Entrevista

China quer aumentar áreas de cooperação

Cândido Bessa|

Abriu linhas de créditos para Angola num período em que as instituições internacionais haviam viravam as costas ao financiamento. É hoje o primeiro parceiro comercial e está interessado em alargar a cooperação em outras áreas. A economia que mais cresce no mundo, quer transmitir esta experiência de sucesso.

Zhang Bolun afirma que sector científico e tecnológico pode ser aproveitado
Fotografia: Domingos Cadência

Abriu linhas de créditos para Angola num período em que as instituições internacionais haviam viravam as costas ao financiamento. É hoje o primeiro parceiro comercial e está interessado em alargar a cooperação em outras áreas. A economia que mais cresce no mundo, quer transmitir esta experiência de sucesso. Em entrevista ao Jornal de Angola, o embaixador Zhang Bolun aborda a questão da cooperação, as áreas que pretende dinamizar e o desejo de apoiar Angola a tornar-se num país desenvolvido e auto-suficiente em termos alimentares.

Jornal de Angola - Em 2002, a China não constava na lista dos principais parceiros comerciais de Angola. Hoje, ocupa o primeiro lugar, ultrapassando parceiros tradicionais como Portugal, Brasil, Espanha, Estados Unidos. Como é que conseguiu este feito em tão pouco tempo?

Zhang Bolun -
Mal acabou a guerra civil, as tarefas de reconstrução de Angola eram grandes e pesadas. Os angolanos precisavam de estabilidade e melhorias nas suas vidas. A China abriu uma linha de crédito quando o Governo angolano precisou. Havia, igualmente, o desejo mútuo de cooperação, com base em benefícios recíprocos e isso, também, serviu de base para o desenvolvimento das relações.

JA - A China abriu as linhas de crédito numa altura em que as instituições financeiras internacionais recusavam emprestar dinheiro a Angola. Por que a China emprestou?

ZB -
A China sempre apoiou outras nações em desenvolvimento. Quando vimos a causa de Angola, que sofreu uma guerra de muitos anos e o grau de destruição do país, não podíamos fazer outra coisa a não ser responder positivamente ao apelo do Governo angolano. Não sei avaliar porquê que o mundo ocidental não teve a mesma sensibilidade. Nós apoiámos os angolanos nos momentos difíceis e vamos continuar a apoiar, agora na fase da reconstrução e do desenvolvimento. Não vamos abandonar os angolanos.

JA - Quanto é que a China já emprestou a Angola?

ZB -
Desde 2003, os montantes já chegam a 14,5 mil milhões de dólares. Logo no início, foram 4,5 mil milhões, com taxas de juros preferenciais. Com a visita do Presidente José Eduardo dos Santos à China, em 2008, foi aberta outra linha de crédito. No ano passado, concedeu-se mais um empréstimo de 2,5 mil milhões são para a construção de cem mil casas em várias províncias, além de 1,5 mil milhões destinado à agricultura e requalificação dos municípios do Sambizanga e do Cazenga.

JA - A China está disponível a emprestar mais dinheiro a Angola, caso lhe seja solicitado?

ZB -
Angola necessita de um grande volume de recursos e a China está disposta a oferecer mais financiamento. Não temos objecções quanto a isso. Mesmo não estando no mesmo estágio de desenvolvimento, a China deseja cooperar com Angola em pé de igualdade e na base do benefício mútuo e de cooperação sustentável.

JA - Como é que avalia a cooperação entre os dois países?

ZB -
Desde o estabelecimento das relações diplomáticas, em 1983, especialmente depois do fim da guerra civil, em 2002, a China tem contribuído na grande causa da reconstrução de Angola. Desde então, as relações têm-se desenvolvido, principalmente nas áreas económicas e técnica. As duas partes testemunharam vários acordos e posso dizer que as relações estão no melhor período. A confiança política mútua aumenta a cada dia, o intercâmbio também e a cooperação comercial está a desenvolver-se muito rapidamente nos campos comercial e económico. Estamos satisfeitos.

