Entrevista

BAI Cabo Verde segue as regras da União Europeia

Luisa Rogério

À primeira vista confunde-se com a matriz. O detalhe na sua logomarca desfaz o equívoco: o BAI Cabo Verde é uma entidade registada
e regulada no país. Logo, não é sucursal ou dependência. Tem identidade jurídica própria. Estabeleceu-se no arquipélago em 2008 com
 a missão de ser um banco de referência, percebido como o melhor parceiro de negócios procurado pelas oportunidades de desenvolvimento profissional e pela valorização do retorno gerado. Em dez anos ganhou inegável visibilidade. A presença na publicidade   tornou a marca bem conhecida. Há dois anos o banco inaugurou a sua sede. Tem cerca de vinte mil clientes e oito agências no país insular que conta aproximadamente com quinhentos mil habitantes. Os números são expressivos.
O banco “goza de boa saúde”. A garantia é dada por Carlos Bessa Chaves, presidente da Comissão Executiva do BAI Cabo Verde
em entrevista ao Jornal de Angola.

Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

Que relação existe entre o BAI Cabo Verde e o BAI Angola?
O BAI Cabo Verde é uma entidade regulada e registada em Cabo Verde, não é uma dependência de Angola. Nós somos regulados pelo Banco de Cabo Verde, o banco central. Portanto,  a entidade reguladora não é o BNA, mas sim o BCV, embora no âmbito dos acordos entre os países, e como temos capital angolano, o BNA também regula. A regulamentação do BNA também se aplica ao investimento de Angola em Cabo Verde, mas o banco aqui é totalmente regulado e supervisionado pelas autoridades de Cabo Verde. Nós seguimos as regras da União Europeia porque as regras bancárias em Cabo Verde são da União Europeia. Do ponto de vista contabilístico e de auditoria estamos mais próximos das regras europeias do que das regras que se aplicam, por exemplo, em Angola onde até há pouco tempo se aplicavam  ainda regras do Pontif (Plano de contas das instituições financeiras para elaboração dos relatórios de contabilidade), nós aplicamos a regra dos IAS que são regras internacionais de contabilidade. Portanto, nós seguimos  de facto regras, mas a transposição, como é um investimento de Angola em Cabo Verde, a parte angolana  no investimento segue a regulamentação do BNA.

Teremos mais investimentos angolanos aqui em Cabo Verde?
Sim, o investimento é aquilo que eu lhe mostrava. Para falarmos de alguns investimentos, temos um total de 320 milhões de euros de desembolso de crédito à economia de 2008 a Março de 2018.

Então o BAI está a operar em Cabo Verde desde 2008…
Sim, desde 2008 e a actual equipa de gestão está aqui desde Maio de 2011. O resumo da nossa trajectória mostra em 2008 a inauguração do banco e em 2009 o lançamento de algumas iniciativas. Após a nomeação do novo conselho de administração, houve o lançamento do Bai net, o internet banking  mobile banking. Em 2012 foi a alteração de Banco Africano de Investimento  para Banco Angolano de Investimentos. No ano seguinte  lançámos algumas campanhas, em 2014 inaugurámos a nossa sede em Cabo Verde e lançámos  o Western Union. Em 2015 fizemos e abrimos a agência da Assomada, que é o nosso Lubango aqui de Santiago. Não sei se passaram por lá, são terras altas com cerca de 1.200 metros de altitude. É um concelho onde todo o ano faz frio. Com a abertura, em 2016, da agência da Santa Maria, na Ilha do Sal, atingimos a nossa sétima agência. Actualmente estamos a fazer obras na oitava agência na ilha da Boavista.

Quantas agências o Banco tem na Cidade da Praia?
Aqui na Cidade da Praia são três agências, quatro no Mindelo (ilha de São Vicente) e uma na Ilha do Sal. Em 2017 tivemos então outra vez a alteração da denominação social, passámos para Banco BAI Cabo Verde. Adoptámos um novo logótipo ligado à nova marca. Estamos a fazer um processo de anulação de resultados negativos transitados. Ou seja , os resultados dos exercícios anuais que, no início do Banco, foram negativos. Cerca de dez milhões de euros negativos estão a ser anulados para que o capital próprio do banco seja todo positivo, não tenha o efeito dedutivo. Temos a registar também o lançamento das primeiras campanhas de marketing digital, as campanhas de produtos e serviços nós hoje usamos praticamente o marketing digital para as campanhas dos produtos e serviços. 

Que percentagem representam os 20 mil clientes do BAI no universo de clientes em Cabo Verde?
Só para ter uma ideia, o BAI Angola tem cerca de 800 mil clientes. Acontece  que Cabo Verde recebe anualmente cerca de 700 mil turistas, há 700 mil emigrantes   na diáspora e quinhentos e tal mil residentes. Destes quinhentos mil, pouco mais de vinte mil são nossos clientes. Portanto, são quatro ou cinco por cento da população.

