Entrevista

Cimeira entre duas Coreias deve indicar novos rumos

Altino Matos

As duas Coreias iniciam amanhã o debate sobre o futuro das suas relações, na cimeira que junta os Presidentes sul-coreano, Moon Jae-in, e o norte-coreano, Kim Jong-un. O embaixador da Coreia do Sul em Angola, Kim Dong-Chan, mostrou-se confiante no sucesso da cimeira, e avançou que o seu Governo está pronto para aprofundar os laços, mas Pyongyang tem de deixar definitivamente o caminho das armas nucleares.    

Embaixador Kim Dong-Chan afirma que o seu Governo ofereceu à Coreia do Norte a escolha de uma agenda alargada
Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

Senhor embaixador, como o vosso Governo encara o esforço político de aproximação a Pyongyang?
Com muita atenção. Desde que o governo do Presidente Moon Jae-in assumiu funções, foi estabelecido, em Maio do ano passado, um programa de actividades, que começou com a “Iniciativa de Berlim”, que propôs políticas consistentes à Coreia do Norte e aguardou por respostas positivas. Parece que Pyongyang tem algumas áreas de entendimento comum com Seul sobre a direcção das suas políticas e seus esforços, e é por isso que o Norte respondeu à proposta de participar nos Jogos Olímpicos de Inverno de PyongChang 2018. A realização bem sucedida de conversações entre as duas Coreias e a próxima cimeira entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte será um momento muito importante em questões relativas à Península Coreana e às relações entre ambas as Coreias.

O Governo de Seul está disposto a enfrentar os desafios técnicos, políticos e militares que possam sair da cimeira de amanhã?
A Cimeira entre as Coreias é realizada através de francas discussões para a desnuclearização e o estabelecimento da paz na Península Coreana. O nosso Governo apresentou uma proposta à Coreia do Norte para escolher a agenda geral, com os assuntos de “desnuclearização e estabelecimento da paz na Península e nas relações das duas Coreias”.  A Cimeira tem um significado histórico que merece uma grande atenção porque a mesma tem lugar pela primeira vez entre os líderes das duas Coreias, Presidentes Moon Jae-in e Kim Jong-un, que partilham do mesmo sentimento sobre o estabelecimento da paz e a desnuclearização. Temos que esperar pelas discussões a alto nível, porque vão nos dizer que rumo as coisas vão seguir. 

Como descreve o estado actual do ambiente político e diplomático na Península Coreana?
O ambiente é estável e, com toda certeza, consideramos a situação na Península Coreana bastante positiva, destacando o processo de mudança histórica observado em praticamente toda a região. No caso particular das duas Coreias, conseguimos um grande impulso com os Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang, que decorreram em território sul-coreano em Fevereiro deste ano, para aproximar de forma muito profunda os dois povos e sistemas.

Fica a ideia de que, mais do que o resultado desportivo, a organização empenhou-se numa vitória política. Concorda?
A nossa liderança estava de acordo que a participação da Coreia do Norte nos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang deste ano representava muito mais que os ganhos desportivos, tendo em conta as circunstâncias. Isto tinha a ver, directamente, com a intensificação do intercâmbio técnico e político e com a situação de enviados especiais, que motivaram a possibilidade de conversações entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte.

Os Jogos Olímpicos de Inverno converteram-se, por assim dizer, na primeira plataforma de estabilidade na Península Coreana?  
Depende muito do ângulo de apreciação. Para nós, o certo é que a cimeira entre as Coreias decorra amanhã, 27 de Abril, e a cimeira entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte terá lugar no fim de Maio ou no início de Junho.

Na prática, o que pode mudar na Península coreana?
Se seguirmos os acontecimentos, podemos ver que, agora, as duas Coreias têm a oportunidade inestimável para realizar a desnuclearização, estabelecer a paz na Península Coreana e abrir o caminho rumo à prosperidade comum. Se a cimeira entre as Coreias e a cimeira entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte ocorrerem uma após a outra, conforme o previsto, será possível esperar por mudanças importantes. O sucesso destes encontros pode fazer toda a diferença e provocar uma reviravolta histórica com ganhos para todo o mundo.

