Entrevista

"Angola tem uma política de saúde inteligente "

André dos Anjos |

José Mendes Ribeiro participou no Congresso Internacional de Médicos em Angola, que reuniu especialistas nacionais e estrangeiros, que discutiram o estado da saúde em Angola e no mundo.

Especialista José Mendes Ribeiro
Fotografia: DR

José Mendes Ribeiro participou no Congresso Internacional de Médicos em Angola, que reuniu especialistas nacionais e estrangeiros, que discutiram o estado da saúde em Angola e no mundo. Especialista na área da saúde da Accenture, José Mendes Ribeiro fez rasgados elogios ao país pelos avanços registados na área da Saúde: “Angola está com uma política de saúde inteligente e muito consistente. Na África Austral, só África a do Sul ombreia com Angola. A Accenture é uma organização global de serviços de consultoria de gestão e tecnologias de informação e está presente em 120 países.

JA - Qual é a avaliação que faz do sistema de saúde angolano?
     
 
José Mendes Ribeiro (JMR) - Qualquer sistema de saúde no mundo é sempre de difícil avaliação, sobretudo quando a perspectiva de análise se pretende objectiva, porque cada país tem a sua história e os seus limites em capacidades de recursos financeiros e humanos. Mas posso dizer-lhe que qualquer sistema de saúde no mundo nunca é um instrumento perfeito. Vou dar dois exemplos: em Angola, a esperança de vida anda em torno dos 51 anos. Temos doenças mortíferas, como a malária. Mas essa doença já não é um problema de saúde pública nos Estados Unidos. Em contrapartida, os EUA enfrentam as chamadas doenças civilizacionais e outras como o cancro, que absorvem muitos recursos financeiros.

JA - Quais são as grandes preocupações de saúde em Angola?

JMR - A Malária. Temos de actuar no combate a essa endemia, porque ainda não há vacina que a previna. Mas temos de reconhecer que Angola tem conseguido, nos últimos anos, progressos assinaláveis na erradicação de doenças que podem ser evitáveis, com destaque para a poliomielite. Desde o mês de Outubro de 2012 que não se regista nenhum caso.

JA - Os preços praticados pelas clínicas privadas estão ajustados à realidade económica do país?

JMR - Os preços praticados pelas clínicas são elevados, mas acho que isso se deve ao facto de a maior parte delas funcionar com médicos expatriados, que envolvem muitos custos. Muitas trabalham com geradores de corrente eléctrica, o que é dispendioso. A falta de uma indústria farmacêutica local encarece mais ainda os seus serviços.

JAComo vê a legislação em matéria de saúde?

JMR - Participei em Talatona no Congresso de Médicos Angolanos. Os participantes defenderam a necessidade de se aumentar e melhorar a oferta de medicamentos, porque estudos internacionais revelam que o sucesso terapêutico, a nossa capacidade de tratar uma doença, se deve em 40 por cento à disponibilidade e à qualidade dos fármacos. Há falhas no abastecimento aos hospitais. E isso não é por falta de legislação, nem por falta de disponibilidade no mercado mundial, porque há farmacêuticos em todo o mundo. Isso tem a ver com prioridades.

JA - Acha que Angola pode fazer mais no domínio da saúde?

JMR - O Orçamento Geral do Estado deste ano reserva uma fatia considerável ao sector social, que inclui a área de saúde. Portanto, vai haver mais capacidade financeira na saúde.

JA - Como avalia o mercado farmacêutico?


JMR - Angola pode dar um passo muito grande no sistema de medicamentos. Mas eu acho que as condições actuais de conservação dos medicamentos no país, salvo excepções, não são as mais adequadas. Há medicamentos à venda em mercados informais, a céu aberto, expostos ao Sol. Não pode ser! Não se pode permitir isto. Temos que ser mais rigorosos. 

JA - A qualidade dos medicamentos importados é avaliada?

JMR - Isto eu desconheço. Sei que foi criado um instituto que cuida disso, há mais farmacêuticos e isso dá-nos a garantia de que estamos no bom caminho. Mas acho mais: era uma boa política atrair investidores para abrirem laboratórios farmacêuticos em Angola.

JA - O mercado angolano está aberto a todos os investidores…

JMR - Acho que não chega. Hoje é necessário criar políticas de incentivo a nível fiscal e, sobretudo, na captação de mão-de-obra especializada para o país. Essa é uma forma de facilitar o desenvolvimento. Os governos, em todo o mundo, tendem a ser mais proactivos, batendo às portas de quem sabe fazer, convidando quem sabe a trazer conhecimentos e novas tecnologias.

JA - Há doenças evitáveis que em Angola são um problema de saúde pública?

JMR - Angola tem um programa de vacinação com muitos sucessos. Mas, como em todos os países, tem as suas falhas. Por exemplo, na Europa estamos a testar algumas vacinas que os americanos testaram há cinco ou seis anos.

JA - Como universalizar o Sistema de Saúde angolano?

JMR - Aumentando os investimentos públicos no sector.

JA - O sector privado da saúde em Angola tem tido uma intervenção à altura?

JMR - O sector privado precisa de ser estimulado para dar respostas a novas situações. A Clínica Girassol é um bom exemplo, embora esteja na sua origem uma empresa pública, a Sonangol. O Estado pode acelerar a construção de novos hospitais, centros de saúde e centros materno-infantis, em parceria com o sector privado. Mas há indicadores muito claros nesse sentido. Quando o Executivo diz que este ano a educação e a saúde são sectores prioritários, é bom sinal.

JA - Qual é a avaliação pessoal que faz dos investimentos privados na saúde?

JMR - A minha opinião é que não há mercado privado sólido, porque as pessoas não têm capacidade para pagar do seu bolso.

JA - Angola tem um Sistema de Saúde à altura da populacão?

JMR - O sistema ainda não responde às necessidades, mas já disse que nenhum sistema no mundo responde totalmente às necessidades do país. Os países mais ricos investem mais na saúde, mas mesmo assim não conseguem resolver todos os problemas, não conseguem, por exemplo eliminar a Sida. Angola está melhor hoje do que há dez anos. E os aumentos orçamentais para a área social, anunciados este ano, vão alavancar muito mais os progressos no sector da Saúde. Vão permitir melhorar a qualidade de atendimento nos hospitais, construir mais centros de saúde e aumentar a oferta de medicamentos. A municipalização do sistema de saúde está a surtir efeitos positivos. Em 2011, morriam 116 crianças por cada 1000 antes de completarem um mês de vida. Hoje, o número é muito menor, embora na Europa esse número esteja entre três e quatro crianças.

JA - E em comparação com os países da região?

JMR - A República de Angola está com uma política de saúde inteligente e muito consistente. Na África Austral, só a África do Sul ombreia com Angola.

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