Entrevista

Centro de Formação Feminina aposta na reintegração familiar

Domiana N´Jila e Amilda Tibéria N´JILA |

O Centro de Formação Feminina do Rangel, inaugurado em Abril de 2014, aposta em cursos que há muito se tinham esquecido mas que são a base para uma sociedade estruturada.

Fragoso Carlos disse que existe a igualdade de direitos e que a mulher conquistou o seu espaço
Fotografia: Santos Pedro

O director do centro, Fragoso João Carlos, disse  ao Especial Angolanas que é feito um trabalho de recuperação de ofícios que caracterizavam as mulheres antigamente. Sobre o objectivos do centro disse que é o de cumprir com os propósitos de formação do Plano Nacional de Formação. O cronograma estruturante das políticas activas de emprego e a formação profissional so o elo de ligação entre o cidadão que procura uma profissão e um ofício ajuda a aumentar o rendimento familiar.


Jornal de Angola - Porquê a aposta na formação feminina?

 Fragoso João Carlos -Por muito tempo a formação para a mulher era direccionada só para uma actividade, o cuidado com o lar. Hoje há a igualdade de direitos, o mundo está aberto às mudanças e as mulheres conquistaram o seu espaço e temos mulheres nos mais variados campos de trabalho como electricistas, pedreiros, cozinheiras, engenheiras de construção civil. As mulheres podem trabalhar em qualquer área.

 JA - Quais eram as profissões pelas quais as mulheres eram reconhecidas no passado? 

 Fragoso João Carlos - Ao longo dos anos com as mudanças sociais algumas profissões que caracterizavam a mulher começaram a perder-se como a economia do lar e empregada doméstica, eram profissões que davam à mulher o princípio de educação e de estruturação das famílias que desapareceram e deixaram vazios.

 JA - Como se enquadra a recuperação desses ofícios no programa de formação feminina?

Fragoso João Carlos
- Dentro das políticas de formação o Governo através do Ministério da Administração Pública Emprego e Segurança Social (MAPSS) projectou este programa de formação para mulheres de vários estratos sociais com formação em dez cursos que são empregada doméstica, cabeleireiro e barbeiro, culinária e pastelaria, mesa e bar, massagem e estética, corte e costura, informática na óptica do utilizador e sistema de redes, adorno do lar e artes domésticas.

 JA - Quais são os cursos que complementam esses ofícios?

 Fragoso João Carlos - Os cursos complementares   são os cursos transversais  educação familiar, empreendedorismo, mandarim, educação musical. Esses cursos complementam a necessidade do próprio programa de ensino.

 JA -A afluência feminina aos cursos é positiva?

 Fragoso João Carlos - Sim é positiva. Todos os cursos são muito procurados e além de serem antigos são de um pendor elevado de absorção por parte do mercado de trabalho. Estes cursos têm um peso muito grande no mercado de trabalho, como exemplo, algumas pessoas pensavam que empregada doméstica era apenas para limpar uma casa mas a empregada doméstica no nosso perfil de saída  passa por todas os ofícios citados,  ela tem de saber cozinhar, fazer gestão dos recursos do lar, coser, aprende a fazer relações públicas, massagem, cabeleireiro.

 JA - Qual é o perfil de entrada do centro de formação feminina do Rangel?

 Fragoso João Carlos - O mercado de trabalho é muito exigente daí também exigirmos dos nossos formandos um nível básico de escolaridade. Fazemos testes de aptidão, os que aprovam fazem a confirmação de matrícula. Por exemplo, para fazer o curso de empregada doméstica tem de ter a nona classe. Ela tem de ter noções de física e química porque para cozinhar precisa-se de muitos cuidados e para fazer as limpezas tem de saber que tipo de misturas químicas deve fazer. Ela, com base na formação que recebeu, consegue fazer misturas que façam a vez do produto em falta até a aquisição.

 JA - Há restrições na formação feminina?

 Fragoso João Carlos
- Não há. As mulheres aqui aprendem de tudo porque pensamos nas oportunidades do mercado de trabalho. Por exemplo, o curso de cabeleireiro e barbeiro estando ela a trabalhar num salão e aparecer alguém que queira tratar da barba está capacitada para o fazer. Tem competências para tal. No caso do curso de mesa e bar aqui aprendem a fazer com qualidade, responsabilidade, lucidez e profissionalismo. A empregada além de cuidar das mesas aprende sobre restauração que é vasta e relações públicas, atendimento ao público, como cuidar do cliente saber o que oferecer ao freguês em função da sua condição de saúde.

JA - Como lidam com as formandas que têm problemas familiares?