Existe uma grande preocupação sobre o que está em causa na região?
Pela ordem de importância dos temas agendados, é fácil perceber o grande interesse das partes. Aliás é notório a forma como a desnuclearização está a ser encarada como fundamental para a estabilidade na Península Coreana e como a mesma é tida como questão chave numa solução definitiva de aproximação e entendimento. Por isso, os governos estão empenhados em aproveitar a mesma como a melhor oportunidade dos últimos anos. Estamos em melhor posição para percebermos que o mundo inteiro está ansioso pela paz na Península.

Esta situação resultou da influência diplomática da China e dos Estados Unidos?
Em muitas ocasiões, inclu-indo a recente cimeira entre Pyongyang e Pequim, a China tem desempenhado um papel activo e construtivo ao trazer a Coreia do Norte de volta à mesa de negociações para a desnuclearização. Além das suas contribuições para o sucesso da próxima cimeira entre as Coreias e a cimeira entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte.
Parece tudo muito simples...
Existe um grande trabalho no campo diplomático, e o que parece ser simples, tem apenas a ver com mera im-pressão. A diplomacia sempre fez toda a diferença, através da mesma, foi possível fugir dos extremos. Nesse particular, a aliança entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos, que é o alicerce das nossas políticas diplomáticas e de segurança, que pensamos ser a chave para a paz e a estabilidade na Península, contribuíram para chegarmos até aqui.

Os efeitos da aliança com os Estados Unidos têm sido reclamados...
O certo é que na Ásia-Pacífico, por exemplo, esta aliança  contribuiu para a prosperidade da região. Com base na postura combinada de defesa, a Coreia do Sul e os Estados Unidos vão continuar a cooperar estreitamente no processo de discussões sobre a desnuclearização e o estabelecimento da paz na Península Coreana, inclusive por meio de conversações entre coreanos e o diálogo entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos.

A aproximação das duas Coreias pode não agradar os Estados Unidos, em termos estratégicos?
É importante sublinhar que o esforço político desenvolvido até agora deve ser atribuído às Coreias, mas sem ignorar o forte apoio dos Estados Unidos. Se esse esforço político levar à desnuclearização da Coreia do Norte e à normalização dos laços entre Pyongyang e Seul, o mesmo também deve se estender a Washington, o que significa um avanço para a paz mundial. Naturalmente, estamos conscientes que existem muitos percalços para a desnuclearização e o estabelecimento da paz na Península Coreana. Por isso, é fundamental estabelecer os alicerces da prosperidade de forma gradual, o que passa por negociações com todas as partes, nomeadamente pelas Coreias, Estados Unidos e pela comunidade internacional.

A cooperação militar entre as duas Coreias pode ser uma maneira positiva para aliviar tensões na Península Coreana?
Na cimeira entre as Coreias, que aprecia questões de gran-de interesse para a região, vai produzir concerteza várias medidas para aliviar a tensão militar. Neste momento, o Presidente Moon propôs parar todo confronto militar na linha de demarcação militar através da “Iniciativa de Berlim” em Julho de 2017 e, a partir daí, as duas Coreias reabriram as linhas-directas militares em Janeiro deste ano. Como uma extensão deste acto, durante esta cimeira, vão ser debatidas várias medidas ligadas a assuntos da prevenção de conflitos militares de carácter acidental, do alí-vio das tensões militares e da construção da confiança entre as Coreias.

O foco dessa cimeira é mais político e diplomático. Como o Governo de Seul pensa potenciar a cooperação económica com Pyongyang?
Com fortes sanções internacionais impostas à Coreia do Norte ainda em curso, existem limites substanciais aos tipos de projectos de cooperação económica que a Coreia do Sul pode empre-ender conjuntamente com o Norte. No entanto, procuramos realizar a Iniciativa do Novo Mapa Económico para a Península Coreana, enquanto tentamos criar as possíveis condições tendo em mente que uma abordagem económica será necessária para criar um ambiente pacífico na região. Nessas circunstâncias, podemos rever projectos potenciais de forma independente e depois permitir que a Coreia do Norte participe se houver progresso substancial na questão nuclear.

