Entrevista

Clube Ferroviário assinala centenário

Vivaldo Eduardo |

No ano do seu centésimo aniversário, assinalado ontem, o Ferroviário de Angola passa por uma verdadeira metamorfose que visa, segundo o seu presidente de direcção, Bráulio de Brito, resgatar o estatuto de clube de topo no mosaico desportivo nacional e continental, patamar que a agremiação conquistou meritoriamente.

Presidente de direcção Bráulio de Brito
Fotografia: João Gomes

O Jornal de Angola foi constatar, no local, as transformações do histórico clube do Bungo. Antigo andebolista internacional, com passagens pelo Ferroviário, Petro Atlético e 1º de Agosto, o actual presidente fez as honras da casa, mas recusou assumir qualquer protagonismo quanto à “história do clube”, por se considerar demasiado jovem para tal. Bráulio de Brito garantiu que existem muitas testemunhas vivas, verdadeiras lendas do percurso da agremiação, nas quais o actual elenco directivo se apoia para resgatar a mística do clube.

Jornal de Angola - O que representa para si o centésimo aniversário do clube?

Bráulio de Brito - É uma honra extraordinária ser o presidente de direcção nesta altura da vida do clube, porque quanto mais rebusco a história do Ferroviário, mais descubro e sinto a sua importância e relevância no contexto do desporto nacional  e, de certa forma, até no âmbito continental. Estamos realmente a fazer a passagem por um aniversário especial, que ao nível do nosso país poucos clubes se podem orgulhar de ter atingido. Representa também o relançar deste clube grande e histórico que, durante alguns anos, esteve de alguma forma adormecido. Um dos objectivos fundamentais do nosso trabalho é, seguramente, repor esta agremiação num patamar condigno, tendo em conta a enorme importância da sua história.

JA
- A que distância se encontra hoje o Ferroviário de Angola, em relação às metas traçadas, no âmbito do relançamento?

BB
- O relançamento a que nos referimos é multifacético. Primeiro olhamos para a vida do clube, mais especificamente as infra-estruturas.  Consideramos que para podermos ter sustentação, à semelhança do que sucede noutras actividades, temos de ter primeiro as bases criadas, que no nosso entendimento são as infra-estruturas do clube. O foco inicial é ter uma sede condigna, organizada e funcional, tanto ao nível dos recursos humanos como das próprias instalações de suporte ao trabalho administrativo e preservação do legado. Nesse âmbito estamos num processo muito adiantado de recuperação dos troféus que estavam degradados e da criação de um ambiente de trabalho agradável e condigno na nossa sede. A vertente seguinte deste relançamento está virada para o desporto. Tratando-se de uma agremiação desportiva, não perdemos de vista o facto de o sucesso desportivo ser o principal barómetro.

JA
- Quais as prioridades da actual direcção do clube em termos de modalidades?

BB
- Neste momento movimentamos apenas escalões de formação: futebol, andebol, atletismo. Reconhecemos que ainda estamos muito distantes daquilo que sempre foi o espelho do Ferroviário. Vamos relançar o basquetebol, o voleibol e o xadrez e, simultaneamente, consolidar as modalidades que já temos. Estamos num processo de reinício. Temos seguramente muito trabalho pela frente. Estamos em funções há dois anos apenas, tempo obviamente insuficiente para podermos ter um avanço ao nível das nossas ambições.

JA
- Ter sido andebolista no Ferroviário, clube que conquistou o primeiro título continental para o país, na cidade nigeriana de Owerri, em 1987, torna o andebol especial dentro do clube?

BB
- Como presidente tenho de assegurar que todas as modalidades sejam tratadas de igual forma. O que herdamos, no entanto, é que o andebol tem estado sempre presente, mesmo nos piores momentos da vida do clube. Por isso, esta modalidade está um pouco mais adiantada e vai continuar a merecer a nossa grande aposta. Pelo que temos observado, em termos de progressão do processo de treino e a qualidade apresentada pelos nossos andebolistas, é muito provável que dentro de dois anos, se tanto, tenhamos aqui uma equipa campeã, quer seja em masculinos quer seja em femininos, no escalão júnior. Acreditamos que a melhoria substancial da qualidade das nossas infra-estruturas desportivas, particularmente a transformação do nosso campo em pavilhão, poderá potenciar as nossas equipas para melhores níveis de desempenho e creio que teremos sim, nos próximos tempos, o andebol muito forte. />
JA
- Terá entretanto aumentado o número de sócios?


