Entrevista

"Cobertura nacional de especialistas é insuficiente"

Nhuca Júnior

O presidente da Sociedade Angolana de Ortopedia e Traumatologia, Guilhermino Joaquim, disse ao Jornal de Angola que, antes da existência da instituição, as actividades de carácter científico e técnico de ortopedia no país eram diminutas e o número exacto de ortopedistas nas unidades de saúde era desconhecido.

Guilhermino Joaquim disse que antes da existência da Ordem as actividades de carácter científico e técnico de ortopedia no país eram diminutas
Fotografia: Eduardo Pedro

No ano passado, a instituição recebeu uma medalha de mérito, atribuída pela Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia, uma distinção considerada por Guilhermino Joaquim \"um grande estímulo para continuarmos com o trabalho que temos realizado\".

Jornal de Angola - Qual é a importância do Congresso de Ortopedia e Traumatologia no que tem a ver com a sinistralidade rodoviária?

Guilhermino Joaquim
- A sinistralidade rodoviária causa lesões que constituem a segunda causa de morte no país.  Segundo as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2030, os acidentes passam a ser a quinta causa de morte no mundo. Em Angola  morrem diariamente centenas de pessoas nos acidentes rodoviários ou ficam com sequelas definitivas e marcantes. os médicos ortopedistas e outros profissionais de saúde têm a obrigação de se organizar em conjunto com os outros sectores da sociedade, para tratar da melhor forma possível os pacientes. A sinistralidade rodoviária é uma preocupação mundial, de tal forma que a OMS instituiu o período de 2011 a 2020 como a década da segurança rodoviária.

JA - Os técnicos do Instituto de Emergências Médicas estão preparados para socorrer vítimas de acidentes?

GJ - O INEMA tem sempre muitas dificuldades em prestar os cuidados necessários aos sinistrados, principalmente, em Luanda, devido ao trânsito caótico que se vive na capital do país. É praticamente impossível a mobilidade de qualquer viatura sanitária em Luanda, em hora de ponta, agravado pela falta de educação de muitos automobilistas que não dão prioridade às viaturas de emergência. O número de ambulâncias não permite um desdobramento em caso de ocorrerem dois acidentes em simultâneo na mesma via. Além do socorro terrestre temos de criar d um sistema de transporte aéreo dada a dimensão do país. Todos os sinistrados deveriam ser assistidos por pessoal com conhecimentos em suporte básico de vida e transportados em ambulância ou helicóptero, mas isso ainda não acontece.

JA - O protocolo de assistência aos sinistrados é universal?


GJ - O protocolo de assistência aos sinistrados é universal e deve seguir os princípios para assegurar a vida do paciente no local do acidente e ser transportado, em segurança, para uma unidade hospitalar, a fim de ser tratado convenientemente. Por dificuldades de logística, sei que as viaturas carecem de alguns meios necessários para garantirem a assistência pré hospitalar, que os nossos técnicos do INEMA bem dominam.

JA - Qual é o aspecto mais importante no socorro a sinistrados?

GJ - O segredo do sucesso no tratamento do politraumatizado está mais na abordagem pré hospitalar e no transporte do paciente. Reside, fundamentalmente, na primeira hora após o acidente, em que todos os minutos são valiosos para salvar a vida das vítimas de acidentes.  O transporte ideal é a ambulâncias, com as macas apropriadas e com todos outros equipamentos de suporte. Na ânsia de socorrermos o politraumatizado o mais rápido possível, o transporte é feito de forma inadequada e algumas vezes colocamos em risco a vida do paciente. Penso que este é um aspecto que vai melhorar com o decorrer do tempo, com o aumento das ambulâncias do INEMA e a consciencialização da população de que os primeiros socorros devem ser efectuados por pessoal treinado.

JA - Em Angola, a percentagem de politraumatizados que acabam por morrer é elevada?

