Entrevista

Crimes violentos estão a descer

Yara Simão|

Mais de 90 mil armas foram entregues à Polícia Nacional, no âmbito do programa de entrega voluntária de armas e recolha coerciva, informou o comandante-geral Ambrósio de Lemos, em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola. “Os trabalhos que temos desenvolvido nos últimos 36 anos permitem-nos caracterizar como estável a situação da segurança pública em todo o país”.

Comandante-geral Ambrósio de Lemos afirma que a população hoje confia na polícia
Fotografia: Kindala Manuel

Mais de 90 mil armas foram entregues à Polícia Nacional, no âmbito do programa de entrega voluntária de armas e recolha coerciva, informou o comandante-geral Ambrósio de Lemos, em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola. “Os trabalhos que temos desenvolvido nos últimos 36 anos permitem-nos caracterizar como estável a situação da segurança pública em todo o país”.

JORNAL DE ANGOLA - Que análise faz dos trabalhos desenvolvidos durante os 36 anos da PN?

AMBRÓSIO DE LEMOS -
Com o fim da guerra, em 2002, a Polícia Nacional assumiu o processo de modernização e desenvolvimento, que tem proporcionado resultados animadores no que diz respeito ao seu crescimento, colocando-a entre os melhores policiais da região. Hoje tem capacidade para realizar operações policiais, marítimas, além das tradicionais capacidades nos domínios da investigação criminal e económica e da ordem pública. A nossa polícia tem sido convidada a participar na formação de efectivos de instituições policiais congéneres.

JA - Os resultados são animadores?

AL -
São muito positivos, sobretudo no domínio da elevação do nível de formação técnico-profissional do pessoal e na melhoria de condições de vida e de trabalho dos efectivos, o que tem permitido melhorar cada vez mais a qualidade dos serviços prestados à população, procurando manter sempre os níveis de integridade, profissionalismo e eficiência.

JA - Angola está numa fase de desenvolvimento. A Polícia nacional está atenta a essa realidade?

AL -
A Polícia Nacional soube adaptar-se à nova realidade de desenvolvimento e crescimento que o país regista. Para além dos aspectos positivos no domínio da ciência e da tecnologia, surgiram novos aspectos positivos no domínio da ciência, da tecnologia e novos parâmetros de riscos ou factos que desencadeiam a criminalidade.

JA - Como caracteriza a segurança pública em 36 anos de trabalho da Polícia Nacional?

AL -
Os trabalhos que temos desenvolvido nos últimos 36 anos permitem-nos caracterizar a situação de segurança pública em Angola como estável. Anualmente, 87 por cento dos crimes registados são esclarecidos. Isso significa que os seus autores foram detidos e os processos-crime remetidos aos Tribunais.

JA - O crime em Luanda tende a aumentar?

AL -
Apesar das estatísticas mostrarem mais crimes registados pela  PN, a avaliação do crime violento, aquele que é capaz de produzir um elevado sentimento de insegurança, permite-nos constatar que nos últimos seis anos, os homicídios e as violações conheceram reduções, registando-se em média três crimes dia. Registámos um aumento de crimes de roubo, furtos e ofensas corporais, devido fundamentalmente a situações de vulnerabilidade social em que muitos se encontram.

JA - Quais as causas dos crimes?

AL -
Grande parte dos crimes registados foi praticada por espancamento e uso de armas brancas, questões passionais, partilha de bens, crenças no feitiço, e outras.

JA – A população confia no trabalho da Polícia Nacional?

AL –
Confia. A melhoria da eficácia da acção policial levou à confiança das populações no trabalho que é realizado, aumentando as denúncias dos factos de que têm conhecimento. Isso provoca uma redução dos crimes.

JA - Que respostas são dadas à criminalidade?

AL -
A Polícia Nacional tem procurado dar resposta à criminalidade com medidas preventivas e outras de carácter reactivo. E para um melhor controlo da criminalidade estamos a recorrer ao policiamento de proximidade e a envolver as comunidades na defesa dos seus legítimos interesses de segurança, removendo os factores que desencadeiam o crime.

JA - Isso quer dizer que não há necessidade de mudanças?

AL -
A necessidade de mudanças é um facto e está a ser feita de forma cuidadosa e tecnicamente bem estudada, para que as estratégias assentem sobre a realidade socioeconómica e política do país.

JA - Os níveis de funcionalidade da Brigada Canina são bons?

AL -
Sim. Particularmente no que diz respeito à sua participação no combate à droga e no controlo das multidões. Temos também a Brigada Escolar, com a qual conseguimos criar um quadro de estabilidade nas instituições de ensino que apresentavam alguma violência. Estamos a promover o alargamento destas unidades para dar cobertura a todo o país.

