Entrevista

Criar nas empresas um mundo de felicidade

José Ribeiro e Artur Queiróz |

O amor faz falta a quem trabalha. Todos procuramos a prosperidade e o bem-estar. As emoções estão presentes em tudo o que fazemos. Amândio Vaz Velho, um gestor de topo, professor e consultor, pegou em todos estes ingredientes e encontrou o caminho para termos em Angola e no mundo, “Empresas Felizes”. Em entrevista exclusiva ao nosso jornal, ele falou das “emoções positivas” que nos alargam, que diluem o que acontece de negativo nas nossas vidas e que são a base que sustenta a felicidade no mundo laboral e empresarial.

Amândio Vaz Velho
Fotografia: Francisco Bernardo

O amor faz falta a quem trabalha. Todos procuramos a prosperidade e o bem-estar. As emoções estão presentes em tudo o que fazemos. Amândio Vaz Velho, um gestor de topo, professor e consultor, pegou em todos estes ingredientes e encontrou o caminho para termos em Angola e no mundo, “Empresas Felizes”. Em entrevista exclusiva ao nosso jornal, ele falou das “emoções positivas” que nos alargam, que diluem o que acontece de negativo nas nossas vidas e que são a base que sustenta a felicidade no mundo laboral e empresarial.

Jornal de Angola - Falar de empresas felizes em Angola é um paradoxo?

Amândio Vaz Velho
- De forma nenhuma. Durante o mês de Maio tenho estado a levar a experiência das Empresas Felizes a milhares de trabalhadores das empresas públicas do Ministério dos Transportes. Verifico que Angola precisa muito de empresas felizes. Os trabalhadores angolanos querem, eu diria muito, ser felizes no trabalho. Nos meus contactos encontro trabalhadores com emoções positivas, independentemente de terem salários baixos ou mesmo salários em atraso. Ninguém rejeita a felicidade.

JA - O que são as emoções positivas?

AVV – Primeiro o que são emoções: emoção é o que sentimos num determinado momento, as consequências biológicas e psicológicas, e o que, fruto do que sentimos, tendemos a pensar e a fazer. As emoções podem ser negativas, portadoras de infelicidades, ou positivas, que contribuem para a felicidade. As emoções básicas positivas são o prazer e o amor. Quando conseguimos que estas emoções se alarguem dentro de nós e diluam as emoções negativas, como a raiva, a tristeza, o medo ou a vergonha, temos pessoas que trabalham com entusiasmo, constroem e alargam. As emoções negativas estreitam a nossa acção e reduzem as nossas capacidades. O meu trabalho é levar para as empresas os factores, os ingredientes, que geram emoções positivas, felicidade e bem-estar.

JA - Fazem falta empresas felizes?

AVV - Muita falta. São as empresas que produzem os bens e serviços que suportam a nossa vida, desde que nascemos até à morte. Quando recorremos a um despertador para acordar, há uma empresa que nos proporcionou o despertador. A roupa, o calçado, a alimentação, quase tudo o que consumimos, é-nos fornecido pelas empresas. Mesmo quando morremos a nossa família encomenda o funeral a uma empresa. Não existe desenvolvimento de um país sem empresas. Todo o país precisa de boas empresas, precisa de empresas felizes.

JA – E o que são boas empresas?

AVV - Deixe-me responder usando citações políticas. O Presidente José Eduardo dos Santos, na sua mensagem de Fim de Ano em 2007, disse que necessitamos de “génio criador, boa organização e disciplina, bons programas, boa condução e trabalho abnegado a todos os níveis…”. A Constituição também diz, e cito de memória, que Angola é uma República soberana baseada na dignidade da pessoa humana. Esta é a primeira frase do primeiro artigo da nossa Constituição. Agostinho Neto disse que em primeiro lugar temos de resolver os problemas do povo. Boas empresas são aquelas que respeitam a dignidade humana, onde imperam os ingredientes que o Presidente Eduardo dos Santos recomendou, são empresas que com os seus produtos e serviços ajudam a resolver os problemas do povo. Más empresas são aquelas onde não se respeita a dignidade humana, onde não existe nem génio criador nem trabalho abnegado e onde os produtos e serviços não resolvem os problemas do povo.

