Entrevista

“Desde que cheguei ao Petro, apresentámos sempre uma equipa competitiva”

Anaximandro Magalhães

O Petro de Luanda pretende vencer a Basketball Africa League, afirmou o treinador da formação do Eixo - Viário, Lazare Adingono. Em entrevista ao Jornal de Angola, o técnico camaronês, que vai cumprir o último ano de contrato, assumiu o desejo dos “tricolores” de apurarem-se para a fase final da prova e garantiu tudo fazer para erguer a Taça. Adingono disse ter aceitado treinar em Angola para aproveitar a oportunidade de liderar uma grande formação, cheia de reputação, de troféus conquistados e excelentes jogadores, entre eles aquele que considera “o melhor africano” dos últimos dez anos, Carlos Morais

Técnico de 41 anos considera vital apostar na formação afim de dotar os futuros basquetebolistas de melhores conhecimentos e técnicas da modalidade
Fotografia: EdIções Novembro

Num ano em que poucos acreditavam, sobretudo pelo afastamento na AfroLiga e na Taça de Angola aos pés e mãos do eterno rival, 1º de Agosto, o Petro de Luanda sagrou-se campeão nacional. Qual foi o segredo?

União no grupo. Tudo foi alcançado com muito trabalho, mas levou tempo para colhermos os frutos. Ainda assim, nunca deixámos de acreditar na nossa capacidade e consagração. Ficámos focados, embora tivesse levado tempo para encontrar a coesão necessária. Antes, queríamos vencer a Taça de Angola, mas não foi possível.

E o que aconteceu nas meias-finais da Taça de Angola, quando dispunham de uma vantagem confortável de nove pontos?

Estávamos em “dia não”. Lembro-me desse jogo como se fosse ontem. Começámos bem a partida, mas deparámo-nos com uma situação menos agradável. Perdemos, por lesão, num momento crucial do jogo, o Carlos Morais, nosso melhor jogador. Infelizmente, são coisas que acontecem no desporto, temos de encará-las com o desportivismo necessário e percebê-las, embora nos custe.

Em sete anos no clube, a caminho do oitavo, ganhou apenas dois campeonatos nacionais. Não acha pouco?

Não, tendo em conta o contexto. Desde que cheguei ao Petro, apresentámos sempre uma equipa competitiva. No primeiro ano, o clube estava numa situação bastante complicada, pois tinha dificuldades em ombrear com o 1º de Agosto e Recreativo do Libolo, hoje Sport Libolo e Benfica. Ainda assim, ganhámos a Supertaça Wlademiro Romero, no segundo ano, a Taça de Angola, e no terceiro, vencemos todas as competições. Por tudo isto, acho bastante positivo.

E por que não mantiveram a sequência de conquistas?

Porque, depois disso, perdemos o Manny Quezada para o rival, Jason Cain, Teotónio Dó, Pedro Bastos, Divaldo Mbunga, enfim, muitos jogadores, o que nos forçou a buscar alguns na formação, casos do Cley Cabango, Malcom Tungo, Childe Dundão e Gerson Varanda. E conseguimos ser vice-campeões duas vezes. Acho que é obra, por em cada ano ter tido uma equipa nova. Portanto, considero um feito.

Seis títulos conquistados em sete anos, dois campeonatos nacionais, duas taças de Angola, uma Supertaça e uma Taça dos Clubes Campeões. Não acha que ficou aquém do perspectivado?

Sim, mas o quadro não foi favorável, sobretudo, por me terem pedido o resgate da mística. Queria ter ganhado mais troféus, mas, devido às circunstâncias, isso depois de termos vencido tudo, em 2015, e perdido os principais atletas, ficámos muito aquém. Tivemos de nos enquadrar no PDDI - Plano de Desenvolvimento Desportivo Integrado, fomos buscar os jogadores da formação e trouxemo-los para os seniores. Eles lutaram com “unhas e dentes” para defender o nosso emblema. Se mantivéssemos a equipa, talvez conquistássemos 10 a 12 títulos e não seis.

Sempre dispôs dos jogadores por si solicitados?

Sempre. Quando as coisas estiveram ao alcance da direcção, foram contratados os atletas que pedi.

 Vai manter a maior parte dos jogadores campeões nacionais no plantel?

