Entrevista

“Devemos ser nós a projectar as nossas cidades”

João Dias

Formado no âmbito dos postulados da corrente da arquitectura moderna, o novo presidente da União Africana dos Arquitectos (UAA), eleito no final de Junho, nas Maurícias, assume que se “desvia”, de quando em vez, para as linhas da arquitectura contemporânea. Em entrevista ao Jornal de Angola, Victor Leonel diz que "os arquitectos africanos devem estar na vanguarda do resgate da nossa e da memória colectiva de África". Na sua visão, o problema da cidade de Luanda não é tão grave quanto o de algumas capitais de outros países. Recusa a ideia de que a cidade esteja condenada ao falhanço, pois acredita que existem boas soluções à vista para fazer de Luanda uma localidade com qualidade e de qualidade. Porém, adverte que é necessário intervir “tempestivamente” e preconiza a urgência de construir com o povo, pois tal significa "torná-lo parte da solução".

Fotografia: Dombele Bernardo|Edições Novembro

Na 12ª Assembleia Geral da União Africana dos Arquitectos, realizada a 29 de Junho de 2018, nas Ilhas Maurícias, o Sr. foi eleito presidente da organização, substituindo Kaisi Kalambo. Que desafios tem, em concreto, pela frente?
Existem muitos desafios, entre os quais está a mobilidade dos arquitectos entre os países africanos, o intercâmbio entre universidades do continente, ajuda às Ordens de Arquitectos em fase de arranque ou menos estruturadas, levantamento das características culturais próprias de cada um dos nossos países,  no que concerne a tecidos, pinturas, máscaras, desenhos e símbolos, para o seu uso na arquitectura. Finalmente, trabalhar com os Governos, para que os projectos públicos realizados em África sejam feitos por nacionais dos respectivos países. Além destes, penso que é também importante olhar para a escolha do país para sediar a UAA – União de Arquitectos de África, elaborar uma base de dados dos arquitectos africanos experts em diferentes áreas, para divulgação entre os países, aumentar o número de concursos e prémios de nível continental, estreitar as relações entre a UA – União Africana - e a AUA, bem como inventariar o património construído de arquitectura africana contemporânea, sem esquecer o intercâmbio entre Escolas de Arquitectura.
 
Com a vasta experiência internacional que tem junto de organizações internacionais como a UIA, a UAA e o CIALP, como olha para a tendência actual da arquitectura em África?
A arquitectura em África está no bom caminho. Temos estado a dar passos curtos, mas seguros. Prova disso são os mais variados prémios internacionais que os arquitectos africanos têm recebido e convites para elaborar projectos nos Estados Unidos da América, China e Europa. A nossa arquitectura, mesmo sendo ancestral, tem uma nova abordagem, sem perder o princípio conceitual. Neste sentido, os resultados têm sido extraordinários.

Acha que o continente tem evoluído no plano da arquitectura ao longo destas décadas? Sente que as identidades locais estão fortalecidas? Há incentivo efectivo à conservação do património?
As independências em África começaram há cerca de 60 anos. O primeiro passo foi a descolonização das mentes, o que permitiu olhar ao redor e identificar uma maneira de planificar o território, projectar e construir. Essas possibilidades sempre aí estiveram, mas o africano nunca foi capaz de enxergar. A nova abordagem marca o ímpeto de resgate de uma arquitectura, que chamaria de africana, a coabitar com a natureza de forma sóbria e sustentável. Os prémios que acima referi têm sido, na sua maioria, atribuídos a esta nova arquitectura, que, apesar de ancestral, tem uma abordagem contemporânea.

Desde a sua criação, até aos dias de hoje, acha que a União Africana dos Arquitectos tem cumprido os objectivos? O que irá mudar, com a sua entrada na presidência?

Quando a União dos Arquitectos de África foi criada, a 23 de Maio de 1981, participaram 11 países. Neste momento, temos 42 países que perceberam o papel que a UAA tem desempenhado na unificação, dignificação e engrandecimento da arquitectura e do arquitecto em África. Portanto, mais do que cumprir, fazia-se necessário. A minha presidência vai focar-se em pontos que, de uma forma ou de outra, não ficaram resolvidos nos mandatos anteriores ou em desafios novos, nomeadamente, a mobilidade dos arquitectos dentro de África. A União Africana fala e implementa o livre comércio. Mas, do ponto de vista prático, como se procederá em relação aos arquitectos? Quem poderá exercer nos nossos diferentes países e que critérios os países poderão usar para se “proteger”? São estas e outras questões que espero poder responder durante o meu mandato.
 
Sente que a arquitectura africana tem espaço para ganhar protagonismo, neste mundo contemporâneo que reclama mutações a todo instante, sem perder de vista a sua identidade e memória?

O mundo está atento a África, pelas respostas que têm vindo a ser dadas. Somos um continente por descobrir. Os véus estão a ser levantados um a um e o mundo está encantado com o que descobre. Os arquitectos africanos querem ser protagonistas e estar na vanguarda do resgate da nossa identidade cultural e da nossa memória colectiva.

