Entrevista

“As cidades, para mim, foram sempre uma fonte inesgotável de inspiração”

Matadi Makola

Se a morte de George Floyd reacendeu, agora, nos Estados Unidos da América, uma corrente que lembra que também “Vidas Negras Importam”, Portugal avança com um “Memorial às Vítimas de Pessoas Escravizadas”, a ser construído pelo artista angolano Kiluanji Kia Henda, em Lisboa.

“As cidades, para mim, foram sempre uma fonte inesgotável de inspiração”
Fotografia: DR

A idealizada humanização do homem sempre dominou a obra deste artista, que encontrou nas artes visuais o modo mais assertivo para sonhar. Nesta entrevista ao Jornal de Angola, Kiluanji Kia Henda, entre outros assuntos, faz críticas e assume que, “se não tivesse essa fé na humanidade, provavelmente, já não seria um artista”. Para o artista, as cidades foram sempre uma fonte de inspiração

Os nomes encerram sempre um presságio. Quem é “Kiluanji Kia Henda”? Há uma estória por detrás do nome, e é destas ético-estéticas transformações de Miguel Prince a Mussunda Nzombo?

Kiluanji Kia Henda é o nome de registo, primeiro e segundo nome. Embora muita gente pense que é um heterónimo. O meu pai fez questão de dar nomes das línguas originárias de África a todos os filhos, mesmo aos que nasceram no período colonial, o que não foi uma tarefa fácil. A tradução directa de Kiluanji Kia Henda é “o guerrilheiro da saudade”, mas também pode ser interpretado como “aquele por onde passa, deixa saudades”. Prefiro a última interpretação, pois sou mais um sonhador do que um guerrilheiro.

Ainda na senda dos nomes … Maria Gracia Latedjou apresentou, na quinta edição do Fucking Globo, a interessante curta-metragem “Ndozie Blues”, que também aflora esta questão. Pessoalmente, como encara o interesse da nossa sociedade nesta tomada de assunção dos nomes africanos?

Durante a minha infância, confesso que me sentia meio embaraçado na sala de aulas, quando o professor fizesse a chamada com o meu nome completo. Boa parte dos alunos tinha nomes portugueses, e alguns até com nomes inspirados pelo fervor da doutrina comunista, nomes como Yuri, Lénine, Vladimir, Guevara, Fidel, etc… Hoje, felizmente, muitos pais fazem questão de dar um nome africano aos filhos. Sinto que existe uma necessidade maior de resgate de uma identidade africana. Mais do que uma questão de identidade, um nome traz em si distintas narrativas que são importantes para a preservação da memória, daí a importância da curta-metragem “Ndozi Blues” da Latedjou, que, além da sua estética sublime, aborda um tema eminente nos dias hoje.

Ficámos a saber que sonhava ser músico. Na sua intimidade, alguma vez largou, de facto, a música? Tem alguns músicos que o inspiraram trabalhos ou indispensáveis nos seus momentos de criação?

Tenho uma paixão não correspondida pela música. Hoje somos bons amigos, na medida em que nunca deixei de tocar (guitarra), pois a música para mim é também um exercício de meditação, além de criativo. A música sempre despoletou em mim a motivação para abordar certos temas. O seu poder transcendental, aliado a uma consciência de liberação e de transformação social, é muito do que procuro evocar nas imagens que crio. Sou o filho caçula numa família de seis irmãos e irmãs, por isso o meu gosto musical é bastante eclético. A lista de músicos que me inspiraram é longa, mas posso dizer que vai de Teta Lando a Roger Waters, de Gilberto Gil à Nina Simone.

E como foi com a fotografia, Kiluanji…?

A fotografia é uma paixão que surgiu desde a minha infância, no meio familiar. Primeiro, em parceria com o meu irmão Sudika Sumandalo. Anos depois, em meados dos anos 90, o meu irmão Cassiano Bamba tinha um laboratório em nossa casa, no Bairro Popular, com material que tinha comprado em Moscovo. Mas eu nunca fui deslumbrado pelo lado técnico da fotografia. Gosto de criar narrativas, usar a fotografia como um meio para expressar determinadas preocupações, políticas, existenciais ou meramente estética.

É uma figura ligada a um grupo vanguardista, cujo berço foi o Elinga. Como recorda hoje essa fase de contacto com o Elinga, a sua geração de amigos e de passagens entre Luanda e Johannesburg?