JA - Em que áreas a cooperação está mais desenvolvida?

ZB -
A cooperação mútua e a vinda de delegações tem aumentado. No ano passado esteve em Angola o Vice-Presidente da China e amanhã chega o Vice-Primeiro-Ministro. Estas visitas servem para aumentar o conhecimento mútuo e contribuem para atingir uma fase nova na nossa cooperação. A China está a participar na reconstrução de sistemas de fornecimento de água e electricidade, na recuperação de infra-estruturas rodoviárias, projectos habitacionais e a reabilitar e construir escolas, aeroportos e hospitais em várias províncias. Mas queremos atingir outra fase da cooperação.

JA - O que quer dizer com outra fase da cooperação?

ZB -
A China ainda pode ajudar Angola a alcançar a auto-suficiência alimentar e na revitalização da indústria. Nestas áreas ainda temos muito a fazer. Queremos também formar quadros angolanos nos mais variados sectores da indústria, professores, médicos e técnicos agrícolas. É também nossa intenção cooperar na Zona Económica Especial de Angola. Temos na China, desde 1980, uma Zona Económica Especial na cidade de Shenzhen, que é o centro de tecnologia do país. Lá concentram-se as fábricas de computadores, telecomunicações e equipamentos electrónicos de consumo. Os investidores têm redução das barreiras ao investimento e dos impostos. Aguardamos por solicitações do Governo angolano nestas áreas.

JA - A China anunciou recentemente o estabelecimento de cooperação bilateral na área de alta tecnologia com 20 países, incluindo os Estados Unidos, Japão, Finlândia e Israel. Como está a cooperação com Angola na área da tecnologia?

ZB -
Precisamos de incrementar a cooperação na área científica e técnica. Há dias reuni-me com a ministra do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia e perspectivamos a futura cooperação científica e tecnológica. Ainda este ano, vai ser realizado o fórum científico e tecnológico entre a China e África, no âmbito da cooperação Sino-África, e nessa altura vamos avaliar e encontrar meios para dar corpo à cooperação nesta área. O desenvolvimento de novos projectos depende, também, da parte angolana. Precisamos de saber quais são as necessidades dos angolanos, o que pretendem. Sabemos que Angola ainda está a realizar um estudo para definir melhor as necessidades.

JA - Que entendimentos já existem na indústria e a auto-suficiência alimentar?

ZB -
O Banco de Desenvolvimento da China abriu uma linha de crédito e uma parte do financiamento é destinado a projectos de produção de algodão, para revitalização da indústria têxtil, nas províncias do Uíge, Malange e Kuando-Kubango. Por via de bancos comerciais angolanos, o Banco de Desenvolvimento da China está também a conceder créditos para pequenos empresários angolanos e camponeses. O ministro da Agricultura, Desenvolvimento rural e Pescas visitou, na província de Malange, um projecto inserido na cooperação com a China e pôde verificar que já há milho, arroz e trigo. A China está a disponibilizar o financiamento, os técnicos e os instrumentos para cultivar. E vamos também construir um centro experimental agrícola em Angola para servir a região austral e outros países africanos.

JA - Quando é que começa a ser construído o centro?

ZB -
A parte angolana está a estudar a sua localização. O projecto faz parte das oito medidas estabelecidas no fórum Sino-África. É uma doação da China ao Governo angolano. Vão ser construídos cerca de 20 estabelecimentos em África. Vão também ser construídos no Zimbabué e, creio, que no Botsuana e na Zâmbia. Os centros vão dispor todos de especialistas chineses, ser feitas pesquisas de sementes, terras, enfim, todos os estudos relacionados com o desenvolvimento da agricultura. Muitos países africanos possuem boas condições para cultivar, têm terra fértil e água abundante. Precisam de especialistas, de pesquisas para desenvolver uma agricultura moderna. E é isso que estes centros vão oferecer.

