Entrevista

É importante tornar os museus atraentes

António Bequengue

Angola e Alemanha assinaram um memorando de cooperação na área da museologia, para ajudar os dois países a conhecer um pouco mais as suas culturas etnográficas. O projecto  inclui  a formação de quadros e começou com um enfoque especial à cultura cockwe, cujos artefactos  são motivo
de admiração em Berlim há anos. Para materializar este projecto visitaram o país e os Museus de Antropologia de Luanda e Etnográfico do Dundo, Hermann Parzinger, presidente da Fundação Património Cultural Prussiano,  encarregado do Humboldt Forum, onde ficará patente o acervo cockwe, e o director regional do Instituto Goethe para a África Austral, Norbert  Spitz. Em entrevista ao Jornal de Angola ambos falaram das razões da iniciativa e os ganhos que se podem esperar dela.

 

Norbert Spitz e Hermann Parzinger
Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

Porquê a escolha de Angola?

Entre os vários países africanos escolhemos Angola porque temos,  no Museu Etnológico de Berlim, uma colecção muito importante e antiga de objectos de Angola, sobretudo do Nordeste. 

E de outras culturas e regiões do país?

Claro que também existem peças de outras regiões de Angola e a nossa estratégia é, juntamente com os países de origem e as comunidades indígenas, pesquisar essas colecções e depois desenvolver um programa narrativo para poder apresentá-la aos visitantes dos museus. Todo esse trabalho vai ser feito em conjunto com os peritos destes países.

Mas por enquanto o foco está só na cultura cokwe. Porquê?

Os muitos objectos que o Museu Etnológico de Berlim tem de Angola são da cultura cockwe e  considerados muito importantes. Mas é o início de um longo trabalho de cooperação, porque também temos objectos de outras regiões de Angola. Porém, o foco imediato está na cultura cockwe, cujo valor já foi bastante enaltecido e elevado ao longo dos anos, especialmente devido ao trabalho de pesquisadores como Hermann Baumann, que nos anos 1930, 40 e 50, investigou e coleccionou obras desta cultura. Este passo contribuiu muito para a criação das colecções dos Museus do Dundo, de Luanda e de Berlim. São essas colecções, existentes nos dois países que vão servir de ponte de interligação.

 

E quanto às outras culturas, como a do Kongo, que também foi um dos maiores impérios africanos da sua época e hoje é Património Mundial da Humanidade?

Claro que a cultura do Reino do Kongo, inclusive toda a sua história, é interessante, para qualquer investigador ou curador de um museu. Também temos obras deste reino na nossa colecção. O  nosso trabalho é direccionado ainda para outros países de África, como a Tanzânia, assim como o da América Latina, Oceânia e Ásia. Neste momento Angola é um dos nossos principais focos de trabalho, assim como a Tanzânia. São os primeiros passos do trabalho, mas, com certeza, vamos, depois, “olhar” para as outras culturas.

 

E quanto aos riscos de haver um saque e apropriação da cultura angolana, afinal é um fenómeno comum e que tem gerado muita controvérsia entre os peritos de arte...

É um receio lógico, mas infundado, porque o Humboldt Forum, em particular, tem tido o máximo cuidado de investigar como os objectos da sua colecção foram adquiridos. É evidente que alguns artefactos, até mesmo das maiores colecções, foram obtidos devido ao saque, roubo, ou até mesmo ao uso de força ou violência. Mas têm de ser restituídos.
A fundação tem feito isso com as obras obtidas desta forma. Mas é preciso também deixar claro que nem todas as peças obtidas pelos viajantes e exploradores naquela época foram adquiridas de forma ilegal. Por isso é necessário que as instituições hoje reforcem as suas pesquisas de proveniência.
O Humboldt Forum está disposto a fazer, sempre que solicitado, este tipo de pesquisa junto dos seus parceiros.

Com a assinatura do memorando, quais são os ganhos para Angola?

