Entrevista

"As crianças têm de viver felizes a sua infância"

João Dias |

O Arcebispo de Saurimo, D. José Manuel Imbamba, em entrevista exclusiva ao “Jornal de Angola” falou dos desafios da família na formação da personalidade da criança. Tudo começa no meio familiar, “enquanto fonte que robustece o diálogo sincero e a virtude”.

José Manuel Imbamba condena o trabalho infantil e a exploração sexual dos menores
Fotografia: João Gomes

D. José Manuel Imbamba condena todas as actividades que pretendem queimar etapas da vida de uma criança. E sobretudo condena o trabalho infantil, o tráfico e exploração sexual. “Temos de dar às crianças todas as condições para serem felizes”, afirmou. 


Jornal de Angola - O mês de Junho é dedicado à criança, que reflexão faz sobre este tema?

D. José Manuel Imbamba - Temos de garantir às crianças apreço e alegria. Os adultos devem reflectir sobre as suas responsabilidades sociais e sobre o esforço que somos chamados a fazer para criarmos as condições indispensáveis para que a criança cresça no bem, na virtude e tenha tudo aquilo que é necessário para que forme condignamente a sua personalidade e progrida na caminhada que vai fazer para que amanhã seja o adulto que a sociedade espera.

JA - A família está a cumprir o seu papel na formação harmoniosa das crianças?

D. JMI -
Sim. Mas há necessidade de empreender um esforço conjugado entre a família e a sociedade para que o amanhã seja melhor para o país. Mas para isso os pais devem assumir os seus verdadeiros papéis de geradores e educadores. Isto vai fazer com que a criança tenha um espaço físico e espiritual saudável que lhe favorece o crescimento harmonioso. O labor pela construção de uma humanidade sempre mais voltada para o bem da vida começa agora e dentro da família, enquanto fonte que robustece o diálogo sincero e a virtude.

JA - Há compromisso permanente dos pais em fazer dos seus filhos bons cidadãos?

D. JMI -
Não existem pais que queiram ver os seus filhos vergados pelo mal, pelo vício, por mais maus pais que sejam. Mas também é verdade que pai que é pai prima por oferecer ao seu filho valores nobres para que cresça com um carácter atrelada à moral e ao bem. Mas vivemos numa sociedade distorcida, que entrou no vício e exaltou a sexualidade simplesmente como consumo. O resultado está nos números aterradores de mães precoces.

JA – Qual é a sua maior preocupação neste aspecto?


DOM JMI – Nós, enquanto Igreja, estamos preocupados com a criança, pois a saúde da família, enquanto a sua primeira instituição de socialização está a ser afectada por situações perniciosas. Muitas famílias estão desagregadas. Como resultado, os pais não conseguem dar uma personalidade digna aos filhos, na medida em que nem eles têm algo a dar. Estamos perante uma doença social. Daí os desequilíbrios no acompanhamento, na formação, emancipação e inserção dessas crianças no mundo.

JA - Que sentido tem o “dar” nos tempos actuais?


D. JMI - O dar a que me refiro não se confina apenas à esfera material. Vai para lá disso. Deve ser sobretudo espiritual, moral e educacional. Há esse vazio, esse buraco que temos de corrigir. Caso contrário, o amanhã vai ser inseguro e incerto. Se a família fica destruída na sua base, a criança fica entregue a sua sorte, numa altura em que muitos pais empurram as crianças para uma vida adulta. As crianças têm de viver felizes a sua infância. E há muitas que não estão a vivê-la.

JA - O que lhes falta?


D. JMI - Existem crianças que são obrigadas a assumir trabalhos de adultos. Isso é um crime, uma irresponsabilidade grosseira e um antecipar de futuros e de queimar etapas. As crianças não devem ser chamadas a viver como adultas. Os pais devem viver a responsabilidade paternal e o verdadeiro papel de educadores. Entendemos que a educação primária aos pais pertence. As outras instituições não devem substituí-los.

JA - Que cidadãos  vamos ter amanhã?


D. JMI -
Espero que tenhamos bons cidadãos. É fundamental investir no hoje da criança. Se não o fizermos estamos a onerar o futuro e as consequências serão tristes. Se nós, enquanto actores sociais e instituições não reagirmos, é lógico que o futuro da nossa sociedade vai ser pobre, vazio, taciturno e sem compromisso de personalizar os cidadãos. Então teremos pessoas com aspecto de pessoas mas espiritualmente ocas. E quando isso acontece estamos perante seres sem ideais e sem rumo. Isso é perigoso.

JA - O que fazer?

D. JMI - Tem de se investir muito na família e nas escolas de base. É preciso dar o necessário às famílias, criando condições para que tenham o essencial para oferecer aos filhos. Mas mais do que isso, o fundamental está em desenvolvermos políticas que conduzam à consolidação do amor. É preciso que a família aprenda a não banalizar o amor e a não relativizar tanto o amor esponsal. Hoje, a sociedade tende a adoptar e a privilegiar a cultura do amor livre.

