Entrevista

Dji Tafinha comemora 12 anos de carreira

Arão Martins

Dji Tafinha, nome artístico de Dji Carvalho Júnior, nasceu no dia 5 de Maio de 1986, no Lucapa, província da Lunda-Norte. Ganhou o gosto pela música hip hop nos anos 1998. Tinha apenas 12 anos de idade. Após muitos anos de trabalho, o artista lançou em 2008 a música “Ela só dá bandeira”. O artista, que comemorou recentemente 12 anos de carreira na cidade do Lubango, onde realizou um “Mega Show” no parque de estacionamento do Supermercado Kero. Dji Tafinha começou a produzir fora de Angola, na Namíbia, onde viveu durante dois anos.Cantor, produtor e compositor, inspira-se em artistas como Cold Play, Emminem, Kanye West, Jay-Z, Linkin Park, Paulo Flores, entre outros. Dji Tafinha tem uma trajectória rica no mundo da música.  Dji Tafinha é licenciado em Ciências Humanas pela Universidade Católica de Angola.

Fotografia: Arquivo do cantor

Quais foram as causas que te levaram a comemorar os seus 12 anos de carreira na província do Lubango?
Escolhi a cidade do Lubango para comemorar os 12 anos de carreira com objectivo de agradecer ao povo huilano, em particular, por tudo aquilo que fez e continua a fazer por mim até aos dias de hoje. Os primeiros passos de qualquer trajectória são importantes para a carreira de um artista. Era pequeno quando comecei a marcar os primeiros passos no mundo da música, nas ruas do Lubango, terra que me viu crescer. É de facto uma cidade que merece o meu reconhecimento. Dai a ideia de comemorar aqui os 12 anos da minha carreira musical.
Nasci na província da Lunda-Norte. Cheguei ao Lubango com apenas um ano de vida.

Nasceste para ser cantor?

Nunca sonhei ser cantor. Não. No início da minha vida, deduzo eu, como a maior parte das crianças, acabam se inspirando sempre nos pais. Na altura o meu pai era piloto e eu gostava de vê-lo a pilotar um avião. Ele era e continua a ser um exemplo a seguir.
Naquela altura queria ser literalmente como ele. Mas algum tempo depois acabei por descobrir a música. Já adulto, acabei por trilhar o meu próprio caminho.

No início da tua carreira recebeste algum incentivo do teu pai para enveredares pela música?

No princípio não. Mas, mais tarde acabei por perceber porquê. Qualquer pai se preocpua com aquilo que é e será o sucesso do filho no que concerne ao auto sustento. Refiro-me ao emprego, ao ganha-pão, uma vez que naquela altura muitos não acreditavam que fosse possível viver da música em Angola.

Como avalias os teus 12 anos de carreira?

Eu confesso que a minha carreira acaba por ser baseada em pontos de auto superação, factos que transmito nas minhas músicas com o intuito de fazer com que outros jovens, que se identificam com a minha arte, percebessem que se o Dji Tafinha conseguiu eles também conseguem. E, acabar por dar valor as coisas que o dinheiro não compra, como a humildade,  o amor ao próximo e a simplicidade.
Eu tento, a minha maneira, incentivar esse tipo de iniciativas às pessoas, obrigando-as a perceber que o que faz o sucesso não é o talento, mas sim, o trabalho árduo, a humildade, dedicação e disciplina.

Recebeste sempre apoios de empresários e amigos ao longo da carreira?
Eu tive o prazer de conviver com pessoas que influenciaram de forma muito positiva na minha vida, tais como os amigos, família e outras pessoas singulares. São pessoas que jamais terei palavras para agradecer por tudo que fizeram por mim. Os meus fãs são especiais, porque sempre tiveram motivos para não deixarem de acreditar no meu trabalho. Os meus primeiros passos foram dados sem qualidade alguma em termos daquilo que era a apresentação do meu produto. Em termos de edição, o meu primeiro  álbum nem sequer era original. Não tinha qualidade nenhuma. No local onde editei, naquela altura faziam o mesmo que fazem hoje os piratas. Mas já existiam alguns monstros da música angolana a editar na África do Sul, Portugal, Espanha e noutros países com grandes indústrias musicais, que apresentavam trabalhos invejáveis. Ainda assim, ter fãs que aceitaram ouvir a minha música é gratificante.

Já é possível viver da música em Angola?