 Em Brasília, é notória a arquitectura ousada, futurista, cujo expoente máximo é Óscar Niemeyer. Cá, entre nós, o que é feito do arquitecto angolano?
Esta questão de Brasília revela exactamente o contrário do que ocorre aqui, onde não se dá a oportunidade de sermos nós a fazer, a construir e a sentir o palpitar das nossas cidades. Em Brasília, tinha sido lançado o desafio de fazer uma nova cidade como capital e deu-se a oportunidade a arquitectos, paisagistas e engenheiros de construção brasileiros para a fazerem. E isso incluiu a elaboração do plano director. Internamente (não sei se é por causa da guerra), não se tem dado oportunidade aos nossos. O Kilamba foi uma boa oportunidade que perdemos, para mostrar a nossa capacidade de projectar. Mas compreendo. O Kilamba e o Sequele surgem de uma situação de pós-guerra, em que eram necessárias soluções imediatas para resolver problemas também imediatos: o défice de habitação. Quanto às outras, já não era necessário que fossem feitas de emergência. Perdemos a oportunidade de fazer o que era o mais apropriado para nós. Poderíamos errar, isso sem dúvida, mas era importante participarmos na construção de uma cidade, que, ao fim e ao cabo, é também nossa. Costuma-se dizer que, para fazer caminho, tem de se caminhar e nós temos de caminhar para fazer caminho. Por que razão não temos sido chamados? Ainda não sabemos até hoje.

Huambo, Benguela, Cuito, Lubango e a própria cidade de Luanda são belas nas suas características. Mas hoje Luanda renova-se e expande-se de modo incaracterístico…

O que fazer para contrariar esta tendência?
Ao contrário da maior parte dos países africanos a Sul do Sahara, tirando a África do Sul, não existem tantas cidades quanto as nossas. Os países lusófonos têm mais cidades em relação aos francófonos. As nossas cidades, por causa da guerra, não sofreram tanta invasão (ficaram semi abandonadas nesse período). Nas outras províncias, o crescimento desordenado não foi tão alarmante como o de Luanda, que cresceu de modo descomunal. Nas cidades que citou, o crescimento foi muito mais para lá do contacto com a cidade. Deste modo, parece-me ser um pouco mais fácil conseguir fazer um plano urbano em que o crescimento seja mais ordenado e sustentável. Há, por exemplo, casebres em redor das cidades que, por si só, vão ser abandonados, se às pessoas forem dados espaços infraestruturados para construir. É mais difícil em Luanda, porque a sua realidade é diversa, sobretudo complexa. Em qualquer cidade fora de Luanda, facilmente se resolve isso com soluções que os arquitectos podem dar.

Como caracterizaria Luanda dos nossos dias, do ponto de vista da arquitectura e paisagismo?
Naturalmente, é uma metrópole. Precisa de soluções arrojadas e, nalguns casos, isso passa pela abertura de espaços para levar serviços. Existem bairros que precisam radicalmente de serviços. Esse é o grande problema de Luanda, que cresceu mais na óptica de residências. Por isso, é possível notar que, num raio de 40  quilómetros de crescimento da cidade, 90 por cento é preenchido por residências. Ainda bem que, a partir de 2020, as autarquias começarão a funcionar e serão elas a equacionar os seus problemas, solicitando elas próprias os arquitectos para nalguns casos, reestruturar, e noutros casos, renovar, reconverter e conservar. Temos bairros que, em termos de estrutura urbana, não estão mal, mas não têm serviços, nem infra-estruturas. Benfica é um exemplo disso.
 
Concorda que chegou a hora de termos o essencial numa cidade?
O problema das nossas cidades é a falta de espaço público. Temos muitos poucos espaços públicos. A praça é fundamental. As cidades portuguesas têm sempre uma praça. Até agora, pelo menos aqui em Luanda, o único espaço bem conseguido que se fez é a Marginal. Tirando a Marginal, não houve espaço público bem aproveitado. Temos situações em que os espaços públicos estão transformados em parque de estacionamento, o que é ridículo. Já temos poucos e ainda são transformados em estacionamento. O Largo do Pelourinho foi transformado em estacionamento pela EPAL, salvo o erro. Temos o largo junto ao Makarenko que foi transformado em estacionamento pela Jembas. Os poucos que temos para passear e socializar foram fechados, porque acham que não é necessário. Isto é, no mínimo, ridículo.
 