E sobre a zona económica conjunta Complexo Industrial de Gae-Seong e o Projecto de Turismo na montanha Geum-gang?
Estamos abertos a potenciar esses interesses económicos. Mas isso seria possível apenas quando houvesse progresso real na solução da questão nuclear da Coreia do Norte. Posso dizer que, da nossa par-te, estamos a fazer a devida preparação interna, considerando que um futuro brilhante pode ser tocado em conjunto desde que a Coreia do Norte desista dos seus programas nucleares. Precisamos de mais tempo, antes de iniciarmos discussões plenas nesse sentido.

Acha que nos próximos tempos o mundo vai assistir os dois povos a circular livremente do Sul para o Norte e vice versa, sem quaisquer impedimentos?
Antigamente os dois povos circulavam em artérias dos dois países através do  Complexo Industrial de Gae-Seong e desfrutavam das suas paisagens turísticas na montanha Geum-gang. Hoje esses projectos estão paralisados. Também estamos em condições difíceis de livre circulação entre as duas Coreias por causa das sanções impostas ao Norte pela comunida-de internacional. Por conseguinte, a livre circulação en-tre os povos praticamente seria possível após a reunificação das duas Coreias. Porém, se construirmos os mesmos interesses entre os líderes dos principais países, rumo ao progresso das relações entre as duas Coreias, através desta cimeira, e da cimeira entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, isto levará a um passo muito importante em termos de cooperação e incentivo à facilidade de circulação entre os dois povos.

Seul e Pyongyang tentam vencer as diferenças que marcam mais de 50 anos de história

A divisão da Coreia, em “Coreia do Norte e Coreia do Sul”, resulta da vitória dos Aliados na II Guerra Mundial de 1945, terminando o domínio colonial de 35 anos do Japão na Coreia. Numa proposta que obteve a oposição de quase todos os coreanos, os Estados Unidos e a então União Soviética (Rússia)  concordaram em ocupar temporariamente o país com uma tutela com a zona demarcada de controlo ao longo do paralelo 38.  O objectivo desta tutela foi o de estabelecer um Governo coreano provisório, que viria a ser “livre e independente no devido tempo”. Embora as eleições fossem agendadas, as duas superpotências apoiaram líderes diferentes e dois Estados foram estabelecidos de forma eficaz, cada qual reclama a soberania sobre toda a Península coreana.
A Guerra da Coreia (1950-1953) deixou as duas Coreias separadas pela Zona Desmilitarizada Coreana mantendo-se tecnicamente em guerra durante a Guerra Fria até aos dias actuais. A Coreia do Norte é um Estado socialista, muitas vezes descrito como stalinista e isolacionista. A sua economia inicialmente teve um crescimento substancial, mas entrou em colapso na década de 1990, ao contrário do seu vizinho comunista a China. A Coreia do Sul surgiu, após décadas de regime autoritário, como uma democracia liberal capitalista, com uma das maiores economias do mundo. Desde a década de 1990, os sul-coreanos com administrações progressivamente liberais, assim como a morte do fundador norte-coreano Kim Il-sung, os dois lados deram pequenos passos no sentido simbólico de uma possível reunificação coreana.
Apesar dos vários esforços, as coisas sempre se desenvolveram num ambiente muito complicado, tendo em conta o grau de complexidade na região. Porém, tais esforços continuaram até à data, e hoje os dois líderes estão em condições de virar a página nas suas relações históricas. Os Presidentes sul-coreano, Moon Jae-in, e norte-coreano, Kim Jong-un, iniciam amanhã uma grande jornada com debate profundo sobre a aproximação definitiva entre os seus países e o estabelecimento de um compromisso de paz e desenvolvimento na Península coreana.
A cimeira de amanhã, 27, foi antecedida de um conjunto de encontros técnicos e diplomáticos, que contaram com o apoio directo de países como a China, Rússia e Estados Unidos.

PERFIL

Kim Dong-Chan
Licenciado em Ciências Políticas
e Relações Internacionais. Mestre em Administração Pública. 

Carreira Diplomática

Iniciou a carreira diplomática em 1993, como quadro do Ministério das Relações Exteriores.

Segundo Secretário
da missão diplomática
no Japão, em 1999. 

Primeiro-secretário
da missão diplomática em Omã, em 2002.

Conselheiro do
2º Vice-Ministro das Relações Exteriores,
em 2006.

Director da Divisão

Ásia-Pacífico do Ministério das Relações Exteriores, 2009.

Embaixador

Acreditado em Angola, desde Junho de 2016

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