JA - Se as empresas forem infelizes não fazem os mesmos produtos?

AVV - Podem fazer no curto prazo, claro. Mas isso não é sustentável a médio e longo prazo. Um bolo servido por um trabalhador frustrado, irritado, mal pago, infeliz não tem o mesmo sabor que um bolo feito e servido por trabalhadores felizes. Os resultados finais não são os mesmos para os empresários, nem para os trabalhadores e os consumidores. A necessidade de termos empresas felizes também tem a ver com outro factor importante: nós passamos muitas horas do dia a trabalhar. É fundamental que quem trabalha se sinta bem a produzir. Temos a obrigação de criar empresas felizes porque uma pessoa é mais ou menos feliz também de acordo com o que acontece no seu local de trabalho.

JA - Daí a necessidade das emoções positivas?

AVV - É isso mesmo. Na raiva, no medo ou na vergonha ninguém é feliz. Numa empresa onde os chefes não são pessoas de confiança, pessoas credíveis e justas, que respeitam os outros, onde os trabalhadores não têm orgulho no trabalho que fazem, onde não há camaradagem entre colegas, ninguém é feliz. E a infelicidade laboral vai propagar-se para a vida e tornar a pessoa infeliz. Um adulto só é feliz se tiver um espaço profissional que lhe abone felicidade. Também precisamos do espaço familiar e comunitário, mas o profissional é determinante. Há outro aspecto importante que justifica fazermos tudo para criarmos empresas felizes. É que trabalhadores felizes fazem empresas mais lucrativas, inovadoras e produtivas. Os trabalhadores felizes tratam melhor o cliente e têm uma relação melhor com os colegas e os chefes. Alguém dizia que só pessoas felizes são capazes de fazer os outros felizes. Portanto, só trabalhadores felizes é que conseguem deliciar os clientes, fazer clientes felizes.

JA - De que felicidade estamos a falar?

AVV - Aristóteles define a felicidade como prosperidade com virtude. Isso acontece quando exercemos o que temos de bom. Ao aplicar este conceito às empresas eu digo que empresa feliz é aquela em que os clientes prosperam, com base nas virtudes de quem os serve, precisamente os trabalhadores, que por essa via prosperam também. Quem serve bem os clientes, é virtuoso. E é virtuoso porque tem condições para crescer na virtude. Na Empresa Feliz criamos um círculo virtuoso. Numa empresa, digamos infeliz, ninguém prospera. Os clientes são mal servidos e os trabalhadores não encontram condições na empresa para exercerem e crescerem na virtude, nos conhecimentos e nas competências, para fazerem bem o que sabem fazer. Numa empresa infeliz, para além de os clientes serem mal servidos, os trabalhadores não prosperam, ficam infelizes – e frequentemente são muito mal remunerados.

JA - As emoções negativas também podem ser virtuosas?

AVV - No universo das empresas felizes raramente têm esse papel. As emoções positivas alegram, melhoram os resultados. Funcionam como a carga de uma bateria. Quanto mais positividade mais anulamos as emoções negativas, que apenas geram tristeza. As mágoas tornam a nossa vida mais estreita. Se nos concertarmos na negatividade e no mal, o mal alarga-se. Se nos concentrarmos na positividade e no bem, o bem alarga-se.

JA - Onde entra a realização pessoal na adversidade?

