Entrevista

Cooperativismo é modelo rentável em Angola

Noé Jamba | Bengo

O sector agrícola foi o que mais avançou em matéria de cooperativismo em Angola e produz hoje grandes quantidades de alimentos para o país, disse Albano da Silva Lussati, presidente de direcção da Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas Agropecuárias de Angola (UNACA-Confederação),em entrevista ao Jornal de Angola.
Agricultura familiar é responsável pela produção de grande quantidade de alimentos no país

Presidente da UNACA-CONFEDERAÇÃO
Fotografia: Joaquina Bente | Angop

As cooperativas do sector agrário têm um peso considerável na economia nacional, na medida em que estão envolvidas directamente na luta contra a fome e pela redução da pobreza no país.

Jornal de Angola - Gostaríamos que fizesse um breve historial da UNACA.

Albano Lussati
- A UNACA surgiu num momento muito difícil, em que ocorriam no país transformações políticas para o multipartidarismo, com vista a agrupar os camponeses em associações e cooperativas. A6 de Fevereiro de 1990 foi constituída a União Nacional dos Camponeses Angolanos. O objectivo da organização era representar e defender os interesses dos camponeses junto do Estado.  Num momento em que o país vive uma grave crise económica devido à queda do preço do petróleo, a UNACA trabalha para incentivar os camponeses a aumentarem as áreas de exploração e optarem por boas práticas agrícolas no sentido de aumentarem a produção.

Jornal de Angola - O cooperativismo em Angola esteve sempre muito associado ao sector agrícola. Quais as razões de fundo?

Albano Lussati  -
O sector agrícola foi o que mais avançou durante os muitos anos no cooperativismo em Angola e tem produzido grande quantidade de alimentos para o país, contribuindo para o equilíbrio da balança comercial no que toca aos produtos da cesta básica. A agricultura é  a base do desenvolvimento de qualquer país e Angola não foge à regra. Por esse facto, o papel dos agricultores organizados em cooperativas na produção de alimentos tem merecido o interesse da opinião pública.

Jornal de Angola - Qual o verdadeiro peso do cooperativismo e da UNACA, em particular, na economia nacional?

Alano Lussati -
As cooperativas do sector agrário têm um peso considerável na economia nacional, na medida em que estão envolvidas directamente na luta contra a fome e pela redução da pobreza no país. Nesta conformidade, registam-se bons volumes da produção das principais culturas, tais como o milho, feijão, mandioca, soja, frutas e hortícolas, nas cooperativas agropecuárias, e podemos superar os níveis actuais nas próximas campanhas com a tomada de consciência dos nossos associados.

Jornal de Angola - Que comentários faz sobre a Lei das Cooperativas, publicada a 31 de Agosto de 2015?

Albano Lussati -
A aprovação e a publicação da Lei das Cooperativas constitui um ganho para o sector cooperativo do nosso país. O não pagamento de emolumentos no processo de constituição de uma cooperativa deixa mais satisfeitos os associados, permitindo o surgimento de mais cooperativas no sector agrícola.

Jornal de Angola -
Que receptividade tem o sector agrário cooperativo junto das instituições de apoio e financiamento, nomeadamente, a banca privada, e o que muda com a lei?

Albano Lussati -
Apesar de algumas instituições financeiras manifestarem receio em financiar os projectos de agronegócio de algumas cooperativas, devemos insistir que este é ainda um bom “business” para os bancos. Nos projectos de agronegócio,devem-se minimizar os riscos de perda e optimizar a produção. Lamentamos o facto de muitos bancos comerciais até hoje recearem financiar a agricultura familiar (AF) porque querem ter retorno imediato. Isso é um grande erro. De acordo com dados disponibilizados pelo Ministério da Agricultura, a AF representa  um peso considerável na produção nacional e merece todo o interesse dos bancos em financiarem tais projectos. A Lei ajudou na legalização de cooperativas e dos seus terrenos e facilitou o diálogo com os bancos, já que os mesmos só cooperam com instituições legais.

Jornal de Angola - O cooperativismo é um modelo empresarial sustentável e rentável em Angola?