O Elinga Teatro proporcionou aquilo que eu penso ser o mais importante numa escola: a oportunidade de conhecer e colaborar com pessoas que partilham uma mesma paixão. A interacção com o grupo de artistas que conheci no Elinga Teatro foi o principal motivo de ter mergulhado no universo das artes visuais e de ter resgatado o meu interesse pela fotografia. Quando cheguei ao Elinga, em 2001, vinha com um historial de projectos musicais sem sucesso. A oportunidade de ter trabalhado no teatro foi importante para entender as múltiplas linguagens que poderia explorar também nas artes visuais, uma relação que tinha começado nos anos em que estudei em Johannesburg. Contudo, trabalhar em projectos colectivos em Angola - na música, no teatro ou até mesmo na dança - pode ser bastante frustrante. Nem todos temos as mesmas exigências e a necessidade em nos tornarmos verdadeiros profissionais. E esta falta de comprometimento é mais evidente nas disciplinas artísticas que dependem de uma dinâmica e estrutura colectiva. É sempre necessária uma boa dose de coragem e de loucura também. Basta olharmos para o estado lastimável das poucas salas de espetáculo que existem.

É essa geração que aos poucos vai assumindo o leme de determinadas áreas, como foi agora o caso de Adjany Costa a liderar o apelidado “super-ministério”, onde se inclui o Ministério da Cultura, até então nunca antes liderado por uma figura com idade inferior a quarenta anos e alheia ao “staff” da política. Acredita ser um sinal derradeiro de passagem de testemunho para uma geração jovem e menos politizada?

Não há dúvida de que é uma passagem de testemunho à nova geração. Sabemos todos que a ministra Adjany Costa é uma pessoa competente e comprometida com as causas que acredita e defende. Mas espero que essa passagem de testemunho não seja somente mais uma estratégia populista. A sua falta de experiência na cena política não é o que mais me preocupa. É fundamental que a nova ministra tenha a legitimidade para exercer o seu poder e fazer as mudanças necessárias dentro das instituições do Estado, pois acredito que a ministra esteja consciente do marasmo em que se encontra a cultura. Embora seja um “super-ministério”, com um “mini-orçamento”, acredito que está nova geração seja capaz de dar uma nova vitalidade ao sector cultural.

A cidade de Luanda e os seus paradoxos aparece muito na sua obra. Nestas metamorfoses da cidade, qual foi a sua melhor Luanda? Ou como sintetiza as “Luandas” que sempre (des)construiu na sua obra? Aliás, a sua recente exposição (2019) “Concreto Blues” só foi mais uma pedra na sua forma de vislumbrar Luanda…

As cidades, para mim, sempre foram uma fonte inesgotável de inspiração. No caso de Luanda, é uma amálgama de sentimentos, que nos exige sermos meticulosos no uso das palavras para defini-la. É a cidade que considero ser o meu lar, mas, ao mesmo tempo, é uma cidade com os alicerces assentes em políticas de exclusão. O que existe de mais vibrante na vida cultural está exatamente nestas zonas de exclusão, a que chamamos musseques. Digo isso sem querer de forma alguma romantizar a vida nos musseques, pois quando falo em exclusão, falo também de miséria extrema. A Luanda do asfalto está culturalmente moribunda. As centenas de mega-edifícios devolutos e inacabados transformaram a cidade num parque de monumentos em homenagem à ganância. E era exatamente isso que pretendia abordar na exposição “Concreto Blues”, que realizei o ano passado na Jahmek - Contemporary Art. O incessante exercício para sobreviver numa cidade, que perversamente investiu mais do seu capital financeiro num betão inútil, do que no factor humano.

Especificamente, no cinema, qual é a relação directa (ou metáfora comum) entre a ideia do seu filme e a ideia do poema Havemos de Voltar, de Agostinho Neto?

No poema “Havemos de Voltar”, Agostinho Neto basicamente afirma que o homem africano, para se tornar efectivamente independente, teria que resgatar os seus hábitos e costumes de uma era pré-colonial. A curta-metragem que realizei, narrada por Aline Frazão, conta a estória de uma palanca embalsamada que pretende fazer uma viagem no tempo e regressar ao passado. Na memória, existe a imagem de uma floresta, como um lugar puro e celestial. Quando, finalmente, consegue realizar o seu desejo, acaba por regressar à floresta num passado não tão distante, que foi o período da invasão sul-africana. Existem várias narrativas sobre a África pré-colonial - desde um paraíso (uma narrativa muito recorrente nos discursos populistas em África), ou de um inferno, tal como foi descrita num dos maiores clássicos da literatura europeia, em “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad. Neste filme, o que pretendo é contestar essas duas versões, que tendem a ser extremistas, alimentando estereótipos e preconceitos, sem possuírem um fundamento histórico.