Vinte mil clientes num país com cerca de 500 mil habitantes é um dado expressivo…
Sim, é um banco pequeno e novo, se nos compararmos, por exemplo, aos bancos BCA e à Caixa Económica, que têm mais de 40 anos em Cabo Verde. Este era antigamente denominado Banco Ultramarino. Nós também tivemos lá em Angola o Banco Nacional Ultramarino que funcionava nas instalações do Instituto de Formação Bancária (IFBA). O antigo Banco Nacional Ultramarino deu origem ao Banco de Cabo Verde. As suas operações, que eram comerciais, foram então transferidas para BCA há aproximadamente 43 anos, altura da Independência do país.

É possível fazer uma estimativa da taxa de crescimento da clientela por ano?
Nós estamos a crescer e os nossos clientes estão a crescer a um ritmo de 20 por cento ao ano. Isso quer dizer que em cada quatro e cinco anos nós duplicamos o número de clientes. Falando em número de clientes está aqui tudo detalhado: 446 emigrantes, 359 menores, 16. 836 particulares, 226 sociedades colectivas e outros 172. A presença do BAI Cabo Verde fica a dever-se às relações entre os dois países e ao interesse manifestado por Cabo Verde em ter um banco de origem angolana e capitais angolanos para ajudar a promover o desenvolvimento das relações mútuas e da economia cabo-verdiana. Os recursos em Cabo Verde são mais escassos e a capacidade de financiamento da economia era mais reduzida do que em Angola. Acrescentando poucos recursos aqui era capaz de fazer uma diferença significativa, porque a quantidade de recursos cabo-verdianos dedicados ao desenvolvimento da economia era muito limitada. De qualquer maneira, a promoção do ambiente económico e de negócios era feita pelo Banco Espírito Santo de matriz portuguesa. O Governo de Cabo Verde e as autoridades do país acharam importante ter um banco que não estivesse tão limitado e orientado às interrupções de financiamentos, além de trazer outras experiências em termos de gestão bancária e de promoções dos negócios em Cabo Verde.

Pode dizer-se que o BAI Cabo Verde rompeu com alguns paradigmas?
Tinha mais ou menos limitado a sua actuação a certos paradigmas e regras onde havia uma exclusão, mesmo que não fosse intencionada. Mas havia uma dificuldade de acesso ao financiamento por parte dos empresários e da população do país.

Visto de fora fica-se com a ideia de que o grosso dos clientes é constituído por empresas, mas vemos 16.886 particulares.
Sim, quer dizer que cerca de 75 por cento do negócio do banco é criado na relação com as empresas, embora fisicamente mais de 75 por cento dos clientes do banco sejam particulares, ou seja, pessoas físicas e não pessoas jurídicas.

Qual é a composição do Conselho de Administração?
Os membros do Conselho Fiscal são todos cabo-verdianos, embora o presidente seja angolano e cabo-verdiano. O António Querido dos Reis Borges é uma pessoa do Lubango que trabalhou no Lubango e também foi das Forças Armadas Angolanas. Aqui somos independentes e por isso obrigados a ter no Conselho Fiscal membros independentes. A maioria tem de ser independente.

Eleitos ou indicados?
São eleitos pela Assembleia Geral, mas propostos pelos accionistas. Por exemplo a Margarida Varela de Carvalho foi indicada pela Sonangol. É a única não independente, o que significa que não está ligada aos accionistas.

Os angolanos são todos residentes em Cabo Verde?
No Conselho de Administração somos dois angolanos e três cabo-verdianos.  Luís Filipe Lélis, presidente do Conselho de Administração (não executivo) e também presidente da Comissão Executiva do BAI Angola, não é residente em Cabo Verde. Todos os outros são residentes. A Assembleia Geral é presidida por Silvino da Luz que vive no Mindelo, Ilha de São Vicente. É um grande amigo de Angola, onde já foi embaixador e o defensor desta ligação. Foi ministro dos negócios estrangeiros de Cabo Verde e uma das pessoas que esteve na origem da promoção do banco em Cabo Verde, justiça seja feita. Alexandre Morgado é angolano e é o director da direcção jurídica em Angola.   Carla Monteiro, que trabalhou muito tempo em Angola como consultora, é cabo-verdiana. Eu, cidadão angolano, como disse, estou aqui desde 2011.