AVV - As emoções negativas ajudam-nos a conhecer os perigos. Às vezes são necessárias para mudar de página, avançar para outros patamares. Mas causam tristeza, dor, sofrimento. Isso limita as nossas perspectivas. As emoções positivas dão-nos o que se chama de resiliência, a capacidade de recuperarmos rapidamente das adversidades. E até melhoram a saúde e aumentam a longevidade. As pessoas positivas vivem mais anos e com mais qualidade. As pessoas negativas têm maior probabilidade, por exemplo, de ter um AVC. As emoções negativas são como uma garrafa de plástico, com ácido corrosivo lá dentro. Se a pusermos em cima da mesa, algum tempo depois a garrafa está corroída e o ácido sai da garrafa e já corroeu a toalha e a própria mesa. Nesta imagem nós somos a garrafa que tem dentro o ácido. Somos nós os primeiros a ser corroídos, pelo nosso próprio ácido, pelas nossas emoções negativas.

JA - Os angolanos são mais positivos ou negativos?

AVV
- Para responder a essa pergunta tinha que me basear em estudos científicos. A psicologia é uma ciência. Não devemos aceitar respostas do tipo adivinha ou frases que se repetem sem nunca terem sido estudadas e testadas. Há dias ouvi alguém dizer na rádio que as mulheres angolanas são muito corajosas. Penso que não há estudos que permitam fazer tal afirmação. O que é a coragem? Como é que se mede? Quem já mediu e fez estudos comparativos? O que eu digo é que em Angola existem hoje melhores condições para termos emoções positivas. Se eu vier a pé do São Paulo até à Baixa, sou confrontado com muitas razões para ter emoções negativas. Mas ninguém quer viver dominado por raiva ou tristeza. O objectivo da humanidade é que todos tenham bem-estar e sejam felizes. Por isso proponho que, para além de se medir o PIB, se meça a felicidade e o bem-estar das pessoas – com métodos científica e tecnicamente válidos.

JA - Fazer essa medição é fácil?

AVV – Seria muito bom que aproveitássemos o Censo do próximo ano para medir o bem-estar e a felicidade dos angolanos. Mas aconselho as empresas a fazerem o mesmo, a avaliarem a satisfação, a felicidade que os seus trabalhadores têm na empresa. É urgente saber se os trabalhadores estão satisfeitos. Os gestores decidem que para o ano é preciso aumentar as vendas numa determinada percentagem, mas deviam também tomar esta decisão: para o ano vamos aumentar a satisfação dos nossos trabalhadores em xis por cento. E é urgente seguir por esse caminho.

JA - Como promover essa cultura empresarial?

AVV - Podemos publicar todos os anos a lista das empresas onde as pessoas mais gostam de trabalhar. Lista que deve ser feita com os critérios que estão internacionalmente testados. Isso faz-se em muitos países. Acho que todos os empresários querem ter as suas empresas nos primeiros lugares. Isso permite saber quais são as características que os trabalhadores mais apreciam, como criar relações positivas com as chefias e com os colegas. Os gestores que põem como objectivo colocar a empresa nos primeiros lugares dos locais onde as pessoas mais gostam de trabalhar são arquitectos, construtores de empresas felizes.

JA - Para isso é preciso mudar as mentalidades?

AVV - A mudança de mentalidades é o ponto de chegada, não o ponto de partida. As mentalidades só mudam quando as novas práticas levam à mudança. A mentalidade dos líderes é que tem de mudar, à partida. O Ghandi dizia: torna-te na mudança que queres ver nos outros. Para os trabalhadores mudarem as mentalidades, os líderes das empresas têm mudar primeiro e criar suportes e rotinas para os trabalhadores irem mudando. Depois é tudo muito mais fácil. É por isso que os militares e as igrejas estabelecem rotinas para a interiorização dos valores que consideram importantes. As empresas têm de fazer o mesmo.

 JA - Mudar à partida as mentalidades é no topo?

