Entrevista

“Desberlinizar África” é tarefa dos intelectuais do continente

Francisco Pedro

Doutoranda em Antropologia Contemporânea, na especialidade de Religião, Ritual e Performance, pela Universidade Nova de Lisboa, Agnela Barros Wilper considera a língua francesa um meio que permite “conhecer muito" da África ocidental e central, bem como a sua criatividade e cultura. Em entrevista ao Jornal de Angola, a investigadora fala das razões que motivaram o Ministério da Cultura de França a outorgar-lhe a Medalha de “Chevalier de l'Ordre des Arts et des Lettres” (Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras). Considera ser responsabilidade de todos “desberlinizar África”e afirma que as suas investigações têm como denominador comum a “magia” da palavra, as oralidades e o património cultural africano.

Fotografia: Contreiras Pipa | Edições Novembro

O Ministério da Cultura da França outorgou-lhe, em Abril, a Medalha de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras. Considerou essa outorga revestida de “grande simbolismo”, abrangente a todos os investigadores nacionais, porquê?

É que é assim como me defino. Na verdade, esta é a postura de quase todos os investigadores: trabalhar longe das “luzes da ribalta”. Como se trata de um trabalho que exige reflexão, precisão e dedicação, nada melhor que um ambiente calmo e contemplativo para as ideias afluírem e o raciocínio conduzi-las a novas realidades. Quando essa postura é premiada, significa que algo está a mudar a nível da valoração social: começa a ser apreciada a investigação científica, cujo fim não é o mediatismo ou o vedetismo mas sim o conhecimento e a explicação do Cosmo. E isso pode ser o prenúncio de um maior apoio aos investigadores angolanos. É um grande alento!...

O que terá chamado a atenção do Governo francês no seu “Curriculum” para que fosse condecorada?
Também eu gostaria de saber. Foi uma decisão tomada a alto nível do Ministério da Cultura de França. Todavia, devo reconhecer que há muitas actividades em que trabalhámos conjuntamente, há anos. Gostaria de destacar, a nível da dança contemporânea, a vinda ao país do grupo Mbina Ngoua, de Ponta Negra; do coreógrafo de Burkina Faso, Serge Coulibaly, que orientou diversos ateliers e, mais recentemente, do grupo de teatro da RDC, orientado pelo professor Nzey Van Musula, que veio fazer uma demonstração do teatro bilingue. Mas a concretização destas e de outras acções conjuntas está muito dependente das boas relações existente entre as personalidades dos dois lados. Nos anos 90, Bernard Sexe, da Cooperação Francesa, deixou muitas saudades pela amizade e consideração que mostrou pelos artistas angolanos. Creio que o mesmo irá acontecer com o actual Conselheiro para a Cooperação e Acção Cultural, SébastienVittet, um ser hu-mano solidário, dialogante, afável e simples. Vive de tal maneira as preocupações, tristezas e alegria dos angolanos, que tenho dificuldade em vê-lo como estrangeiro. Uma personalidade destas faria um trabalho excepcional na Organização Internacional da Francofonia.

No decorrer da cerimónia em que foi condecorada disse ter conhecido melhor África por meio da língua francesa. Actualmente aconselha as pessoas a seguir os seus passos, ou é possível conhecer África e o mundo por meio de outras línguas?

Gostaria de começar por dizer que o facto de ter ficado a conhecer melhor África, por meio da língua francesa, não significa que tenha excluído o conhecimento de África e do mundo por meio da língua inglesa ou de outras línguas. Pelo contrário, falar várias línguas é uma forma de enriquecimento humano e intelectual e aproxima os povos. Mas entre nós são poucos os falantes plurilingues ou bilingues. A língua portuguesa tem a sua utilidade, mas limita o nosso conhecimento aos espaços de língua portuguesa. Falar outras línguas aproxima os povos. A língua francesa permite-nos conhe-cer muito da África ocidental e central, bem como a sua criatividade e cultura. O mesmo acontece com a língua ingle-sa. A África foi dilacerada com a Conferência de Berlim. Cabe-nos a responsabilidade de “desberlinizar” África.

Em Março de 2017, o Camões- Centro Cultural Português foi a primeira instituição a prestar-lhe homenagem sob o lema “Agnela Barros, uma figura incontornável do teatro angolano”. É o teatro, ou seja, as artes dramáticas são as que mais sobressaem no campo das suas investigações?
As minhas investigações, embora diversificadas, têm um denominador comum: a “magia” da palavra em África, as oralidades, o nosso património cultural. Neste quadro, debruço-me sobre muitos aspectos, mas todos com uma ligação intrínseca entre si. Daí o meu interesse pela oratura, rituais, performances, educação, religiosidade, gastronomia, reciclagem, artesanato e outras técnicas patrimoniais. São áreas importantes para o teatro total. Interessam-me também as “novas oralidades,” tal como o “slam”, “spokenword” e o “hip-hop”, por exemplo. Vejo um “continuum” entre todas estas áreas de interesse.