GJ - Para a morte de um politraumatizado contribuem vários factores e um deles pode ser o atraso do tratamento cirúrgico. Nas nossas unidades hospitalares ocorrem situações anómalas que contribuem para o atraso do início do tratamento cirúrgico. E muitas vezes são aspectos relacionados com a organização e disciplina dos serviços, que podem e devem ser melhorados. Mas convém, também, referir que muitas vezes os doentes chegam aos hospitais tardiamente e em condições clínicas em que a intervenção cirúrgica já não é possível.

JA - A Sociedade Angolana de Ortopedia e Traumatologia melhorou a imagem dos ortopedistas?

GJ -  Antes da existência da sociedade, não havia actividades de carácter científico e técnico de ortopedia no país e desconhecia-se a existência do número real de especialistas angolanos e o trabalho que realizam nas unidades de saúde. Nos três anos de existência, trouxemos para Angola meia centena de prelectores de países como Brasil, Cabo Verde, Portugal, Moçambique e São Tomé e Príncipe, que vieram partilhar os seus conhecimentos e experiências. Temos sido elogiados pelo nível de organização dos nossos congressos e pela riqueza dos conteúdos científicos neles abordados.

JA - Quantos ortopedistas existem em Angola?


GJ - O ano passado recebemos uma medalha de mérito da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia, que nós consideramos um grande estímulo para continuarmos com o trabalho. Outro aspecto é o facto de sermos constantemente abordados por colegas de outras especialidades, que pretendem organizar as suas sociedades e nos solicitam informações. Existem 40 ortopedistas angolanos e perto de 100 ortopedistas estrangeiros, distribuídos pelo país inteiro. Naturalmente que o número de ortopedistas nacionais é reduzido, para cobrir as necessidades do país.

JA - O Ministério da Saúde tem apostado na formação de médicos ortopedistas?


GJ - O Ministério da Saúde está preocupado com a formação e a especialização de todos os médicos. A especialização dos médicos obedece a vários pressupostos que não existem na sua plenitude no país, o que obriga a que esta formação seja complementada no estrangeiro. Temos vários especialistas nacionais que foram completar a sua formação no exterior do país. Temos acompanhado a nova dinâmica da formação de quadros, com a abertura de várias regiões universitárias com faculdades de medicina, que começaram a produzir os primeiros licenciados. Neste momento, quatro médicos estão a efectuar o internato em ortopedia, em Benguela, e um na província do Huambo. É  uma fase inicial de formação de ortopedistas, que vai ganhar mais impulso, nos próximos anos.

JA -  Em Angola há muitos casos de  da mal formação congénita conhecida por pé torto?

JG - O pé torto é uma deformidade congénita que abunda no nosso país  e é uma das patologias negligenciadas que deixa muitas sequelas nos seus portadores. Esta patologia pode ser tratada com poucos recursos, com uma técnica simples e pouco dispendiosa.
Na nossa sociedade, vimos inúmeras pessoas, entre crianças e adultos, portadoras desta doença deambulando pelas ruas, sem nunca terem procurado apoio dos serviços de saúde, porque ela é aceite culturalmente e muitas vezes os doentes são desencorajados a recorrer aos hospitais por familiares e amigos.

JA - Como estão distribuídos os médicos ortopedistas?

GJ - A distribuição de ortopedistas angolanos é má, já que grande parte deles está concentrada em Luanda, à volta de 37, e apenas três nas províncias: um em Benguela, um na Huíla e um no Cuando Cubango.  Em todas as províncias existem ortopedistas estrangeiros de várias nacionalidades.

JA - Quais são os casos ortopédicos congénitos mais frequentes no país?


GJ - É difícil dar uma panorâmica geral das patologias congénitas, visto que o país não tem uma cobertura nacional de ortopedistas. Isso só vai ser possível quando Angola tiver uma cobertura total de especialistas. Da minha experiência pessoal, tenho visto muitos casos no Hospital Pediátrico David Bernardino de agenesia (ausência dos ossos longos dos membros inferiores), sindactilias (dedos colados), polidactilias (mais de cinco dedos), anquiloses (articulações coladas). Não esquecer que muitos familiares com filhos com patologias congénitas não recorrem às instituições de saúde.

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