Entrevista

Doença é grave e causa cegueira

Helma Reis|

A médica Rosa Salvaterra, do Instituto Nacional de Oftalmologia, concedeu uma entrevista em exclusivo ao Jornal de Angola onde fala do glaucoma, uma doença grave que pode levar à cegueira. Revelou as causas da doença e os cuidados a ter quando ela é diagnosticada. Em Angola todos os anos há mais de 80 novos doentes. A doença é silenciosa, por isso todos devemos fazer rastreios frequentes.

Médica Rosa Salvaterra falou dos cuidados a ter quando a doença é diagnosticada
Fotografia: Maria Augusta

A médica Rosa Salvaterra, do Instituto Nacional de Oftalmologia, concedeu uma entrevista em exclusivo ao Jornal de Angola onde fala do glaucoma, uma doença grave que pode levar à cegueira. Revelou as causas da doença e os cuidados a ter quando ela é diagnosticada. Em Angola todos os anos há mais de 80 novos doentes. A doença é silenciosa, por isso todos devemos fazer rastreios frequentes.

Jornal de Angola - O que é o glaucoma?

Rosa Salvaterra (RS) - O glaucoma é definido como uma neuropatia óptica crónica, progressiva, caracterizada pela morte das fibras do nervo óptico com alterações estruturais e funcionais, que alteram o campo visual e a perda de visão. O nervo óptico pode ser comparado a um cabo eléctrico que liga os olhos ao cérebro, e que tem a função de transmitir os impulsos luminosos que dão origem às imagens. A função visual termina com a morte do nervo óptico, não há regeneração possível conhecida até ao momento.

 JA - Como evolui a doença?

RS - O glaucoma tem uma evolução lenta e silenciosa e quando deixado à sua sorte, segue um curso irreversível para a cegueira num período de dez a 15 anos. A qualidade de vida do indivíduo está estreitamente ligada à função visual. No caso do glaucoma, a qualidade de vida pode ser alterada de diferentes formas, dependendo do estado da doença, do estado psicológico e social do doente e do seu meio familiar. O impacto deste diagnóstico é difícil de avaliar, saber que é uma doença crónica, incurável que evolui para a cegueira, gera pânico e ansiedade no indivíduo, criando muitas vezes sentimentos de rejeição e de abandono. 
      
JA - Quais os tipos de glaucoma?

RS - Existem muitas classificações e todas elas são controversas. Os glaucomas são divididos em primários e secundários, de acordo com o mecanismo que os produz. Primários são todos aqueles em que não existe uma causa específica para o seu aparecimento. Dentro deste grupo estão incluídos o glaucoma primário de ângulo aberto, o glaucoma primário de ângulo estreito e o glaucoma congénito. Os glaucomas secundários são todos aqueles que têm na sua origem uma causa específica, conhecida. O glaucoma primário de ângulo aberto é o mais frequente e representa 60 por cento de todos os glaucomas e é considerado o glaucoma por excelência.

JA - Quais os factores de risco?

RS - O principal factor de risco para o desenvolvimento do glaucoma é o aumento da pressão intra-ocular. Este é também o único factor sobre o qual podemos actuar. Todo o tratamento do glaucoma é baseado na redução da pressão intra-ocular. É importante realçar que existem glaucomas em que a pressão intra-ocular é normal ou baixa. Outros factores de risco a destacar são a idade, a hereditariedade, as doenças cardiovasculares, a diabetes, a miopia moderada, o uso prolongado de certos medicamentos e o tabagismo.

JA - Quais são os sintomas?

RS - O glaucoma crónico simples ou glaucoma primário de ângulo aberto não tem sintomas. A perda de visão só ocorre no final da doença. O glaucoma primário de ângulo estreito, pode ter sintomas, que geralmente aparecem de forma aguda no chamado ataque agudo de glaucoma, em que há diminuição da acuidade visual com visão de arco-íris, dor ocular intensa, olho vermelho, dor abdominal, náuseas e vómitos nas situações mais graves.

JA - Quais são as recomendações para quem vive com a doença?

RS - A principal recomendação para quem vive com a doença é o cumprimento rigoroso do tratamento prescrito e o controle médico regular. Outra recomendação importante é a observação regular em consulta de oftalmologia dos familiares directos para detectar a doença o mais precocemente possível. 

JA - Existem em Angola unidades com capacidade para o diagnóstico da doença?

RS - A resposta a esta questão depende muito do nível de assistência a prestar por cada instituição. Todos os médicos oftalmologistas estão capacitados para fazer o diagnóstico da doença. O glaucoma quando estabelecido é fácil de diagnosticar, e nessa fase o diagnóstico é sempre clínico. Os casos suspeitos e os glaucomas na fase inicial é que são difíceis de avaliar.

JA - O acesso aos medicamentos é fácil?

RS - Sempre que as instituições possuem fármacos anti-glaucomatosos, estes são distribuídos de forma gratuita aos pacientes.

JA - Há dados estatísticos da doença?

RS - Em todo o mundo existem 67 milhões de pessoas que vivem com glaucoma, e dessas, dez por cento são cegas (6.6 milhões). Os glaucomas em África são primários de ângulo aberto, que estão associados a pressões intra-oculares mais elevadas. Surgem em idades mais precoces, têm má resposta ao tratamento e uma progressão rápida. Na África Ocidental, a incidência anual do glaucoma pode ser estimada em 400 novos casos por cada milhão de habitantes.

JA - Qual é a realidade angolana?

RS - A nossa realidade em termos numéricos, ainda não é conhecida. Mas, no Instituto Oftalmológico Nacional, 0,5 por cento dos pacientes observados têm glaucoma. Posso revelar que de 2004 a 2010 foram diagnosticados, por ano, uma média de 83 doentes.

Tire a corda do pescoço

O nó de gravata que você insiste em apertar todos os dias pode prejudicar e muito os seus olhos. É o que afirma um estudo publicado no British Journal of Ophthalmology.
Para chegar a esta conclusão, foram colocadas gravatas muito apertadas a um grupo de 20 voluntários verificando-se que, em apenas três minutos, a pressão intra-ocular (PIO) aumentou uma média de 2,6 milímetros de mercúrio (mm Hg), quando a PIO normal se situa entre os 1,0 e os 2,1 mm Hg.
A explicação é evidente: as gravatas muito apertadas estrangulam a veia jugular, de tal maneira que a tensão arterial nos vasos sanguíneos que fluem para os olhos sobe e, como consequência directa, aumenta também a PIO.
Se você é daqueles homens que tem o pescoço muito grosso, tome atenção para que a gravata não fique muito apertada.
Este mau hábito, dia após dia, eleva a pressão nos olhos, e este aumento pode ser suficiente para provocar um glaucoma ou aumentar o nível de lesão no caso daqueles pacientes que já sofrem deste problema. Ao fazer o nó, lembre-se que devem caber dois dedos entre a garganta e o colarinho da camisa.

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