BB
- Em relação ao número de sócios, estamos a aproveitar o início desta campanha de celebrações do centésimo aniversário para relançar, efectivamente, uma campanha de sócios. Em termos práticos, estamos a começar agora com o associativismo do clube, porque durante largos anos não houve actividade associativa coordenada. Não temos registos fiáveis de quem é ou não sócio, de quem paga quotas, etc. Por isso, estamos a reorganizar todo este processo e, pela receptividade que temos constatado, acreditamos que iremos ter um número grande de sócios. Isso poderá permitir a angariação de alguns rendimentos, embora estejamos avisados de que, hoje por hoje, os lucros provenientes das quotas dos sócios não são muito consideráveis. Servem basicamente como marco da presença das pessoas na vida do clube. Estamos também a trabalhar no sentido de criar outros mecanismos e outras oportunidades de suporte financeiro para o clube, a fim de garantir desafogo na materialização das actividades pretendidas. Em paralelo, a direcção do clube vai criando mecanismos inteligentes de trazer para o clube alguns patrocínios.

JA
- A reactivação dos Caminhos de Ferro trouxe benefício directo à actividade desportiva do Ferroviário?

BB
- Para nós o benefício directo da reactivação dos Caminhos de Ferro é o facto de permitir que atletas vindos de zonas mais longínquas, em relação ao clube, possam cá chegar com mais facilidade. Temos atletas que vivem em Cacuaco, Viana, etc, que graças a esse novo serviço podem comparecer com mais assiduidade às suas actividades. Este tem sido o único benefício. Esta reactivação não se traduz em apoio financeiro para o clube, até ao momento. É verdade que tradicionalmente deveríamos ser patrocinados por empresas do sector. Estamos a fazer diligências nesse sentido e não temos esse processo completamente firmado, mas avançámos bastante nessa direcção e é provável que dentro de pouco tempo tenhamos algum suporte financeiro de algumas empresas do sector rodoviário. Temos nessa altura algumas infra-estruturas arrendadas e daí vamos obtendo algum fluxo de capital para dar vazão ao nosso quotidiano desportivo e administrativo.

JA - Quais são os parceiros do Ferroviário, numa altura em que, como sabemos, fazer desporto é muito oneroso?
   

BB
- Os nossos parceiros são aqueles que beneficiam do arrendamento dos nossos espaços, por um lado. Falamos do Banco Sol, Angola Telecom e o Restaurante. Estes três estão de certa forma “obrigados” a cooperar financeiramente connosco, porque são instituições que beneficiam dos nossos espaços.  Temos outro colaborador que é o Conselho Nacional de Carregadores, com quem firmamos acordo e nos tem oferecido contrapartida financeira com periodicidade mensal.

JA - O Porto de Luanda e os Caminhos de Ferro patrocinam o Ferroviário?


BB
- O Porto de Luanda tem sido um parceiro tradicional.
O que se passa neste momento é que estamos a redefinir as linhas de cooperação. Portanto, o Porto também é um parceiro, uma instituição que vai seguramente continuar a trabalhar connosco. Simplesmente estamos num processo de realinhamento, definição de valores e “modus operandi” desta cooperação.
Em relação aos Caminhos de Ferro, temos tentado abordar essa questão, mas não surgiu ainda o momento adequado para materializar essa intenção. Estamos certos, no entanto, de que vamos poder contar com eles mais adiante.
Outro parceiro importante, neste processo de relançamento da mística do clube, é a Total Angola, que apoia o desenvolvimento do projecto Bungo. Trata-se da criação de uma sala internauta no clube, para benefício dos nossos atletas e jovens da área, onde teremos também professores disponíveis para ajudar os atletas na sua melhoria académica. No contexto desportivo, propriamente dito, teremos alguma injecção de capital para formação contínua dos nossos treinadores e atletas.

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