Entrevista

Café ganha força entre as exportações angolanas

Helma Reis |

No âmbito do programa de diversificação da economia angolana, o Executivo tem criado diversos projectos e apostado em diferentes sectores, para reduzir o défice resultante da queda do preço do petróleo. O café, que já foi das fontes de rendimentos, volta a ser uma das apostas. Uma das provas deste interesse é o Instituto Nacional do Café de Angola (INCA), que lançou um programa para triplicar a produção cafeeira nacional. Tendo em conta estes desafios e o facto de Angola ter sido o quarto maior exportador deste produto, a nível mundial, o Jornal de Angola entrevistou o director-geral da instituição, João Ferreira Neto, para saber quais as expectativas e iniciativas preparadas para dar “vitalidade” ao sector.

João Ferreira da Costa Neto disserta sobre as expectativas e iniciativas do sector
Fotografia: M. Machangongo

Jornal de Angola – Dados divulgados apontam para a produção de 12 mil toneladas de café em 2015, ou seja, 20 vezes inferior à de 1974. Além da guerra, que outros factores estiveram na base dessa queda?

João Ferreira Neto
– De facto, em 1974, Angola chegou a exportar mais de 250 mil toneladas de café comercial, ao passo que, em 2015, tivemos uma produção de cerca de 10 mil toneladas, o que quer dizer que estamos a produzir menos de dez por cento da produção colonial. Um dos factores que contribuíram para a baixa produção do café foi a guerra, que atingiu em maior proporção as zonas cafeícolas. 

Jornal de Angola – Que outros factores estão associados à base da baixa de produção de café?

João Ferreira Neto 
–  A mudança do esquema produtivo, porque, no período colonial, o café era produzido num esquema que quase roçava o serventilismo, ou seja, eram “contratados”, que saiam do Sul para o Norte de Angola, onde produziam o café. A mudança da exploração levou a uma redução drástica da mão-de-obra. Por outro lado, durante muito tempo, a produção do café não foi tida como uma das prioridades do Estado.

Jornal de Angola – Pode sustentar essa afirmação?

João Ferreira Neto
  – Alcançada a paz, em 2002, a prioridade era dar de comer às pessoas e a aposta incidiu fortemente na produção de milho, mandioca e feijão. O café passou a ser uma cultura de rendimento com preços baixos. Por conseguinte, teve um arranque mais lento. Mesmo assim, com o apoio do Executivo, em 2002, tínhamos uma produção de café de três mil toneladas por ano. Em 2015, estávamos com uma produção de 12 mil toneladas por ano. E, em 2016, se calhar, teremos mais de 17 mil toneladas. 

Jornal de Angola  – A que se deve este avanço?

João Ferreira Neto  –
Até ao ano passado, a exploração de petróleo possibilitava uma maior arrecadação de divisas. Não havia uma aposta na diversificação tão forte da economia, como acontece actualmente. Hoje, o café tornou-se mesmo um negócio. Por exemplo, o quilo de café passou de 50 kwanzas, em 2015, para valores que rondam os 150 e os  200, em 2016. Portanto, o café passou a ser mesmo um negócio.

Jornal de Angola  – Que outras mudanças emergiram face à procura pelo café?   

João Ferreira Neto
– Muitas das fazendas que não eram cultivadas passaram a sê-lo. No quadro do programa dirigido de aumento da produção e promoção do café, acredito que teremos bons resultados.

Jornal de Angola – O INCA tem procurado fomentar a produção familiar do café com o fornecimento de plantas. Que resultados foram obtidos até agora?

João Ferreira Neto
– Há um programa de aquisição e distribuição de meios para o ano agrícola 2016-2017, que foi recentemente aprovado pela Comissão para Economia Real do Conselho de Ministros, que orienta o Instituto Nacional do Café a produzir cerca de 25 milhões de mudas de café. Foi aprovado cerca de um mil milhão de kwanzas para a efectivação do programa.

Jornal de Angola – Que perspectivas existem?

João Ferreira Neto
– Se esse dinheiro for disponibilizado no próximo ano, teremos cerca de 25 milhões de mudas de café, o que significa que teríamos um aumento em mais de quinhentos a mil hectares de café com boa plantação. O Instituto Nacional do Café sempre trabalhou na produção de mudas, que não se restringe ao sector familiar, mas abrange pequenas, médias e grandes empresas. Importa referir aqui também o engajamento de alguns governadores provinciais, nomeadamente de Benguela, Cuanza Sul e do Bié, que também apostaram no fomento da produção de mudas de café em alguns municípios.

