Entrevista

Comunidades têm mais água

Vitorino Joaquim |

A Empresa Pública de Águas de Luanda (EPAL) duplica a capacidade de produção de água com a entrada em funcionamento dos sistemas “Bita” e “Quilonga Grande”.

A entrada em funcionamento dos dois sistemas vai permitir levar água a um maior número de consumidores e reduzir substancialmente a carência que existe no acesso ao precioso líquido
Fotografia: Jornal de Angola |

Em entrevista ao Jornal de Angola, o responsável da área de projectos e investimentos da Empresa, Albertino Gomes, garante que são dois projectos com uma dimensão única na África subsaariana.

Jornal de Angola - Quais são os novos projectos da EPAL?

Albertino Gomes
– São o “Bita” e o “Quilonga Grande”, que começam a ser executados logo que estejam concluídos todos os trâmites administrativos. Neste momento já temos a aprovação do Executivo e aguardamos pelo visto do Tribunal de Contas.

JA - O que são esses sistemas?

AG
- Antes de responder à pergunta, devo dizer que um sistema é um conjunto de várias partes interligadas, mas cada parte tem o seu papel, que resulta na produção de um bem. O Sistema Quatro “Bita” em princípio é implementado na área do Bita e é constituído por captação, grupos de bombagem e adução de água bruta até à estação de tratamento. Esta estação de tratamento de água tem ao lado um centro de distribuição, que nós designamos de Centro de Distribuição do Bita, cuja função é armazenar e aduzir água por gravidade até aos outros centros de distribuição. 

JA – Qual é a capacidade instalada do sistema?

AG
- Este sistema tem capacidade instalada de seis metros cúbicos por segundo, construído em duas fases de três metros cúbicos por segundo.

JA – Traduzido em litros, qual a quantidade de água?

AG
– Estamos a falar de 518.400 metros cúbicos de água, o que corresponde a 518.400.000 litros de água por dia. 

JA - Qual o período de construção ou em quanto tempo é construído?

AG
– O prazo de construção é de 36 meses, é o prazo maior, porque o sistema contém vários lotes, onde são realizadas várias obras em períodos diferentes, como a construção da captação e da estação de tratamento de água. Há ainda o assentamento das condutas adutoras que vão aduzir água até aos centros de distribuição. Também é construída a estação de tratamento de água de processo.

JA – Quando arrancam as obras do Sistema Quatro?

AG
– Um projecto quando nasce, obedece a um conjunto de requisitos, segue tramitação administrativa própria. Esta tramitação já foi observada quase na totalidade e já estamos na fase na qual tivemos o privilégio de receber por decreto presidencial a aprovação deste grande projecto e isto fez com déssemos o passo seguinte. 

JA - Qual foi o passo seguinte? E que trâmites já foram observados para o arranque do projecto?

AG
– O passo seguinte consistiu na assinatura dos contratos com os empreiteiros e fiscais que vão construir e fiscalizar as obras. Toda a documentação referente a cada um dos projectos é compilada pelo nosso gabinete jurídico para em seguida ser remetida ao Ministério de Energia e Águas, que por sua vez faz chegar ao Tribunal de Contas para o visto final. A partir daí o projecto arranca.

JA – Que zonas são abastecidas pelo Sistema Quatro “Bita”?

AG
– O Sistema Quatro está mais direccionado para a parte sul. Este Sistema deve abastecer a própria área do Bita, reforçar o centro de distribuição do Camama, o Cabolombo (zona verde), Mundial e Ramiros. Este sistema tem também a função de reforçar, num futuro muito próximo, o centro de distribuição da Maianga. 

JA – Quanto ao projecto Sistema Cinco “Quilonga Grande”?

AG
– É um projecto semelhante ao Sistema Quatro “Bita”, obedece aos mesmos critérios, tem a mesma capacidade, tem as mesmas características técnicas. A diferença consiste na tecnologia de tratamento e no número de centros de distribuição. O “Bita” tem quatro centros de distribuição, o “Quilonga Grande” tem sete centros. O “Quilonga Grande” tem a captação e a estação de tratamento de água nas imediações de Bom Jesus. Deve abastecer as áreas de Bom Jesus, Zangos, Novo Aeroporto, Quilómetro 30, Zona Industrial de Viana, Capalanga e finalmente a Centralidade Sekele. Portanto, é visível a abrangência destes sistemas.