 O lado angolano pode tirar vários proveitos desta cooperação. O primeiro é o de poder obter uma informação integral, profunda, sobre o acervo ligado à sua cultura presente em várias colecções na Alemanha. Outro ganho é o de participar, mais activamente, na apresentação deste acervo tanto na Alemanha como no país de origem. Além disso, o aumento do intercâmbio, tanto de investigadores como de bolseiros, também vai ser uma valia. No memorando foi igualmente incluída uma cláusula sobre a informação e a formação contínua, a nível da conservação e do restauro, e do que mais for necessário. Por isso penso que essa cooperação, que é nova nesta dimensão, é muito importante, tanto para Angola como para Alemanha.

Quando começa essa formação contínua?

Oficialmente já começou com a assinatura do memorando, embora as iniciativas em si, concretamente, arrancam nos próximos tempos, com o apoio do Instituto Goethe. É bom informar que mesmo antes da assinatura do memorando foram realizados dois seminários de capacitação de técnicos e quadros angolanos, um em Luanda, em Maio, e outro em Berlim, em Novembro.

Qual é o “segredo” para uma boa gestão dos museus e lugares históricos?

Não é um “grande” mistério. A Alemanha enquanto se entende como nação de cultura, considera uma tarefa importante equipar as suas instituições culturais de forma adequada. Um claro exemplo deste interesse é a reabilitação dos edifícios dos museus na ilha ou a construção de novos. A aposta foi especificamente para a Ilha dos Museus, em Berlim, devido, em boa parte, a história difícil da Alemanha, hoje disposta a apresentar ao mundo, da melhor maneira possível, a sua cultura e a da Prússia, mas de uma forma direccionada para o futuro e à abertura de espírito.

Com uma aposta forte na cultura e com base na experiência que têm, qual deve ser a função social dos museus, afinal muitos ainda são vistos como locais antiquados?

É muito importante tornar os museus atraentes. Na Alemanha há um instituto de pesquisa museológica, que faz sempre estatísticas sobre o número de visitantes dos museus de arte e de história de arte. Nos últimos anos tem sido observado um acréscimo dos visitantes. Actualmente, na Alemanha, há mais pessoas a visitarem museus do que estádios de futebol. O segredo, é torná-los em espaços muito atraentes, com vários tipos de oferta, para os diferentes grupos da sociedade. Por exemplo, criar programas especiais apenas para as crianças, jovens, pessoas de idade e até para doentes mentais. Hoje os vários museus alemães já apresentam roteiros especiais para ajudar na integração de refugiados. Ou seja, o museu tem de chegar a todos os grupos sociais. Não basta só abrir de  manhã as portas e esperar que as pessoas entrem. Tem de haver publicidade, de várias formas, pela Internet, usando as redes sociais.  

O memorando também inclui parceria com os museus angolanos?

O contacto principal que temos é com o Museu Nacional de Antropologia, em Luanda. Queremos realizar muitos seminários para pesquisa conjunta, restauração e conservação, ou formação cultural, dos técnicos e quadros desta instituição. É está uma das principais áreas de cooperação previstas para o futuro.

E quanto à realização de exposições conjuntas de acervos?

Hermann Parzinger - Claro que no âmbito da cooperação estamos a pensar em exposições conjuntas da cultura e arte angolanas na Alemanha, assim como em mostrar objectos da Alemanha em Angola.

Acredita que as exposições conjuntas tenham sucesso?

É um fenómeno que já observei em outros países da América Latina ou Ásia. Por exemplo, as pessoas quando vão para a Europa querem ver a arte mundial de várias épocas. Esse interesse também existe entre os próprios europeus. Mas há histórias muitíssimo interessantes que as pessoas não conhecem, nem na Europa, nem em Angola, em particular, ou África, em geral. Cada país tem a sua história e, na maioria das vezes, muito interessante por contar.
Por isso é importante conhecer culturas, como a do Reino do Kongo ou a Cokwe. Agora é fundamental despertar a consciência das pessoas para a importância destas histórias.

O que é o Humboldt Forum?

É um centro cultural. O Humboldt Forum não é só um museu. É todo um espaço que alberga parte da Universidade de Berlim e a da história da própria cidade de Berlim. Além disso, o centro vai contar com muitas outras áreas, algumas ligadas a outras expressões artísticas e incluirá também espaços para a exibição de filmes, debates e ainda a apresentação de performances. É a oportunidade dos artistas, de diversas áreas, poderem mostrar o seu potencial. 