AVV - Exactamente. As mudanças começam pelas lideranças. Mas nas organizações todos são responsáveis e importantes. Dou o exemplo das infecções hospitalares. Quem as reduz ou elimina são os empregados da limpeza. Dão um grande contributo à sociedade. Não são os neurocirurgiões que fazem esse trabalho. O problema é que muitas vezes esta realidade não é compreendida. Gostava de saber qual é o presidente do conselho de administração que chama a empregada da limpeza e a felicita por limpar bem o seu gabinete, para que ele não fique com a cabeça empoeirada. Quero dizer com isto que todos devem ter orgulho no que fazem.

JA - Enquanto não temos empresas felizes, o que leva um trabalhador a escolher uma empresa para trabalhar?

AVV – É inegável que é o salário. Mas o que leva os trabalhadores a saírem é o conflito com as chefias ou a falta de camaradagem entre os colegas. E se há conflitos, que geram faíscas e não geram luz, é porque as emoções negativas se sobrepõem às positivas.

JA - A inteligência emocional joga algum papel nas empresas felizes?

AVV – Evidentemente que sim, porque trata dos relacionamentos positivos. Gerir é saber ler as emoções, as suas e as dos outros. Os relacionamentos  no trabalho devem basear-se na leitura e na empatia emocional, para os trabalhadores serem mais felizes. Mas, muitas vezes, as administrações e os responsáveis dos recursos humanos não gostam da palavra felicidade nas empresas, têm preconceitos. Por isso quando vou dar cursos às empresas falo em equação humana! O importante é que os gestores compreendam que já não vivemos na revolução industrial. Os trabalhadores hoje não são meras peças de uma engrenagem. São seres humanos dignos, que levam para o trabalho o Eu Integral, o corpo, a mente, as emoções, a alma, o espírito. Queremos trabalhadores com braços, cabeça e espírito. E têm que ser felizes. Este é um problema para a liderança resolver. Mas é preciso saber distinguir gestão de liderança.

JA - Pode dar um exemplo?

AVV - Um general pode ordenar que as tropas se apresentem amanhã com farda de combate, armados e equipados. Mas não pode dizer: ordeno que amanhã as tropas apareçam motivadas! A motivação não se consegue com ordens. Só é possível motivar os subordinados com emoções positivas, prosperidade, felicidade, bem-estar e amor. É isso que faz empresas felizes.

JA - As novas tecnologias podem ajudar a construir empresas felizes?

AVV – Não necessariamente. A tecnologia não tem moral, as pessoas que a usam é que têm moral. As novas tecnologias representam uma evolução. Mas estamos a evoluir desde os anos 50 para uma sociedade pós moderna. O capitalismo puro e duro produziu o bem-estar material que temos hoje, mas criou problemas que exigem soluções urgentes. Falo de problemas como os problemas ecológicos e o egocentrismo, problemas que provocam depressões e outras doenças psicológicas. As tais emoções negativas. Hoje precisamos de consciências integrais. O Eu está a ser demasiado dominador. É preciso um Eu com uma individualidade desenvolvida mas convenientemente integrado no Nós.

JA - Pode esclarecer com um exemplo?

AVV - O Eu é o Cristiano Ronaldo. Mas ele não joga sozinho. Só com os outros dez jogadores excelentes, cada um na sua posição, a equipa pode atingir a excelência. O todo dos jogadores, o Real Madrid é o Nós. Posso ir mais longe: é preciso respeitar as minorias e os direitos humanos, tem de haver integração. No fundo é a seguinte fórmula: todos diferentes, todos iguais.

JA - Voltamos à felicidade. De que forma as empresas podem seguir esse caminho?

AVV - têm que aprender a gerar emoções positivas. As emoções positivas dependem das atitudes que temos para com o passado, o presente e do futuro.

JA - Que emoções têm a ver com o passado?

