Entrevista

Angola tem condições para continuar a crescer

João Dias| Nova Iorque

Na semana passada começou a 70.ª Assembleia Geral das Nações Unidas que deve durar até aos primeiros dias de Outubro. A assembleia estabelece os programas de trabalho para os próximos 15 anos, que incide este ano sobre o desenvolvimento sustentável pós-2015 e durante o qual é adoptado o documento com 17 objectivos de desenvolvimento sustentável.

Fotografia: Mota Ambrósio

O embaixador de Angola junto das Nações Unidas faz, em entrevista ao Jornal de Angola, uma panorâmica das grandes questões a serem debatidas durante as sessões da Assembleia Geral. Ismael Martins acredita que Angola tem condições para continuar a crescer, mas defende que é preciso que o país baseie o desenvolvimento numa agenda própria que esteja sincronizada com a agenda internacional, que pretende uma economia mais transformadora para o progresso e bem-estar das nações.

Jornal de Angola - A Assembleia Geral das Nações Unidas celebra este ano 70 anos de existência. O que se espera desta sessão?

Ismael Martins - Vai ser uma sessão muito especial, porque 70 anos na vida de uma organização é sempre algo de grande valor. É um momento bom para balancear o que foi e está a ser feito para que a organização responda de modo eficaz aos próximos desafios.

Jornal de Angola - As questões sobre o clima também vão estar presentes nos debates?


Ismael Martins - Na verdade, a cimeira do clima vai ser realizada apenas em Dezembro próximo, em Paris, mas a decisão política relativamente a este grande desafio deve ser discutida na Assembleia Geral. Existe, actualmente, a necessidade de se reduzir a camada de ozono ou de carbono. Assim, decidir sobre este tema e decidir sobre a necessidade de equilibrarmos a forma de viver no planeta é uma decisão que é importante tomar neste ano em que as Nações Unidas completam 70 anos de existência.

Jornal de Angola - Para já, o que vai ser decidido em concreto no evento que junta todos os membros da organização internacional?

Ismael Martins -
O que vai acontecer em Nova Iorque é uma decisão política sobre a questão relacionada com a sustentabilidade. Vai ser adoptada uma resolução pela Assembleia Geral, na presença dos 193 Chefes de Estado e de Governo.

Jornal de Angola - No total, quantos Chefes de Estado vão estar presentes nos debates da Assembleia Geral?

Ismael Martins -
Estamos a prever que compareçam no evento mais de 150 Chefes de Estado e de Governo. Outra decisão tem a ver com a questão do desenvolvimento sustentável. Tivemos até agora as metas do milénio que deviam ser cumpridas até 2015.

Jornal de Angola - Não tendo sido alcançadas as metas desejadas, o que vai acontecer doravante?


Ismael Martins -
Vai ser necessário deliberar agora sobre um processo negocial, que envolve uma das decisões tomadas e que tem a ver com o financiamento do desenvolvimento sustentável, que vai permitir que haja solidariedade no desenvolvimento entre as nações ricas e as nações pobres. Este compromisso dos Estados em partilhar recursos financeiros, mineiros e naturais, que o mundo tem, vai também merecer uma abordagem séria durante a reunião dos Chefes de Estado e de Governo para os anos pós-2015.

Jornal de Angola - Acha que a solução passa pela construção de uma agenda comum que vincule os Estados membros?

Ismael Martins
- Chegamos à conclusão de que houve países que não conseguiram atingir os 15 objectivos. Foram definidas agora 17 metas, na base das quais vai ser constituída uma agenda comum para o mundo. A partir do balanço dos Objectivos do Milénio vamos extrair as lições necessárias sobre aquilo que é necessário fazer. Um dos grandes problemas é a insuficiência de recursos financeiros. Em Adis Abeba, em Junho, foi discutida a questão do financiamento ao desenvolvimento, pelo menos em termos de comprometimento. Mas o fundamental agora é passar à implementação dos programas através da efectivação de alguns compromissos assumidos pelos países ricos.

Jornal de Angola - As sessões da Assembleia Geral deste ano prometem mudanças importantes?

Ismael Martins -
Julgo que vai ser uma reunião importante, não só para países como o nosso, mas também para as Nações ricas e mais pobres. Todos os Estados vão encontrar aqui uma resposta aos desafios.

Jornal de Angola - Este ano, e pela primeira vez, o Papa discursa na Assembleia Geral das Nações Unidas. O que espera?

