Entrevista

Angola tem registado centenas de sismos de magnitude baixa

César Esteves

O mundo assinala hoje o Dia Internacional para a Redução de Desastres. O lema escolhido para este ano é “O aumento das perdas económicas causadas por mudanças climáticas.” A escolha do referido lema deve-se ao facto de, todos os anos, as catástrofes causarem um prejuízo global na ordem dos 520 mil milhões de dólares e levar milhar es de pessoas à pobreza, devido a perdas económicas provocadas por desastres naturais. Em entrevista ao Jornal de Angola, Domingos do Nascimento, director-geral do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, disse que apesar de se encontrar numa zona tectonicamente estável, Angola regista no seu território centenas de sismos só que de magnitude baixa. Na conversa, o director do Inamet fala também de alguns serviços prestados pela instituição que dirige, bem como das dificuldades do dia-a-dia.

Domingos do Nascimento não gostaria de terminar o seu mandato sem antes fazer do INAMET uma instituição auto-sustentada
Fotografia: Domingos Cadência | Edições Novembro

O mundo assinala, hoje, o Dia Internacional para a Redução de Catástrofes. Angola é um país propenso a sismos? 
Não. Nós estamos numa zona tectonicamente estável. Mas, apesar disso, regista-se no nosso território centenas de sismos, só que de magnitude muito baixa, razão pela qual não se sentem com grande intensidade. Além desses, há também os que ocorrem em zonas despovoadas, que os aparelhos não registam por serem de pequena intensidade, isto é, 1.5 na escala de Richter.

Quantos equipamentos de controlo de sismos o país tem e qual é a capacidade dos mesmos?
Temos apenas três estações instaladas nas províncias da Huíla, Moxico e Bengo. Os equipamentos estão capacitados para atingir um raio de 300 quilómetros.

Esse número de aparelhos é suficiente para fazer uma cobertura total do país?

Não é suficiente, o que dificulta o trabalho do Inamet. 

O que está a ser feito para inverter o quadro?
Há uma perspectiva em alargar para 10 ou 15 estações sismológicas a nível nacional, mas, ainda assim, não serão suficientes para fazerem uma cobertura de qualidade do comportamento sismológico do país. Todavia, com essa quantidade, dá para ter uma percepção do comportamento sismológico em todo o país.

Quantos aparelhos seriam necessários para se fazer uma cobertura total do país?

Estaríamos tranquilos se tivéssemos 50 estações sismológicas espalhadas pelo país. Permitiria desenvolver um trabalho de maior qualidade.

Os três aparelhos existentes limitam-se a cobrir apenas as províncias onde se encontram ou também outras regiões do país?

O que está no Lubango, estende-se até a província do Namibe, o do Bengo apanha Luanda e o do Luena as zonas adjacentes à cidade. Mas, importa informar que temos trabalhado com o Instituto Português do Mar e Atmosfera, que potencia os nossos técnicos no domínio sismológico. Neste momento, temos um especialista a fazer  uma formação de seis meses nesse instituto. Já tivemos alguns que fizeram 60 dias. O processo vai continuar. Provavelmente, irão mais quatro técnicos para formação no domínio da previsão, equipamento de manutenção e a nível do sismo.

Qual é a situação actual do Inamet em termos de recursos humanos?

Temos dificuldades em termos de recursos humanos. Somos uma instituição nacional e secular. Em função disso, precisamos rejuvenescer o nosso quadro. Há zonas em que temos muito pessoal envelhecido. Só para ter ideia, nós deveríamos ser, só em termos de técnicos em todo o país, um total de 500 trabalhadores, entre técnicos especialistas de classe 1, licenciados e técnicos operacionais, mas, infelizmente, dispomos apenas de um número inferior a 150 funcionários, o que é muito baixo para as necessidades que temos.

O quadro a nível do Inamet vai continuar assim?
Apesar do défice de quadros, a instituição não deixou de apostar na formação. Um dos objectivos do Inamet passa por uma aposta séria nos recursos humanos de que dispõe. Por essa razão, mandamos alguns técnicos ao Brasil e Marrocos para formação específica. Dois técnicos que beneficiaram dessa formação já se encontram no país, com as licenciaturas concluídas. Outros dois, com doutoramento, devem regressar em 2019. Além desses, regressaram também ao país cinco licenciados e um mestre, todos provenientes do Brasil. Paralelamente a isso, temos uma parceria com a Universidade Agostinho Neto, através do departamento de Geofísica da Faculdade de Ciências, que fornece quadros ao instituto.  No ano passado, o Inamet enquadrou oito licenciados que saíram dessa instituição.
 
