Entrevista

Apolónio Graciano 25 anos a abençoar o Santo Povo de Deus

Edna Cauxeiro |

O Cónego Apolónio Graciano comemora hoje, junto da comunidade cristã, um quarto de século desde o dia em que foi  ordenado sacerdote, no domingo do dia 26 de Janeiro de 1992, na Igreja Paroquial da Sagrada Família, em Luanda.

O Cónego Apolónio Graciano comemora hoje 25 anos desde o dia em que foi ordenado sacerdote
Fotografia: Paulo Mulaza|Edições Novembro

Num ambiente de oração e louvores entre colegas sacerdotes, na presença de Bispos,  familiares, amigos e fiéis, Sua Eminência o Cardeal Alexandre do Nascimento ungiu o padre Apolónio para "administrar os Sacramentos e abençoar o Santo Povo de Deus". O sacerdote descreve a sua trajectória com palavras simples:  "Foram anos seguidos de muita provação em defesa da Igreja e da Pátria".


Jornal de Angola: Tem 56 anos de idade, 25 dos quais de sacerdócio. É uma vida…
Apolónio Graciano:
São 25 anos de uma vida muito empenhada no ministério sacerdotal dentro da Igreja Católica e sempre com a Palavra de Deus nas minhas mãos e no coração.  Uma vida de entrega a Cristo, que me chamou ao Ministério Sacerdotal, e de muito amor à Igreja que Ele fundou na pessoa de Pedro.  Bem nos recordamos da determinação do Mestre quando chegou a recomendar ao Apóstolo maior: “Tu és Pedro e sobre esta Pedra vou edificar a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela”.  E é com obediência e humildade, entre muitas provações e vicissitudes, que procuro todos os dias seguir a exigência doutrinária da Santa Mãe Igreja Católica.
Jornal de Angola: Passado um quarto de século, de que mais se recorda da  cerimónia  e, em particular, do Cardeal D. Alexandre do Nascimento, de quem foi secretário e o ordenou?
Apolónio Graciano:
Tenho muitas recordações desde quando fui ordenado Padre no domingo do dia 26 de Janeiro de 1992, na Igreja Paroquial da Sagrada Família em Luanda, até hoje, que vivo o meu jubileu de prata sacerdotal. Foi num ambiente de oração e louvores entre colegas sacerdotes, na presença de alguns Bispos, de familiares, amigos e de muitos fiéis que, pelas mãos de Sua Eminência o Cardeal Alexandre do Nascimento, fui ungido para administrar os Sacramentos e abençoar o Santo Povo de Deus. Logo depois de terminar os estudos teológicos no Seminário Maior de Luanda em Junho de 1991, fui pessoalmente convidado para Secretário Particular de Sua Eminência o Cardeal de Angola e em tempos muito delicados do País, numa fase de transição política para o multipartidarismo. Foram anos seguidos de muita provação em defesa da Igreja e da Pátria. Muito se podia aqui falar da exigência do momento e quantas incompreensões em relação à nossa actuação em prol do Evangelho de Cristo junto das Instituições. Mas tudo hoje está ultrapassado e devo dizer que valeu a pena o desafio e a ousadia de auxiliar o Cardeal e a Igreja na sua missão libertadora junto dos angolanos.
Jornal de Angola: Foi-lhe em tempos atribuída a frase: “Não é fácil um jovem citadino chegar a padre”.
 Apolónio Graciano:
É uma verdade que no meu tempo de seminário, um jovem citadino decidir ingressar para os estudos eclesiásticos era sujeito a exigências de vária ordem. Compreendia-se a situação e isto está claro. Creio que era normal saber qual era a sua proveniência familiar e o seu meio ambiente. Mas pude, com fé e esperança em Deus, resistir a tudo e, com a boa vontade dos meus superiores hierárquicos, chegar ao sacerdócio ministerial.    
Jornal de Angola: Como o Cónego, em particular, e a Igreja, em geral, vêem a actual situação do país?
Apolónio Graciano:
Para mim, Cónego do Cabido da Sé de Luanda,  penso com a Igreja Católica, vejo o País a progredir com tudo o que exige o momento que estamos a viver na Paz e Reconciliação Nacional, mas é preciso que se faça muito para que haja mais visibilidade nas diversas áreas nevrálgicas da nossa economia nacional. É preciso encorajar o nosso povo a corresponder com responsabilidade às tarefas do dia a dia.
Jornal de Angola: Quais são para si as maiores conquistas da Paz?
Apolónio Graciano:
As maiores conquistas da Paz hoje estão espelhadas na auto-suficiência do homem e da mulher angolanos, na capacidade de reflexão e de agir ante a sua realidade à volta de si mesmos. Vemos que as obras, apesar das dificuldades económico-financeiras timidamente avançam e orgulham o nosso povo.
Evidentemente que não está tudo conquistado. Precisamos de construir mais infra-estruturas como igrejas, escolas, universidades, hospitais, centros de formação profissional, estradas, linhas férreas, pontes, refinarias, parques e hotéis turísticos, até centros de grandes dimensões para retiros espirituais e de lazer, porque faz bem a um povo e o nosso país é extenso. Mais investimento na agricultura e sua maquinaria de desenvolvimento.  O nosso país tem tudo para conseguir ­implementar boas coisas para se viver tranquilo. Mas o mais importante é mesmo vivermos unidos sem ódios, sem invejas e sem revanchismos de uns contra outros. A Paz e a Reconciliação em Angola é uma conquista de muito sangue derramado e como cristão e africano, pela minha fé aprendi que é preciso respeitar a memória dos nossos mortos e o meu agir naquilo que me é possível, é proporcionar a boa convivência e harmonia entre nós angolanos e não só.    