Eu respondo a essa pergunta com uma afirmação que acaba por ser uma pergunta. A meu ver, muito negativa e acima de tudo gananciosa. Eu diria gananciosa, porque a maior parte das vezes as pessoas perguntam se é possível viver da música ou até mesmo ficar rico com essa actividade. Música na verdade é como qualquer outro tipo de negócio ou ganha-pão. Nós temos empresários em Angola que ficaram milionários a vender banana. Já temos músicos em Angola a fazerem milhões com a música. Mas dizem que é uma actividade de auto risco. Na minha opinião, desde que haja boa gestão e visão estratégica a longo prazo, eu tenho certeza que é possível viver da música.

Que avaliação fazes da aceitação da música angolana no mercado internacional?
Pergunta extremamente interessante. Já a alguns anos que a música angolana tem vindo a marcar paços significativos no que concerne a internacionalização da nossa cultura, dos nossos hábitos e costumes, e, particularmente da nossa música.
Temos tido muito boa aceitação em alguns mercados. A maior dificuldade, como é óbvio, acaba por ser a divulgação. Cada mercado possui uma fórmula particular. Mas já é notória a boa recepção da música angolana em diversos mercados, como dos PALOP, e não só. Por isso é que muito recentemente tive o prazer de participar no Koquistoril, com vários artistas internacionais, onde procurei dar o meu melhor para representar a nossa bandeira, e demonstrar que os artistas angolanos estão preparados para estar no mesmo padrão de qualidade que muitos outros de dimensão mundial.

Muitos cantores ainda se queixam da falta de apoios. Queres comentar?
Eu diria que os artistas que passam a vida a lamentar-se da falta de apoios acabam por ser fruto de um sistema vicioso que muitos outros acabaram por adoptar. Eu, por exemplo, ao invés de pedir o peixe, pedi que me ensinassem a pescar. Não fiquei a bater portas de pessoas em busca de patrocínios. Doze anos depois da minha carreira, só agora é que acabei por ter um patrocinador oficial, o BNI. Imaginem. Passaram 12 anos. Isso não foi um ganho a pedir esmolas. Muitos artistas infelizmente queimam a nossa fita porque somos vistos como pedintes. Quero eu dizer que nunca tive esse tipo de postura, e enquanto Deus me der vida e saúde, eu jamais assim procederei. Eu sou batalhador. Agradeço a Deus pelo que ele me dá, e todos os santos dias consigo sacrifico-me para dar melhor qualidade de vida à minha família.

Achas que o mercado musical angolano é muito exigente?
Sim. Acaba por ser exigente porque não temos muitas fontes de rendimento. Ainda não temos uma indústria musical em Angola. Mas, como eu dizia e volto a repetir, é importante perceber em que meio estamos envolvidos e fazermos uma leitura sócio geográfica, de formas a percebermos como é que o povo de Angola, que também é africano, pensa e entende sobre a música, porque é importante a forma como a gente comunica e aquilo que o receptor percebe.

Qual é a tua opinião sobre a pirataria?
Se quer que eu lhe seja mesmo sincero, a pirataria em Angola ajuda mais do que prejudica. Nós quando lançamos um CD em Angola temos as chamadas cidades de eleição. A priori, já sabemos que vamos vender em
Luanda, Lubango, Benguela, e as restantes províncias ficam na dúvida. Não sabemos se temos público em certos lugares. E é exactamente nesse momento em que o pirata entra para ajudar a divulgar ainda mais a nossa música, apesar dele ganhar de forma ilícita.  O disco pirata custa entre 250 a 300 kwanzas. Mas se aquela música bater numa certa cidade, quando o autor for para lá ganha muito mais. Na verdade, o artista até devia pagar o pirata por estar a promover a sua música.

Notamos um Dji Tafinha muito aberto ao público. Qual é o segredo?
Deixa-me fazer-te perceber que tive o meu primeiro filho muito cedo. Tenho agora 31 anos. Quando o meu filho nasceu eu tinha por ai 23 anos. Mas perdi-o muito cedo também. Aprendi imenso com a morte dele. Uma das coisas que eu percebi é o facto de que em termos físicos nós não somos imortais. Então, eu amo e respeito o próximo. Devo agradecer as pessoas que valorizam o meu trabalho. Amanhã, quando eu me for embora, a minha música será a recordação que eles terão. Com isso, espero poder inspirar outras pessoas a perceberem que nós somos angolanos e irmãos. Devo afirmar que não tenho tiques de elite. A mesma mão que toca o fã é a mesma que dará um aperto de mão ao Presidente da República. O mesmo respeito que eu transmito a senhora que me limpa a casa todos os santos dias, é o mesmo que transmito ao meu fã, ao meu pai, a minha mãe, porque acho que devo respeitar todos os seres humanos de um modo geral.