Qual é a estrutura accionista do BAI Cabo Verde?
A nível da estrutura accionista o BAI é o accionista maioritário com 80 por cento das acções. A Sonangol Cabo Verde detém 16,30 por cento. A SOGEI, empresa do sector de construção, engenharia e imobiliária é accionista cabo-verdiana com 3.26 por cento representada por Jorge Bessa Lima, que chegou a ser secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e embaixador no Senegal. As instalações da Sonangol estão no Sal. A empresa pode falar por si, mas aquilo que sabemos porque eles são nossos accionistas, é que são uma sociedade de investimentos constituída em Cabo Verde para promover negócios e entrar no capital de sociedades. Entraram no capital da ENACOL (Empresa Nacional de Combustíveis de Cabo Verde), no capital da TCV Telecom, no BAI e estão a criar o hotel Jasmim, para além dos negócios-chave. Em relação os números do BAI Cabo Verde chamo a atenção para os resultados líquidos. Em 2015 foram mais de 17 milhões, em 2016 foram 55 milhões, e no ano passado 75 milhões, esta última quantia equivalente a cerca de setecentos e cinquenta mil euros. Temos alguns produtos nos diversos segmentos, nomeadamente particulares, empresa emigrantes e investidores. Fazemos também campanhas de produtos.

Vejo aqui serviços que já não estão disponíveis em Angola. Quer comentar?
Nós emitimos  cartões de crédito, o Morabeza Standard e o Gold. Temos clientes angolanos que têm cartões nossos.

Mesmo residindo fora de Cabo Verde, um angolano residente em Angola pode abrir uma conta no banco e ter um cartão de crédito?
Sim, qualquer pessoa, sem precisar de vir a Cabo Verde. E não têm plafond de dois mil euros. Pode ter qualquer valor que consiga cobrir. Por regras do Banco de Cabo Verde o valor limite para transferência é nove mil, novecentos e noventa por operação. Caso contrário tem de fazer um pedido.

Emitem também cartões pré-pagos?
Temos o cartão Pré-Pago Cool, equivalente ao BAI Kamba. Há clientes com plafond de cinco mil euros ou mais. A moeda de Cabo Verde tem paridade com o euro, a nossa relação com a movimentação do euro é serena.

Resumindo, o BAI Cabo Verde está bem alicerçado ou essa visão é demasiado optimista?
Está de saúde. Cumpre as regras, está em conformidade com o Banco de Cabo Verde, não tem nenhuma multa, contravenção. Está em plena conformidade, é um banco que goza da confiança e simpatia dos clientes e das autoridades. Deve ter sentido, quando as pessoas falam do BAI dão boas referências. Este edifício que foi construído para ser a sede do banco disponibiliza espaços para outras entidades, principalmente empresas com componente internacional. 

Como é que se materializa a relação com o BAI Angola?
Com a presença de Luís Lélis como presidente não executivo do Conselho de Administração. Vem quatro vezes ao ano para as reuniões do Conselho de Administração. Como membro não Executivo do Conselho de Administração do BAI Angola, eleito em Assembleia Geral, participo nas reuniões em Angola da mesma maneira que o meu colega do BAI Europa igualmente como administrador não executivo. Assim, asseguramos que os assuntos prioritários para o grupo são tratados a nível do Conselho de Administração da casa mãe num fórum onde estão todos presentes.
Além da articulação e alinhamento temos os planos estratégicos do BAI Angola e o plano estratégico do BAI Cabo Verde que vai beber no primeiro os elementos críticos e fundamentais que nos permitem adaptá-lo à realidade cabo-verdiana. Do ponto de vista programático há esse alinhamento e a integração das pessoas nos órgãos de gestão administrativa. É preciso termos a noção de que, relativamente a regulamentação e supervisão bancária, as autoridades aqui são muito mais rigorosas e exigentes do que as autoridades em Angola. Digo isso pela experiência que tenho. Quando o Banco de Cabo Verde passa multas é na ordem dos milhões de euros.