Foi na terceira edição do Fucking Globo que vimos a instalação-performance “Túmulo da Zungueira Desconhecida”, obra nascida da comunhão com Orlando Sérgio. Foi, abertamente, uma obra de consolo a essa classe dada por “heroínas anónimas” da nossa contemporaneidade?

Essa obra foi realizada quando uma zungueira foi letalmente atropelada quando fugia da Polícia. A imagem de uma mulher morta deitada no asfalto era extremamente chocante. E o facto de a imagem ter circulado, ter feito notícia, sem nunca se ter pronunciado o nome da vítima, foi o que motivou a criação deste “túmulo”. Em parceria com o Orlando Sérgio, fizemos uma recolha de vários poemas de autores angolanos, que enaltecem a figura das kitandeiras, hoje mais conhecidas como zungueiras, e pretendíamos confrontar com a imagem romantizada da vida destas mulheres no universo artístico em Angola. Seja na literatura, ou nas artes visuais, dificilmente retratam a crueldade com que estas mulheres são tratadas pelo sistema que nos governa.

O projecto Fucking Globo vai já na sexta edição, congregando diferentes sensibilidades das artes. Acha que esse projecto vanguardista conseguiu responder ao lema inicial de “From the people to the people...”?

Penso que sim. O Fuckin´Globo (FG) é uma plataforma inteiramente financiada pelos próprios artistas e por indivíduos que, desde o início, acompanham o projecto, e a entrada é gratuita. Temos como lema nunca trabalhar com o apoio institucional. Essa postura foi tomada para que possamos ter uma maior liberdade naquilo que apresentamos, em termos conceptuais e também estéticos. Além disso, como somos uma plataforma sem fins-lucrativos, ou seja, as obras concebidas não têm propriamente um fim comercial, isso fez com que muitos artistas arriscassem ainda mais a sair da sua zona de conforto. No final deste mês, o Fuckin´Globo fará parte de uma mostra de arquivos sobre colectivos de artistas independentes pelo mundo, no Centro George Pompidou. Essa mostra de arquivos estará incluída numa exposição em que fui convidado, intitulada “Global Resistance”. Nesta participação, o material de arquivo sobre os nossos eventos, que será apresentado, foi inteiramente produzido pelos artistas do FG, sempre com o intuito de preservar a nossa independência quanto a instituições e as suas imposições, que muitas vezes são baseadas em políticas de censura.

A olhar para o presente, para a contemporaneidade, como avalia o referencial “Icarus 13”, passados mais de dez anos da sua inauguração?

O “Icarus 13” é um projecto de ficção científica, que fala sobre a primeira viagem ao sol realizada em África, usando o então Mausoléu (Memorial Dr. António Agostinho Neto) em Luanda, como a nave. Realizei este projecto em 2008 e já foi exibido em 20 cidades nos quatro continentes. Isto para dizer que se tornou numa referência, quando se falava sobre a nova tendência da ficção científica em África. Sempre encontrei na ficção a maneira eficiente de poder interligar distintas temporalidades. Poder ter uma visão futurista, mas, ao mesmo tempo, questionando o passado. Esta capacidade de projectar o futuro, e o acesso ao passado, é, e sempre será, um imperativo para a emancipação do Continente Africano.

A sua obra, marcada por um discurso temático na questão da descolonização, tem grande aceitação na Europa. Do contacto com o seu público europeu, acha que a aceitação e prática da ideia da descolonização é somente do círculo intelectual, meramente para alimentar museus e academias, ou já se vislumbram sinais sólidos na moral destas sociedades?