 Fragoso João Carlos
-Temos a área de orientação e integração que cuida de mulheres com problemas familiares e sociais, composta por uma equipa de profissionais como assistentes sociais, psicólogos clínicos e reeducadores sociais. Quando recebemos as formandas, antes de entrarem para o curso   recebem a primeira matéria sobre educação familiar, que é muito importante.

 JA - De que forma é detectado o problema familiar ou social da formanda?

 Fragoso João Carlos – Nós  apercebemo-nos dos problemas das formandas quando fazemos a recepção das mesmas e no contacto com os formadores. Aí é que há uma integração das formandas com os formadores que depois de lhes ser feita uma introdução dos serviços que o centro tem, cada uma depois fala da sua vida e o que procura alcançar. Depois de termos as informações de vida das formandas, seleccionamos as debilidades e actuamos fazendo estudo de casos e só assim ajudamos a solucionar os problemas.

 JA - Como o centro actua para contornar os casos de negação?

Fragoso João Carlos - Todas as vezes que isso acontece, mostramos que é possível encontrarmos formas viáveis de o fazer e há casos em que vamos trabalhando paulatinamente até melhorar, mostrando o caminho certo. Desde que o centro foi inaugurado já fizemos três casamentos, ajudamos famílias desestruturadas a   unirem-se, porque ensinamos também às mulheres que a família deve viver baseada no diálogo entre o casal. Durante a formação damos a componente educação familiar onde ensinamos como se comportar no lar, na rua, com os vizinhos, com as autoridades, respeitar a bandeira nacional, higiene e segurança no trabalho e na comunidade faz com que as pessoas mudem de comportamento. 

JA - Como é feito o reenquadramento social?

 Fragoso João Carlos - Às formandas que tinham filhos que consumiam estupefacientes assim como elas mesmas, conseguimos transformar em bons filhos, pais e mães. O que nos surpreende é quando os esposos vêm até nós satisfeitos a perguntar o que fizemos com as suas mulheres e contam que a mulher sabe cozinhar e sabe cuidar dele.

 JA - De Cabinda ao Cunene também já uniram famílias?

 Fragoso João Carlos - Tivemos casos de pessoas que vieram de Benguela, Lubango, Cuanza Sul que ouviram falar do centro e do trabalho feito por nós e nos procuraram. Receberam ajuda e formação e hoje estão inseridos no mercado de trabalho nas suas localidades.

 JA - Qual a percentagem de formandos femininos e masculinos?

 Fragoso João Carlos -
Temos uma percentagem de 80 por cento de mulheres e 20 por cento de homens. A procura pelos cursos é alta e a capacidade de oferta não satisfaz. No ano passado tivemos (5.948) cinco mil e novecentos e quarenta e oito candidatos, satisfizemos apenas (1600) mil e seiscentas vagas, a procura é elevada. ­Vamos minimizar a procura com a criação de um pavilhão ocupacional de prestação de serviço e formação profissional na comuna do Marçal. Para complementar estamos a tentar dentro do sistema nacional de formação alargar o elo de áreas de especialidades no Kilamba temos uma área de empregadas domésticas, decoração, corte e costura e o Inglês.

JA - Como funciona o ciclo formativo dos centros de formação?

 Fragoso João Carlos - O ciclo formativo é geral em todo o país. Temos cursos de curta duração com   365 horas equivalentes a quatro meses. O primeiro ciclo vai de Março a Junho e o segundo de Julho a Novembro. O perfil de entrada é dos 14 aos 80 anos de idade desde que tenha capacidade física e mental para o fazer. Para os interessados na formação as portas estão abertas, usamos o sistema presencial e das tecnologias de informação, depois do teste de aptidão temos o teste de orientação vocacional para as pessoas estarem preparadas para o que o mercado de trabalho precisa.

 JA - Como é feita a orientação na procura de trabalho?

 Fragoso João Carlos -
O Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional (INEFOP) é o órgão reitor das políticas activas de emprego. Mas nós no fim de cada curso encaminhamos para os centros de emprego e para as empresas os formandos porque temos contacto com varias instituições. Fazem os estágios profissionais e muitos são aprovados.

JA - O centro ajuda os formandos que não aprovam nos estágios?

 Fragoso João Carlos
- Nós ajudamos os alunos que não têm a oportunidade de entrar para o mercado de trabalho no âmbito do empreendedorismo, criando microempresas associadas a cooperativas e temos tido êxitos. Um dos nossos parceiros fiéis é o banco Sol que faz o financiamento de alguns projectos.

 JA – Que apelo  faz à sociedade angolana?

 Fragoso João Carlos - O Estado é uma pessoa do bem que cria políticas para que os seus cidadãos se sintam bem e tenham a possibilidade de ter uma profissão para aumentar a renda familiar. O melhor elo de distribuição de riqueza é dar bases ao cidadão formando-o, para trabalhar e ajudar no desenvolvimento da família e da sociedade.

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