Entrevista

"As feiras devem captar investimentos"

João Dias|

A Feira Internacional de Luanda (FIL) tem vindo a conhecer um incremento assinalável nos últimos anos. A tendência para inovar é crescente. Este ano, além das habituais, estão programadas feiras com os ministérios do Ambiente, Educação e Minas. Em entrevista ao Jornal de Angola, o presidente do Conselho de Administração da FIL, Matos Cardoso, disse que "as feiras devem ser um verdadeiro veículo para captação de investimentos".

Presidente do Conselho de Administração da Feira Internacional de Luanda Matos Cardoso
Fotografia: Dombele Bernardo

A Feira Internacional de Luanda (FIL) tem vindo a conhecer um incremento assinalável nos últimos anos. A tendência para inovar é crescente. Este ano, além das habituais, estão programadas feiras com os ministérios do Ambiente, Educação e Minas. Em entrevista ao Jornal de Angola, o presidente do Conselho de Administração da FIL, Matos Cardoso, disse que "as feiras devem ser um verdadeiro veículo para captação de investimentos". Entre as diversas áreas para investir, Matos Cardoso aponta o turismo de negócios como uma área a ter em conta. O cenário de caos urbanístico que envolve o recinto da Filda preocupa Matos Cardoso.

Jornal de Angola - O ano passado houve muitas feiras. O que está reservado para este ano?

Matos Cardoso –
Estamos a crescer em termos de iniciativas. Para este ano temos programadas 12 exposições e conferências. Pretendemos que as feiras sejam um verdadeiro veículo para captação de investimentos. Temos vindo a acompanhar o desenvolvimento sócio económico do país e achamos que chegou o momento de aproveitar as estruturas que foram construídas ao longo dos últimos anos, embora precisemos de mantê-las, atraindo mais investimento de qualidade, quer em volume, quer em tecnologias e know-how. Com a realização de feiras, pretendemos também tomar contacto com novos mercados, o que nos permite uma maior difusão do potencial de Angola.

JA – O calendário de feiras para este ano envolve Ministérios, porquê?

MC -
Isto faz parte da nossa estratégia de parcerias. No nosso contexto e dada a dimensão e complexidade do sector, é importante que haja um envolvimento institucional. Por isso, adoptamos como estratégia desde o ano passado estabelecer parcerias com os vários Ministérios, para irmos buscar apoio institucional que permita mobilizar empresários nacionais e estrangeiros, garantindo-lhes todo o apoio no processo de inserção no mercado angolano. É uma estratégia muito valiosa e os resultados têm sido bons, pois os empresários sentem-se estimulados pela presença institucional. Achamos que é importante que os empresários reúnam os requisitos exigidos pelo Executivo no âmbito do investimento em Angola.

JA – Os investimentos são de qualidade?

MC -
Muitas empresas que participam no processo de investimento em Angola tiveram o primeiro contacto com as empresas nacionais a partir da Filda. Pretendemos continuar a trabalhar nesse sentido e agora com mais selecção, buscando investidores que tenham de facto capacidade financeira para atender às necessidades de Angola. Precisamos de empresários sérios e experientes.

JA – Como avalia o desempenho do ano passado?

MC –
O ano passado foi excelente, pois concebemos e projectámos novos produtos. Felizmente foram todos bem sucedidos, com destaque para as feiras da Educação, da Moda e do Imobiliário. A Filda teve o seu maior crescimento no ano passado, o que se tornou visível em termos de dimensão e de qualidade. Toda esta acção visa prestar um melhor serviço ao mercado angolano. É importante que o mercado de feiras de Angola seja impulsionador de investimentos e que favoreça a criação de condições para que investidores de diversos países conheçam Angola como mercado para investir. Este é um cenário, que também ajuda a incentivar o turismo de negócios, uma actividade que em algumas capitais mundiais representa mais de dez por cento do seu Produto Interno Bruto.

JA – A requalificação operada no recinto da Filda é suficiente face às perspectivas de aumento de expositores?

