Entrevista

Das realizações aos insucessos no mandato

Ferraz Neto

Ana Liliana Avião foi, até à noite de ontem, a detentora da coroa de Miss Angola. Nasceu em Angola, mas em tenra idade emigrou com a mãe para Benelux (Holanda), onde concorreu e venceu o título de Miss Angola-Holanda. Horas antes de efectuar a entrega da coroa de mulher mais bela de Angola, Ana Lilliana Avião desvendou-nos, detalhadamente, o percurso sinuoso que marcou o seu mandato, ofuscado pela crise política e económica e a falta de patrocínios, assim como a ausência da madrinha, que é um dos principais rostos que sempre apostou no Miss Angola. Foi com sorriso afável que Ana Avião nos recebeu. Leia, na íntegra, a entrevista em que ela recorda vários momentos da sua vida como Miss Angola 2018 e onde se mostra aos leitores, sem medo da verdade, como uma verdadeira mulher

Fotografia: Agostinho Narciso | Edições Novembro

O seu mandato terminou há poucas horas. Julga que o balanço é positivo?

Foi positivo. E digo positivo porque quando alcancei o título de Miss Angola, em 2018, era apenas uma menina. Hoje, passado um ano, sinto que me tornei uma mulher. Quer do ponto de vista intelectual, como na minha maneira de ser e estar. Aprendi a valorizar as coisas e a respeitar a própria vida. Cresci na Holanda até aos meus 17 anos. A primeira vez que pisei o solo angolano foi por altura do concurso Miss Angola 2018. Por sorte, fui eleita Miss Angola. Outra das coisas que aprendi e aperfeiçooei foi a língua portuguesa. Foi difícil a minha adaptação, por causa do choque de culturas. Recebi críticas e apoios. Conheci o interior de Angola, viajei para várias regiões do nosso país. Conheci bem o meu país e acho que o senhor consegue notar a diferença existente desde a minha eleição até hoje. Mudei muito e para melhor!. Angola ensinou-me a ser uma mulher e dona de casa.

Na sua eleição como Miss Angola comprometeu-se com questões sociais. O que lhe faltou para o êxito do seu mandato?

Consegui cumprir o prometido. Cheguei a realizar várias actividades sociais, como o combate ao cancro da mama. Participei em causas sociais, com realce para o programa “Eu Posso Ajudar”, onde, na qualidade de Miss Angola, viajei para a República de Moçambique, depois da passagem do ciclone IDAI. Dentro da campanha “Eu Posso Ajudar” desenvolvi várias actividades, sobretudo de empreendedorismo, com os diferentes centros juvenis de Luanda, e não só. As jovens mulheres foram as mais visadas. Pude mostrar às jovens como criar um ambiente de negócios e encontrar investidores. Ajudei bastante algumas jovens a alavancar o seu lado psíquico. Quero acrescentar que também viajei para a República da Zâmbia, onde, na companhia das diferentes Miss Universo de África, analisámos os problemas que afectam os jovens no continente e realizámos vários projectos sociais. Viajei pelo interior de Angola, com realce para a província do Cunene, onde a seca está a afectar milhares de pessoas. Vivi a realidade de cada uma das pessoas com quem pude conviver.

Aceitou o desafio de ser Miss Angola, mesmo com as excelentes condições que tinha na Holanda. Valeu apena ou sente-se frustrada?

É lógico que valeu a pena. Só o facto de estar na terra em que nasci já foi uma vitória. Quero dizer-lhe que encontrei mais dificuldades pessoais do que no cumprimento das minhas tarefas como Miss Angola. Falo no aperfeiçoamento em termos de comportamento. Cresci no meio de uma cultura diferente da nossa. Levei oito meses para conseguir lidar e responder às expectativas das pessoas que votaram em mim. Por outro lado, consegui satisfazer as expectativas do Comité Miss Angola. Há um padrão que é exigido em todas as misses e eu tive que me adaptar num curto espaço de tempo. O difícil, para mim, foi liderar perante a pressão e as expectativas que se criaram com a minha eleição. Foi muito difícil. Veja que vim a Angola como estudante. Ser Miss exige muito. Mas sinto-me bem e regozijada.

Diz-se que as mudanças políticas registadas em Angola afectaram o seu mandato como Miss Angola 2018. Falo da ausência de uma madrinha do Comité e da falta de patrocínios...

Sim. Na verdade eu não fiz parte do reinado da Miss Angola 2017 e não posso fazer uma comparação do que ela teve e do que eu não tive. Mas notei que os meus colaboradores estavam a sentir directamente as mudanças políticas, que se registavam no país. Falo em termos de patrocinadores, apoios que deixaram de ser dados ao Comité. Houve também um descrédito por parte da população. As pessoas deixaram de olhar para o Comité como o faziam nos mandatos anteriores. Quanto a mim, sinto-me feliz porque consegui realizar os meus projectos, mesmo sem os apoios das instituições que sempre apoiaram o Comité.

Afinal, como é que conseguiu resistir como Miss Angola, com todas essas vicissitudes?

Há ainda patrocinadores fiéis, que nunca largaram o Comité Miss Angola. É com estes poucos que consegui materializar os meus projectos sociais. As cestas básicas vieram daqueles patrocinadores que são detentores de supermercados. Com o pouco que recebemos, conseguimos construir projectos sociais. Por vezes, não é necessário que as pessoas tenham milhões para realizar um bom projecto social. Foi isso que fiz!