Sendo uma instituição secular, como disse no início, com falta de técnicos e de equipamentos, como tem respondido às exigências do momento?
Em termos de equipamentos, temos um plano de modernização. Há um contrato firmado entre o Inamet e a Météo-France, Serviço Nacional de Meteorologia da França, que apoia a instituição no processo de modernização. Esse contrato já foi aprovado pelo Executivo. Está a dar os seus passos. A sua implementação definitiva está dependente de processos burocráticos, que têm a ver já com outros sectores.

Quantas estações meteorológicas a instituição tem neste momento?
Nós precisamos alargar o número de estações meteorológicas no país. Temos, nesse momento, o controlo de 50, mas o projecto de modernização prevê chegarmos até 500 estações.  Em cada província, temos um posto de observação, mas que não chega para cobri-la toda. Há províncias em que temos dois aparelhos. Essas estações que estão colocadas em todas as províncias, sendo algumas no aeroporto, por uma questão de segurança, mandam as suas informações para o Centro de Previsão de Tempo. Os nossos especialistas recebem esses dados e trabalham com eles para a elaboração das previsões gerais, aeronáutica e climatológica.

O que falta para o Inamet cumprir cabalmente com a sua missão?
Também precisamos de instalar radares meteorológicos, para termos previsão a curto prazo.  Até ao momento, não temos nenhum aparelho desse no país.

Até que ponto a inexistência desse aparelho compromete o vosso trabalho?
Não compromete, mas seria um valor acrescido. Com o radar, conseguiríamos prever situações de curto prazo. O aparelho permitiria prever se dentro de três horas vai ou não chover numa determinada localidade. No modelo global, não é visível. Se tivéssemos o radar, conseguiríamos fazer uma melhor previsão da quantidade de precipitação que iria ocorrer, bem como o período e o local onde iria acontecer.

Qual é o modelo de previsão que o país usa?
A previsão de tempo que utilizamos actualmente é de 24 horas. É feita das 18 horas de um dia até às 18 de outro. E temos a previsão de 72 horas, mas que é actualizada 24 horas. É uma técnica utilizada em qualquer parte do mundo.

Há possibilidade de Angola viver problemas de  incêndios florestais, assim como acontece em Portugal?
Não, não é possível. Nós não temos característica de país com ventos muito fortes. Para termos incêndio, teríamos de ter uma temperatura acima dos 30 graus, humidade na casa dos 30 por cento e ventos muito fortes. Se tivermos humidade baixa, temperatura na casa dos 30 graus para cima e vento acima dos 50, podemos ter fogo.

Este ano vai fazer muito calor? 
Nós estamos na região do calor. Temos, em média, uma temperatura máxima a rondar muito próximo dos 36 a 37 graus de temperatura ambiente. Para Luanda, pode haver dia em que a temperatura vai chegar a 33 graus.

Director, sabe-se que além de prever chuva, o Inamet também se dedica a outros serviços que não são conhecidos, como é caso, por exemplo, da produção de informação sobre acidentes provocados por desastres naturais. Pode falar desse serviço?  
Sempre que alguém se confrontar com uma situação como a que acabou de mencionar, poderá solicitar ao  Inamet um laudo meteorológico que lhe vai fornecer informações precisas sobre o que ocorreu nas últimas 24h00, na zona do incidente, a fim de provar à asseguradora que o incidente que sofreu foi mesmo provocado por um evento natural.

A instituição está tecnicamente preparada para produzir essa informação com celeridade?
Sim, está. Nós temos equipamentos-registadores colocados a nível de Luanda e em outras províncias. Além disso, também temos acesso aos modelos globais, disponibilizados pela Organização Meteorológica Mundial, onde Angola é membro. Os nossos especialistas, através de dados de reanálise, produzem toda a informação e, depois, informam se no período alegado pelo sinistrado ocorreu mesmo alguma precipitação. Com esses dados, o sinistrado tem como provar à seguradora. E este serviço não se limita apenas aos automobilistas.

Para quem mais se destina o serviço?

Para as empresas de construção civil também.

Pode descrever um cenário em que uma empresa de construção civil sente necessidade de recorrer a esse serviço?

Vamos supor que uma determinada empresa de construção civil recebe uma obra a prazo e não consegue entregar a tempo, alegando que teve uma semana de muita chuva. O Inamet consegue provar se, realmente, houve, na semana por eles apontada, chuvas intensas.

 Inamet é mais conhecido pela área de meteorologia e não de geofísica

Já há muitas instituições a solicitar esse serviço?
Ainda não. Temos alguns acordos de cavalheiro com algumas seguradoras. Infelizmente, muitos só nos procuram quando estão em litígio.

Essa informação só é disponibilizada pelo Inamet?
Somos a única instituição no país que produz essa informação, que serve para provar às empresas de seguro que, efectivamente, o sinistrado foi vítima de um acidente provocado por um fenómeno natural.