JA - A Brigada electrónica funciona bem?

AL -
A brigada de segurança electrónica está a ser redimensionada e a evolução permanente da tecnologia e dos equipamentos torna oneroso o funcionamento desta unidade que a breve trecho vai tomar um novo rumo.

JA - Existe alguma estratégia para impedir a entrada ilegal de estrangeiros por via marítima?

AL -
A imigração ilegal é uma das principais preocupações de segurança em Angola. Os imigrantes ilegais com maior realce para os provenientes do Norte e Oeste da África e da RDC, invadem de forma silenciosa e a todo custo as nossas fronteiras. Em 2011, reforçámos o controlo fronteiriço, com a criação de um plano estabelecido para o efeito.

JA - E qual foi o resultado?

AL -
O êxito da estratégia de combate à imigração ilegal assenta fundamentalmente na colaboração de todos os sectores da sociedade, com particular realce para as populações residentes nas zonas fronteiriças, na denúncia de todo aqueles que facilitam a entrada e dão hospedagem a imigrantes ilegais.

JA - A sensibilização aos automobilistas tem resultados positivos?

AL –
Infelizmente, apesar do árduo trabalho de sensibilização aos automobilistas, a sinistralidade rodoviária continua a constituir preocupação devido às suas consequências. A título de exemplo, em 2011 registaram-se 14.910 acidentes de viação que provocaram 3.661 mortos e 14.439 feridos graves.

JA - O álcool continua a ser o motivo principal dos acidentes rodoviários?

AL -
As causas dos acidentes de viação radicam na inobservância das regras do Código de Estrada por parte dos peões, que na maioria dos casos denotam falta de educação cívica. Também por parte dos automobilistas que mostram falta de preparação. E finalmente a concepção e construção das infra-estruturas rodoviárias, particularmente no que diz respeito à ausência de áreas que garantam mobilidade segura aos peões. Mas o álcool ao volante é causa de muitos acidentes.

JA - O que a Polícia Nacional tem feito para conter crimes informáticos?

AL -
A Polícia Nacional deu os primeiros passos para a compreensão deste problema, com a criação da brigada de investigação tecnológica na Direcção Nacional de Investigação e Inspecção das Actividades Económicas, por reconhecer que a intenção última dos marginais informáticos é a obtenção de uma vantagem financeira ou patrimonial.

JA - Está prevista a criação de lei específica para este crime?

AL -
É necessário e urgente a introdução no nosso ordenamento jurídico, de uma lei especifica que previna e combata estritamente a criminalidade informática, que vem ganhando proporções alarmantes, com magnitude transnacional.

JA - Quais as atribuições da brigada de investigação tecnológica?

AL -
Esta brigada tem como atribuições prevenir e combater a criminalidade cibernética, sobretudo as fraudes pela Internet, fraudes no uso das comunicações, ataques cibernéticos, pirataria informática contra interesses dos particulares ou do Estado e a pornografia infantil.

JA - Quais os crimes mais cometidos em Luanda?

AL -
Uma análise às estatísticas criminais referentes aos últimos cinco anos, verificamos que os crimes mais frequentes no país são as ofensas corporais, com 9.383, furtos, 8.038, roubos, 4.063, violações, 1.063 e homicídios voluntários, com 1.055 casos.

JA – Há insuficiências no vosso trabalho?

AL -
A polícia tem as suas dificuldades e insuficiências. Mas temos estado a lutar para superá-las no domínio da educação e infra-estruturas. Queremos levar a polícia onde ela não existe, para que a população se sinta mais segura. Reconhecemos que a nossa polícia ainda não é a melhor, mas este é o caminho que vai conduzir a uma polícia eficaz, que possa satisfazer os anseios da população.

JA - Quantas armas que estavam nas mãos de civis foram entregues à polícia?

AL -
Já terminou o programa de entrega voluntária de armas. Estamos numa fase de recolha coerciva e é aí que vamos inserir a nossa acção. Ainda há pessoas que têm armas em sua posse e podem fazer a entrega voluntária. Mas aquelas que forem encontradas em posse ilegal, vão ajustar contas com a polícia. Neste momento já temos mais de 90 mil armas recolhidas.

JA - Há corrupção na Polícia Nacional?

AL -
Temos punido todos aqueles que cometem infracções. Estamos acima dos 90 mil homens e tudo está a ser feito para melhorar os salários dos nossos efectivos. O Executivo tem estado preocupado com esta situação.

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