Claro, vamos manter a maior parte dos atletas no plantel, pois recomeçar não é fácil. É importante dar solidez, coesão e entendimento. A filosofia do Petro não começou com o treinador Lazare, isso já vem de há muito praticar um basquetebol alegre e que enche os pavilhões. Mas, temos de continuar a trabalhar bastante, para ajudarmos os jogadores a serem mais regulares.

Quantos serão dispensados e quais os nomes?

Agora estão a fazer o período de transição e só depois vamos ter melhor visibilidade para tomar decisões.

Que posições  serão reforçadas?

Estamos a trabalhar sem precipitação e a fazer uma análise profunda do que queremos. Temos de ter em atenção quais as posições e perfil dos jogadores. Tudo isso tem de ser feito com a máxima tranquilidade para representarmos bem o clube em todas as competições.

Fala-se nas chegadas dos postes Jone Pedro e Yannick Moreira. Foram contratados?

Não, mas são grandes jogadores e gostaria de tê-los connosco. São atletas que, caso os contratássemos, nos ajudariam bastante. O Petro precisa de atletas desse calibre para ombrear com as melhores equipas do continente.

O continente estreia em Janeiro uma nova prova, a Basketball África League (BAL). Qual será o vosso objectivo?

Vamos querer vencer. Somos a segunda equipa qualificada para o torneio, é nossa pretensão apurarmo-nos para a fase final e daí tudo faremos para ganhar a competição. Será uma honra vencermos essa prova.

Já têm algum plano de preparação?

Esse assunto está a ser trabalhado. Vamos aguardar pela data das competições internas e depois pensaremos na BAL.

Parece-lhe que o jogador angolano deixou de ter as qualidades reconhecidas?

Esse é um conjunto de factores a serem considerados. Primeiro, temos de nos focar na formação, por ser aí onde tudo começa. A valorização do treinador de formação deve ser acrescida. Ele tem de ser apoiado e dispôr das condições necessárias para conseguir transmitir todo o conhecimento a esses jovens jogadores. Quais são os formadores de formadores? Esses formadores têm de ajudar aquele que trabalha diariamente com os miúdos. A segunda questão tem a ver com a parte administrativa. Cada direcção de clube tem de valorizar os treinadores de formação a desempenhar bem o seu papel. Os outros países estão a trabalhar de forma diferente, têm academias. E os resultados já começam a ser vistos. Isso vai dificultar a posição de Angola no continente, onde tem vindo a baixar muitos lugares. É importante inverter o quadro.

Alguns jogadores acham-no demasiado duro. Será pelos anos de clube?

A cultura é importante. Há treinadores nas diferentes ligas do mundo que estão nos clubes 10/15 anos e alguns mais. A cultura trabalhadora, ganhadora e de vencedor nunca se muda. Se alguns atletas acham que a metodologia de trabalho é muito dura, esse é um problema de cultura. Quem quer ganhar, tem de ser disciplinado e trabalhar de forma árdua. Só cumprindo à risca esses pressupostos se pode alcançar o sucesso. De outra forma, os resultados nunca vão surgir. Lembro-me de alguns atletas chamarem-me “Alex Fergunson”. Mas esse senhor trabalhou bastante, tudo passa pelo rigor. Não estou preocupado com esse tipo de conversas. E quando os resultados são alcançados, alguns recebem os troféus com muito orgulho.

A sua metodologia tem sido a mesma ou vai inovando-a ano após ano?

Temos de nos adaptar. Por essa razão, fazemos cursos de capacitação. No basquetebol, sempre há novas tecnologias a serem implementadas. Quem não consegue fazer esse ajustamento fica para trás. Temos de acompanhar os acontecimentos e, com as novas técnicas e ferramentas, procurar melhorar.
Os anos de domínio de Angola no continente terão sido a razão que o fizeram vir treinar cá?

Foi precisamente isso. Tinha um bom contrato com o AS Sale do Marrocos, mas quando a oportunidade surgiu não podia deixar passar. Pela reputação do país, os troféus, tipo de jogadores com os quais iria trabalhar, incluindo o melhor, para mim, nos últimos dez anos do basquetebol africano, o Carlos Morais, pesaram e aceitei o desafio. Até hoje, graças ao trabalho e ao apoio das pessoas com quem trabalho no dia-a-dia e ano após ano, estou aqui e sou-lhes muito agradecido.