Entre 2009 e 2012, fiz um projecto intitulado “Homem Novo”. Parte do projecto consistia em ocupar os pedestais vazios herdados do tempo colonial. Convidei pessoas que considero meus heróis culturais. Estátuas vivas que defendem valores com os quais me identifico, que refletem sobre questões como as liberdades pessoais. Hoje, temos assistido a um crescente movimento pelo mundo, que tem questionado os monumentos coloniais, muitos deles de figuras ligadas ao tráfico de pessoas escravizadas. A arte tem, às vezes, este poder de antecipar acontecimentos, que muitas vezes são considerados utópicos no momento em que são criados.

Numa entrevista, a propósito do Memorial de Homenagem às Pessoas Escravizadas, a ser construido em Lisboa, assevera que “não é um filme de Hollywood”. Detecta no europeu de hoje leviandade e passividade sobre o passado colonial, no qual se normalizaram, por séculos, a escravatura e os consequentes estereótipos de outras culturas? E o inverso, nos territórios africanos por onde passa, o que detecta sobre essa leviandade e/ou permissividade?
Alguns meses atrás, li na imprensa portuguesa que a União Europeia criticou os manuais de ensino em Portugal, pela leviandade com que se refere ao período colonial, e podemos somar a isso também a omissão. A construção deste memorial é acima de tudo um acto simbólico, que visa evitar que as pessoas caiam na amnésia colectiva, sobre um evento que moldou o mundo, pois sabemos que o mundo moderno foi fundado nos ombros de africanos escravizados. Em Angola, existe um problema em debater-se até onde os nossos antepassados foram cúmplices dessa barbárie. Temos um problema em olhar para a nossa história em geral. É difícil avançarmos, se não conseguimos encerrar os vários ciclos de violência que aconteceram. E para encerrar estes ciclos é necessário que haja abertura e coragem para o debate, mas com a intenção de sarar certas cicatrizes.

Em muitos casos, a obra pós-colonial/pós-modernista de um artista africano é pretensamente alinhada como “afrofuturista”. Hoje, no pós-independência/pós-modernidade, é obrigatório descomplexar tanto africanos como europeus. Não acha a denominação “afrofuturista” limitadora?

Já muitas vezes vi a minha obra ser apelidada como” afrofuturista”. Mas confesso que é um termo que me incomoda. Há trabalhos que fiz que considero ficção científica e ponto. Sinto, muitas vezes, que a nossa localização geográfica sobrepõe-se ao nosso processo criativo e conteúdo intelectual de forma contundente. Daí o uso excessivo do prefixo “afro”.

Com os seus trabalhos percebe-se imediatamente como o mundo segue ao encontro às suas visões ou as visões de um artista africano que engloba o mundo. Como reagiu a notícias como a da morte de George Floyd e às consequentes manifestações de negros nos Estados Unidos da América?

O racismo que se passa nos Estados Unidos é algo que considero do foro patológico. Mas não poderá haver uma cura se as pessoas não se considerarem doentes. Os sintomas que se têm manifestado - falo da violência e de uma justiça racialmente selectiva - são contínuos e tememos todos os que se tornem crónicos. Sou solidário com o movimento “Black Live Matters”. Mas devo dizer que este respeito exigido à vida negra pode e deve ser extensivo ao Continente Africano. Vivemos sobre uma estratégia de neocolonização, onde muitos líderes africanos vestiram as peles dos colonos. Por mais criativos que sejamos, e interventivos no nosso trabalho como artistas, a realidade será sempre mais efectiva na mudança de consciência.

Tenho fé na humanidade, apesar
da monstruosidade que ainda vemos

Apesar de ser hoje uma pergunta clichê, as repostas ainda surpreendem. No seu caso, ainda deposita fé na presumida sofisticação e sentido de civilidade do homem contemporâneo?

Sim, tenho fé na humanidade, apesar de toda a monstruosidade que ainda vemos acontecer a cada dia. Se não tivesse essa fé, provavelmente já não seria um artista. Há muita gente que vive com a nostalgia do passado, sempre a augurarem um suposto apocalipse. Estou consciente de muitos desafios que temos que enfrentar. Vivemos num mundo onde as imagens de toda espécie de violência tornaram-se o pão nosso de cada dia. Por isso, essa fé não alimentada por nenhum dogma resume-se na luta diária pela dignidade e respeito, daquilo que consideramos valores inalienáveis, quando falamos de humanidade. Felizmente, existe ainda muita gente disposta a assumir essa luta.

Um artista angolano em movimento pelo mundo. Fale-nos um pouco daquilo que mais lhe agrada quando está a rodar o mundo com Angola na bagagem?