Jornal de Angola: São-lhe atribuídos alguns dissabores, nomeadamente, com a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe (CEAST) e a oposição política no país. O que tem a dizer sobre isso?
Apolónio Graciano:
Por amor à Igreja, nada devo dizer. Respeito a Igreja como minha mãe e em tudo devo defendê-La para que o nome de Deus não seja blasfemado. E quanto à oposição e certos círculos muito bem identificados que tanto desferem golpes contra a minha pessoa elevo a Deus a minha oração por eles. Tal como foi no passado da história da Igreja, a minha atitude é de amar continuamente cada um deles e procurar sempre manter a minha coerência na prática do bem.
Jornal de Angola: São-lhe, amiúde, atribuídas conotações ou preferências políticas. Tem-nas?
Apolónio Graciano:
  Agradeço a sua pergunta e em poucas palavras devo dizer que há gente que muito respeito mas interessada em conotações, com preconceitos doentios e, por consciência, não devo misturar-me nas suas confusões. Uma só coisa peço sempre a Deus, eu ser fiel, no bom sentido, ao meu ministério sacerdotal, à Igreja e à minha Pátria.
Jornal de Angola: Como ficou o episódio de há alguns anos, à volta do Instituto Superior Mamã Muxima, cuja gestão lhe chegou a ser atribuída?
 Apolónio Graciano:
Infelizmente, o senhor ministro do Ensino Superior indeferiu o pedido de criação do Instituto. Vi-me na obrigação de encaminhar os alunos para outros ­Institutos Superiores reconhecidos. Penso que ele está no seu dever de velar pelo que é melhor para o País e tratando-se de uma iniciativa particular de um sacerdote católico que até é um cidadão angolano, mas que em certos círculos da sociedade é combatido, e talvez por alguma pressão externa, isto não havia de lhe trazer alguma tranquilidade, achou por bem inviabilizar a iniciativa. Está no direito dele. É preciso respeitar a sua decisão. Na vida aprendi a perder e ser paciente, para ter mais capacidade e ousadia de vencer grandes batalhas. Confio em Deus e estou certo de que os bons propósitos são sempre abençoados. O bem que ontem não foi possível, amanhã vai ser com ajuda de Deus.
Jornal de Angola: De todo o modo, referimos Mamã Muxima. O que representa tal figura no contexto religioso e, em particular, Católico, em Angola?
 Apolónio Graciano:
O nome da Mamã Muxima, como sabemos, é o nome que é atribuído carinhosamente a Nossa Senhora da Conceição do Coração. Em Kimbundu, muxima é coração. Mamã do Coração. ­Pessoalmente tenho uma devoção de piedade especial à ­Virgem Maria, Mãe de Jesus. Assim como acontece em várias partes do mundo católico, a Mãe de Jesus é uma presença de devoção nas comunidades de igrejas e santuários dedicados ao seu nome, também em Angola temos este Santuário que une toda a Igreja de Angola e as famílias católicas e não só nesta devoção a Nossa Senhora da Muxima, que conhecemos habitualmente como Mamã Muxima.
Jornal de Angola: A anunciada participação do Estado na edificação do Memorial da Muxima e noutras construções da Igreja Católica no país, não interfere nas vontades e opções dos fiéis?
 Apolónio Graciano:
Que eu saiba a iniciativa partiu mesmo do Chefe do Estado Angolano anos atrás como resposta ao afluxo das grandes multidões que acorriam em peregrinação ao Santuário da Muxima na vila com o mesmo nome no Município da Quiçama. Recordamos bem aquando da visita do Papa Bento XVI ao nosso país em Março de 2009, o Presidente da República mostrou a planta do projecto de construção ao Papa e fê-lo novamente ao Papa Francisco no Vaticano, em Maio de 2014. Creio ser um projecto de grande dimensão nacional e digno, que corresponde bem à devoção do nosso povo que todos os dias acorre ao Santuário da Mamã Muxima. Mamã Sessá.
Jornal de Angola: Qual tem sido o contributo da Igreja Católica no processo de recenseamento eleitoral e qual a resposta?
 Apolónio Graciano:
Tem sido muito participativa. A Igreja Católica já na voz dos Bispos pediam aos fiéis para o registo eleitoral porque é deste gesto que se vai escolher os futuros dirigentes do país neste ano de 2017.
Jornal de Angola:  Estamos recordados de que em 1997, no mês de Julho, o senhor padre esteve  no Vaticano, com o actual Bispo da Diocese de Ndalatando, Dom Almeida Canda, na altura eram os dois Monsenhores. Pensa chegar a Bispo?
 Apolónio Graciano:
(risos).
Jornal de Angola: Foi neste mesmo período que Angola estabeleceu relações diplomáticas com o Estado do Vaticano. Que avaliação faz das relações entre os dois Estados?
Apolónio Graciano:
Estou muito bem recordado que foi nesse ano de 1997, era estudante em Roma, que se estabeleceu as relações diplomáticas entre o Estado do Vaticano e o Estado Angolano. Foi um momento de júbilo e como fazia parte de alguns meios que acompanhavam o evoluir das relações entre os dois Estados não deixou de ser emocionante. Até hoje as relações evoluíram com a indicação de Embaixadores de Angola junto da Santa Sé e com os Núncios Apostólicos que o nosso país tem recebido. Mais não digo nada, porque muito se está a fazer para engrandecer e fortalecer cada vez mais as relações entre os dois Estados.

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