Entrevista

Dulcineia entra na história

André da Costa|

Dulcineia Manuela de Sousa do Rosário é uma jovem de 27 anos que ingressou na Polícia Nacional há três anos. Fez a recruta na Escola de Formação de Polícia de Ordem Pública. Depois foi escolhida para fazer um curso de pilotagem de helicópteros no Brasil.

Dulcineia é piloto de helicópteros mas também é mãe e estuda Psicologia na Universidade
Fotografia: Nuno Flash

Hoje rasga os céus de Angola. Numa entrevista exclusiva ao Jornal de Angola falou da sua vida profissional e académica. Apesar de todos os sucessos, ainda tem muitos sonhos por realizar.

JA - Como surgiu a ideia para ingressar na Esquadra de Helicópteros?

Dulcineia do Rosário –
Estava a concluir a recruta na Escola Nacional de Formação de Polícia de Ordem Pública. Especialistas do comando da Esquadra de Helicópteros foram recrutar pessoal interessado em ingressar na área de pilotagem e mecânica. Eu aceitei logo.

JA - Foi a grande oportunidade da sua vida?

DR-
De facto. Inscrevi-me para os testes de matemática, língua portuguesa e inglês. Os que aprovaram, tal como eu, fizemos outro teste psicotécnico na Força Aérea Nacional e depois os exames médicos. Felizmente correu tudo bem e partimos para a formação.

JA - Onde fez a sua formação de pilotagem?

DR -
Foi no Brasil. O curso de pilotagem durou três anos.

JA - Eram instrutores pacientes?

DR -
Os instrutores eram altamente competentes, rigorosos mas também pacientes. Tinham muita vontade em ensinar-nos. Por isso hoje sou piloto, fui muito encorajada quando desanimava, devido às dificuldades próprias desta profissão.

JA - Porque optou pela pilotagem de helicópteros?

DR -
Sempre foi um desejo meu. Penso que havia um bichinho dentro de mim que me incentivava a seguir o ramo da pilotagem. Surgiu a oportunidade e não pensei duas vezes. Penso que estas oportunidades não aparecem todos os dias. Quando surgiu não desperdicei e hoje sinto-me feliz por ter conseguido alcançar este objectivo, ­apesar das dificuldades por que passei.

JA - Foi difícil a sua adaptação ao ramo da pilotagem no Brasil, um país que não conhecia?

DR -
Foi difícil o período de formação, aliado ao facto de estar distante da família, dos amigos, do país. No início voar era muito complicado, porque não estava habituada, mas depois adaptei-me.

JA - Como ultrapassou os obstáculos que surgiram?

DR -
Os obstáculos foram ultrapassados com determinação, empenho e espírito de sacrifício. Estava consciente de que só com coragem é que podia vencer e assim aconteceu. Com o incentivo dos formadores e colegas de curso, consegui.

JA - Como se sentiu a primeira vez que levantou voo?

DR –
Estava previsto que fosse o instrutor a pilotar o helicóptero. Mas assim não foi. Ele entregou-me os comandos do aparelho e eu deparei-me com muitas dificuldades. Até chorei.

JA - Alguma vez pensou desistir da formação?

DR
- Pensei nisso logo no primeiro voo, senti imensas dificuldades e calafrios. Assim que aterrei estava nervosa e fui logo falar com o director do curso. A apresentei a minha desistência, porque senti que não ia conseguir. Mas o director do curso deu-me muita coragem e pediu para continuar com determinação e ­coragem, pelo que acatei os seus conselhos e nunca mais parei até hoje.

JA - Valeu a pena o esforço feito durante a formação?

DR -
Acho que sim. Consegui ultrapassar as barreiras das dificuldades que senti na altura. Sinto-me feliz por isso.

JA - Terminou a formação e regressou. Como foi recebida na Esquadra sendo mulher?

DR -
Fui muito bem recebida pelos comandantes aqui na Esquadra e no Comando-Geral da Polícia Nacional. Os chefes sempre me encorajaram, assim como aos colegas, incluindo os mecânicos.
Davam-nos informações sobre os trabalhos que tínhamos que fazer, depois da formação. Hoje estou a trabalhar sem dificuldades.

JA - Qual é a actividade diária na Esquadra de Helicópteros?

DR -
O meu dia-a-dia tem sido de muito trabalho. Logo pela manhã, recebo as instruções dos meus superiores hierárquicos para as missões e cumpro-as.

JA - Tem voado para as outras províncias?

DR -
Infelizmente não. Mas mais tarde ou mais cedo vou voar para todas as províncias.

JA - Como se sente como única mulher piloto ao serviço da Polícia Nacional?

DR -
Sinto-me à vontade. Tenho uma boa relação com os meus companheiros de trabalho. Alguns deles são do meu curso e fizemos juntos a recruta. O ambiente de trabalho na esquadra tem sido satisfatório, pois encontrei também chefes comunicativos e isso ajuda a harmonizar o ambiente. Diariamente procuro fazer as minhas actividades com muita responsabilidade.

JA - Que planos tem traçados para o futuro?

DR -
Tenho muitos planos e vou fazer tudo para os concretizar. Em primeiro lugar, trabalho para adquirir mais experiência no ramo da aviação. Quero voar mais, ganhar mais horas de voo, e quero igualmente terminar os meus estudos superiores.

JA - Que curso está a frequentar na universidade?

DR -
Estou a frequentar o terceiro ano do curso de Psicologia.

JA - Quem é a piloto Dulcineia do Rosário sem a farda?

DR -
Sou uma jovem trabalhadora, mãe, amiga dos amigos e companheira. Sei cozinhar e cuidar da casa.

JA - O que gosta de fazes nos tempos livres?

DR -
Nos tempos livres oiço música, navego na Internet, leio livros científicos e manuais de voo.

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