Apesar de o Inamet tratar também da geofísica, a instituição é mais conhecida pelo serviço de meteorologia. Por que razão não se fala muito de outros serviços por vocês desenvolvidos? 

O Inamet é mais conhecido pelo serviço de meteorologia e não de geofísica, porque é no primeiro onde ocorrem os maiores desastres. Por essa razão, este serviço é mais mediatizado que o outro.

A instituição que dirige desempenha um papel fundamental no processo agrícola, por causa das previsões que faz. Os agricultores, em   Angola,  têm  a cultura de consultar o Inamet antes de prepararem a terra?   
Apenas os grandes agricultores o fazem. Os pequenos ainda não. E não há ainda um número considerável de solicitações de previsão do tempo, por mais agricultores, porque o clima de Angola é estável. Não apresenta grandes inversões, apesar de haver, em algumas regiões do país, alterações climáticas. Temos zonas em que o índice de seca é muito elevado. É o caso, por exemplo, da província do Cunene, Huíla, Namibe e parte do Cuando Cubango.

Será que os agricultores que ainda não solicitam o serviço de previsão do tempo sabem da importância das previsões para a agricultura?
Se não sabem, devem saber. A agricultura pressupõe planificação. O agricultor, antes de entrar em acção, deve conhecer já  o clima da região onde pretende desenvolver a actividade. Depois, é necessário saber, também, como será a época chuvosa, a temperatura e o habitat da zona. É fundamental conhecer as características do solo e as condições climatéricas da região. Existem dois tipos de agricultura: a natural e a artificial. A última, para ser desenvolvida, exige uma série de meios, porque não depende da chuva. Os agricultores que desenvolvem esse tipo de actividade podem evitar gastos se tiverem a cultura de solicitar as previsões ao Inamet.

Pode explicar-se melhor? 

Solicitando atempadamente a previsão do tempo, o agricultor consegue saber se no período em que pretende desenvolver a actividade agrícola vai ou não chover. Em caso de haver chuva confirmada, ele consegue poupar recursos. Já não precisará gastar combustível e outros meios. Poderá usá-lo numa fase em que não haverá chuva. Por essa razão, os que se dedicam à agricultura artificial devem consumir mais a previsão do tempo.

O Inamet também faz previsão marítima, mas, nos últimos dias, várias embarcações artesanais têm-se perdido em alto-mar. Os pescadores têm o hábito de solicitar essa previsão antes de se fazerem ao mar?
Há pescadores negligentes. Não consultam o boletim meteorológico marítimo antes de se fazerem ao mar. Eles precisam saber que os dias de trabalhar com o empirismo acabaram. Se eles fossem à busca dessa informação, desenvolveriam a sua actividade com mais segurança. Saberiam já como estaria o mar e o vento, que têm provocado o desaparecimento de algumas embarcações.
 
O Inamet produz essa informação com regularidade?

O Inamet elabora a previsão marítima sempre e tem validade de 24 horas, isto é, das 18 de um dia às 18 de outro dia.

E onde é que essa informação é disponibilizada?

A informação é disponibilizada na media e nos pontos focais de pesca artesanal. A instituição publica o boletim meteorológico para navegação marítima, que deve ser utilizado por armadores e pescadores.

Mas dá impressão que essa informação não chega aos pescadores?

Temos que melhorar a cultura de acesso a essa informação. Precisamos encontrar forma de como melhorar a comunicação, de modo que a informação chegue aos destinatários com mais facilidade. Nem que for por via de um boletim no local ou ponto de concentração dos pescadores. É preciso fazer chegar essa informação de utilidade pública aos trabalhadores do mar, para evitar novos casos de desaparecimento de embarcações.

A título de curiosidade, há casais que já consultam o Inamet quando querem casar, para saber se não vai chover no dia escolhido para o copo de água?
Há alguns casais que já adoptam esse critério. Os que não o fazem correm o risco de desperdiçar recursos financeiros. O Inamet está capacitado para fornecer essas informações aos cidadãos que decidirem nos contactar.

PERFIL

Domingos José do Nascimemto
Licenciado em Geologia, pela Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto, desde 2000, e técnico de Meteorologia, desde 1992, pelo Inamet.
Entrou para o quadro de pessoal do Inamet em 1992. Antes de ascender ao cargo máximo da instituição, foi chefe da secção de tratamentos de dados meteorológicos e posteriormente do departamento de aplicações meteorológicas.
Disse que se sentiu bastante valorizado ao receber, em 2014, o convite para assumir a direcção da instituição.
Considera-se um quadro que não quebrou etapas para chegar a director-geral da instituição.
Revelou que não gostaria de terminar o seu mandato sem antes fazer do Inamet uma instituição auto-sustentada, a fim de aliviar o encargo financeiro do Executivo

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