Entrevista

Campeão invicto de artes marciais no pódio mundial

Honorato Silva |

Demarte Pena, jovem angolano nascido na Jamba, Cuando Cubango, é um dos nomes mais respeitados do UFC, artes marciais mistas da África do Sul.

Fotografia: Jornal de Angola

Campeão invicto, depois de 11 combates, o guerreiro de 26 anos, filho de Arlindo Pena e Mavilde Dachala, sonha com os grandes palcos da modalidade a nível mundial. Destemido, almeja avançar já em Maio para as arenas dos Estados Unidos da América, convicto de que vai continuar a hastear a bandeira de Angola no topo. Em Novembro esperava defender o título em Angola, por ocasião dos festejos dos 40 anos de Independência Nacional. Mas não perde a esperança de um dia combater diante dos seus compatriotas. 


Jornal de Angola – Como veio parar a esta modalidade?

Demarte Pena
– Cheguei à África do Sul em 1999, com a minha mãe e os meus irmãos. A paixão por este desporto começou quando ainda frequentava o ensino médio. Encontrei-me com angolanos que também praticavam artes marciais. Uns treinavam karaté, outros judo e jiu jitsu. Como angolanos, sempre ficamos entre nós. Existe esta tendência quando estamos longe da terra. Assim, decidimos no nosso seio começar a aprender artes marciais mistas. Que é a mistura de boxe e jiu jitsu, para formar um atleta completo. Como já tinha feito muay thai, jiu jtsu e um pouco de luta greco-romana, assim começou o meu interesse pelas artes marciais mistas.

Jornal de Angola – A vinda para a África do Sul foi uma decisão da família?

Demarte Pena – Sim. Naquela altura o país ainda estava em guerra, isso em 1999. Aí a minha mãe e outros familiares acharam que seria melhor vir estudar aqui, sobretudo pela facilidade de aprender o inglês. Assim acabámos por vir para cá.

Jornal de Angola – Em que ano começou a praticar e depois a competir no UFC?


Demarte Pena – Comecei a competir no UFC em 2011. Isso em Fevereiro. Na altura ainda estava em Pretória. Treinava num ginásio não muito profissional como o Gym Fight Fit Militia, que é o melhor de artes marciais mistas em África. Lá treinava com amigos. Ainda não era bem profissional. Era mais um ginásio amador. Depois houve a oportunidade de me tornar profissional. Decidi experimentar, até porque já treinava há bastante tempo.

Jornal de Angola – E como foi o primeiro combate?

Demarte Pena
– Avisaram-me do combate numa terça-feira, para combater na quinta-feira. Não tive muito tempo para me preparar. Normalmente, levamos dois a três meses de preparação. Mas, como sempre treinei todos os dias, só tive um dia para me preparar mentalmente para a luta. Precisavam de alguém para lutar nos 61 quilos, peso pena. Eu já lutava como amador, onde não pagam para combater. Graças a Deus, venci o combate em 52 segundos, no primeiro assalto. Depois disso, tive outra luta em Abril, frente a um congolês. Voltei a vencer. A minha terceira luta foi a do título. Estou desde Setembro de 2011 até agora sempre campeão.

Jornal de Angola – O que o levou a sair de Pretória?

Demarte Pena
– Em 2012 saí daquele ginásio. Na altura já estudava na Universidade de Pretória, Gestão de Empresas. Mas treinar e estudar era muito difícil. Não treinava por completo, nem estudava. Aí tive de decidir entre estudar e combater. Decidi vir para Joanesburgo, sem ter onde ficar, quando lá vivia com os meus irmãos.

Jornal de Angola – Teve de ser acolhido por amigos em Joanesburgo?

Demarte Pena – Não, quando cheguei passei a viver mesmo aqui no ginásio. Ficava toda a semana aqui e no sábado regressava a Pretória, para junto dos meus irmãos. Era muito difícil ficar aqui. Depois dos treinos todos iam para casa e eu continuava aqui, no mesmo sítio onde treinava, comia e dormia. Era complicado. Dormia mesmo aqui, ao lado de uma gaiola, na cama de massagem. Era eu quem fechava o ginásio. Fiquei aqui no ginásio oito meses. E já era campeão.