AVV - As emoções também têm a ver com o passado. A gratidão e o perdão para com o passado geram emoções positivas no presente. A gratidão é importantíssima porque dizer obrigado a um colega, um subordinado ou um chefe, junta as pessoas à volta de interesses comuns. Mostra apreciação e reconhecimento. E isso é essencial para unir as pessoas. A gratidão é uma mola poderosa que, com base no reconhecimento e agradecimento do bem do passado, projecta-nos para um presente positivo. Quem faz um diário de gratidão pratica uma retrospectiva do que lhe acontece de bom. O perdão é igualmente fundamental. Quando carregamos o ressentimento e não perdoamos, acumulamos emoções negativas. Precisamos de uma tesoura para cortar com o passado negativo e essa tesoura é o perdão. Quando perdoamos, a negatividade escapa e isso faz-nos bem.

JA - Quais são as emoções do presente?

AVV - O prazer e a gratificação. Os trabalhadores têm de gostar do que fazem, mas para isso têm que ser estimulados pelas lideranças. A gratificação que se sente com o envolvimento profunda numa tarefa desafiante, mas para a qual estamos bem preparados, leva o trabalhador a ser cada vez mais feliz. Mas às vezes, no dia-a-dia temos de escolher perder. Só escolher ganhar, pode levar-nos a ir de vitória em vitória até à derrota final. Às vezes nas empresas verificamos que os trabalhadores reclamam tolerância mas são intolerantes com os seus chefes e colegas. E às vezes devem-lhes o benefício de melhores oportunidades. As emoções positivas são essenciais para gerir o presente nas empresas.

JA - Como podem as empresas olhar para o futuro?

AVV – Ao nível das emoções, com optimismo e esperança.

JA - Os salários contam para a felicidade?

AVV – Não e sim. O dinheiro não dá necessariamente felicidade. Numa escala de zero a sete, quando perguntados quão satisfeitos estão com a sua vida, os mais ricos dos EUA atingem a nota 5.8 de felicidade. Mas os massai em África têm a nota 5.7. Isto porque a satisfação existe em função do que vemos à nossa volta. Quem não tem carro fica infeliz se vê à sua volta toda a gente com carro. Quem tem 30 pares de sapatos fica indiferente a 31 pares. Mas quem tem apenas um par, fica feliz se tiver mais um. Quem tem as necessidades básicas plenamente satisfeitas, não é mais feliz por ter mais dinheiro. Mas a quem falta tudo, mais um pouco de dinheiro ao fim do mês é sinónimo de mais felicidade.

JA – Como é que os pobres se abastecem de felicidade?

AVV- Desde logo com combate directo à pobreza. Mas também com “a palavra”. Fortalecendo-se emocionalmente. Ganhando resiliência, capacidade de superar as adversidades, buscando positividade e descartando a negatividade. Por respeito – e carinho – para com as pessoas que vivem com dificuldade, tenho que dizer o seguinte: sei bem que não é fácil; em certos casos, é até necessário verdadeiro heroísmo. Mas as igrejas e outros locais de culto estão cheias de deserdados, pessoas a quem até o pão falta. Vão à igreja porque sabem que a palavra que lá vão ouvir lhes dará energia para lutar e minimizar o sofrimento. Vão à igreja fortalecer-se emocionalmente, buscar um complemento de felicidade e bem-estar: não só do pão vive o homem mas também da palavra; tudo posso naquele que me fortalece.

JA - Até onde nos levam as emoções positivas?

AVV - Emoções positivas a 100 por cento levam-nos ao paraíso. Quem está carregado de emoções positivas é feliz. Diz-se – a brincar – que o paraíso é uma chatice, não há lá nada para fazer, por isso temos de ter aquilo a que se chama engajamento nas actividades que gostamos de fazer, aquilo que fazemos pelo seu próprio valor. Eu vivo num oitavo andar. Se não tivesse elevador, ficava infeliz. Mas acontece que de manhã, desço no elevador para ir tomar café e quando volto, subo pelas escadas. Porque isso é gratificante e faz bem à minha saúde. Sou eu que escolho subir as escadas porque tem valor. Isso faz-me feliz.

JA - Quem corre por gosto, não cansa?