Albano Lussati -
Em Angola, o cooperativismo é um modelo empresarial em crescimento e é cada vez mais sustentável e rentável. Por exemplo, em 1999  tínhamos cooperativas só de nome, mas elas cresceram bastante com a aprendizagem de boas práticas de gestão e de projectos de agronegócio. Isso faz com que este modelo empresarial seja mais viável que outros.
/>Jornal de Angola - Os investimentos em cooperativas têm o retorno desejado?

Albano Lussati -
Sim. Algumas cooperativas obtiveram créditos junto dos bancos e tiveram bons rendimentos. Os reembolsos foram feitos sem problemas. Deve haver mais consciência por parte das cooperativas que ainda não honraram os seus compromissos a fazê-lo, sobretudo, nas zonas onde a estiagem impediu as colheitas.

Jornal de Angola -
A UNACA tem apostado em modelos de exploração novos com vista ao autofinanciamento, nomeadamente, exploração  de fazendas. Porquê esta mudança?

Albano Lussati -
A UNACA tem incentivado os associados a optarem por projectos de agronegócio, que garantem um bom retorno e uma utilização racional dos recursos disponíveis, tais como a terra, a água e as sementes melhoradas, bem como a existência de associados com cerca de 20 a 50 hectares de terras cultivados. O Programa Angola Invest, por exemplo, não financia projectos de apenas um hectare, precisamos nos adaptar cada vez mais às exigências do momento e aproveitar ao máximo as políticas existentes para acelerar as mudanças.

Jornal de Angola
- A confederação tem quadros suficientes para esse fim?

Albano Lussati -
Temos quadros capacitados e suficientes para enfrentar quaisquer desafios do sector cooperativo. A título ilustrativo, nas nossas federações e uniões, os líderes são quadros superiores, o nível técnico dos nossos quadros é hoje muito maior que o de 10 anos atrás. Continuamos com a execução do Programa de Reforço da Capacidade Permanente e elevação dos níveis académico e técnico dos nossos quadros de modo a contribuirem para a consolidação da organização e não só.

Jornal de Angola -
Quais são os subsectores agrícolas mais explorados pelo cooperativismo em Angola?

Albano Lussati -
Vários subsectores agrícolas são explorados pelo cooperativismo em Angola. Além da cafeicultura, temos a horticultura, a fruticultura, as culturas de alimento, essencialmente.

Jornal de Angola -
Embora estejam situados no sector da economia, as cooperativas têm também um peso importante no sector social. Quer comentar?

Albano Lussati -
O cooperativismo rege-se por princípios e estes não visam apenas os benefícios económicos para os seus associados. Velam também pelo lado social das comunidades. Assim, encontramos nas cooperativas projectos de alfabetização, saúde e construção de pequenas pontes. Queremos apelar ao Governo para que apoie este sector social no meio rural, de formas a conseguirmos reter os jovens no campo e evitar assim o êxodo rural e a fuga de cérebros.

Jornal de Angola -
Qual o peso particular das cooperativas na sobrevivência e desenvolvimento da mulher rural?

Albano Lussati -
O peso da mulher nas cooperativas é grande. Ela é a principal actora do desenvolvimento da agricultura familiar, sendo produtora, gestora e vendedora das próprias colheitas. A gestão feita pelas mulheres rurais é excelente. Temos várias cooperativas cuja liderança pertence a uma mulher e são cooperativas exemplares, organizadas e sem dívidas com os bancos.  Continuamos a priorizar a formação técnico-profissional e a alfabetização da mulher rural para reduzir substancialmente o índice de analfabetismo ligado a questões de género nas cooperativas.

Jornal de Angola –
Como antevê o futuro do país e da UNACA?

Albano Lussati -
Estamos a trabalhar para atingir a auto-suficiência alimentar e contribuir para a diversificação da economia nacional, com a certeza de que, de mãos dadas, alcançaremos os objectivos preconizados. No contexto regional e internacional, a UNACA é membro da Organização dos Camponeses da África Central (PROPAC), da Organização Cooperativa dos Países de Língua Portuguesa (OCPLP), do Conselho da Segurança Alimentar e Nutricional da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CONSAN-CPLP) e existem óptimas relações de cooperação com a congénere do Brasil.

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