Entrevista

Curadora Suzana Sousa aborda a gestão cultural

Jomo Fortunato|

Licenciada em estudos artísticos, variante artes e culturas comparadas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mestranda em Culturas Pós-coloniais e Políticas Globais, na Universidade de Londres, Goldsmiths College, no departamento de Estudos Culturais, Suzana Sousa trabalha em produção e gestão cultural em Luanda desde 2003.

Suzana Sousa diz que a curadoria é um trabalho de colaboração com o artista mas é também um espaço criativo de desenvolvimento
Fotografia: DR

Jornal de Angola - O que espera o público e, principalmente, os artistas do desempenho de uma curadora?

Suzana Sousa -
Penso a curadoria como um trabalho de colaboração com o artista, por um lado, mas por outro é também um espaço criativo de desenvolvimento de conceitos. Creio que há ainda a impressão de que a curadoria se esgota numa exposição, mas não. É possível fazer curadoria noutros formatos e com vários artistas. O essencial é que o curador seja capaz de oferecer uma leitura da obra de arte.

JA - Para si, quais são os momentos mais agradáveis no processo de montagem e instalação de uma exposição?

SS -
Para mim é a pesquisa sobre as obras e os temas que estas abordam. A montagem e instalação, normalmente, acontecem no seguimento de uma série de decisões, a sala ou o espaço disponível, as obras e sua colocação no espaço, entre outros aspectos.

JA - A identificação estética e visão do mundo com o artista que expõe concorrem, pela positiva, para o êxito do trabalho?

SS -
Sim, acho que é essencial haver aspectos em comum entre o artista e o curador. Podem ser estéticos e, ou, temáticos, há inclusive curadores que se especializam em determinadas técnicas.

JA - A recente exposição “Os sonhos do embondeiro” de Iris Buchholz Chocolate, da qual é curadora, propõe uma leitura do passado histórico recente de Angola?

SS -
Sim, a Iris é alemã e vive em Luanda há cerca de três anos. Nesta exposição, ela reinterpreta, a partir da sua própria experiência, símbolos nacionais e reflecte sobre elementos da nossa História. Em determinados momentos, trata-se da relação que estes estabelecem com a sua própria história, como a obra “Memória de um país antigo” em que a artista entrevista angolanos que viveram na antiga RDA. Ou mesmo das tentativas de integração ou de adopção da nossa cultura como em “Kizomba”.

JA - Do ponto de vista do fluxo da produção artística actual em Luanda, quais podem ser as estratégias funcionais para uma gestão cultural eficiente, na relação espaço, criador, obra e público?

SS -
A cidade precisa de espaços e programas regulares para que haja um impacto concreto a nível do público e também para que os artistas possam estabelecer uma relação com este. Contudo, em termos de gestão cultural, o espaço da cidade presta-se a programas diversos de arte pública e de interacção com públicos de gerações e espaços diferentes. Quer dizer, a própria cidade pode ser o palco de artistas e do desenvolvimento de programas.

JA - Há cada vez mais franjas de público habituadas e preparadas para visitar exposições com um olhar crítico?

SS -
Sim, creio que sim. O interesse dos estudantes universitários é crescente, o que também se deve ao aumento da oferta em termos de universidades e cursos. Há cada vez maior sensibilidade para programas educativos e, de uma forma geral, as pessoas começam a habituar-se às exposições, a pedir mais e melhor programação e a desenvolver um olhar crítico.

JA - Em relação à programação, quais são as grandes expectativas da III Trienal de Luanda?

SS -
A grande novidade nesta edição parece-me que são os curadores e os programas que estes vão desenvolver no conjunto do projecto. Contudo, as anteriores edições já nos habituaram a uma oferta variada e de qualidade, mas mais detalhes vão ser divulgados em breve pela Fundação Sindika Dokolo.

JA - Enquanto académica, quais são as suas propostas para optmizar o ensino e a aprendizagem das artes em Angola?

SS -
O ensino das artes devia começar a nível do básico e contar com opções a nível superior, o que infelizmente não é o caso. Acho que a investigação e publicações podiam ter um papel importante na promoção da profissionalização e no estabelecimento de padrões de qualidade.

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