E para quando está prevista a sua inauguração?

Todos os esforços estão a ser feitos para acontecer nos fins de Novembro de 2019. A princípio vamos inaugurar, apenas, o rés-do-chão. Depois ao longo do ano seguinte vão ser inauguradas, em várias etapas, os outros andares.

Como pensam explorar a gestão do espaço, no que toca à cobrança de uma taxa para entrada?

Em Berlim, nos museus, até os 18 anos, a entrada é sempre livre. Depois paga-se, mas existem muitos descontos, particularmente para os estudantes e reformados. No caso do Humboldt Forum a princípio as entradas vão ser grátis mesmo para todos. Decidimos assim porque os visitantes não estarão a visitar apenas o museu. Existem muitos outros espaços, como a universidade e outros recintos. Por isso faz sentido as pessoas poderem, numa fase inicial, circular livremente e não terem de pagar em todas as portas. Mas… por outro lado, para garantir a sua existência, os museus precisam de cobrar ingressos. Estamos a pensar cobrar um valor mínimo.

Neste caso teremos no futuro um espaço capaz de rivalizar, em termos de acervo, com o Museu Britânico?

O intuito não é entrar em concorrência com outros museus ou centros museológicos da Europa. Além disso, ao contrário do Museu Britânico que reúne, nas suas colecções, objectos de várias culturas, temos em Berlim a Ilha dos Museus, que são cinco museus dedicados à cultura da Europa e de outros países. Outra valia é o Palácio dos Reis da Rússia, que foi agora reconstruído e é onde está o Humboldt Forum e toda as colecções das culturas de África, Ásia, Oceânia e América.
A ideia é sermos um museu universal, como o Britânico, porque coleccionamos e mostramos a arte e cultura de todas as épocas, em colecções sistemáticas. Por isso, a ideia não é superar, até porque ambos vão ser melhores em alguns aspectos e fracos noutros. Apenas queremos, desde a reunificação das duas Alemanhã, reorganizar as colecções e reestruturar edifícios históricos, criando novos museus.

 

Colecções históricas num contexto actual

 

 O Instituto Goethe é a “ponte”, no sector da cultura, entre Alemanha e os outros países. Qual é a sua opinião sobre a assinatura deste memorando?

É fundamental. Mas levanta também uma outra questão. Qual é o papel dos museus hoje? A pergunta não é só para a realidade de Angola mas também de muitos outros países. Estamos a organizar mesas-redondas, com peritos em museologia, para falar sobre a actual situação dos museus e das suas colecções, tanto em África, em cidades como Oaguadogou, Accra, Dar-es-Salam, Windoek e Lagos, e na Europa. Outro aspecto a realçar é que um dos papéis do Humboldt Forum vai ser de colocar as colecções históricas num contexto actual, o que implica a possibilidade de atingir um outro nível, para o qual os agentes da cultura, ligados aos museus, devem estar preparados para lidar com as colecções e torná-las mais acessíveis para o público jovem. Neste sentido, a rede dos Institutos Goethe é um bom parceiro, porque temos representações em 15 países africanos.

Neste caso uma das maiores apostas da cooperação é a formação?

Com certeza. Na nossa sociedade, a educação e a formação têm um papel muito importante. É um valor muito importante e o Estado aposta muito na educação, porque é essencial que as pessoas tenham uma boa educação, independentemente do rendimento das suas famílias. Faz parte também desse processo  a formação cultural, um vez que a educação não deve ser só a nível das ciências, mas também cultural. Por isso o memorando de entendimento inclui a formação contínua. Por exemplo, na Alemanha,  um dos problemas que cria dificuldades à educação é o da integração, pois recebemos, anualmente, muitos refugiados, sobretudo do Médio Oriente. Mas já criámos um programa de formação, há anos, para os formar. E alguns museus já incluíram este tipo de projecto nos seus roteiros. Por meio de visitas guiadas, estes refugiados aprendem não só a cultura islâmica mas também a europeia cristã.  