AVV - Exactamente. O que escolhemos pelo seu próprio valor é felicidade. Ninguém é feliz sem fazer nada. Ninguém é feliz sozinho. Quase todas as coisas positivas são compartilhadas. Muito pouco do que existe de positivo na vida, é solitário. Isto é muito importante nas empresas. As pessoas precisam de crescer nas competências e nos desafios que têm de enfrentar, conjuntamente com os outros.

JA - O sucesso profissional é importante?

AVV - Claro, ninguém gosta de perder, perder, perder. Há uma fórmula interessante que foi criada inspirada no ensino mas que se aplica às empresas: o sucesso é igual à aptidão vezes o esforço. No desporto, os melhores dos melhores esforçam-se e treinam muito mais do que os bons e os médios atletas.

JA - Quais são as relações laborais ideais?

AVV - Os patrões não podem explorar os trabalhadores. Mas os trabalhadores também não podem seguir o modelo “não te rales, não te entales”. Quem se esforça mais, mesmo que não seja reconhecido, deve ter uma reacção positiva, porque está a aumentar as suas competências e as probabilidades de sucesso. Há um estudo que revela esta realidade: para atingir o top mundial numa determinada profissão são necessárias 60 horas de trabalho semanais durante dez anos seguidos. As pessoas de sucesso não trabalham menos, trabalham mais. Portanto, nem exploradores de trabalhadores, nem trabalhadores que vão para o emprego somente para sujarem a roupa.

JA - E como se promovem as relações laborais positivas?

AVV - As pessoas precisam de uma rede de relações íntimas, de fraternidade e de felicidade. Todos precisamos de compartilhar o que é bom, porque só assim o que é bom se torna melhor. É necessário lidar adequadamente com o passado, o presente e o futuro.

JA - O que Angola tem a ganhar com empresas felizes?

AVV – Tem tudo a ganhar. O desenvolvimento económico desde a paz exige hoje empresas bem organizadas e felizes. A conquista da paz marca a actualidade da sociedade angolana. Se perguntarmos a um angolano quais são as datas mais importantes no país nos últimos 40 anos vai referir o 11 de Novembro e o 4 de Abril. Mas se fizemos grandes progressos, também temos grandes carências. É notório que temos muitos convites e apelos à negatividade. Batem-nos à porta a todas as horas. Por isso as empresas angolanas  – e não apenas as empresas – precisa de emoções positivas. Só elas dão felicidade.

JA - Que escolhas há a fazer para atingirmos a felicidade?

AVV - Temos de escolher se queremos ser caçadores de falhas ou andar à procura de benefícios. Ou analisamos e exploramos o que está mal ou estamos treinados para identificar o que está bem. O caminho é identificar e ampliar o que está bem, para dissolver o que está mal. Temos muitas carências, mas se queremos empresas felizes é obrigatório concentrarmo-nos no que está bem e pode ser ainda melhor. Queremos paz social. Mas, ao mesmo tempo, temos que aceitar, até dar como muito bem-vinda, a diferença. Isto num quadro de harmonia. Diálogo e harmonia atraem as pessoas para a parte positiva das relações.

JA - O Executivo está a ajudar a criar empresas felizes?

AVV - O governo angolano tomou medidas muito importantes que vão permitir multiplicar por muitos, por mil ou mais as empresas nacionais. É isso o que vai acontecer com as empresas unipessoais, com, digamos, a empresialização dos pequenos negócios, com um apoio muito maior às pequenas e médias empresas. São políticas correctas que, se bem implementadas, vão permitir pôr à disposição dos angolanos mais produtos e serviços essenciais. Este caminho leva ao nascimento de muitas mais empresas que nos vão fornecer bens e serviços de que necessitamos. Depois depende das lideranças optarem por empresas felizes.

JA – Há bons exemplos para servirem de inspiração?