Jornal de Angola – Mas era campeão a que nível?

Demarte Pena – Na altura, o UFC era África. Só tinha lutadores africanos. Agora é mundial, com destaque para os Estados Unidos da América. Era campeão do UFC África dos 66 kg. Isso em 2011. Fui campeão pela primeira vez no dia 1 de Setembro. O ginásio em Pretória não era o melhor sítio para mim. Não havia outros campeões ou lutador profissional. Eu era o único. Treinava com amadores, por isso, decidi mudar para este ginásio, que é o melhor de África.

Jornal de Angola – Chegado aqui campeão, começou a competir logo?

Demarte Pena – Fiquei a treinar quase um ano sem lutar, para melhorar as minhas qualidades. Em Pretória treinava e dava treinos, facto que tornava muito difícil a minha evolução como lutador. Aqui não tinha um frigorífico ou uma cama. Não tinha nada. Uma realidade muito diferente da que vivia em Pretória com os meus irmãos.
Era muito difícil. Não tinha patrocinadores. Nesta modalidade só te pagam quando lutas. Não tens um salário ou algo assim. Se não lutas, não te pagam. Quando não tens este suporte, um patrocinador, é muito mais complicado.

Jornal de Angola – Qual foi a solução encontrada para alterar este quadro?

Demarte Pena – Este foi o meu maior problema. Mas depois de um tempo consegui juntar clientela aqui. Comecei a dar aulas de artes marciais mistas e ginástica, o que deu para fazer algum dinheiro. Depois tive a minha quarta luta, para a defesa do título dos 66 kg. De 2011 até ao ano passado defendi sempre o título. Aqui neste ginásio tinha outro lutador, o Boyd Allen, na minha categoria, que também estava invicto. Mas não podíamos lutar, por sermos do mesmo ginásio. Por ele ser maior do que eu, decidimos baixar o meu peso para os 61 kg. Neste momento estou com 73 kg, mas quando tiver de combater terei de fazer dieta para baixar o peso. O lutador não vive no peso em que luta. Está sempre acima. O importante é estar dentro do peso no dia da pesagem.

Jornal de Angola – Qual a vantagem de estar com um peso acima do seu adversário?

Demarte Pena
– Tem muita vantagem. Por exemplo, no combate em que conquistei o título dos 61 kg, defrontei um sul-africano que no dia do combate estava nos 65 kg e eu nos 69. Isto ajuda a encaixar os golpes, sobretudo na luta corpo a corpo. Mas se o atleta corta muito o peso, também fica com o desempenho comprometido. Fica com fraca capacidade de resistência.

Jornal de Angola – Está com quantos combates disputados?

Demarte Pena – Neste momento tenho 11 combates e estou invicto. No peso 66 tenho cinco defesas do título. Nos 61 kg tenho duas defesas. Fui o primeiro indivíduo de raça negra e o primeiro não sul-africano a ser campeão. Detenho ainda o recorde de campeão mais jovem. Tinha na altura 21 anos. Sou também o atleta com mais vitórias consecutivas, por isso sou considerado o melhor lutador de UFC.

Jornal de Angola – Qual o segredo para se manter tanto tempo invicto?


Demarte Pena
– Acho que o segredo é sempre pensar que a próxima luta é a mais importante, porque as vitórias do passado fazem parte da história. Não ajudam para o combate de amanhã. O meu objectivo é sempre trabalhar mais para a próxima luta. É por isso que me mantenho no topo até agora.

Jornal de Angola – O que o guia do ponto de vista espiritual quando está na gaiola?

Demarte Pena – Acredito em Deus. Mas Deus é para todos, por isso, só rezar não basta. Trabalho com muito afinco e também tenho uma enorme vontade de ganhar, coisa que falta a muita gente. Não importa o que acontecer, no final do combate vou ganhar – é assim que penso. O lutador não pode entrar para a gaiola com dúvidas. Fica logo derrotado. Aquilo não é como no futebol, em que se o Cristiano Ronaldo não jogar bem, o colega ajuda. Se as coisas não estiverem a correr bem, o lutador é único que pode mudar as coisas. Gosto de inspirar outras pessoas de que tudo é possível. É isso que mais me motiva.