Mas a educação, principalmente  sobre os museus, ainda não é uma realidade em muitos países. O que se pode fazer?

O mais importante é apostar na interacção. Por exemplo, para chamar jovens é preciso que algo aconteça no museu. Um professor catedrático vai ao museu e consegue virar-se sozinho. Agora para um jovem não basta apenas estarem lá os objectos, com a descrição. Isso é pouca coisa.

Neste caso como poderiam atrair-se mais jovens? Com entradas grátis?

Este  assunto da entrada livre é como o da educação livre. Num museu ela não deve ser gratuita, porque  a manutenção do espaço requer custos. Mas, às vezes, as pessoas não têm de pagar os ingressos. Na Alemanha, por exemplo, os cidadãos têm trabalho remunerado e pagam impostos. O Estado, geralmente, emprega esses impostos para apoiar a educação deles, assim como as instituições culturais. Isso facilita também  que as famílias com poucos rendimentos tenham acesso à educação e às instituições culturais. Penso que essa é a principal diferença entre a nossa sociedade e a de muitos países africanos. Os impostos auferidos pelo Estado são tantos que dão para as infra-estruturas, assim como para investir na educação e na cultura, enquanto em África muitas vezes só chegam para infra-estruturas e a criação de melhores sistemas de saúde. Por isso muitos governos acabam por pensar que cultura é um luxo, mas ela é importante para desenvolver o discurso social das pessoas e a própria sociedade.

E como vai ser feita a destrinça de tarefas entre o Humboldt e o Goethe?

O projecto é feito por três parceiros. Dois dos quais são museus, com colecções históricas. O outro é o Instituto Goethe, enquanto fundação de cultura oficial da República da Alemanha. Uma das tarefas do Goethe é promover o diálogo cultural entre Alemanha e o mundo. Neste caso de cooperação, a cultura angolana vai ser mais valorizada, não só na Alemanha, como a nível internacional.

Esta cooperação tem alguma especificação em particular?

O acordo inclui já a definição de temas concretos, com destaque à cooperação em especial e ao intercâmbio de informações sobre as colecções que existem, de ambas as partes, assim como a tradução de documentos relevantes e, claro, vários seminários para restauradores e técnicos de conservação.

E o Goethe tem experiência neste sector?

Enquanto Instituto Goethe já fomos, por exemplo, consultados para projectar, com aconselhamento e acompanhamento, a criação de um museu de instrumentos musicais na Tailândia, no sudoeste da Ásia. O objectivo era ajudar a “reanimar” esses instrumentos, através das tecnologias digitais, ou seja, além de termos o objecto numa vitrina, colocar lá um ecrã onde seria mostrado como eles foram construídos e a sua origem. O museu também teria oficinas onde alguns músicos tradicionais convidados, poderiam construir instrumentos com o público a assistir. Isso é… muita interacção para tornar as coisas interessantes.

 

O que se pode esperar do Instituto Goethe nesta cooperação com Angola?

Tudo. Actualmente trabalhamos em 30 áreas ligadas à cooperação cultural entre a Alemanha e o mundo. Em Angola todas estão a ser operadas. A transmissão da língua alemã e a promoção do diálogo cultural estão entre as prioridades. Na maioria dos países trabalhamos, sempre, com os agentes da cultura  locais. Agora, no âmbito desta cooperação, forneceremos também informações sobre a Alemanha. Para a área da cultura temos vários temas. Nos últimos anos, o Instituto Goethe tem feito um foco especial ao desenvolvimento cultural e urbano participativo e futurista. Geralmente convidamos membros da cultura para apresentar as suas análises sobre o futuro, assim como artistas de várias áreas.

 

Esta projecção toda é só em África ou a nível internacional? Que projectos têm  em carteira? 

A nível do mundo. Por exemplo, mostramos na Berlinale, um dos maiores festivais de cinema realizados em Berlim, filmes feitos, a nosso convite, por artistas sobre as suas realidades. Este ano, e nos próximos, queremos também nos debruçar mais sobre a temática dos museus e da história colonial em África. Assim como, com olhos para o futuro, queremos apostar mais na economia criativa e no empreendedorismo jovem em África.


*Com Adriano de Melo 


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