Como é que foi a adaptação à realidade de Cabo Verde que, como disse, é completamente diferente de Angola?
Quando chegamos a Cabo Verde, em 2011,  Luís Lélis  é que veio connosco, estávamos num hotel onde havia administradores e pessoal de bancos portugueses. Eles perguntaram se tínhamos vindo de férias. Diziam que estava tudo fechado porque dominavam as coisas. Era esta a visão que tinham, em 2011, da nossa presença aqui. Nos primeiros anos, o Banco esteve à procura do seu caminho porque o plano de negócios criado para a sua instalação continha promessas muito altas e desfasadas. Tinha premissas, objectivos e pressupostos completamente fora do contexto.   David Jasse, o primeiro presidente que nós substituímos, e a equipa dele, procuraram fazer o melhor, mas encontraram muitas dificuldades. Viemos dar continuidade ao trabalho numa fase em que o ambiente sugeria que todos os espaços já estavam preenchidos.
Havia aqui quatro bancos detidos por capital português, designadamente o BCA, o Interatlântico, o Banco Espírito Santo que agora é Banco Internacional de Cabo Verde (BICV) e o BCN que era do Banif. Este acabou por sair quando houve a crise lá e a maioria do capital foi comprado por accionistas cabo-verdianos. Houve uma tentativa por parte do grupo económico do empresário português José Veiga de comprar o BICV, recusada pelo Banco de Cabo Verde que alegou a inexistência de garantia de uma gestão prudente. Depois o empresário foi preso em Portugal sob acusação de corrupção no comércio internacional e branqueamento de capitais. Havia ainda o Novo Banco, igualmente com capital português, pertencia ao BIC. Entrou posteriormente em resolução e fechou. Houve um caso que exemplifica as diferenças entre Angola e Cabo Verde, é o caso do BESA. O Espírito Santo em Angola era um grande banco, mas quando entrou em desequilíbrio por causa daquele problema de garantia bancária o Governo e a Sonangol injectaram dinheiro. Aqui o banco central de Cabo Verde nomeou uma equipa de resolução e acabou com aquilo. Com as disponibilidades indemnizaram algumas pessoas, os activos foram para o grande credor e  accionista, enquanto o remanescente foi integrado na Caixa Económica, mas não se manteve um banco em estado de falência ou resolução.
As diferenças devem ser respeitadas, mas no caso de Angola sabemos que o BESA, agora Banco Económico, continua a sua trajectória. Em Cabo Verde há um fundo de resolução, de garantia de depósitos. O mecanismo assegura que os depósitos até um milhão de escudos, equivalente a nove mil e tal euros sejam totalmente garantidos pelo fundo. O dinheiro é restituído aos depositantes em parcelas. A primeira deve acontecer logo depois e o remanescente dentro de um determinado espaço de tempo.
Em Angola não existe um fundo de garantia ou mecanismo de resolução de bancos. Há um mecanismo muito positivo para o crédito mal parado, que é presidido por Vicente Leitão, acho que é o crédito de recuperação que não há aqui. Cada país tem as próprias dinâmicas, arquitecturas e práticas. Em alguns casos Angola tem experiências melhores. Noutros casos, Cabo Verde tem experiências melhores. A verdade é que aqui estamos muito mais próximos da regulamentação europeia e internacional.

Que acções tem desenvolvido o BAI Cabo Verde no tocante a responsabilidade social?
As nossas acções no âmbito da responsabilidade social no quadro dos pilares da educação, saúde e desportos são viradas para os grupos vulneráveis com prioridade para crianças e os mais velhos. Temos um protocolo com a associação “BlackPanters” que trabalha com segmentos que vão da infância até a terceira idade. Apoiamos campanhas, com a Presidência da República, contra o consumo de bebidas alcoólicas.
A nível da educação, colaboramos com o “Eficácia”, um programa de muito sucesso  que conta com o apoio do Governo de Cabo Verde, entidades promotoras e organismos internacionais. Visa providenciar livros e mochilas para crianças em idade escolar. As parcerias institucionais dependem de projectos concretos.

 Factos e números do banco que mais cresce em Cabo Verde

O BAI Cabo Verde, dotado de identidade jurídica própria, foi constituído em 2008 com a missão de se converter em referência no ramo e oferecer a melhor experiência da banca em Cabo Verde. A sua estrutura accionista integra o BAI com 80 por cento das acções, a Sonangol Cabo Verde com 16,30 por cento bem como a SOGEI, empresa cabo-verdiana do sector de construção, engenharia e imobiliária que detém 3.26 por cento das acções. Quatros estruturas compõem os seus órgãos sociais, além do Auditor Externo. O Conselho Fiscal tem cinco membros, sendo três independentes, ou seja não indicados por nenhum dos accionistas.
O Conselho de Administração que integra cinco membros é presidido pelo angolano Luís Filipe Rodrigues Lélis, membro não Executivo. Carlos Augusto Bessa, igualmente cidadão angolano assume desde 2011 a função de Presidente da Comissão Executiva que incorpora mais dois administradores de nacionalidade cabo-verdiana.
O diplomata Silvino Manuel da Luz, que já foi ministro dos negócios estrangeiros de Cabo Verde e embaixador do país em Angola, preside a Assembleia Geral que tem como secretário o jurista angolano Alexandre Borges Morgado. Oito agências em três ilhas do arquipélago atendem cerca de vinte mil clientes no país insular que conta aproximadamente quinhentos mil habitantes. O Banco oferece produtos diversificados adequados ao segmento que compreendem clientes particulares, investidores externos, sociedades colectivas e emigrantes, estes últimos estimados em quase 450. Oitenta e cinco colaboradores, dos quais 42 mulheres e 43 homens formam a equipa de trabalho do Banco que chama a si o desafio de ser o melhor parceiro de negócios em Cabo Verde, país que segue as regras bancárias da União Europeia.

Tempo

Multimédia