É religioso?
Não. Sou crente. Eu creio em Deus.

Ao longo da carreira, quantos álbuns colocaste no mercado?

Eu lancei 10 álbuns durante esses 12 anos de carreira. Fiquei dois anos sem lançar. A morte do meu filho mexeu comigo. Foi uma fase extremamente difícil para mim.
Em média lanço um disco em cada ano porque todos os anos também aprendo muita coisa. Todos os dias acontecem coisas que sinto a necessidade de abordar musicalmente falando.

Sentes que as tuas músicas são bem recebidas pelo público?
A minha maior preocupação sempre foi saber se as pessoas estão a perceber a música da maneira como eu gostaria que recebessem a minha mensagem. Em relação ao sucesso, eu não olho muito para os lados. Estou muito feliz com o que tenho por causa da música. Colocar um disco no mercado por ano não é obra do acaso.

Qual é o segredo?

No meu caso, acaba por ser muito simples. Ao invés de estar na discoteca para abrir 40 garrafas de champanhe, estou sempre a comprar uma máquina de filmar e formar um departamento diferente dentro da minha empresa, a "Galaxia Filmes", que produz vídeo clipe. Ou seja, onde os meus propósito foram sempre auto-suficientes, fazer com que tenhamos capacidade de realizar tudo o que precisámos. Música, capas de disco e vídeo clipe, a gente faz. O  produto quando sai da nossa empresa tem que ir directo para a televisão, para a fábrica de edição ou para a rádio. O moral da história acaba por ser mais rápido. Eu consigo dizer que a próxima semana vou lançar um vídeo clipe porque tenho tudo a meu favor. Mas faço-o com muito sacrifício. Perco muitas noites em estúdios para tentar encontrar a sonorização perfeita para o projecto musical que tenho em mente.

O surgimento de novos talentos musicais é positivo?
Eu acredito que a concorrência atrai a evolução. Durante muito tempo sentiu-se uma evolução muito lenta da música angolana. Parecia que só haviam dez artistas no país, que actuavam ou tinham contratos com certas produtoras. Havia também poucos artistas com espírito de soldado, de batalhar até conseguir. Hoje as coisas estão bem diferentes e vemos como o quadro altera diariamente.

Música já oferece oportunidade para se ganhar milhões

Qual é o segredo?
No meu caso, acaba por ser muito simples. Ao invés de estar na discoteca para abrir 40 garrafas de champanhe, estou sempre a comprar uma máquina de filmar e formar um departamento diferente dentro da minha empresa, a “Galaxia Filmes”, que produz vídeo clipe. Ou seja, onde os meus propósito foram sempre auto-suficientes, fazer com que tenhamos capacidade de realizar tudo o que precisámos. Música, capas de disco e vídeo clipe, a gente faz.
O  produto quando sai da nossa empresa tem que ir directo para a televisão, para a fábrica
de edição ou para a rádio.
 O moral da história acaba por ser mais rápido. Eu consigo dizer que a próxima semana vou lançar um vídeo clipe porque tenho tudo a meu favor. Mas faço-o com muito sacrifício. Perco muitas noites em estúdios para tentar encontrar a sonorização perfeita para o projecto musical que tenho em mente.

O surgimento de novos talentos musicais é positivo?

Eu acredito que a concorrência atrai a evolução. Durante muito tempo sentiu-se uma evolução muito lenta da música angolana. Parecia que só haviam dez artistas no país, que actuavam ou tinham contratos com certas produtoras. Havia também poucos artistas com espírito de soldado, de batalhar até conseguir. Hoje as coisas estão bem diferentes e vemos como o quadro altera diariamente.

Nome
Dji Carvalho Júnior

Data de nascimento

5 de Maio de 1986

Local de nascimento

Lucapa, da Lunda-Norte.

Formação
Licenciatura em Ciências Humanas pela Universidade
Católica de Angola

Início de carreira
Aos 12 anos

Músicos em que se inspira
Cold Play, Emminem, Kanye West, Jay-Z, Linkin Park, Paulo Flores, entre outros

Tempo

Multimédia