Entrevista

''Dei o meu melhor para a OMS e África''

O médico angolano Luís Gomes Sambo, que exerce, desde 2005, o cargo de director do Comité Regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para África, cessa as  funções no dia sete deste mês, no final dos trabalhos da 64ª sessão deste órgão, a ter lugar na cidade de Cotonou, República do Benin, a partir do dia três.

Luís Gomes Sambo deixa o posto com o sentimento do dever cumprido após dois mandatos a frente do Comité Regional da OMS para África
Fotografia: DR

Em vésperas da reunião, Luís Gomes Sambo, que cumpriu dois mandatos consecutivos, concedeu uma entrevista exclusiva à Angop, na qual fala sobre vários temas da actualidade africana ligados à saúde, desde as principais endemias e as respectivas políticas governamentais de resposta às metas preconizadas para uma África mais saudável. "Dei o meu melhor para a OMS e para África", disse, em jeito de balanço, o médico angolano, que cumpriu o  primeiro mandato, à frente da organização desde Fevereiro de 2005.

Pergunta - Que metas estabeleceu para os seus mandatos? Acha que os objectivos pelos quais se bateu, à frente do Comité Regional da OMS para África, foram cumpridos?


Resposta: Para prestar contas sobre o meu mandato durante os últimos dez anos, produzi um relatório intitulado “Uma Década de Acção da OMS na Região Africana”. Este relatório trata da minha contribuição ao desenvolvimento sanitário em África na qualidade de chefe da equipa da OMS na região africana. Para responder aos desafios que se colocavam à região em 2005, impulsionámos oito medidas que nos levaram à melhoria do desempenho da organização: a reestruturação para melhorar a eficácia e a eficiência organizacional, a produção de orientações políticas, técnico-normativas e mesmo científicas para melhorar a qualidade e cobertura dos cuidados de saúde às populações, prioridade absoluta à saúde da mãe e da criança, aceleração das intervenções relacionadas com o controlo do VIH/Sida, tuberculose e paludismo, arranque da luta contra as doenças crónicas, promoção das determinantes da saúde e prevenção dos riscos associados às doenças não transmissíveis e capacitação e autonomia do pessoal da OMS na região. Não conseguimos realizar a cem por cento as nossas aspirações, mas estamos satisfeitos com os resultados.

P - Se lhe pedissem para caracterizar a situação da saúde no continente, o que diria?

R
- Eu diria que a saúde em África vai ao ritmo do crescimento económico e da distribuição dos seus benefícios, que tem um impacto importante nas condições de vida da população. O desempenho dos sistemas de saúde joga um papel determinante na melhoria do estado de saúde das populações que, no caso de África, é marcado por um peso elevado de doenças transmissíveis como o VIH/Sida, paludismo, tuberculose, doenças tropicais negligenciadas, epidemias recorrentes às quais se juntam o aumento progressivo de doenças crónicas, como a diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, cancro e perturbações mentais. O peso das doenças tem um impacto especial sobre os grupos mais vulneráveis das populações. As taxas de mortalidade materna e infanto-juvenil no continente são elevadas. No decurso da última década, registaram-se progressos importantes. A mortalidade infantil desceu de 80 para 63 óbitos por cada mil nascidos vivos, a das crianças com idade inferior a cinco anos, de 129 para 95 óbitos por cada mil, a materna de 670 para 500 óbitos por cada mil. A taxa de  incidência do VIH sofreu uma redução de 26 por cento, as mortes associadas à Sida de 34 por cento e os casos de paludismo baixaram 39 por cento.

P - Há um grande avanço no combate à poliomielite?


R - Entre 2005 e 2013, o número anual de casos de poliomielite registou um decréscimo de 90 por cento. Estes avanços traduzem o resultado do trabalho dos governos, das comunidades africanas e dos parceiros de desenvolvimento. As estatísticas a que me refiro são continentais, mas existem disparidades entre os países e no interior de cada país. Assiste-se a graves injustiças no acesso aos cuidados de saúde de qualidade, que apontam para a necessidade de novas políticas e práticas que promovam a protecção social e evitem a exclusão das populações mais pobres. A cobertura sanitária universal é o novo caminho escolhido conjuntamente pelos ministros africanos da Saúde, pela Comissão da Unidade Africana e pela OMS, tendo em vista um desenvolvimento sanitário sustentável.

P - Quais são as os principais problemas de saúde em África e em que medida afectam as suas populações?