Jornal de Angola – Na sua estratégia de combate aposta mais em que áreas do jogo?

Demarte Pena – No princípio da carreira apostava muito no judo e jiu jitsu. Tive muitas vitórias, pois tinha sempre vantagem quando a luta fosse para o chão. Muitos não têm tanta força. Faço muito treino de peso explosivo, de modo a ser mais rápido e ter melhor resistência. Essa é a minha grande vantagem em relação aos adversários que são maiores mas não têm mais força.

Jornal de Angola – Aposta sempre na mesma estratégia para vencer?

Demarte Pena
– Toda a luta é diferente. Defrontei adversários que também são muito bons no solo. Quando defendi o título dos 61 kg pela primeira vez, defrontei um lutador que é muito bom no chão. A vantagem era manter a luta em pé. Consegui derrubá-lo no quarto assalto. O lutador não pode ser bom apenas num área do jogo. O meu próximo passo é melhorar a minha luta em pé.

Jornal de Angola – Disse que trabalha muito a resistência. Será a pensar na eventualidade de chegar ao último assalto?

Demarte Pena
– Para mim, não é boa ideia tentar resolver o combate logo no primeiro assalto. Prefiro estudar o adversário. Preparo um combate durante três meses. Nos primeiros dias analiso os seus combates, para estudar os seus pontos fortes e onde comete falhas. Depois disso, não vejo mais nenhum vídeo. Quando nos fixamos muito no adversário, acabamos por ficar com medo. Também não vejo os combates em que o adversário ganhou. Prefiro ver as derrotas. Se nunca perdeu, então assisto ao combate em que teve mais dificuldades.

Jornal de Angola – A prática deste desporto é resultado de alguma influência do passado. Na infância praticou algum desporto?

Demarte Pena – Joguei futebol com os meus amigos. Antes de vir para aqui fiz um pouco de karaté e judo em Luanda, com o propósito de aprender a defender-me. Nunca cresci a pensar que seria um lutador.

Jornal de Angola – Tem na família alguma tradição guerreira?

Demarte Pena – Em termos de artes marciais tive um tio, Esteves Pena, que também praticou karaté. No campo político é a história que todos conhecem. Mas se isso influenciasse, então haveria mais lutadores na minha família. As artes marciais, na verdade, são uma paixão minha. Em criança era muito traquina.

Jornal de Angola – Quais são os seus planos de carreira a nível mundial?

Demarte Pena
– O meu objectivo é ir lutar já no UFC, nos Estados Unidos, a grande montra mundial. O plano era para Maio do próximo ano. Primeiro, lutaria no fim deste ano em Angola e aí deixaria o EFC, para em Maio começar o UFC. Mas com este aperto financeiro, o Ministério da Juventude e Desportos não conseguiu reunir todas as condições para a organização do evento em Novembro em Luanda. Mas a minha próxima luta será já no UFC.

Jornal de Angola – Que perspectivas tem para este combate em Angola, o primeiro no país?


Demarte Pena
– Nem dá para imaginar. A parte mais difícil será mesmo ter de lutar lá, diante da família e amigos. Normalmente, aqui só algumas irmãs e primas é que viajam de Luanda para assistir aos combates. Mas uma luta lá, com aquele apoio do público, nem dá para imaginar o que vai acontecer.

Jornal de Angola – Tem tido retorno do seu percurso no UFC?

Demarte Pena – Sim, muitos conhecem. O ministro Gonçalves Muandumba já ajudou na realização de um combate. O povo angolano sempre apoia quando tenho combate, através das redes sociais, pelo Instagram e o Facebook. Mas como lutador, preciso de um apoio mais presente e frequente. Os meus patrocinadores são aqui da África do Sul. Não tenho um patrocinador de Angola. Se calhar, é pela cultura do desporto que ainda não é tão conhecido lá. Muita gente pensa que o UFC paga mensalmente, o que não é verdade. A minha última luta foi em Julho e até agora o UFC não pagou mais nada. Os patrocinadores é que ajudam o atleta. É isso que está a faltar de Angola.

Jornal de Angola – Que vantagem teria um patrocinador angolano?

