Entrevista

Bernnard Membe fala da integração

Faustino Henrique|

O ministro tanzaniano dos Negócios Estrangeiros, que ontem terminou uma visita a Angola, concedeu uma entrevista ao Jornal de Angola, durante a qual falou da cooperação bilateral e das infra-estruturas rodoviárias, ferroviárias e aéreas como ferramentas decisivas para a integração regional.

Bernnard Kamillius Membe defende o diálogo como via para a solução do diferendo fronteiriço com a vizinha República do Malawi
Fotografia: Mota Ambrósio

O ministro tanzaniano dos Negócios Estrangeiros, que ontem terminou uma visita a Angola, concedeu uma entrevista ao Jornal de Angola, durante a qual falou da cooperação bilateral e das infra-estruturas rodoviárias, ferroviárias e aéreas como ferramentas decisivas para a integração regional. Bernnard Kamillius Membe considerou a SADC como a mais bem-sucedida experiência de integração comparativamente às outras comunidades no continente africano. Membe defende o diálogo como via para a solução do diferendo fronteiriço com o Malawi.

Jornal de Angola - Como avalia a cooperação entre a Tanzânia e Angola?

Bernnard Membe -
As relações são excelentes e datam desde o período da luta anti colonial. Ultrapassado que está o período de guerra, durante o qual tínhamos encerrado a nossa missão diplomática, trabalhamos neste momento para reabrir a nossa embaixada em Angola.

JA - Os laços económicos e comerciais são bons?

BM -
As trocas comerciais são ainda exíguas. A nossa aposta, que éigualmente a aposta angolana, é a construção de infra-estruturas a todos os níveis para facilitar a rápida ligação entre os dois países. Penso que esta é uma das coisas que falta para impulsionar a cooperação e facilitar uma maior movimentação de pessoas e bens entre os dois países. Trabalhamos para que as linhas aéreas da Tanzânia, que se encontram num processo de aquisição de novos aviões, possam estabelecer ligações aéreas directas com Angola.

JA - Em que áreas Angola e Tanzânia podem cooperar?

BM -
Na área de negócios, os nossos dois países podem tirar proveito da interacção dos seus homens de negócios. A Tanzânia quer aprender a experiência angolana no campo da exploração de petróleos e gás, que tencionamos fazer no oceano Índico. Na área das minas, temos também o maior interesse em cooperar. O Caminho-de-Ferro de Benguela está a funcionar e em breve chega à Zâmbia. A Tanzânia também tem ligação ferroviária com a Zâmbia e todas estas infra-estruturas vão ligar os três países. É um grande passo para a região.

JA - Como vê o processo de integração na SADC?

BM -
Estamos satisfeitos com a presidência angolana pela aposta feita, porque consideramos o desenvolvimento das infra-estruturas como factor determinante na aceleração do processo de integração. Entre os grandes desafios da SADC, continuam o desenvolvimento das infra-estruturas para viabilizar a acelerar a ligação entre os países da região. O processo de construção das infra-estruturas é fundamental para envolver as populações no processo de integração regional. Pretendemos pôr fim aos casos frequentes a que assistimos em que países dentro de uma mesma comunidade optam pela aquisição de produtos originários da comunidade fora dos países comunitários.

JA - Pode dar um exemplo?

BM -
A Tanzânia não deve comprar diamantes na Europa ou América quando pode comprar directamente os diamantes de Angola. A SADC está a ser bem-sucedida na inversão deste quadro, na medida em que promove o comércio, a indústria, o investimento e o turismo na região. Temos de ser capazes de potenciar o comércio entre os 400 milhões de pessoas da nossa comunidade.

JA - O que está a ser feito a nível da paz e estabilidade na região Austral?

BM -
Neste aspecto, estamos muito avançados, porque há um trabalho para a criação de uma força regional e pretendemos evoluir para uma situação em que um ataque a qualquer um dos membros da SADC signifique um ataque a todos. Os trabalhos estão a decorrer e nos próximos tempos a comunidade vai dispor de meios adequados para prevenir conflitos e garantir a estabilidade. Entre as oito organizações regionais em África, a SADC é exemplar em termos de organização, construção e expansão das infra-estruturas, comércio, investimento, turismo e agricultura.

JA - Como está a ser gerido o diferendo fronteiriço entre Tanzânia e Malawi?

MB -
Eu faço parte da comissão bilateral criada e cumpre-me fazer aqui alguns esclarecimentos. A Tanzânia partilha com o Malawi uma fronteira fluvial, que por sua vez o faz com Moçambique. O lago é o factor de ligação. O problema radica no facto das autoridades do Malawi defenderem que no lado da fronteira com a Tanzânia, o lago pertence totalmente ao Malawi, enquanto do   lado da fronteira com Moçambique há uma partilha. Quando questionados porque é que defendem que o lago é inteiramente pertença do Malawi, fazem referência ao Tratado Anglo-Germânico, de 1890.

JA - Invocam as partilhas entre potências coloniais?

MB -
O documento assinado entre Inglaterra e Alemanha também faz referência à necessidade de revisão das fronteiras fluviais entre os dois territórios, facto que se comprovou por altura da independência, quando os britânicos repuseram as linhas fronteiriças. As autoridades do Malawi rejeitam isso. É preciso reter que os dois povos viveram sempre em paz e harmonia, até que no ano passado começámos a notar movimentações do lado do lago que pertence à Tanzânia.

JA - Como reagiu a Tanzânia?

MB -
Convocámos as autoridades do Malawi para explicações sobre a presença de navios do nosso lado, ao que alegaram que as embarcações podiam continuar a fazer os trabalhos porque se encontravam dentro do território do Malawi. Alegra-nos o facto das autoridades malawis concordarem que enquanto decorrem as conversações os trabalhos de prospecção devem cessar e julgo que tudo se vai resolver pacificamente.

JA - Que papel desempenha a Tanzânia na estabilização dos Grandes Lagos?

MB - A Tanzânia tem sido uma das plataformas relevantes para a estabilização e pacificação da região dos Grandes Lagos. O antigo presidente tanzaniano, Benjamin Nkapa, faz parte da equipa de mediadores da União Africana. Tivemos sorte, porque os esforços de mediação surtiram os efeitos que todos conhecemos, embora hoje notemos algumas preocupações. Continuamos a instar os Governos da República Democrática do Congo e do Ruanda a resolverem amigavelmente as disputas que existem. O empenho da SADC tem sido positivo porque não devemos esquecer que a RDC é Estado membro com plenos direitos.

Perfil de Membe

Nascido em 9 de Novembro de 1953, Bernnard Kamillius Membe é ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional do governo da Tanzânia desde Janeiro de 2007.
Membe foi analista de segurança nacional no Gabinete do Presidente no período de 1977 a 1990 e trabalhou no Ministério de Relações Exteriores de 1992 a 2000. Foi eleito deputado à Assembleia Nacional da Tanzânia nas eleições de 2000 e nas eleições de 2005 pelo partido Chama Cha Mapinduzi (CCM). Foi vice-ministro de Assuntos Internos, antes de ser nomeado vice-ministro de Energia e Minerais em 15 de Outubro de 2006.

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