JA – O que representa tudo isto para a cidade de Luanda?

AG
– É uma grande mais-valia, é obvio. Basta dizer que a capacidade dos dois sistemas, só nesta primeira fase, é igual à capacidade de todos os nossos sistemas actuais. A nossa capacidade actual instalada de produção de água anda à volta de 550 mil metros cúbicos de água por dia. Com o funcionamento destes projectos, Sistema Quatro “Bita” e Sistema Cinco Quilonga Grande, devemos duplicar esta capacidade. Portanto, nós, num horizonte temporal de cerca de 36 meses, temos Luanda com mais água.

JA – Antes existiram projectos com pouco êxito. Desta vez, o problema de abastecimento água é resolvido?

AG
– Dizer que esta quantidade de água é suficiente para resolver os problemas da cidade de Luanda é difícil de garantir. Nós estamos apenas a falar de uma primeira fase. Cada sistema tem duas fases de aplicação. Nesta primeira fase vamos produzir 518.400 metros cúbicos por dia, nos dois sistemas. Como nós não sabemos com exactidão quantos somos em Luanda em termos de população, para termos garantias, projectámos uma segunda fase, que deve arrancar assim que a primeira terminar.

JA – Com o arranque da segunda fase dos dois projectos, quanto é a produção de água?

AG
– Com a conclusão da segunda fase dos dois projectos, a produção é de 1.036.800 metros cúbicos de água por dia.

JA – Podemos concluir que o Censo-2014, que está quase a começar, vai permitir à EPAL uma melhor distribuição de água?

AG
- Nós estamos satisfeitos com a realização do Censo-2014, porque falar da água significa saber quantos somos. Nós precisamos de saber com exactidão quantos somos, porque o que se passa é que estimamos o consumo por pessoa de 150 litros por dia, mas não sabemos exactamente quantos somos. Ao conhecer a nossa taxa de crescimento, o índice de desenvolvimento em todos os sectores, podemos prever e perspectivar o nosso futuro com mais precisão. Todo o sistema tem um tempo de vida útil, depois de dez anos deve ser reabilitado ou ampliado. Isto depende de vários dados, incluindo o censo populacional. O Censo-2014 é para nós muito bem-vindo, porque vai ajudar-nos nos cálculos hidráulicos e não só.

JA – Quem são os parceiros da EPAL nestes projectos?

AG
– Para estes projectos foram constituídos dois consórcios. Para a construção da Captação e Estação de Tratamento de Água do “Bita”, o consórcio Norberto Odebrecht, Teixeira Duarte e Mota Engil. Para a construção da Captação e Estação de Tratamento de Água do “Quilonga Grande”, o consórcio Epalanga (Veolia, Andrade Gutierres e Queirós Galvão). Também contamos nos dois projectos com outras empresas, chinesas, portuguesas e angolanas. 

JA – Como vai tratar a EPAL a questão dos lotes para a construção das obras que estão ocupados por populares?

AG
–Os dois projectos são de âmbito social e a EPAL podia ocupar os espaços identificados sem negociação com os supostos proprietários. Mas não é esta a nossa postura. Estamos a trabalhar com o apoio das Administrações Municipais e junto dos ocupantes, procurando negociar.

JA – Do ponto de vista do impacto ambiental os projectos têm consequências?

AG
– Sim, a pergunta é pertinente. Tendo em conta a amplitude e importância destes projectos, estamos a trabalhar com o Instituto de Gestão Ambiental, instituição tutelada pelo Ministério do Ambiente.

JA – No caso da Maianga, com estes mega projectos e com uma rede técnica velha, não vai dar problemas?

AG
– Não há nenhum problema, a rede começou a ser substituída e para tal contamos com o projecto das 700.000 ligações que contempla também a parte urbana.

JA – Quanto custam os dois mega projectos?

AG
– O valor estimado é de cerca de 115 mil milhões de kwanzas.

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