R - A qualidade de vida tem muito a ver com o estado de saúde das populações e a maior parte das doenças e as suas causas decorrem das condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem. Estas condições são conhecidas como as “determinantes da saúde”. As principais determinantes da saúde em África estão relacionados com a pobreza, que afecta mais de 50 por cento da população, o obscurantismo, condições de emprego e remuneração, higiene e saneamento, habitação e comportamentos de risco, como o alcoolismo, tabagismo, sedentarismo e alimentação desequilibrada. Os serviços nacionais de saúde são insuficientes para responder aos complexos desafios da saúde em África. A abordagem dos problemas de saúde deve ser holística e as soluções devem ser de natureza inter-sectorial. O sector da Saúde é o fulcro da liderança do processo de desenvolvimento sanitário, onde outros actores têm interesses e responsabilidades partilhadas.

P - Os governos têm dado o melhor de si, para colocar à disposição das populações os cuidados de saúde básicos recomendados pela OMS?


R
- Desde 2000, os governos dos países africanos fizeram esforços para aumentarem a percentagem para a saúde nos orçamentos gerais do Estado, apesar da maioria não ter alcançado ainda a meta de 15 por cento fixada pelos Chefes de Estado e de governo africanos.

P - Até que ponto é verdade de que há aspectos culturais em África que interferem negativamente na resolução dos problemas de saúde?


R - Estas questões estão associadas às determinantes sociais da saúde. Certos comportamentos individuais ou colectivos de risco e certas crenças e práticas tradicionais são prejudiciais à saúde individual e pública. Por exemplo, os ritos funerários e a forma como certas comunidades da África ocidental tratam os cadáveres antes do enterro favorecem a transmissão do vírus do ébola, do cadáver para a comunidade. Mas é tudo uma questão de educação. É preciso prestar às pessoas as informações necessárias, para que  compreendam os fenómenos e façam a escolha certa no interesse da sua própria saúde.

P - Acha que os governos africanos têm investido o necessário na saúde?

R - Alguns governos já fizeram muito e outros precisam de fazer muito mais para responder às necessidades crescentes de saúde, por vezes imprevisíveis. As capacidades das infra-estruturas de saúde devem ser reforçadas para garantir a cobertura sanitária universal. Seria também importante um maior investimento na capacidade de produção de profissionais de saúde e no domínio da investigação para a produção de novas tecnologias e concepção de melhores modelos de organização dos serviços de saúde.

P - Considera haver progressos no combate ao VIH/Sida em África? Que números podem ser avançados, para compreendermos esta problemática?


R - Cerca de 24 milhões de pessoas vivem com o VIH na África subsaariana, onde, em 2013, foram registados 2,2 milhões de novas infecções. Ainda assim, a percentagem de pessoas infectadas com o vírus da Sida diminuiu de sete por cento em 2001 para 4,7 actualmente. A percentagem de mulheres grávidas seropositivas com acesso a tratamento anti-retroviral passou de 49 por cento, em 2009, para 63 por cento, em 2013, e a taxa de tratamento de pessoas com Sida subiu 10 por cento, em 2001, para 63 por cento. Apesar destes progressos, o peso do VIH/Sida em África ainda é muito elevado. O continente alberga cerca de 70 por cento do total de pessoas infectadas no mundo.

P - Fale de outros ganhos obtidos em África, durante o seu mandato.


R
- Durante o meu mandato também trabalhei para consolidar as relações de cooperação da OMS com dois países, a República da África do Sul e a República Popular e Democrática da Argélia, com quem negociei e assinei acordos de base para a criação de representações da OMS com estatuto de missões diplomáticas. Com a União Africana, negociámos em 2012 um novo acordo de cooperação que substituiu o acordo precedente com a Organização da Unidade Africana. O nosso país albergou e patrocinou, no ano passado, o primeiro evento importante decorrente do novo acordo; tratou-se da primeira reunião conjunta da OMS e da Comissão da União Africana, que produziu decisões importantíssimas sobre a criação de uma Agência Africana dos Medicamentos, o estabelecimento de um Centro Africano de Controlo das Doenças e a intensificação de acções para a cobertura sanitária universal.

P - Que desafios se colocam à organização, para os próximos tempos?

R
- Os principais desafios do Comité Regional da OMS para África, no meu entender, têm a ver com a execução do programa de reforma iniciada há dois anos, que pressupõe um financiamento à altura das  expectativas dos Estados-membros.

