seguidos por Paquistão, Níger, Afeganistão e Egipto. Entrevistado pelo Jornal de Angola, o representante da OMS, Rui Gama Vaz, considera o combate à poliomielite como um desafio comum, onde todos devem participar de forma positiva.

Jornal de Angola (JA) - Embora se reconheçam os grandes esforços de Angola com vista à erradicação da poliomielite, a batalha parece estar ainda longe de ser ganha, quando se sabe que no país há uma vasta mistura de cidadãos de várias nacionalidades. Até que ponto esta situação tem influência no combate à doença?

Rui Gama Vaz (RGV) - Isto não quer dizer que não é possível erradicar o vírus da pólio. Actualmente, existem poucos países endémicos. Os mais endémicos são a Nigéria, Afeganistão, Paquistão e a Índia. Além destes, há um número de casos muito reduzido a nível do mundial.

JA - Como avalia a participação da sociedade angolana no combate à poliomielite?

RGV
- O combate à poliomielite é um desafio comum e todos devem participar de forma positiva. Sendo um desafio para o desenvolvimento do país, o combate não é apenas da responsabilidade do Ministério da Saúde. Daí que todas as estruturas a nível governamental e não-governamental devem apoiar as campanhas e não ver o problema da pólio como um mero problema de saúde.
A Organização Mundial da Saúde tem melhorado a parceria pública e privada para que todos participem dessas campanhas.

JA - A poliomielite está apenas confinada nos países em vias de desenvolvimento?

RGV-
A pólio pode afectar qualquer país do mundo e só através do melhoramento do saneamento ambiental e da situação da vacina universal será controlada.
A pólio não conhece fronteiras e cada um de nós pode contrair a doença, mas estamos a escassos momentos ou milímetros de chegarmos à meta final, que é interromper a pólio de uma vez por todas.

JA - Quando foi que o mundo começou a debater-se com esta situação da pólio?

RGV - A nível mundial, a decisão de erradicar a poliomielite foi tomada pela Assembleia Mundial de Saúde, reunida em Genebra, em 13 de Maio de 1988. Levando-se em consideração os avanços já apresentados pelos Programas Ampliados de Imunização, hoje tem-se uma visão mais realista das metas desses programas quanto ao impacto, não só sobre a poliomielite, mas sobre outras doenças, como a difteria, tétano, coqueluche, tuberculose e sarampo. Quando se lançou pela primeira vez a vacina contra a pólio, quer crianças, quer adultos eram vulneráveis à doença. Com o surgimento da vacina, os países começaram a vacinar as suas crianças.

JA - Não admite a possibilidade de o vírus da pólio estar a criar uma certa resistência à vacina usada para o combate à doença?

RGV - De forma alguma. Não existe resistência à vacina no âmbito biológico, tal como existe com os anti maláricos, retro virais e aos turberculoestáticos. O que é necessário é o combate cerrado à doença a nível mundial.

JA - Que tipo de vacina tem sido administrada às crianças angolanas?

RGV
- Na rotina existem vários tipos de vacina. Normalmente, o calendário de vacinação precisa de seis tipos de vacinas e mais dois suplementos do tipo contra a tuberculose. Ao nascer e depois aos três, quatro ou cinco meses tem uma combinação de vacinas que protege contra a pólio, tétano, tosse convulsa, hepatite, febre-amarela e o sarampo.

JA - Como se explica a ocorrência de casos da doença em adultos?

RGV - Quando estamos a vacinar as crianças de maneira rigorosa, automaticamente os adultos ficam também protegidos. Como se sabe, na província de Cabinda houve recentemente dois casos de pólio em adultos. Isto deu-se porque naquela região não havia campanha de vacinação desde o ano de 2000, o que originou a perda da imunidade.
Infelizmente, a pólio em adultos é muito mais grave do que em crianças, daí a realização de várias campanhas de vacinação dirigidas às crianças, para que os adultos
também fiquem protegidos. Por isso, dizemos que a pólio não tem fronteira.

JA - Fica-se com a impressão de que as pessoas que ficaram paralíticas por causa da poliomielite estão marginalizadas por não haver, se calhar, um programa destinado ao seu acompanhamento médico. Gostaria que comentasse.

RGV - O risco da paralisia associada à vacina é extremamente baixo.  A possibilidade mínima é entre dois ou quatro casos por cada milhão de crianças vacinadas. Temos uma responsabilidade para com as crianças que, por causa da pólio, ficam paralisadas. Estamos a trabalhar com o Ministério da Assistência e Reinserção Social e outros parceiros para termos segurança de que as crianças que ainda estão padecendo desta doença sejam reabilitadas.
A pólio é uma doença irreversível. Se uma criança estiver afectada, com uma reabilitação rápida e consistente pode ser recuperarada. Não totalmente, mas diminui os malefícios da doença.
Estamos a trabalhar com as autoridades para ver em cada caso como podemos fazer uma reabilitação pacífica, no contexto das limitações do país. Estamos certos que o país não tem muita capacidade de fisioterapia.
A vacina contra a pólio a nível do governo é gratuita. Existe o conhecimento de como fazer as coisas, então não há razões para que as crianças em Angola continuem a ficar paralisadas por causa da pólio. Isso leva a uma diminuição da capacidade a nível dos agregados familiares.

JA- Qual a importância das campanhas sincronizadas?

RGV – Primeiro, é importante realçar que a vacinação de rotina significa assegurar que todas as crianças cumpram o calendário de vacinação. Também é preciso ter um bom sistema de situação epidemiológica para a detenção, o mais precoce possível, de todos os casos.
Num período máximo de quatro semanas, tem que haver uma campanha de vacinação o mais abrangente possível, para interromper a circulação do vírus. As campanhas servem para aumentar a cobertura de vacinação num curto período de tempo e reduzir o número de crianças susceptíveis à infecção.
O saneamento e abastecimento de agua potável são componentes extremamente importantes, porque a pólio é uma doença transmissível e de contaminação fecal e oral. Daí a importância do saneamento, da informação e educação da população. Ela deve saber o que é a pólio, como se transmite e as vantagens de vacinação das crianças.

JA - Qual é o país que mais preocupa a Organização Mundial da Saúde, não só pela ineficácia dos seus programas de luta contra a doença como também pelas dificuldades em arrecadar recursos internos para o combate à poliomielite?

RGV -
Dizer que, especificamente, um país é mais preocupante que outro em termos de estratégia, é um pouco delicado. Partimos do princípio que um caso representa perigo para uma determinada região e também a nível global.
Há países, neste momento, como a República Democrática do Congo que teve um surto epidémico com 43 casos até ao dia 22 de Abril. O Chade, com cerca de 25 casos, e outros como o Afeganistão e a Índia, com a sua especificidade a nível da população, são aqueles onde o vírus continua a circular há bastante tempo.
No caso de Angola, não é por apenas termos registado casos na província do Kuando-Kubango que a nossa preocupação vai se centrar naquele lugar. A preocupação é a nível nacional e a nível transfronteiriço.

JA - É possível erradicar a pólio num país como Angola?

RGV - É. As campanhas de vacinação são um mecanismo efectivo para acabar com a doença e já foram testadas no mundo inteiro. Elas existem há cinquenta anos e começaram em países da Europa Oriental e em Cuba. A doença ainda existe nos cinco continentes, em 125 países. A doença só é endémica em quatro deles. Os outros 13, como Angola, importam o vírus e o disseminam internamente, porque as crianças não estão protegidas pela vacina.
Com o esforço de todos, seguindo as normas já adoptadas em outros países, Angola tem condições de vacinar todas as crianças menores de 5 anos e de erradicar a pólio.

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