JA - Como é que a China vê Angola?

ZB -
Angola é um dos nossos parceiros estratégicos. Temos muitos parceiros, mas poucos são estratégicos, como o Egipto e a África do Sul. Os recursos abundantes, como o petróleo, também oferecem uma base sólida e económica para Angola. Isso fez com que Angola tivesse um crescimento de dois dígitos, entre os maiores no mundo. A China também mantém uma alta taxa de desenvolvimento económico e precisamos de muito petróleo. Temos necessidade de importar 200 milhões de toneladas de petróleo do resto do mundo e Angola hoje fornece 15 por cento de todo o petróleo que importamos. A qualidade do petróleo angolano é muito boa e podemos aumentar as quantidades, tudo depende das capacidades de Angola.

JA - Que outros produtos a China pode importar de Angola?

ZB -
A China é um mercado consumidor muito grande. Somos mais de dois mil milhões de pessoas. Logo, podemos importar tudo, pescado, produtos agrícolas e outros. Depende da capacidade de Angola. Hoje, além do petróleo, também importamos diamantes de Angola, mas em número muito reduzido. O grosso das nossas importações é o petróleo, mas podemos diversificar.

JA - Qual é o volume das trocas comerciais entre Angola e a China?

ZB -
No ano passado foi de 24,8 mil milhões de dólares. Em 2009, devido à crise financeira mundial, que afectou principalmente o preço do petróleo, as trocas entre os dois países foram de 17 mil milhões de dólares. Pensamos que este ano, os valores podem aumentar. Grande parte dos 24,8 mil milhões de dólares refere-se a exportações de petróleo de Angola para a China. As importações de Angola andam a volta dos três mil milhões.

JA – Em quanto é que estão avaliados os investimentos chineses em Angola?

ZB -
Não temos esse cálculo, apenas sabemos que já temos muito investimento privado, mas não temos quantificado. Há empresas que chegaram a Angola espontaneamente. Por exemplo, uma empresa chinesa instalou uma fábrica de montagem de carros e outra de cimento. A nível governamental ainda não temos projectos concretos. Temos cerca de 50 empresas de grandes dimensões e muitas outras pequenas e médias.

JA - Quais são as dificuldades que os empresários chineses encontram para investir e Angola?

ZB -
Os vistos são muito demorados e temos, também, a questão da língua, mas estamos empenhados em melhorar a cooperação e a facilitar os empresários a investirem nos dois países. Mas, em geral, as empresas chinesas estão satisfeitas com a aplicação dos seus projectos em Angola, mesmo que o trabalho seja árduo.

JA - Quantos chineses estão em Angola?

ZB -
À volta de 60 a 70 mil. Também há muitos angolanos a irem à China. Em 2010, registamos cerca de 13 mil pedidos de visto. Em 2002, não passavam dos 20. Nessa altura, convidámos todos os chineses residentes em Angola para uma celebração e não passavam das 30 pessoas.

JA - Amanhã chega a Angola, o Vice-Primeiro-Ministro da China. Que acordos vão ser assinados?

ZB -
Está também prevista a assinatura de acordos em várias áreas e algumas doações. O senhor Vice-Primeiro-Ministro vai ser recebido pelo sr. Presidente da República e vai realizar uma reunião de trabalho com o Vice-Presidente de Angola para avaliar as relações na área social. A delegação é constituída pelo vice-ministro das Relações Exteriores, pelo secretário do Conselho de Estado e pelo vice-ministro do comércio, além de presidentes de dois bancos chineses.

JA - A presença de bancários na delegação é um sinal de mais financiamentos?

ZB -
Penso que sim,  os bancos podem assinar acordos de financiamento com a parte angolana. Temos é de assinar o acordo de protecção de investimentos, para dar segurança e incentivar ainda os investimentos chineses em Angola, porque no futuro a China vai continuar a investir neste país.  

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