Nem sempre levo Angola na minha bagagem. Já fui convidado a lugares para criar obras que reflictam sobre a realidade de determinados contextos e isso é um desafio que tenho imenso prazer de enfrentar. Já estive em muitas latitudes do planeta onde, por vezes, mais do que um artista, sentia-me como um curandeiro. Quando a criação está dependente de ouvir as pessoas, auscultar o que lhes move por dentro. Este acto de empatia é das coisas que mais me agrada. A obra de arte é só uma consequência deste processo que, logo a seguir à sua criação, passa a ter vida própria.

Há uma aberta discussão sobre a condição do artista. No seu olhar, enquanto parte integrante deste grupo, como interpretar hoje, em Angola, a condição social do artista?

A situação do artista hoje é extremamente preocupante, não só em Angola, mas em todo mundo. Vivemos da interacção com o público. É urgente que se criem políticas de apoio à classe artística. As pessoas nunca poupam palavras para dizer o quanto se orgulham de ser angolanas, mas poucas têm consciência de que os artistas, como principais protagonistas para manter essa matriz cultural viva, têm sobrevivido a várias crises num acto quase heróico. Esta pandemia só veio agudizar mais os problemas que já existiam e a negligência do Estado quanto à classe artística.

Sonhou-se bastante, e talvez já fosse tempo, com um Museu de Arte em Angola. Um museu de arte mudaria completamente o quadro? É honesto falar-se em circuito do mercado artístico, sem um museu que controle e coordene esse movimento?

Não cabe ao museu controlar e coordenar o mercado, embora possa ter uma grande influência sobre o mesmo, uma vez que pertencer à colecção de um museu é um dos mecanismos de legitimação dos artistas. O mercado artístico tem sido estimulado por iniciativas privadas. Acredito que a criação de um museu por certo iria estimular o crescimento do mercado da arte, pois muitos museus possuem colecções, com obras selecionadas por uma comissão de especialistas nesta área. Isto seria uma maneira não somente de preservarmos a nossa memória, mas também para que o Estado possa contribuir financeiramente e de forma responsável para o meio artístico, através da aquisição de obras.

Com a pandemia vincou a suposição de que o consumo do produto artístico é maioritariamente feito por estrangeiros. No fundo, o que acha que deve ser feito, a nível de revisão legislativa ou programas de acção do Ministério da Cultura, para que este cenário se inverta e possamos ter as famílias angolanas a consumir arte angolana?

A necessidade de consumir a arte é algo que tem a ver com a nossa educação, com a oportunidade de ter acesso às criações dos artistas. E este interesse tem que ser estimulado desde as gerações mais novas, para que esse cenário mude no futuro. Não basta criar leis. Temos uma elite que, mesmo quando viaja para Europa de férias, com a família, onde existem milhares de museus, passam mais tempo em centros comerciais. O Ministério da Cultura deveria trabalhar em estreita relação com o Ministério da Educação, para promover o acesso da arte nas escolas, editando livros ou até mesmo organizando visitas às exposições com os alunos, criando programas em que os artistas possam interagir com a classe estudantil. Penso que é importante que um jovem hoje conheça a obra de um artista como o Antônio Ole, dá mesma forma que se deu a conhecer os livros de um escritor como Pepetela.

Luanda ainda continua a ser o grande centro, encurralando quase todos artistas para este meio, tanto em vivência como em produção. Acha que a arte produzida hoje em Luanda é justamente representativa, em termos de fruição temática e noção global do país?

De maneira alguma. Embora Luanda tenha acolhido, durante todos estes anos e principalmente nos anos de guerra, pessoas de toda a parte do país, pela dimensão e a diversidade cultural, existem questões essenciais da nossa identidade que nos escapam nesta vida frenética da capital. A criação do artista também é um resultado do meio onde vive. Por isso, temos que ter em atenção a especificidade da linguagem artística e distintas narrativas nas diferentes regiões do país.

Foi Prémio Nacional de Cultura e Artes na edição de 2012. Desta data até hoje, sente o reconhecimento das instituições que tutelam a cultura em Angola?

