Cooperativismo é modelo rentável em Angola

Noé Jamba | Bengo
25 de Março, 2017

Fotografia: Joaquina Bente | Angop

O sector agrícola foi o que mais avançou em matéria de cooperativismo em Angola e produz hoje grandes quantidades de alimentos para o país, disse Albano da Silva Lussati, presidente de direcção da Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas Agropecuárias de Angola (UNACA-Confederação),em entrevista ao Jornal de Angola.
Agricultura familiar é responsável pela produção de grande quantidade de alimentos no país

As cooperativas do sector agrário têm um peso considerável na economia nacional, na medida em que estão envolvidas directamente na luta contra a fome e pela redução da pobreza no país.

Jornal de Angola - Gostaríamos que fizesse um breve historial da UNACA.

Albano Lussati
- A UNACA surgiu num momento muito difícil, em que ocorriam no país transformações políticas para o multipartidarismo, com vista a agrupar os camponeses em associações e cooperativas. A6 de Fevereiro de 1990 foi constituída a União Nacional dos Camponeses Angolanos. O objectivo da organização era representar e defender os interesses dos camponeses junto do Estado.  Num momento em que o país vive uma grave crise económica devido à queda do preço do petróleo, a UNACA trabalha para incentivar os camponeses a aumentarem as áreas de exploração e optarem por boas práticas agrícolas no sentido de aumentarem a produção.

Jornal de Angola - O cooperativismo em Angola esteve sempre muito associado ao sector agrícola. Quais as razões de fundo?

Albano Lussati  -
O sector agrícola foi o que mais avançou durante os muitos anos no cooperativismo em Angola e tem produzido grande quantidade de alimentos para o país, contribuindo para o equilíbrio da balança comercial no que toca aos produtos da cesta básica. A agricultura é  a base do desenvolvimento de qualquer país e Angola não foge à regra. Por esse facto, o papel dos agricultores organizados em cooperativas na produção de alimentos tem merecido o interesse da opinião pública.

Jornal de Angola - Qual o verdadeiro peso do cooperativismo e da UNACA, em particular, na economia nacional?

Alano Lussati -
As cooperativas do sector agrário têm um peso considerável na economia nacional, na medida em que estão envolvidas directamente na luta contra a fome e pela redução da pobreza no país. Nesta conformidade, registam-se bons volumes da produção das principais culturas, tais como o milho, feijão, mandioca, soja, frutas e hortícolas, nas cooperativas agropecuárias, e podemos superar os níveis actuais nas próximas campanhas com a tomada de consciência dos nossos associados.

Jornal de Angola - Que comentários faz sobre a Lei das Cooperativas, publicada a 31 de Agosto de 2015?

Albano Lussati -
A aprovação e a publicação da Lei das Cooperativas constitui um ganho para o sector cooperativo do nosso país. O não pagamento de emolumentos no processo de constituição de uma cooperativa deixa mais satisfeitos os associados, permitindo o surgimento de mais cooperativas no sector agrícola.

Jornal de Angola -
Que receptividade tem o sector agrário cooperativo junto das instituições de apoio e financiamento, nomeadamente, a banca privada, e o que muda com a lei?

Albano Lussati -
Apesar de algumas instituições financeiras manifestarem receio em financiar os projectos de agronegócio de algumas cooperativas, devemos insistir que este é ainda um bom “business” para os bancos. Nos projectos de agronegócio,devem-se minimizar os riscos de perda e optimizar a produção. Lamentamos o facto de muitos bancos comerciais até hoje recearem financiar a agricultura familiar (AF) porque querem ter retorno imediato. Isso é um grande erro. De acordo com dados disponibilizados pelo Ministério da Agricultura, a AF representa  um peso considerável na produção nacional e merece todo o interesse dos bancos em financiarem tais projectos. A Lei ajudou na legalização de cooperativas e dos seus terrenos e facilitou o diálogo com os bancos, já que os mesmos só cooperam com instituições legais.

Jornal de Angola - O cooperativismo é um modelo empresarial sustentável e rentável em Angola?