Quais são, afinal, os seus feitos no campo das artes dramáticas que a sociedade desconhece, além de co-fundadora da Associação Angolana de Teatro Infanto-Juvenil (Assatij), e autora de algumas peças infantis?
Parece-me que não devo ser eu a falar deles, por uma questão de modéstia. Lembra-se de ter dito que o meu CV tem 30 páginas ou mais?… (risos)

Como caracteriza a formação média e superior de Teatro no país. É íntegra ou apresenta lacunas?
A formação em Artes é de grande complexidade. Com frequência esquecemo-nos da formação artística nas zonas rurais, em que também havia escolas, com relevo para as relacionadas com os ritos de passagem, especialmente o da circuncisão. Em África deveríamos valorizar sempre dois tipos de formação: a rural e a urbana. Há pessoas que desconhecem as características da educação nas zonas rurais. Por outro lado, nas zonas urbanas não se pode falar em formação média e superior sem se ter em conta a formação básica, que deve começar na educação pré-escolar, já que é importante o desenvolvimento das capacidades de expressão e de criação da criança. No sistema escolar deveríamos pensar na formação artística genérica; na extra-escolar; em modalidades especiais e na vocacional, que forma os artistas profissionais. Há uma ligação entre a educação artística genérica e o ensino artístico especializado. São importantes para a formação do público e dos artistas. Para mim, é neste quadro global que se deve planificar a formação tanto no teatro como nas outras modalidades artísticas.

Quais são as contribuições que as artes, de uma forma geral, dão para o desenvolvimento das sociedades africanas, quer em zonas rurais quer em urbanas?

Esta pergunta é interessante porque está relacionada com um evento internacional que estamos a preparar e que terá lugar nos dias 25, 26 e 27 de Julho, do corrente ano. Tem a coordenação geral do Professor Doutor Jorge Gumbe do ISART e da AfTA- Associação Internacional de Teatro Africano, sedeada em Londres. A organização, da responsabilidade da Casa de Cultura e Artes UBUNTU e da Universidade Óscar Ribas, pretende também celebrar os 110 anos de Óscar Ribas. Académicos, investigadores e profissionais ligados às Artes, provenientes de universidades africanas e da diáspora irão encontrar-se em Luanda para abordar a problemática citada (e outras), assim como o ensino artístico na África pós-colonial. Parece-me um fórum de vital importância que deveria mobilizar todos os artistas e investigadores angolanos tendo em vista a compreensão do que se faz em África e a avaliação do que temos feito até agora em Angola.

A religião em África, cristã ou não, “é o ópio do povo” ou incorpora elementos antropológicos de forte pendor cultural, mágico e sagrado?
Espero que me desculpe, mas há questões muito sensíveis como a religião (ou mesmo o futebol) por terem forte pendor afectivo e emocional. É uma questão de fé e, se as questões não forem tratadas de forma adequada, podem constituir uma agressão psicológica. Se não se importa preferia não falar sobre elas de forma banal.

A prática do cristianismo nas sociedades tradicionais africanas resulta ou não em clivagens culturais?

Dada a complexidade do assunto, deve ser abordado de forma mais aprofundada, o que requer algum tempo. Assim, opto igualmente por não o abordar...de forma ligeira.

A França apoia o FESPACO, maior festival de cinema em África, que em Fevereiro assinalou as bodas de prata. Os PALOP ou os membros da CPLP deviam fazer deste evento uma lição a seguir?

Antes do mais, é preciso saber quais as condições e as razões que estiveram na base da criação do FESPACO. As imitações mecânicas não são aconselhadas, mas sim os estudos prévios. As realidades são muito diferentes e a superficialidade das análises tem levado a resultados desastrosos.

É legítimo um escritor defraudar um colega publicamente, à semelhança do que faz Agualusa em relação à poesia de Agostinho Neto?
O Agualusa é escritor e não crítico literário pelo que não deveria enveredar pelo caminho de crítica impressionista. Trata-se de uma questão de competência e humildade científica. Ao fazer uma avaliação afectiva e impressionista, publicamente, dada a sua popularidade como escritor, pode induzir muitas pessoas em erro.

Que consequências podem surgir da ausência da crítica literária e crítica de arte, no geral?
Uma delas é o desenvolvimento lento das próprias áreas artísticas por ausência de “feedback”.

