Entrevista

Apostar na música é uma boa solução

A criação de políticas públicas mais sólidas que atraiam e levem o sector privado a apostar mais na música é para o secretário-geral da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC), Belmiro Carlos, uma das melhores soluções na afirmação do sector.

Belmiro Carlos enalteceu a abrangência que a música angolana e os seus artistas têm conseguido a nível nacional e internacional
Fotografia: Eduardo Pedro

“O FENACULT vai ser uma mais-valia neste sentido, apesar de não criar infra-estruturas culturais”, disse em entrevista ao Jornal de Angola.

Jornal de Angola - Quais as vantagens que a música vai ter com o FENACULT?


Belmiro Carlos
- A música vai certamente ser uma das artes muito exaltadas. Mas não vai criar infra-estruturas culturais para os artistas, à semelhança, por exemplo, do que o Campeonato Africano das Nações deu ao desporto. Essas estruturas eram uma mais-valia porque permitiam ter, depois de terminar o FENACULT, um local digno para realizar actividades. Mas o festival em si já vai dar uma outra dimensão às artes e aos artistas angolanos.

JA - Como avalia a música angolana hoje?


BC
- Depende da perspectiva. Existe um lado positivo e um negativo. O lado bom é o contacto internacional e o acesso às novas tecnologias de informação e comunicação que está a permitir que muitos músicos tenham performances fantásticas. Outro destaque é a produção de muita música boa e de discos tecnicamente aceitáveis.

JA - E qual é o lado negativo?

BC
- Um dos reversos da moeda é o descompasso das políticas públicas de Estado em relação às infra-estruturas culturais. É inaceitável a carência de espaços para exibição artística, que relega mais de 90 por cento dos músicos para o desemprego e a situação de mendicidade. O artista tem ainda de conviver, impotente, com a actual pirataria ostensiva e escandalosa, que é um verdadeiro cancro para a sua própria economia. Gasta-se uma fortuna para  produzir um disco e depois o artista vê o seu trabalho banalizado.

JA - Ainda não é possível viver da música?

BC - Para alguns sim, mas são muito poucos. Por isso é importante criar as condições para que exista um trabalho artístico permanente, sustentável e inclusivo.

JA - Qual é a melhor saída?


BC - O Estado tem que fazer muito mais nesse domínio e estabelecer políticas que envolvam de facto a iniciativa privada. A sua ausência das indústrias culturais é uma situação confrangedora num país com os índices de crescimento económico e níveis de responsabilidades políticas internacionais.

JA - A actual projecção da música é um sinal de desenvolvimento?


BC
- É verdade que a música está a projectar-se e a conquistar terreno para além das fronteiras nacionais, porém não podemos adormecer sobre esse falso boom porque está construído sobre bases inconsistentes. Grande parte dos actuais sucessos contam com a participação de músicos estrangeiros. Então este êxito não é 100 por cento angolano.

JA - Quais são os passos fundamentais para consolidar o desenvolvimento actual?


BC - A formação e a educação musical da próxima geração de músicos é um imperativo que não pode ser descurado, sob pena de termos, no futuro, uma música pouco competitiva e até descaracterizada. Fenómenos como a globalização e a economia de mercado podem permitir a “invasão” de uma legião de artistas estrangeiros que pelas inúmeras competências técnicas são bem capazes de conseguir influenciar o gosto das pessoas.

JA - Como podemos travar ou inverter esse quadro?

BC - Por meio da criação de escolas de arte próximo das populações. Escolas superiores de arte também são bem-vindas, mas não podem substituir aquelas que vão moldar o artista na sua fase de crescimento.

JA - Os músicos da nova geração têm sabido preservar a identidade nacional?


BC - Sim. Ultimamente já estão a surgir propostas interessantes. Uns chamam experimental e outros de fusão. Apesar de ainda serem estranhas e diferentes do habitual, nem por isso essas propostas deixam de ser música angolana, assente nas raízes da identidade nacional. Claro que entre estas não constam os temas, que embora feitos por angolanos, são mais estrangeiras, ou assentes em ritmos típicos de outras culturas, como o rock, hip hop, fado, samba, r&b, ou soul music.

JA - Como classifica esses estilos musicais?


BC
- Música estrangeira. Claro que não deve ser menosprezada, principalmente tendo em conta a projecção e os sonhos de cada músico. Mas música com ritmos de outros países é estrangeira. Nada de confusões, porque devido ao fenómeno da globalização a música angolana está mais próxima destes estilos. Para mudar essa tendência é essencial incutir mais nos jovens talentos a típica alma angolana.

JA - O mercado musical nacional é limitado?


BC
- É sim. Para superar esse problema é preciso diminuir significativamente a pirataria para não inibir o surgimento do mercado da música. É importante disseminar os centros culturais pelo país. As administrações, os clubes, as empresas e outras entidades devem retomar a tradição de organizar actividades artísticas, públicas ou privadas, com mais regularidade, de forma a ajudar na dignidade e integração social do músico. Os bancos deviam fazer também a sua parte. Na última mesa da assembleia-geral da UNAC, o presidente do BPC comunicou a criação de um Programa de Apoio para a Revitalização dos Centros Culturais. Estamos expectantes e impacientes, que os outros bancos se juntem a esta causa.

JA - Que políticas a UNAC tem para reduzir os custos de produção das obras?


BC
- Vamos ter que apostar na introdução de novas e melhores políticas de incentivos. Mas, antes, temos de rever as taxas aduaneiras, os impostos alfandegários aos produtos e instrumentos musicais, pôr a funcionar a política do mecenato ou o Fundo de Apoio do Estado. É preciso encarar o mercado artístico como se faz com a agricultura e as pescas, de forma a deixar a indústria cultural fluir.

JA - A UNAC tem algum projecto de integração para os músicos da nova geração?


BC
- Quando a UNAC começar a recolher e distribuir bem os direitos de autor dos seus membros, esse problema da pouca ou da falta de integração dos novos talentos vai deixar de existir. Embora 90 por cento dos membros da UNAC tenham menos de 35 anos, muitos destes, que já têm estatuto no mercado, ainda não se encontram filiados, o que é um erro, porque o artista associado tem inúmeras vantagens sociais e institucionais.

JA - Em relação aos Direitos de Autor, como está a ser cuidada essa questão?


BC - Esse é um tema que só agora vai começar a ser tratado com o cuidado desejado. A UNAC vai passar a tratar esta questão com toda a responsabilidade que inspira o assunto.

JA - Como está a disseminação da carteira profissional a nível nacional?

BC
- A Carteira Profissional precisa de mercado para ser mais eficiente. Ela está aí e veio para ficar, mas ainda faltam ingredientes para deixar de ser um simples cartão de identidade profissional. A carteira é um elemento de valorização profissional e de integração social que a seu tempo vai vingar e ser de grande utilidade aos artistas.

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