O que de mais agradável viveu como Miss Angola? Chegou a receber todos os prémios?

Infelizmente, não. Recebi alguns e quero dizer, aqui, que não prestei muita atenção aos prémios. É difícil entender isso, mas para mim os prémios não eram o que mais me importavam. Quando decidi concorrer ao Miss Angola, queria apenas conhecer a minha cultura, a minha realidade. Outras das intenções era conhecer o meu pai, realizar projectos sociais que pudessem engrandecer o meu nome e o do país. Recebi os prémios mais importantes. O que ficou é para esquecer.

Está a insinuar que não recebeu todos os prémios?

Não. Recebi apenas os mais importantes. Cito aqui a preparação para o Miss Universo, um guarda-roupas completo e fui para Portugal em tratamento de estomatologia (dentes). Também recebi da empresa de electrodomésticos Midea vários bens e recebi mobiliário completo de casa. Ouvi o senhor falar de carro. Infelizmente no meu mandato não recebi carro. Os patrocinadores que garantiam a oferta de carros ao Comité Miss Angola rescindiram o contrato.

Levanta-se a questão da língua portuguesa ter sido um dos obstáculos para a sua afirmação e interacção com as pessoas. Concorda com isso?

Não é verdade e não concordo! Veja que no final de cada dia acabava por ter um balanço positivo. A minha maneira de comunicação durante a materialização dos projectos sociais não fugia daquilo que estava idealizado. Posso dizer que afectou-me sim, mas não de forma profunda. Consegui atingir o que sempre idealizei e hoje digo que a missão está cumprida.

No Miss Universo, em Dezembro de 2018, na Tailândia, não atingiu lugar de destaque, ao contrário das Miss Angola anteriores. Sentiu que isso terá contribuído para a falta de apoios e o descrédito do Comité Miss Angola?

Gostei muito de estar lá. Infelizmente não tive uma classificação digna como idealizei. O concurso Miss Universo é uma competição terrível, com as demais candidatas. São mais de 95 candidatas em representação dos seus países. Fiquei decepcionada com a minha classificação. Lutei para que a coroa de Miss Universo regressasse ao nosso país, mas infelizmente não consegui. Levei um mês, depois do concurso, a pensar no que aconteceu. Fiquei triste. Foram dias de muita reflexão e concluí que lutei muito, para que Angola conquistasse um lugar digno. Enquanto estive na Tailândia acordava cedo, fui excelente nas sessões de fotos, cativei a imprensa local e internacional. Enfim!

A realidade actual do país levou a que várias províncias não organizassem a gala de eleição da Miss, deixando muitas beldades locais de fora. Se lhe pedissem para continuar no cargo, aceitaria?

Não. Tudo na vida tem fases e a minha eleição foi uma dessas fases. Se me voltassem a contactar, diria que não. Tenho outros projectos e outros desafios pela frente. Apostei na criação de uma empresa, do meu próprio negócio. Não vou revelar aos leitores, por ser ainda segredo. Quero realizar primeiro e depois divulgar aos angolanos. Estou a trabalhar para que seja uma realidade. É o meu sonho.

Quais são os passos que pretende dar, depois do mandato do Comité Miss Angola? Fica em Angola ou regressa a Benelux - Holanda?

Tudo está a acontecer muito rapidamente, na minha vida. Acabei de concluir os meus estudos na Holanda e deixei a coroa de Miss Angola 2018. Não sei o que dizer. Estou dividida entre voltar para a Holanda e manter-me em Angola. A minha mente diz que é melhor regressar, mas o meu coração diz para ficar. No final de cada dia, fico indecisa. Veja que não cresci em Angola e tenho uma mãe que desde pequena cuidou de mim. Ainda mais, sou filha única. Tenho de fazer uma escolha nos próximos dias. Se for para ficar, terei de criar um bom motivo para continuar a minha vida aqui.

Já tem casa própria em Angola?

Infelizmente, não. Não tenho uma renda mensal própria para suportar as despesas com o aluguer de uma casa, pagar energia eléctrica, água, entre outros meios. Veja que em Benelux - Holanda tenho tudo isso. Estou a lutar para que tenha estas condições em Angola. Vou conseguir e tenho fé!
Na última conversa que mantivemos, disse que tinha dificuldades em cozinhar iguarias de Angola. Decorrido um ano, aprendeu a cozinhar?
(Risos). Sim, aprendi. Já sei cozinhar um bom funge. Sei fazer peixe grelhado, molho de tomate, arroz com feijão. Aprendi com a Miss Angola 2015 a confeccionar arroz com peixe atum. Todos os dias aprendo algo de novo. Agora, que estarei mais livre, irei aprender ou terei aulas de culinária.

Que palavras deixa à nova Miss Angola?

Uma mensagem de carinho e que, durante o seu mandato, seja ela mesma. Como Miss Angola, é uma figura pública, o público exige muito dela. Espero que a mesma seja natural, simpática e humilde. Estarei aqui para poder ajudar.

Diz-se à boca pequena que está noiva. É verdade?
É mentira! Não tenho muito interesse em ter um namorado, neste momento. Não estou focada em ter um parceiro. Sou uma mulher que sonha muito alto. Namorado ainda não está nos meus projectos.

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