Ismael Martins - O Papa veio para falar da necessidade de o mundo se organizar para que sejam resolvidos os conflitos que ainda assolam a humanidade. A mensagem não vai apenas ser de um líder religioso, mas da humanidade. O  mundo precisa que os recursos deixem de ser desperdiçados para sustentar conflitos militares. O que o Papa vem  dizer-nos é que seja aprofundado o diálogo entre os homens, para que sejam solucionadas as crises mundiais.

Jornal de Angola - O que significa para si a normalização das relações entre Cuba os Estados Unidos?

Ismael Martins
- É um exemplo perfeito que nos vem de Cuba. A forma como foi possível resolver uma crise que dura mais de 50 anos. O Papa esteve nos Estados Unidos proveniente de Cuba, justamente para ser portador da mensagem que espelha o exemplo concreto do que é possível fazer e avançar para o bem quando existe diálogo.

Jornal de Angola - A União Africana e outras organizações regionais defendem reformas no Conselho de Segurança. O que tem a dizer sobre esta questão?


Ismael Martins - O problema da redefinição da arquitectura representativa das Nações Unidas é algo que vem-se debatendo há vários anos. A União Africana tem uma posição, a chamada posição africana. O Conselho de Segurança tem cinco membros permanentes e dez não permanentes, dentre os quais três africanos. África põe como necessidade imperiosa - e eu digo tanto quanto urgente - a necessidade de esta reforma permitir que o continente esteja representado neste órgão pelo menos com dois membros permanentes. Através de uma presença permanente é possível fazer prevalecer as posições do continente.

Jornal de Angola - Acha que o desejo do continente é concretizado?

Ismael Martins -
Eu não tenho ilusões. Penso que não vamos atingir isso. Não vai ser possível termos dois países africanos como membros permanentes no Conselho de Segurança. Vai ser possível, pelo menos, formular alguns aspectos do funcionamento do sistema do Conselho de Segurança e, através disso, fazer com que as decisões dos membros sejam mais representativas. Mas começa a haver alguma mudança. Já foi acordado o início do processo da eleição do secretário-geral das Nações Unidas. Era um processo em que participavam apenas os cinco membros permanentes. Mas isto mudou.

Jornal de Angola - O que significa isso, exactamente?

Ismael Martins - Significa que, doravante, a decisão vai ser tomada com uma participação mais efectiva dos restantes membros das Nações Unidas, fruto de um processo negocial que foi bem sucedido. A comissão que iniciou essa negociação contou com a participação de países africanos. A Namíbia era um dos membros dessa comissão.

Jornal de Angola - A Palestina entra para as Nações Unidas?


Ismael Martins -
Era quase impossível pensar que a Palestina viesse um dia a participar numa sessão da Assembleia das Nações Unidas. A Palestina participa pela primeira na Assembleia Geral das Nações Unidas, não como Estado, mas como observador e com a sua bandeira içada este ano na ONU. Isto significa que está a haver mudanças e o reconhecimento de que todos os problemas precisam de solução. Os problemas podem ser solucionados através da vontade política.

Jornal de Angola - O que mais reserva a agenda da 70.ª Assembleia Geral das Nações Unidas?

Ismael Martins - A agenda destaca questões relacionadas com o ambiente e uma economia mais voltada para a transformação. Este ano vai ser rico em termos de decisões mundiais e multilaterais. Penso que isso vai beneficiar bastante países como Angola, cuja economia tem vindo a crescer. Angola tem todas as condições para crescer mais e transformar a sua própria economia através de uma agenda própria, mas que esteja sincronizada com a internacional.

Jornal de Angola - Faz algum sentido comparar o actual funcionamento das Nações Unidas à Sociedade das Nações, em termos de resultados na mitigação de conflitos?

Ismael Martins - A Sociedade das Nações viveu o seu tempo e penso que cumpriu a sua meta. Hoje o que nós temos nas Nações Unidas é o reconhecimento de que é preciso mudar e ter uma agenda da reforma do sistema da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança. A Sociedade das Nações tinha um número muito inferior de membros nos anos 60. Mas hoje, a ONU conta com 193 membros. Hoje estamos mais bem organizados. Temos o grupo dos 77 países, que é um dos mais importantes grupos de negociação das Nações Unidas, que inclui países africanos, asiáticos e da América Latina.

Jornal de Angola - A ONU tem sempre de promover mudanças?

Ismael Martins -
Sim. Veja que a Sociedade das Nações cumpriu com aquilo que foi o seu programa para o contexto em que foi criada. Naturalmente, o mundo mudou e por ter mudado temos hoje uma outra organização que  vai ter de mudar também para se adequar ao mundo em que vivemos.

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