O prémio em 2012 foi-me concedido porque, naquele ano, o critério era premiar um artista que estivesse com uma carreira internacional notável. Entre 2011 e 2012, tinha participado em quinze exposições internacionais, incluindo bienais e museus. Fiquei feliz também por receber uma carta, neste ano, da ex-ministra da Cultura, Maria da Piedade de Jesus, a felicitar-me por ter ganhado o projecto para criação do Memorial dos Africanos Escravizados em Lisboa. Mas devo dizer que nunca me importei em trabalhar à margem do reconhecimento das instituições. O reconhecimento que mais valorizo é o da comunidade de artistas e fazedores de cultura, com a qual tenho colaborado há mais de 20 anos. Contudo, estarei sempre aberto em contribuir com o conhecimento que fui acumulando durante estes anos para o melhoramento das instituições culturais.
No que toca às galerias, não são poucos os artistas que reclamam das cláusulas contratuais. Da sua experiência, como artista, como vê esta relação artista-galeria no nosso cenário actual e o que pode ser melhorado?

O aparecimento de galerias de arte comerciais em Angola é relativamente recente. Os artistas ficaram muitos anos a vender directamente, sem qualquer tipo de intermediação, e hoje é difícil para muitos deles cumprirem certas cláusulas contratuais, geralmente ligadas à exclusividade e à percentagem das vendas. Aconteceu o mesmo em Portugal, nos anos 80, e a solução que muitas galerias usaram naquela época era pagar um salário ao artista, afim de poder manter alguma fidelidade ao contrato. O artista que paga uma certa percentagem à galeria tem que exigir da galeria mais do que vendas, também uma estratégia da promoção do trabalho. É preciso estarmos atentos, enquanto os galeristas investem na nossa obra, para que seja uma relação equilibrada.

Há quem encontra pontos positivos na forma como a Covid-19 destapou os problemas e as diferenças sociais. Na sua visão, como artista em movimento pelo mundo, enxerga coisas boas?

Há várias lições que temos aprendido com este vírus. Uma delas é termos que olhar, cuidar da nossa casa, antes de partirmos para a conquista do mundo. Mas estes aspectos positivos só serão efectivos se tivermos a coragem de fazer mudanças substanciais no nosso comportamento, num cenário pós-pandemia.

Na quinta edição do Fucking Globo, vislumbrou-se a seguinte ideia num dos trechos do seu texto: “Contra Inteligência Artística - CIA”. Apesar de o mundo ir avançado em vários estádios e liberdades, acredita que a arte, no geral, ainda continua sujeita à censura?

Muitas vezes, quando os artistas expressam publicamente as suas opiniões, que por vezes ferem o poder estabelecido, a forma maldosa, mas também irónica de neutralizar a sua opinião, era conotá-los à C.I.A. O tal fantasma externo que muitos políticos e os seus fieis algozes ressuscitam sempre que necessário para se protegerem das críticas e julgamentos. Num país onde não se leva a sério a cultura em todas suas vertentes, não existe a necessidade de censurar a criação artística. Para quê censurar os livros, se ninguém os lê? Seja pela alta taxa de analfabetismo, ou pelo preço que custa um livro. Mas a indiferença e a negligência quanto ao estado da educação e da cultura não deixam de ser um mecanismo de censura, provavelmente um dos piores.

Parece que a Covid-19 interrompeu as agendas do seu calendário, que incluía passagens por Suíça, Bélgica, França, Inglaterra. Como ficou o acerto de uma série de actividades que estavam por acontecer na Europa?

Muitas ainda vão acontecer e outras reabriram no mês passado. Há projectos que foram adiados para o próximo ano. Mas não tomo isso como uma tragédia, o importante agora é que estejamos unidos para atravessar essa pandemia, sem que ninguém fique pelo caminho.

Por Luanda, o que tem feito neste tempo de confinamento e introspecção?

Ainda não tive tempo para introspecção. Mesmo com o cancelamento de algumas exposições, têm sempre surgido projectos para realizar, como foi o caso do último vídeo que realizei para o museu HKW (Haus der Kunst der Welt) em Berlin, intitulado “Dor Fantasma - Carta Aberta a Henry A. Kissinger”, que pode ser visto no website do museu. Aqui em Luanda tenho estado a trabalhar num novo projecto colectivo, um fundo de apoio à criação de curtas-metragens e divulgação do cinema, que se chama KinoYetu. Penso que é preciso reagirmos a letargia do confinamento, com os cuidados necessários, para não pôr em risco a nossa saúde. De resto, considero-me um boêmio antecipadamente reformado, na esperança que melhores dias virão.

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