MC –
De maneira alguma. A requalificação de infra-estruturas operadas no ano passado não satisfaz as nossas necessidades. Nesse momento, iniciámos o trabalho de cobertura dos pavilhões. Vamos  intervir nos acessos e estacionamento no parque de exposições. Todas estas mudanças são insuficientes para modernizar as nossas instalações e responder ao crescimento de expositores. Continuamos a insistir na necessidade de se construir um novo parque de feiras. Devemos tomar providências enquanto é cedo.

JA – A paisagem à volta da Filda é degradante e pouco urbana. Esse quadro não vos preocupa?

MC –
È com preocupação que olhamos para este estado de coisas. O cenário a nossa volta é triste e pouco urbano. Deixamos patente a nossa preocupação junto do Executivo, agora vamos esperar que as entidades encarregadas de solucionar a questão dos acessos à Filda, o façam, já que o cenário é deplorável.

JA – Além desta têm outras dificuldades que impedem o crescimento?

MC –
Não, a Filda não tem mais dificuldades. Estamos num contexto em que o mercado cresce com as dificuldades próprias de um país que passou por um longo período de guerra. Não podemos comparar-nos com outros parques de feiras internacionais. Estamos num processo de reajustamento de todas as estruturas nacionais. Apesar disso, sentimos que no processo de organização das feiras existe da parte dos expositores uma impressão positiva. Temos procurado prestar aos nossos clientes um serviço eficiente.

JA – Porque razão as empresas nacionais participam em número reduzido nas feiras?

MC –
Isso já foi verdade mas hoje o quadro mudou. O crescimento das empresas angolanas nas exposições é reflexo de parcerias, o que faz com que cresçam com qualidade. Elas estão sempre bem estruturadas em termos de exposições. São as empresas angolanas que neste momento expõem em grande número. Foi sempre nosso desejo mobilizar expositores estrangeiros, pois entendemos que o nosso mercado precisa de se desenvolver com entrada de mais investimento estrangeiro directo. As empresas angolanas participam nas feiras com produtos novos. Aquilo que não temos em termos de experiência, capital e tecnologia, buscamos através de parcerias. O nosso mercado precisa disso.

JA – Como avalia o investimento efectuado na Filda?

MC –
O ano passado fizemos um investimento para requalificação da FILDA e criação de novos produtos, avaliado em três milhões de dólares. Este ano, vamos continuar a projectar investimentos para construir dois pavilhões e esperamos começar em breve a sua construção. Caso se efective esta obra, vai ser um ganho para as feiras, pois ficamos com mais espaços disponíveis. Além disso, pensamos construir infra-estruturas complementares como armazéns e oficinas de manutenção. As instalações que eram ocupadas pela UPRA estão disponíveis a partir do final deste mês, o que vai optimizar ainda mais o espaço. Os nossos serviços vão ser reestruturados, de modo a ganharmos maior autonomia.

JA – Como vê o investimento estrangeiro em Angola?

MC –
O investimento estrangeiro está no bom caminho mas pode melhorar, pois há muito por explorar. Para isso, é fundamental que haja um enfoque das nossas acções no mercado internacional. Isto significa não esperar que os investidores venham a Angola. É preciso que sejamos nós a ir buscá-los nas grandes praças. Temos que explorar com mais profundidade os mercados do Brasil e dos Estados Unidos.

JA – E os mercados emergentes?

MC -
O mercado chinês não foi abordado com a dimensão que ele exige e, além disso, temos mercados europeus como o alemão e o britânico que precisam de ser abordados de outra forma.
Devemos ser nós a procurar directamente os investidores nesses países, levando uma informação clara sobre Angola. Precisamos de abordar melhor o mercado do Golfo Pérsico, que é um mercado com capital para investir em países seguros.
Acho que devemos incrementar as nossas acções para a busca de investimentos e isso significa não continuar a esperar que eles venham por meios próprios ou tomem conhecimento através de acções fortuitas.

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