Entrevista

Coreia do Sul é parceiro ideal para a cooperação com Angola

António Ferreira e Carlos Calongo |

A Coreia do Sul é um importante destino nas relações de cooperação entre Estados, com destaque para as tecnologias de informação e a indústria naval e automóvel. Com uma única fronteira terrestre partilhada com a Coreia do Norte, com a qual não mantém relações diplomáticas, a Coreia do Sul tem merecido a atenção das autoridades angolanas representadas naquele país asiático por uma missão diplomática dirigida por Albino Malungo, que já desempenhou funções iguais no Japão, e que gentilmente acedeu a falar em exclusivo para o Jornal de Angola, na entrevista que se segue.

Jornal de Angola - A Coreia é um bom país para o exercício da diplomacia?

Albino Malungo -
A Coreia do Sul é um país interessante para qualquer diplomata, tendo em conta a sua história, o seu exemplar processo de desenvolvimento e a sua abertura para a troca de informação e experiências, particularmente no domínio da transferência do conhecimento. Admiro as características do povo coreano, extremamente humilde, diligente e com um elevado sentido de solidariedade e respeito pela riqueza e diversidade cultural. A Coreia do Sul é um país de diplomacia bastante activa, tendo em conta o contexto actual da península coreana e o facto de existirem representações diplomáticas em quase todo o Mundo. Temos podido transmitir a experiência de Angola, sobretudo no âmbito da pacificação e reconciliação nacional nos mais diversos contactos diplomáticos, e muito recentemente procedemos à entrega de uma mensagem do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, ao seu homólogo sul-coreano, onde destaca a posição do Governo angolano relativamente à paz e unificação da península coreana.

Jornal de Angola - De modo geral, qual é o quadro que se pode traçar sobre a cooperação entre Angola e Coreia do Sul?

Albino Malungo
- Desde o estabelecimento das relações diplomáticas em 1992, Angola e a Coreia do Sul têm desenvolvido parcerias económicas mutuamente vantajosas através da implementação de projectos nos mais variados domínios. As relações entre os dois países foram reforçadas em Fevereiro de 2001, com a visita oficial a Seul do Presidente José Eduardo dos Santos. Os instrumentos legais entre os dois países  enquadram-se no âmbito do Acordo Geral de Cooperação Económica e Técnico-Científica, assinado a 2 de Julho de 1993. Temos mantido vários encontros de concertação com a parte sul-coreana, visando a realização, em breve, da terceira reunião da Comissão Mista, que deverá analisar e aprovar, entre outros actos de reforço da amizade e cooperação, o Acordo sobre a Promoção e Protecção Recíproca de Investimentos, um instrumento bastante requerido pelo sector empresarial. Entretanto, sinto que não temos estado a aproveitar devidamente todas as vantagens derivadas da nossa cooperação com este grande país asiático.

Jornal de Angola - Em que sectores existe maior cooperação? O que Angola pode receber e oferecer à Coreia do sul?