Albano Lussati -
Em Angola, o cooperativismo é um modelo empresarial em crescimento e é cada vez mais sustentável e rentável. Por exemplo, em 1999  tínhamos cooperativas só de nome, mas elas cresceram bastante com a aprendizagem de boas práticas de gestão e de projectos de agronegócio. Isso faz com que este modelo empresarial seja mais viável que outros.

Jornal de Angola - Os investimentos em cooperativas têm o retorno desejado?

Albano Lussati -
Sim. Algumas cooperativas obtiveram créditos junto dos bancos e tiveram bons rendimentos. Os reembolsos foram feitos sem problemas. Deve haver mais consciência por parte das cooperativas que ainda não honraram os seus compromissos a fazê-lo, sobretudo, nas zonas onde a estiagem impediu as colheitas.

Jornal de Angola -
A UNACA tem apostado em modelos de exploração novos com vista ao autofinanciamento, nomeadamente, exploração  de fazendas. Porquê esta mudança?

Albano Lussati -
A UNACA tem incentivado os associados a optarem por projectos de agronegócio, que garantem um bom retorno e uma utilização racional dos recursos disponíveis, tais como a terra, a água e as sementes melhoradas, bem como a existência de associados com cerca de 20 a 50 hectares de terras cultivados. O Programa Angola Invest, por exemplo, não financia projectos de apenas um hectare, precisamos nos adaptar cada vez mais às exigências do momento e aproveitar ao máximo as políticas existentes para acelerar as mudanças.

Jornal de Angola
- A confederação tem quadros suficientes para esse fim?

Albano Lussati -
Temos quadros capacitados e suficientes para enfrentar quaisquer desafios do sector cooperativo. A título ilustrativo, nas nossas federações e uniões, os líderes são quadros superiores, o nível técnico dos nossos quadros é hoje muito maior que o de 10 anos atrás. Continuamos com a execução do Programa de Reforço da Capacidade Permanente e elevação dos níveis académico e técnico dos nossos quadros de modo a contribuirem para a consolidação da organização e não só.

Jornal de Angola -
Quais são os subsectores agrícolas mais explorados pelo cooperativismo em Angola?

Albano Lussati -
Vários subsectores agrícolas são explorados pelo cooperativismo em Angola. Além da cafeicultura, temos a horticultura, a fruticultura, as culturas de alimento, essencialmente.

Jornal de Angola -
Embora estejam situados no sector da economia, as cooperativas têm também um peso importante no sector social. Quer comentar?

Albano Lussati -
O cooperativismo rege-se por princípios e estes não visam apenas os benefícios económicos para os seus associados. Velam também pelo lado social das comunidades. Assim, encontramos nas cooperativas projectos de alfabetização, saúde e construção de pequenas pontes. Queremos apelar ao Governo para que apoie este sector social no meio rural, de formas a conseguirmos reter os jovens no campo e evitar assim o êxodo rural e a fuga de cérebros.

Jornal de Angola -
Qual o peso particular das cooperativas na sobrevivência e desenvolvimento da mulher rural?

Albano Lussati -
O peso da mulher nas cooperativas é grande. Ela é a principal actora do desenvolvimento da agricultura familiar, sendo produtora, gestora e vendedora das próprias colheitas. A gestão feita pelas mulheres rurais é excelente. Temos várias cooperativas cuja liderança pertence a uma mulher e são cooperativas exemplares, organizadas e sem dívidas com os bancos.  Continuamos a priorizar a formação técnico-profissional e a alfabetização da mulher rural para reduzir substancialmente o índice de analfabetismo ligado a questões de género nas cooperativas.

Jornal de Angola –
Como antevê o futuro do país e da UNACA?

Albano Lussati -
Estamos a trabalhar para atingir a auto-suficiência alimentar e contribuir para a diversificação da economia nacional, com a certeza de que, de mãos dadas, alcançaremos os objectivos preconizados. No contexto regional e internacional, a UNACA é membro da Organização dos Camponeses da África Central (PROPAC), da Organização Cooperativa dos Países de Língua Portuguesa (OCPLP), do Conselho da Segurança Alimentar e Nutricional da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CONSAN-CPLP) e existem óptimas relações de cooperação com a congénere do Brasil.

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