P - Como angolano pensa que o país ganhou mais visibilidade, tendo o senhor à frente dos destinos de tão importante organismo continental?

R - Penso não ser eu a pessoa indicada para responder a esta questão. Mas, deixe-me dizer-lhe que, para honrar o nosso país, procurei sempre dar o melhor do meu saber e o máximo da minha energia para a concretização da missão da Organização Mundial da Saúde em África.

P - O continente e o mundo estão confrontados com o surto de ébola. A reacção dos governos é proporcional ao problema?


R
- Os países afectados pela epidemia devem intensificar a execução dos seus planos de combate e detecção do ébola, melhorar os mecanismos de prevenção a nível comunitário e garantir que os enterros das vítimas sejam feitos com segurança. A Missão das Nações Unidas criada para Responder à Emergência do Ébola (UNMEER) está estabelecida no Gana, para reforçar o apoio da comunidade internacional aos países afectados.

Biografia do Director Regional

O Dr. Luís Gomes Sambo, foi reeleito por unanimidade pela 59.ª sessão do Comité Regional Africano da Organização Mundial da Saúde como Director Regional da OMS para África. A 126.ª sessão do Conselho Executivo da OMS renomeou-o para exercer um segundo mandato de cinco anos, que teve início a 1 de Fevereiro de 2010. O seu primeiro mandato foi de 1 de Fevereiro de 2005 a 31 de Janeiro de 2010.

O Dr. Sambo licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Angola, e obteve o Diploma de Especialização em Saúde Pública pela Ordem dos Médicos de Portugal. O Dr. Sambo é também Doutorado em Gestão pela Universidade de Hull, no Reino Unido.

O Dr. Sambo iniciou a sua carreira em 1977 como Médico Distrital no Município de Cacuaco, Província de Luanda, e foi Director dos Serviços de Saúde na província de Cabinda entre 1978 e 1980, tendo exercido funções como Director da Cooperação Internacional do Ministério da Saúde em Luanda, de 1981 a 1983.

Em 1983, foi nomeado Vice-Ministro da Saúde, cargo que ocupou durante cinco anos. Enquanto Vice-Ministro Angolano da Saúde, foi Presidente da Comissão Nacional de Saúde, Coordenador dos hospitais públicos em Luanda e Supervisor das áreas relacionadas com o Controlo das Doenças, Saúde Materno-Infantil e Recursos Humanos para a Saúde.

O Dr. Sambo entrou para a OMS em 1989, como Chefe da Equipa de Apoio Estratégico Interpaíses em Harare, no Zimbabwe, onde supervisionou o apoio técnico para o reforço dos sistemas de saúde nos países da África Austral. Em 1990, foi transferido para a Guiné-Bissau, onde passou a desempenhar o cargo de Representante da OMS no país. Em 1994, regressou ao Escritório Regional em Brazzaville, na qualidade de Chefe da Unidade responsável em coordenar a implementação da Estratégia “Saúde para Todos”. Em 1996, exerceu funções como Director da Divisão de Desenvolvimento de Serviços de Saúde no Escritório Regional onde, em 1998, foi nomeado Director de Gestão do Programa.

Alguns dos prémios e distinções atribuídos ao Dr. Sambo em reconhecimento do seu contributo e realizações na área da saúde pública incluem: Certificado -  Who’s Who in Medicine and Healthcare, Seventh Edition 2009-2010, pela Marquis Who’s Who Publications Board, USA; galardoado com o título Doutor Honoris Causa pela Universidade Nova de Lisboa - Portugal, em 2012;  ’Officier de l’Ordre National de la Valeur’ da República dos Camarões em 2012; ‘Commandeur de l’Ordre National du Mérite du Benin’ em 2012; Officier de l’Ordre do Burkina Faso in 2010; Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Kinshasa, República Democrática do Congo, em 2009; o prémio Salva de Prata, atribuído pela Ordem dos Médicos de Angola, em 2008, a Medalha de Comandante da Ordem de Madagáscar, em 2007, e a Medalha de Ouro da Saúde Pública pela República do Níger, em 2006.

O Dr. Sambo tem várias publicações em revistas científicas internacionais, e é membro da Ordem dos Médicos de Angola, Ordem dos Médicos de Portugal, da Sociedade Internacional de Ciências de Sistemas e ainda membro do Conselho Editorial Internacional da Biblioteca Mundial de Medicina da Mulher.

O Dr. Sambo é fluente em Português, Francês e Inglês (falado e escrito).

Tempo

Multimédia