Albino Malungo
- Nos últimos anos, tem-se registado um significativo incremento da cooperação em praticamente todos os domínios que integram o Acordo Geral de Cooperação, com uma maior troca de visitas de delegações políticas e técnicas de alto nível. Sentimos da parte do sector financeiro sul-coreano um maior interesse pelo mercado angolano. Recentemente, o Eximbank da Coreia do Sul aprovou a proposta de financiamento do Projecto de Mecanização Agrícola, de iniciativa presidencial. Com a parceria com o Governo sul-coreano, encontra-se em curso a execução, através do Ministério do Interior, da primeira fase do Projecto de Modernização da Segurança Pública. A Sonangol e a DSME (Daewoo Shipbuilding & Marine Engineering) desenvolvem vários negócios no domínio da construção naval e equipamento para a indústria petrolífera. Os maiores navios de transporte de petróleo e gás do Mundo são angolanos, fabricados por empresas sul-coreanas. O Presidente da NHFG tem mostrado disponibilidade em financiar projectos no domínio do agro-negócio. Foi recentemente assinado um acordo entre os Ministérios dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria dos dois países, que vai beneficiar muitos antigos combatentes no domínio da formação e capacitação em diversos cursos técnicos, facilitando, deste modo, a futura integração económico-social. Neste contexto, aguardamos a chegada, em breve, de um grupo devidamente seleccionado pelo órgão de tutela, que participará numa acção de formação na Korea Tech University. O sector da educação tem sido igualmente privilegiado, visto que a Embaixada tem excelentes relações com as 50 universidades enquadradas no Programa de Bolsas de Estudo do Governo coreano (KGSP). Este programa visa aprovisionar bolsas para estudantes provenientes de países em desenvolvimento, cobrindo 100 por cento das despesas durante o período de formação. De igual modo, temos recebido de instituições de ensino superior e formação profissional muitas solicitações de recomendação de estudantes devidamente qualificados a candidatarem-se à admissão e atribuição de bolsas de estudo, o que justifica o crescente número de estudantes angolanos na Coreia do Sul. Fruto de uma parceria entre a Embaixada e a Universidade de Dankook foi constituído o Centro de Estudos Angolanos junto daquela instituição para a publicação regular de obras técnico-científicas sobre o nosso país e promover a atribuição de bolsas de estudo e a parceria com congéneres nacionais. Angola é potencialmente rica em recursos naturais e está em fase de reconstrução nacional. Isso faz do país um interessante parceiro de negócios para a Coreia do Sul. Actualmente, as exportações de Angola para o mercado sul-coreano baseiam-se em produtos pesqueiros, gás de petróleo liquefeito (GPL) e matéria-prima para a indústria siderúrgica. 

Jornal de Angola - Além das relações institucionais e diplomáticas, existe alguma presença do sector privado na cooperação entre Angola e Coreia?

Albino Malungo -
O sector privado joga um papel essencial no quadro do reforço das relações entre os dois países. A presença do sector privado é cada vez mais acentuada, o que, de certo modo, levou a incluir na sua estrutura um órgão de apoio especializado às empresas e a estimular a criação da Comissão Instaladora da Câmara de Comércio Coreia-Angola. Neste âmbito, recebemos regularmente empresários sul-coreanos interessados no reforço da cooperação e aumento do volume de negócios com a participação no processo de diversificação da economia angolana. Também recebemos com alguma regularidade empresários angolanos à procura de parcerias no mercado sul-coreano. A título de exemplo, a construtora Namkwang International, associada a entidades angolanas, tem construído vários empreendimentos na cidade de Luanda, com destaque para o Centro de Convenções de Talatona, o Hotel HCTA e outros. A Hyundai Motors e a Kia Motors lideram o nosso mercado automóvel, assim como a Samsung e a LG lideram o mercado electrónico.

Jornal de Angola - Como avalia a balança comercial e as trocas entre Angola e a Coreia do Sul?

Albino Malungo
- Tenho participado em muitos fórum de negócios e investimentos e é notável o interesse das empresas sul-coreanas em expandir as suas actividades no mercado angolano, principalmente na exploração de recursos naturais, agricultura e construção de infra-estruturas. Estamos a criar as condições para que uma missão empresarial da FKI (Federação das Indústrias da Coreia) se desloque a Luanda durante a FILDA 2017, para obter um melhor conhecimento do mercado e contacto directo com potenciais parceiros nacionais. Regularmente, emitimos vistos para empresários que pesquisam o mercado angolano. O Grupo Interburgo, de origem coreana, continua a destacar-se na produção pesqueira. Consideramos urgente a aprovação do Acordo sobre a Promoção e Protecção Recíproca de Investimentos. Por acordo entre os dois países foi já estabelecida a isenção de visto nos passaportes diplomáticos e de serviço. Tendo em conta o grande interesse que as empresas e os cidadãos sul-coreanos demonstram todos os dias por Angola, seria recomendável o nosso país seguir o exemplo de outros que possuem isenção total de visto e recebem milhares de turistas e um elevado número de investidores.

Jornal de Angola - Nos anos 60 [do século XX], Angola tinha um PIB superior ao da Coreia do Sul. Qual é a realidade neste momento, em termos comparativos?

