Entrevista

"Crescimento do Zaire exige energia e boas estradas"

João Mavinga | Soyo

Adriano Manuel Canelas lançou projectos imobiliários que garantem emprego a 200 jovens no Soyo. O complexo é constituído por hotéis e um condomínio de apartamentos com os serviços de apoio. Formado em economia, o jovem empresário, defende que é preciso apostar tudo na formação dos jovens.

Adriano Canelas afirmou que a actividade empresarial está a crescer na província e há avanços no comércio geral e no sector da indústria
Fotografia: Kayila Silvina | Soyo

Para a diversificação da economia, tem em curso acções no domínio da indústria, agricultura e aquicultura.

Jornal de Angola - Como é constituído o parque imobiliário da sua empresa?

Adriano Manuel
- O nosso parque imobiliário integra hotéis e vivendas, 60 T2 e 54 T1. Está em curso a construção de 20 vivendas T4, dez em fase de conclusão. No Soyo temos o Hotel Nempanzu e a residencial. Estão prontos a funcionar, falta concluir a decoração. Ainda no Soyo temos um edifício de três andares só com escritórios.

JA - Quantos jovens emprega?

AM - Hoje temos 120 jovens empregados na hotelaria e nas obras temos 50 jovens. No total criámos 270 postos de trabalho e muitos são ocupados por mulheres.

JA - Neste universo há mão-de-obra estrangeira?

AM -  Claro que há. Temos na construção civil 20 chineses e na hotelaria apenas oito. No princípio tínhamos 15, mas à medida em que os angolanos se vão aperfeiçoando, profissionalmente, com base na formação que recebem do pessoal expatriado, estes vão assumindo as responsabilidades.

JA - Para além do parque imobiliário que outros sectores são explorados?

AM - Apostamos na camionagem, comércio geral e importação. Brevemente estamos na indústria, no quadro da diversificação da economia.

JA - Como considera a actividade empresarial na região?

AM - No Zaire a actividade empresarial está no bom caminho. Assistimos ao crescimento do sector não petrolífero. Há avanços no comércio geral, no sector industrial, na construção civil e obras públicas. Estamos a criar grandes superfícies comerciais. O sector bancário tem vindo a crescer, isto associa-se  ao crescimento do tecido empresarial na província.

JA - Qual é a principal clientela dos vossos projectos?

AM - O Governo Provincial do Zaire, o sector petrolífero e agora os turistas. Há grande movimento no sector do turismo, mesmo com as estradas danificadas. No sector da construção civil recebemos pedidos e orçamentos de pessoas singulares  que acumulam poupanças ou ainda com o recurso aos empréstimos bancários.

JA - Como encara as parcerias público-privadas?

AM - Com o Governo há boa colaboração, tendo em conta a nossa posição. Apesar de existir grande concorrência nos diversos sectores, estamos bem posicionados. Partilhamos excelentes relações como Governo Provincial e com os institutos públicos.

JA - Porque está apenas  no município do Soyo?

AM - Porque desenvolver a actividade empresarial é como construir uma casa. Temos que ter uma base bem consolidada. A expansão envolve muitos custos. Um investimento mal feito, pode arruinar todo o negócio. Em termos hoteleiros já estivemos em Mbanza Congo à procura de um espaço para construirmos um hotel, tendo em conta a sua dimensão nacional e agora internacional com a Unesco. Mas os terrenos bem localizados estão todos ocupados e os donos não aceitam qualquer negociação.

JA -  Está a pensar investir no sector agrícola?

AM - Mantemos vivo o slogan do nosso saudoso presidente António Agostinho Neto e cito: a agricultura é a base e a industria, o factor decisivo. O Executivo tem vindo a exigir de nós todo o empenho. Temos tudo para produzir, falta apenas dinheiro para avançar com grandes projectos na agricultura. Não se pode financiar um agricultor exigindo-lhe a devolução do empréstimo num período de cinco anos. Temos de pedir ao Governo e à Banca financiamentos com taxas bonificadas e de longos anos de retorno. Cinco anos é pouco para retornar um capital.

JA - Como diversifica a actividade económica?


AM - Temos um projecto já em curso mas com fundos próprios. Estamos a trabalhar na fruticultura. Temos hoje mais de dez mil cacussos em aquacultura) e gado bovino. Na região do Soyo,  nunca ninguém se dedicou à pecuária. Nós avançamos com uma exploração experimental para ver o que dá.

JA - O sector bancário está a responder aos desafios colocados pelos empresários?

AM
-  Falando do meu grupo, não tenho razões de queixa. Recebo dos bancos convites para financiamentos. Os bancos têm apoiado sempre que apresento um projecto. Nunca recebi um não.

JA - Considera a actividade empresarial expressiva na província do Zaire?

AM -  A classe empresarial no Zaire tem expressão. Apesar das dificuldades conjunturais, estamos a avançar. Podíamos ter mais expressão se o sector petrolífero nos ajudasse. Em Luanda, a Base Sonilson é apenas para trabalho. Todos os técnicos são alojados fora. Esta força trabalhadora  a viver fora da base, dinamiza e impulsiona muito a circulação do capital. No Soyo todos os técnicos trabalham e dormem na Base de Kwanda. Hoje temos condomínios e casas vazias. Os empresários estão à beira da falência, porque as empresas que arrendavam os condomínios foram para a Base do Kwanda.

JA - Quais são os principais factores que fragilizam o empresariado no Zaire?

AM - O desenvolvimento do município do Soyo.  Se um dia a Sonangol decidir que a Base do Kwanda é apenas uma base de trabalho, como acontece em Cabinda, o Soyo vai crescer. Vamos ter trabalho e somos obrigados a melhorar nossos serviços. O Segundo ponto são as estradas que estão em mau estado. Recebemos noticias de que já foi aprovada a execução da estrada que liga Soyo a Nzeto. Isto é muito importante. Esperemos que façam o mesmo com as estradas que ligam o interior à cidade. Aí temos agricultores que podem abastecer o mercado.

JA - Que balanço faz do crescimento da província?

AM - O Zaire cresceu, todos sectores estão a funcionar, apesar de termos que exigir mais. Saúde, educação e  Justiça cresceram muito. Alguns serviços essenciais a têm que mellhorar, não podemos esperar mais de 15 dias por uma certidão comercial. Ir a Mbnaza Congo tratar de um papel, é oneroso, temos que pagar hotel, alimentação e são 430 quilómetros. O Ministério da Justiça tem que acelerar o seu processo de expansão, não podemos ter muitos gastos para constituir uma empresa.

JA - Que Zaire espera ter nos próximos dez anos?

AM - Um Zaire sem diferenças sociais, onde todos unidos por uma só causa. Não se pode dizer que este é do Soyo e outro do Nzeto, Tomboco e Mbanza Congo. Temos que ser um só povo e uma só nação. Defender os mesmos princípios para que todos juntos construamos uma linda província. Vamos sair da economia informar para a formal.

JA - O que trava o desenvolvimento do Zaire?

AM - Água, luz, as estradas. O crescimento exige boas estradas e energia. A província cresce e as necessidades aumentam de forma exponencial, logo a procura de  água e luz é enorme. Falo de energia, porque nas minhas actividades preciso dela. Os geradores não passam de uma fonte alternativa. Ninguém vai investir se não tivermos a capacidade energética requerida. Outra situação é  o Porto Comercial. Temos que ter um porto num dos municípios. O Soyo tem porto, mas é de pequena dimensão. Na Base do Kwanda, grandes navios não atracam.

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