“Tem aqui alguém a quem chamo Draymond Green: o Leonel Paulo”

Concorda que a sua maturação como treinador está a ser feita no Petro de Luanda?

Sim, com certeza. Antes de vir, afirmei-me um pouco como treinador dos Camarões, pois, em 2007, joguei frente a Angola a final na Cidadela. Nos Estados Unidos, pelas universidades por onde passei idem, tal como em Marrocos, onde ganhei todas as competições internas. A consagração de facto está a ser feita durante a estada no Petro. É bem verdade que ainda tenho muito a aprender e a crescer. Estou a trabalhar no país do melhor basquetebol africano. Quero continuar a contribuir para a rica história da modalidade aqui.

Ainda tem como objectivo treinar a selecção angolana?

Se for convidado, será uma honra. Angola é uma das melhores selecções do Mundo, embora nos últimos anos tenha baixado um bocado no ranking. Mas gostava de ter esse privilégio.

Em 2007, foi treinador dos Camarões e tinha 29 anos. Estava preparado para assumir o cargo?

Estava, mas surgiram muitas vozes, dizendo que não tinha experiência. O trabalho e a entrega dos atletas acabou por contrariar. Agradeço a aposta da Federação e do Ministério dos Camarões pela confiança.

Quais os jogadores que mais o impressionam na carreira?

Tem aqui alguém a quem chamo Draymond Green: o Leonel Paulo. Faltam-me palavras para descrevê-lo. A forma de estar e de trabalhar. Para ele, não há limites, o seu profissionalismo e entrega são ímpares. Quando ele chega com muita energia e entrega, dá mais gosto de me dedicar ao treino. Carlos Morais também é muito similar. Os outros são Lute Mbamute e Paskal Siakam (Camarões), Abdel Hamim Zouita e Abdel Najar (Marrocos). Enfim, esse é um grupo de atletas que dão gosto, vão até ao limite para defender os emblemas que representam. Mas, de modo geral, todos eles são especiais, porque me ajudaram a conquistar títulos e estou agradecido pelo esforço despendido.

Depois de Angola, onde gostaria de trabalhar?

Há um ditado que diz que o melhor trabalho é o que tens na hora. Não estou preocupado com o amanhã. Estou focado no Petro. Até ao dia em que não me queiram. Depois disso, pensarei noutro destino.

A seu ver, o que falta aos jogadores angolanos para estarem na maior montra do basquetebol mundial, a NBA?

Oportunidade. Angola tem muitos talentos. Aqueles que já lá estiveram podem testemunhar a meu favor. É preciso tempo para mostrar a sua qualidade.Infelizmente, às vezes, os jogadores angolanos não dispõem delas. Tem sido falta de sorte. O Siakam esteve na D-League e voltou. Espero que os angolanos tenham novas oportunidades.

Se tivesse oportunidade de contratar jogadores ao 1º de Agosto, quem escolheria?

É quase impossível ir buscar atletas ao arqui-rival. Têm muita qualidade. Mas estou muito satisfeito com os meus jogadores.

Internamente e além-fronteiras, qual o adversário mais difícil de ganhar?

É o 1 º de Agosto. Tem um plantel excelente por dispor de excelentes condições. E equipa técnica competente.

O que acha do nível dos treinadores angolanos?

Existem dois níveis. Há um grupo que treina as equipas seniores e outros que não aparecem. Portanto, é difícil fazer uma avaliação do que não vemos. Mas, olhando para a competitividade do campeonato, percebe-se a qualidade. Todos merecem o meu respeito.

 PERFIL

Lazare Adingono

Data de Nascimento:
11 de Janeiro de 1978

Nacionalidade:
Camaronesa e naturalidade
norte-americana

Estado Civil: Casado Calçado: 48
Altura: 1, 96 metros
Peso: 115 quilos
Filhos: Três, dois rapazes e uma menina
Signo: Capricórnio
Hobbies: Basquetebol e assistir futebol
Bebida: Vinho tinto
Música: Gosto de semba e kizomba

Línguas
Francês, inglês, português e seis dialectos dos Camarões

Formação Académica:
Licenciatura em Exercício de Ciência (Universidade Rhode Islan). Mestrado em Desporto Administrativo (Canisius College). Curso FIBA Expert, formador de formadores.

Treinadores ídolos:
Gregg Popovich (Santo Antonio
Spurs - NBA)

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