Jornal de Angola – A cafeicultura exige uma força de trabalho enorme e permanente. Aponta-se como saída a mecanização. É um caminho seguro?

João Ferreira Neto
– De facto, o sector do café absorve muita mão-de-obra. E o que se pretende transmitir aos empresários do sector do café é a adopção de uma agricultura dual, ou seja, não convém ter uma agricultura intensiva em capitais, que é chamada de agricultura minimizadora de mão-de-obra. O que temos de procurar é a rentabilidade do processo reprodutivo. Por exemplo: se eu emprego dez pessoas e conseguir tirar lucros para pagar vinte, então, posso empregar dez pessoas porque esta história de que não há mão-de-obra não é verdade até porque, no sector familiar, a mão-de-obra é da família com algum complemento nos pedidos de conta.

Jornal de Angola – Quais são as zonas onde a introdução da mecanização pode ser um facto?

João Ferreira Neto
– Para as regiões do planalto central, onde encontramos os municípios da Ganda, Andulo, Nharea, Cassongue, no Cuanza Sul, Mussende, Caluquembe, Caconda, Chicuma e em alguns pontos na província do Huambo, Cuanza Norte, Uíge e Bengo, é possível a introdução de uma componente de mecanização, o que não acontece nas zonas muito montanhosas, onde a cafeicultura é feita com a utilização de muita mão-de-obra.

Jornal de Angola – Encontrámos algumas referências díspares em relação às receitas obtidas pelo país com a exportação de café nos últimos anos. Gostaríamos que nos pontualizasse a esse respeito.

João Ferreira Neto –
Muito do nosso café saía do país sem a devida fiscalização das autoridades, tudo porque as nossas fronteiras são muito permissivas. Só para se ter uma ideia, em 2013, foram arrecadados cerca 650 mil dólares com a exportação do café para, em 2015, os resultados rondarem cerca de dois milhões de dólares saídos de Luanda. Neste caso, verificou-se uma variação de 52 por cento de 2014 para 2015. Felizmente, hoje, com a Administração Geral Tributária, o controle é cada vez mais eficaz nas fronteiras do Luvo, Maquela do Zombo, Cunene e Porto de Luanda, bem como naquelas zonas que estão no limite da exploração do café, de onde o produto saía em pequenas quantidades para outros países.

Jornal de Angola – Acredita que, com a rigorosidade na fiscalização, o número de exportações do café pode aumentar?

João Ferreira Neto
– Acredito que, com a forte procura do café que se tem vindo a registar, e devido à carência de divisas e à diversificação da economia, o número de exportações pode aumentar para dez milhões de dólares, isto é, se afinado o mecanismo de controlo nas principais fronteiras e portos.

Jornal de Angola – Os preços do café no produtor têm registado ligeira subida. É uma tendência natural do mercado ou há subsídios do Estado nesse sentido?

João Ferreira Neto 
– Devido à escassez de dólares no mercado e não só, este ano, a procura do café é maior. O preço mínimo do café mabuba, que é comercializado com casca, varia de150 a 250 kwanzas, o café arábica também está a ser vendido a 250 e para o café comercial, que é o descascado, os preços variam entre os 400 e 500 kwanzas o quilo. Os preços triplicaram de um ano para o outro e isto anima o produtor, tanto que hoje se verifica certa dificuldade em encontrar-se café porque alguns comerciantes passaram a fazer crédito de colheita, isto é, pagam a colheita antes mesmo de o produtor colher. Isso é muito bom. O café deixou de ser um negócio de tradição para ser um negócio de facto, onde todos ganham, quer os produtores, quer os intermediários e exportadores.

Jornal de Angola – Quais são os principais importadores do nosso café?

João Ferreira Neto  –
O café angolano começa a chegar até aos Estados Unidos. Vai para Espanha, Alemanha, França, Itália, Portugal, Holanda e Líbano. Hoje, há uma grande pressão do Médio Oriente. A Rússia também começa a pressionar o café angolano. Temos pouco café para o mercado internacional, mas, com o programa do Executivo, que tem como objectivo o aumento da produção do café, e com a programação de afectação de meios, a médio-prazo, o sector do café pode ressurgir.

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