Albino Malungo -
A Coreia do Sul é um país bastante exemplar no domínio do combate à pobreza e desenvolvimento económico. Um dos factores mais importantes do rápido desenvolvimento da Coreia do Sul foi a adopção, a partir dos anos 60, de uma política estratégica direccionada à formação de quadros e à exportação de tecnologias e produtos manufacturados. Com um PIB per capita estimado em 36.700 dólares norte-americanos (2015), a Coreia do Sul é hoje a quarta maior economia da Ásia e a décima primeira maior economia do Mundo. A Coreia do Sul, país da Samsung, LG, Hyundai e Kia, destaca-se mundialmente na construção naval, indústria automóvel, energia nuclear e em vários sectores da ciência e tecnologia. Importa ressaltar igualmente que a Coreia do Sul foi, em 2014, o quinto maior exportador e o sétimo maior importador do Mundo.

Jornal de Angola - As preocupantes informações que vêm da vizinha Coreia do Norte não podem inibir eventuais negócios entre Angola e Coreia do Sul?

Albino Malungo
- De forma alguma. A nossa relação com a Coreia do Sul deriva do Acordo Geral de Cooperação e da amizade entre os dois países que se desenvolve de forma cada vez mais crescente e mutuamente vantajosa, sem influência de terceiros. As informações que vêm da Coreia do Norte - se eu bem entendo a pergunta, deve referir-se às ameaças que existem desde os anos 50 - não impediram que a Coreia do Sul se tornasse numa das maiores economias do Mundo e num país altamente desenvolvido.

Jornal de Angola - Sabendo que a vida não é estática, é possível uma reunificação entre as duas Coreias?

Albino Malungo -
Penso que a situação na península coreana é temporária e algum dia a reunificação será um facto e o povo coreano, no seu todo, dará uma contribuição sustentável à paz e ao desenvolvimento mundial. O processo de reunificação da península coreana é longo e bastante complexo. Os dois países continuam tecnicamente em guerra, visto que a Guerra da Coreia (1950-1953) terminou com um armistício e nunca foi assinado um acordo de paz. Acredito que o “status quo” na península seja uma situação temporária na História da Coreia e que no final, digamos assim, aconteça a reunificação. Diria que a vontade política das seis partes (Coreia do Sul, Coreia do Norte, China, Estados Unidos da América, Rússia e Japão) e a retomada das negociações são factores determinantes para a reunificação, que embora um tanto distante, acredito ser inevitável. Embora a linha de segurança que protege o limite territorial entre as duas Coreias seja considerada a zona fronteiriça mais militarizada do Mundo, os dois países representam basicamente um só povo que compartilha a mesma cultura, a mesma língua, a mesma etnia e o mesmo desejo de tornar realidade a reunificação da península. Tenho exprimido a nossa solidariedade e reiterado que o Governo angolano vai continuar a apoiar as iniciativas da ONU e da comunidade internacional, visando uma solução pacífica. Olhando para as resoluções do Conselho de Segurança da ONU e todas as questões geopolíticas, a problemática da península coreana deixou de ser um assunto unicamente dos coreanos e passou a ser da comunidade internacional. Acredito que a visão do novo Presidente sul-coreano, Moon Jae-In, que tem como base o diálogo, seja a solução para uma reunificação e pacificação sustentável. A comunidade internacional deve apoiar a desnuclearização, pacificação e reunificação da península coreana.

Jornal de Angola - Além dos funcionários da Embaixada, existem outros angolanos a viver na Coreia do Sul? Em caso afirmativo, quantos são, em que se ocupam e que tipo de relação têm com a Embaixada?

Albino Malungo
- A comunidade angolana residente na Coreia do Sul é constituída maioritariamente por jovens estudantes universitários, um considerável número de quadros técnicos nacionais que participa regularmente em acções de formação no domínio da saúde, educação, agricultura, ciência e tecnologia, construção naval e engenharia de petróleos. Temos igualmente familiares de diplomatas e um limitado número de cônjuges de cidadãos coreanos que decidiram fixar residência neste país de forma definitiva ou temporária. A Embaixada, naturalmente, dedica particular atenção à assistência e apoio consular aos cidadãos angolanos, envolvendo-os em actividades sócio-culturais, especialmente em celebrações de datas que marcam a nossa História.

Jornal de Angola - Um último comentário...

Albino Malungo
- A Coreia do Sul é um parceiro ideal para o desenvolvimento do nosso país.

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