Huambo é paradigmático nesta questão do espaço público, pois conserva uma Estufa, que pode proporcionar uma experiência telúrica e de contacto com a natureza. É um bom exemplo?
Sim. Mas está reduzida no seu espaço. Nela foi construído o pavilhão multiuso. É um espaço que tem tudo para ser uma área para passeio das famílias e amigos. Mas estas cidades, refiro-me ao Huambo e Benguela, não sofreram a tal “violação arquitectónica na sua originalidade”, como ocorre com Luanda. Por isso, ainda é fácil recuperar. Luanda cresce vertiginosamente. Antes, o controlo de Viana era no quilómetro nove e tínhamos ainda o da Samba, que passou para o Benfica. Passado 30 anos, olha onde a cidade foi parar! Este crescimento, na maior parte, foi por habitação ou residências. Só agora é que alguns serviços vão para estes lugares. O sector público, que tem a responsabilidade natural de fazer os espaços públicos, deve  intervir. Espero que, nas autarquias, apesar de não serem a panaceia, os líderes percebam que é possível não só fazer morar, mas também passear a cidade, pois a cidade é para isso e para conviver. Infelizmente, temos parte da cidade, por exemplo, o Talatona, nem sei se é cidade, que é medonha, pois a determinadas horas não se pode andar, porque só tem, ao longo das ruas, muros altos. A cidade deve servir também para proteger os cidadãos. No Talatona, todo mundo dá costas à rua. Esse tipo de intervenção não interessa e nunca nos interessou. Somos um povo pacífico e não temos este tipo de receio.

É constitucional o direito a um ambiente sadio e habitação, o direito a uma boa cidade. O que tem feito a Ordem dos Arquitectos para que isso ocorra e a cidade se humanize um pouco mais?
 Nós temos aconselhado e, quando possível, falamos com os ministérios que fazem intervenção nos territórios, para, quando não formos consultados, aconselhar. Com o Ministério da Reinserção Social, quando foi necessária a aprovação da Lei das Acessibilidades, trabalhámos também arduamente e os resultados foram fantásticos, pois as nossas propostas foram aceites e permanecem na Lei. É necessário que as autoridades percebam que quem faz o território somos nós arquitectos. Se não formos tidos para as soluções da cidade e adequá-las às necessidades e à vida dos cidadãos, vamos continuar a ter uma cidade na qual muita gente não se revê, por não proporcionar bem-estar. A cidade não deve apenas oferecer sacrifícios.

“Não conheço o Plano”

O que é Luanda, como cidade, na sua perspectiva, enquanto arquitecto?
 Luanda é uma grande metrópole que precisa ser pensada e equacionada muito seriamente. Nós, que vivemos Luanda e a queremos no seu melhor, temos de ser chamados para as soluções que ela demanda. Não adianta chamar pessoas estranhas à sua cultura e história para a intervencionar. Existem cidades sem algumas infra-estruturas, mas que resultam. Não importa o que vamos pôr em Luanda. O importante é que resulte enquanto cidade. É preciso perceber que soluções devem ser dadas e o que interessa para os angolanos em termos de cidade.
 
Há quem diga que Luanda sacrifica e castiga os seus, pois há uma assinalável disfuncionalidade e onde quase tudo está em falta…
Na cidade de São Paulo, sais de um ponto para outro e fazes mais de duas horas. Nas horas de ponta, em Lisboa, também fazes este tempo. Luanda tem uma particularidade muito própria, que está no facto de ter absorvido muita gente fugida da guerra, claro, já lá vão alguns anos. Mas é preciso assegurar os serviços. O nosso problema não é tão grave quanto o dos outros países. Luanda não está tão condenada ao falhanço. Há muito boas soluções para fazer de Luanda uma cidade com qualidade e de qualidade. É só necessário intervir “tempestivamente” e com serenidade.
 É preciso construir com o povo e não para o povo. Quando se constrói com o povo, as pessoas são parte da solução e discutem a solução. Quando se constrói para o povo, as pessoas recebem a solução, não se adequando, em muitos casos, ao que se quer.

O Plano Director Metropolitano de Luanda é a solução; é a “pedra filosofal” para a cidade que queremos?
Não sei dizer. Não conheço este plano. Quando foi elaborado, a Ordem dos Arquitectos não foi tida nem achada. Nunca nos deram a conhecer. Não sei se tem coisas positivas ou negativas. Devíamos contribuir. Mas não aconteceu. É para nós que esta cidade se vai transformar e somos nós que sofremos as consequências de ter uma cidade que não resultou. Os projectistas foram estrangeiros. Não basta ir às academias ou falar com o povo se este não entende o que é uma estrada, a cércea ou o pilar. O Plano Director Metropolitano de Luanda é o mais importante de Luanda, porque vai definir regras de construção e de utilização do espaço.

Como se processou a eleição...

Victor Leonel foi eleito no 12º Congresso da UAA, que decorreu entre 25 e 29 de Junho, nas Maurícias, num evento em que participaram cerca de 500 delegados de 40 países. Apenas dois candidatos concorreram. O angolano ocupava, na altura, o cargo de  vice-presidente da UAA para a Região Sul e teve como único concorrente
o egípcio Hoda Asmary, responsável para Educação da UAA. Em 57 votos possíveis, apenas 11 recaíram no candidato do Egipto e, deste modo, a candidatura de Victor Leonel venceu, com um total de 46 votos. Assim, o arquitecto é o nono presidente da UAA e Angola
 é o oitavo país a eleger um mandatário para o mais alto cargo desta organização, depois do Uganda, Senegal, Nigéria, África do Sul, Camarões, Egipto e Tanzânia. Angola é, igualmente, a primeira
nação de língua portuguesa na presidência daUAA.

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