Por que não se dedica ao exercício da crítica teatral? Receia chocar ou ser mal compreendida?

A crítica teatral não é para chocar ou ser mal compreendida mas para explicar o produto artístico. Se a fizesse, onde seria publicada? Há alguma publicação especializada para o efeito? Ou refere-se à publicação de opiniões subjectivas com fraco suporte científico? É usual confundir-se a crítica teatral com o falar bem ou mal de um espectáculo. Todavia, a crítica a que me refiro pressupõe uma formação académica especializada, dada a obrigatoriedade de conhecimentos teóricos em diversas áreas do saber.

A Rebita foi classificada património nacional, o semba ainda não o é, embora haja intenção de se propor à UNESCO para que conste na Lista do Património Mundial, enquanto o kuduro já foi motivo de várias abordagens em conferências aqui em Luanda. Os estilos musicais e de dança carecem de debate público para melhor credibilidade e preservação?
O kuduro tem sido estudado por mim como performance e não como música ou dança exclusivamente. Considero os estudos e as pesquisas mais profícuos que os debates, já que nestes últimos normalmente o tempo é escasso, prioriza-se o ego e, por vezes, o con-
fronto, prejudicando a análise mais aprofundada do cerne da questão. Os estilos musicais e de dança angolanos deveriam ser estudados nas instituições superiores de Artes e com publicação posterior dos resultados.

A formação média e superior no domínio da dança é mais complexa e onerosa?
A Dança e a Música profissionais têm especificidades próprias e ambas exigem uma formação desde tenra idade, isto é, a obrigatoriedade do ensino elementar ou básico, antes do médio. Logo, o processo de formação de profissionais destas áreas é longo, mas necessário para garantia da sua competência.

Que modelos Angola deve adoptar - europeu, latino americano ou norte-americano - para a sistematização do ensino das Artes?
E porque não africano? Já há em África muitas Escolas de Artes com prestígio! Temos de ter cuidado com a perspectiva eurocêntrica, muitas vezes possuindo alguns resquícios de cartesianismo. A reprodução acrítica desta forma de pensar tem-nos levado a repetir uma terminologia pejorativa para os africanos. É o caso de considerar dialectos as línguas vernáculas angolanas; as danças patrimoniais confundidas com as danças folclóricas; os mascarados angolanos com os palhaços ocidentais.
Em Angola ainda temos a possibilidade de encontrar comunidades que foram pouco contaminadas pela colonização europeia, em especial na zona Sul, constituindo o que se designa por “minorias étnicas”. É fulcral conhecer o rural e urbano para que seja possível uma simbiose entre eles e não um mero sincretismo.
Os estudiosos angolanos têm a responsabilidade de conhecer e de reconhecer a idiossincrasia africana, em que a palavra se alia às canções, ritmo, dança, expressões e outros códigos paralinguísticos e criar o seu próprio modelo de ensino artístico.

E como deve ser a sistematização do ensino das artes em África?

Creio que em África o ensino das artes deve problematizar o actual caos espiritual, bem como a “amnésia da génese” para a nossa afirmação e li-bertação da nossa criativida-de. Para não falar da palavra negro, que simboliza tudo o que é mau ou negativo nesta visão do mundo eurocêntrica. Por outro lado, não há uniformidade sobre o que é “Ser Africano”...

O que podemos entender por “Afro centrismo”?
Na minha opinião, “Ser Africano” passa, principalmente, pela valorização dos nossos saberes e valores endógenos. Estes não são fruto do acaso, mas de uma experiência e sapiência acumuladas ao longo do tempo, na interacção com o Cosmo. A nossa alienação foi de tal maneira intensa e violenta que renegamos os nossos valores culturais e, nessa desapropriação espiritual, até perdemos o direito de nomear os nossos filhos.

O que é a Ordem das Artes e Letras?

A Ordem das Artes e Letras é uma condecoração que visa recompensar “as pessoas que se distinguem pela sua criação no domínio artístico ou literário ou pela sua contribuição para o desenvolvimento das artes e das letras em França e no mundo”. Instituída em 1957 e concedida pelo Ministério da Cultura da França, a Ordem das Artes e Letras é uma das mais importantes condecorações honoríficas da República Francesa. Já foi concedida a nomes como Dalida, Clint Eastwood, Amália Rodrigues, Bob Dylan, T.S. Eliot, Roger Moore, Frida Boccara, Mariza, António Lobo Antunes, David Bowie, Agustina Bessa-Luís, António Victorino de Almeida, Sean Connery, Adriano Correia de Oliveira, Bruce Willis e outros. O angolano Barceló de Carvalho (Bonga) recebeu esta condecoração em 2014.

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