JA - É uma desventura?


D. JMI –
A sociedade privilegia o amor livre, as uniões de facto, num momento em que já se começa a legitimar a homossexualidade e tudo aquilo que atenta contra a integridade e dignidade da própria família. São modas culturais que temos que corrigir, enquanto é cedo.

 JA - Famílias estáveis são indispensáveis à criança?


D. JMI - A questão da família tem a ver também com a questão da segurança nacional. Se não se consolida a família é a própria segurança e os valores de patriotismo e consciência colectiva que são postos em causa. É necessária responsabilidade e muita ponderação em relação às políticas que queremos projectar para as nossas famílias. O Código da Família tem de ser bem trabalhado e assumido.

JA - Os 11 compromissos da criança dizem-lhe alguma coisa?
D. JMI - Dizem muito! Já dei os parabéns aos nossos governantes que assumiram essa questão com seriedade e fizeram dela a prioridade das prioridades. Penso que investir na criança é investir no bem da nação. Esses 11 compromissos vão ajudar-nos a ter um país saudável e bom. Mas isso implica uma responsabilidade grande para os adultos de hoje.

JA - Qual é a essência dos 11 compromissos?


D. JMI - Os 11 compromissos são uma resposta nossa, enquanto adultos, perante fenómenos que estão a levar a que muitas sociedades morram. Hoje há muito tráfico de crianças e de órgãos, há muita exploração sexual e de trabalho infantil. Investir na criança é investir no país que queremos ter e na qualidade dos cidadãos que desejamos para o futuro.

JA - Como socializar os nossos filhos numa sociedade de consumismo e individualismo?


D. JMI -
Estamos perante um desvio dos tempos actuais. Infelizmente a cultura global é uma cultura do consumo, do ter sobre o ser, uma cultura das coisas e da ditadura do dinheiro. Hoje, o dinheiro comanda as opções políticas e sacrifica ideais espirituais. Esta é uma tendência global e nós como país estamos dentro dela. Mas é preciso saber quem somos África está a ser alvo dos lixos culturais. O que é lixo noutros países, é moda e serve de alimento cultural em muitos países africanos. Imita-se quase tudo irreflectidamente.

JA - Estamos perante um cenário de catástrofe cultural?


D. JMI
- Obviamente. É fundamental voltar às nossas fontes, pois nas suas bases culturais está o espírito da vida, da solidariedade, da hospitalidade e da pedagogia do amor. O desvio dos tempos actuais empobrece-nos, ao mesmo tempo que facilita a desagregação da sociedade e da nossa própria família. A nossa cultura privilegia a riqueza da espiritualidade, mas hoje, ficamos muito pelas aparências. É preciso cultivar mais o interior da nossa vida e a nobreza dos nossos ideais.

JA - Tudo isso deve começar agora?

D. JMI - É nisso que a escola tem de bater mais para podermos assumir-nos como nós próprios e como protagonistas dessa aldeia global. Não podemos permanecer como simples consumidores.

 JA - O que temos para oferecer à criança?

D. JMI - Temos de trabalhar para podermos inverter o quadro perigoso que está a arrastar o mundo para a violência, ganância e as crises económicas e financeiras. Estas não têm na origem o esbanjamento de dinheiro, mas sim a doença da consciência das pessoas, que já não têm na base das suas acções uma ética saudável. Quando corremos ao ter, acumulam-se aspectos como a ganância, corrupção, cobiça e menos o cultivo do interior da pessoa.

JA - As crianças são socializadas nesse ambiente?

D. JMI - Isso é real. Hoje, o mundo é aberto. Existe a televisão que entra em nossa casa sem pedir licença. E a Internet. Infelizmente para muitos pais, educar é facilitar tudo aos filhos. Existem famílias que têm televisão nos quartos dos filhos e eles andam de canal em canal. Existem pais que não fazem o controlo na Internet. Infelizmente, as crianças são quase educadas pela televisão e a imitação surge inevitavelmente como consequência.

JA - Qual o papel das escolas na formação das consciências?

D. JMI -
A escola tem um papel importante. Mas infelizmente peca por olhar apenas para o aspecto técnico-científico. A formação das consciências passa para segundo plano. E consciência define a pessoa, permite que a criança por si mesma possa discernir o que é bom e mau, lícito e ilícito. Temos um emaranhado de situações menos abonatórias sobre as quais não devemos fechar os olhos.

JA - Estamos perante uma excessiva permissividade dos pais?

D. JMI - Não me parece. O que se passa é que os pais perdem o poder de acompanhar e estar presentes. O apelo que faço é que estejam mais presentes e abertos ao diálogo frutuoso e sincero, interajam com os professores e proponham o espírito de trabalho e de sacrifício, humildade, comedimento para que saibam que a vida não é de facilidades mas q exige trabalho, dedicação e sacrifícios. Assim vamos salvar o futuro.

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