AVV – Certamente que sim e em todos os sectores. No público, no privado, no sector comunitário, social, no desportivo, etc. Há um bom exemplo muito recente. O Ministério dos Transportes optou por fazer das empresas públicas do sector empresas felizes. “Esta é uma iniciativa inédita e criativa, que vem reconhecer a importância de um clima de harmonia e bom ambiente no local de trabalho” Acabei de citar palavras que o Presidente da República e Chefe do Executivo proferiu no passado dia 26 de Abril, no discurso de abertura do Ciclo Dias da Felicidade nas Empresas Públicas de Transporte.

JA – Depois disso, qual é a sua expectativa?

AVV - Seria bom que todas as empresas angolanas, principalmente as empresas públicas e os grandes empregadores, fossem positivamente contagiadas de felicidade. Seria muito bom que essa “iniciativa inédita e criativa” chegasse também a outros sectores, que outros sectores e outras empresas encontrassem igualmente as suas iniciativas inéditas e criativas para estimularem a felicidade dos seus trabalhadores. Trabalhadores Felizes, Angola a Prosperar. Nosso Trabalho, Nossa Felicidade, Nossa Angola. Estes deveriam ser os lemas de todas as organizações e empresas angolanas. Afinal, todos somos trabalhadores e todos buscamos a felicidade.

Santo da casa que faz milagres

Amândio Vaz Velho é Licenciado pela Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto (Angola) e Doutorado pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa (Portugal).
Após o doutoramento tem continuado a cuidar da sua formação e voltou à escola para frequentar cursos em universidades e centros de formação de grande prestígio internacional como Harvard Business Scholl, Center for Creative Leadership, Kellogg School of Management, INSEAD, College of Liberal and Professional Studies at the University of Pennsylvania, London Business School, New England Complex Systems Institute, Massachusetts Institute of Technology e Cranfield School of Management.
Preside ao C4E (Centro de Estratégia, Eficácia e Eficiência Empresarial).
Leccionou no mestrado em gestão (MBA) da Universidade Católica Portuguesa e em cursos de pós graduação no Instituto Superior Técnico de Lisboa (IST) e no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). Foi docente e Chefe de Departamento no Instituto Superior de Gestão (ISG). Leccionou também no Instituto Superior de Gestão Bancária (ISGB). Começou a sua actividade de docência universitária na Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto, onde foi Chefe de Departamento.
Prestou assessoria para membros de governo, destacadas empresas e organismos públicos.
Tem ministrado cursos e seminários para largas centenas de executivos e gestores. Quer os conteúdos, quer a comunicação, têm sido extremamente apreciados.
É um dos autores do livro Mestres Portugueses da Gestão. O livro reúne 16 autores, escolhidos de entre os mais relevantes especialistas de gestão de Portugal. É autor do livro Arquitectura de Empresa, a bíblia da disciplina em Portugal.
Amândio Vaz Velho partilha conhecimentos e experiencias através da sua página no Facebook no seguinte endereço: www.facebook.com/amandio.velho.~

Nota de Agradecimentos


Quero manifestar o meu profundo agradecimento ao Senhor Ministro dos Transportes do Executivo de Angola, Dr. Augusto da Silva Tomás, por ter promovido o ciclo Dias da Felicidade nas Empresas Públicas de Transportes e por me ter convidado para, enquadrado no ciclo, ministrar o Seminário Empresas Felizes. Muito obrigado Senhor Ministro pela extraordinária experiência, profissional e humana, que me proporcionou.
Acompanho plenamente o Senhor Ministro Augusto Tomás nos agradecimento que tem expressado à Sua Excelência o Senhor Presidente da República, Engº José Eduardo dos Santos, por ter aceite presidir à cerimónia de abertura do ciclo Dias da Felicidade nas Empresas Públicas de Transportes, acto que decorreu no passado dia 26 de Abril. É para mim uma elevada honra ter sido o instrutor de um ciclo de seminários que mereceu a distinção de ser aberto pelo Chefe de Estado. Muito obrigado Senhor Presidente da República.

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