Demarte Pena – O patrocinador terá a sua marca difundida nos “banners” e no equipamento do atleta. Também pode divulgar a imagem nos eventos da modalidade.

Jornal de Angola – Já teve algum contacto para representar outra bandeira, como por exemplo a da África do Sul?

Demarte Pena – Nunca tive esse tipo de proposta. Mas também nunca faria isso. Nem sequer dá para pensar nisso. Este desporto é diferente. Não é como o futebol.

Jornal de Angola – Tem amigos aqui na academia que influencia com o seu sucesso?

Demarte Pena – Tenho, sim. Lutadores do Zimbabwe, Senegal e Congo. O engraçado é que só temos um lutador negro sul-africano.

Jornal de Angola – Do grupo que começou nas artes marciais consigo, alguém mais está no UFC?

Demarte Pena – Sim, o Marino Cutendana, que também está no UFC. Ele também veio de Luanda e começou comigo em Pretória.

Jornal de Angola – Já teve alguma paragem por lesão ou um combate que deixou sequelas?

Demarte Pena – Graças a Deus, nunca tive coisas do género. Acontece, normalmente, partir uma costela ou um dedo num combate. Há vezes em que uma pessoa magoa o joelho. Mas, felizmente, nunca tive mazelas graves, que obriguem a longas paragens. Tenho colegas que já ficaram oito meses parados. Isso acontece porque é um desporto muito violento. Acho que a minha vantagem é cuidar bem do corpo. Vou sempre ao médico e tenho sessões de massagem todas as semanas.

Jornal de Angola – E como é o seu repouso enquanto atleta e campeão?

Demarte Pena – Tento dormir entre sete a oito horas por dia. Quando estou a estudar evito ver televisão. Chego a casa, durmo ou estudo. Como este já é o meu último ano da licenciatura, não sei como será, mas tento gerir o tempo da melhor maneira possível. Há vezes que vou para a cama à meia-noite e tenho de me levantar às 4h00. É mesmo muito difícil. Os fãs não entendem isso. No facebook surgem pessoas a dizer que quero fazer isso, pensando que são apenas aquelas luzes, para aparecer na televisão.

Jornal de Angola – Como está dividido o vosso treino?

Demarte Pena – Quando treino para um combate, porque neste momento estou sou a fazer manutenção, vou nadar das 5h00 às 6h00. Depois faço um repouso de uma hora e às 8h00 faço o treino com outros lutadores. Fizemos o muay thai, uns golpes de karaté ou boxe. Segue-se a pausa para uma refeição mais completa, das 9h00 às 11h00. Na segunda parte treinamos jiu jitsi e judo, enquanto na terceira trabalhamos a luta greco-romana. Ao todo, são oito horas diárias, durante três meses de preparação.

Jornal de Angola – O sucesso do UFC depende muito da existência de patrocinador?

Demarte Pena – Sem patrocinador, fica muito complicado. Isto não é como o futebol, onde uns recebem semanal e outros mensalmente. O lutador tem de ter patrocínios fixos, para ajudar nos encargos com os treinos, a alimentação, o transporte, o alojamento, o médico, enfim.

Jornal de Angola – Quem suporta estes custos, é o ginásio?

Demarte Pena – Não, não! São os meus patrocinadores. Neste momento tenho dois patrocinadores. O Bio Gen e a companhia Loxion Kulca. Uma é de suplementos e a outra de roupas. Pagam-me mensalmente e com isso me sustento. Mas também faço outras coisas fora do desporto para suportar a carreira.

Jornal de Angola – Quais são as perspectivas para o após-carreira?

Demarte Pena – Estou a concluir a minha licenciatura em Gestão de Empresas na Universidade de Pretória. Com mais tempo serei graduado. Estudo em regime completo, por isso sou obrigado a vir todos os dias de Pretória para Joanesburgo.

Jornal de Angola – Tenciona competir por mais quanto tempo?

Demarte Pena – Não pretendo combater por muito tempo. Acho que farei mais três ou quatro anos. Isto depois de um tempo começa a afectar a saúde mental. Este é um desporto de muitas lesões. O atleta tem sempre dores no corpo. Depois da luta uma pessoa não consegue dormir bem.

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