Entrevista

"É necessário dar oportunidade aos jovens"

M. Osvalda e S. Silveira

Luísa Damião admitiu, em entrevista a Angop, que ficou surpreendida com a sua eleição ao cargo de vice-presidente do MPLA. Entretanto, a jornalista, eleita “número dois” na hierarquia do partido no poder em Angola no último congresso extraordinário, prometeu assumir o cargo com muita responsabilidade. Como prioridade para os próximos tempos, apontou a mobilização dos militantes, sobretudo das mulheres para participarem nas eleições autárquicas, previstas para 2020.

Fotografia: Maria Augusta | Edições Novembro

Que significado teve a sua eleição, que surpreendeu muita gente e, seguramente, a si também?
Efectivamente, foi uma surpresa, mas o significado que tem para mim é de grande responsabilidade, porque pesa sobre os meus ombros o facto de assumir este cargo.  É a primeira vez que se confia esta tarefa numa mulher, e eu devo representar bem todas as mulheres, tendo em conta que elas, no país, constituem 52 por cento da população. Tanto homens como mulheres estão à espera de um bom desempenho desta pessoa, em quem foi confiada a responsabilidade de assumir este cargo. Quero assumi-lo com sentido de dever, muita responsabilidade e ajudar o meu partido a pôr em prática os princípios que sempre defendeu.


Como é que surge o seu nome para a vice-presidência do partido e em que momento acreditou que seria possível? 
A partir do momento em que entro para o Bureau Político do MPLA, tenho de estar preparada para qualquer desafio, mas confesso-lhe que não fui consultada em nenhuma circunstância para assumir este cargo. Para mim, foi uma surpresa, quando, dentro da sala, foram anunciados dois nomes. Foi algo inovador também dentro do nosso partido e com o qual fiquei bastante feliz, porque exercitamos ali a democracia interna. Foi a primeira vez que foram apresentadas duas listas para se eleger membros do Bureau Político e dois candidatos para o cargo de vice-presidente e de  secretário-geral do MPLA. Portanto, exercitamos ali a democracia interna, um acto inovador do próprio presidente (do partido). Também foi inovador o presidente confiar nas mulheres, porque as candidatas foram mulheres, e consegui também ali medir a minha aceitação, medir até que ponto as pessoas confiavam em mim.

Quais são os desafios que se colocam perante tamanha responsabilidade?  
Os principais desafios são vários. Para já, vamos ter eleições autárquicas, em 2020, e pensamos em sensibilizar e mobilizar os nossos militantes, particularmente as mulheres, que são uma franja importante dentro da nossa sociedade. Vamos mobilizá-las não só por serem eleitoras, mas também candidatas, pois considero que são candidatas naturais às autarquias, uma vez que têm estado a desenvolver, nas suas comunidades, projectos inovadores, a identificar problemas e a en-contrar soluções para os problemas das comunidades. Por isso, penso que, como candidatas às autarquias, vão dar uma grande contribuição ao país. Este é um dos grandes desafios que vamos abraçar. O outro será, também, dar os nossos subsídios para conferir maior dignidade às crianças e aos idosos. Temos também a tarefa de mobilizar os nossos militantes a estar mais inseridos na sociedade e trabalhar mais com a sociedade civil.

A juventude tem-se demonstrado um pouco desapontada com a política. O que o MPLA pode fazer para acabar com esta descrença e tornar os jovens mais participativos?
É a vice-presidente do MPLA que tem a responsabilidade de trabalhar com as organizações sociais do partido, no caso a Organização da Mulher Angolana (OMA) e a Juventude do MPLA (JMPLA), mas não queremos trabalhar só com as es-truturas do partido. Vamos tra-
balhar, também, com organizações da sociedade civil. Obviamente, a juventude vai estar no centro das nossas atenções. Vamos primar pelo diálogo, visto que, às vezes, é necessário dar oportunidade aos jovens, pois têm muitas ideias, são entusiastas e precisam de ser ouvidos. Ouvi-los-emos para que, tal como nos apontam os problemas, também nos ajudem a encontrar as soluções.

Sente-se pronta para a gran-de tarefa que o MPLA lhe incumbiu? 
Como militante, tenho de estar pronta e, a partir do momento em que o meu partido confiou em mim, devo colocar todo o meu talento, saber, conhecimento e profissionalismo, a fim de honrar esta confiança que em mim foi depositada, e para que, efectivamente, os nossos militantes consigam perceber que o MPLA é o povo e o povo é o MPLA.

Como vê hoje a comunicação social e o que espera dela?
Acho que há uma mudança muito grande na comunicação social e espero que continue nesta senda, isto é, uma comunicação mais interventiva, mais virada para a cidadania, isenta, responsável, que possa reflectir, efectivamente, sobre as preocupações dos angolanos. Penso que estas chamadas de atenção da comunicação social também vão ajudar a melhorar muitos fenómenos no nosso país e a alertar as autoridades sobre diversas questões que afectam a nossa sociedade. É um princípio que está consagrado na Constituição da República de Angola, o direito à informação e o de ser informado. Os jornalistas, como actores sociais, têm este papel fundamental de levar a informação aos cidadãos. A minha mensagem é de que continuem a trabalhar, a colocar a comunicação social ao serviço da cidadania e que, efectivamente, os jornalistas reflictam, com seriedade e responsabilidade, sobre os problemas que ocorrem no país.

Até que ponto o facto de ser jornalista influenciou no processo da sua gradual maturidade e ascensão política?
A Angop é uma escola. E aqui aprendi a saber fazer e a saber ser. Aqui consegui desenvolver o meu talento, para poder dar o meu contributo à comunicação social. Daqui levei uma valiosa experiência que me proporcionou desenvolver e cumprir outras missões. Sou agora chamada, como um bom soldado, a assumir uma função no meu partido, o partido ao qual sempre me dediquei, para assumir a sua vice-presidência. A minha passagem pela agência (Angop) terá contribuído muito para o meu crescimento, porque sempre fui uma pessoa muito disciplinada, muito cumpridora, muito perfeccionista, às vezes, e muito exigente comigo mesma. Os valores que eu aprofundei, aqui na Angop, ajudaram-me a atingir este cargo.

De que precisa uma mulher para singrar no mundo da política?
Primeiro, muita disciplina, entrega, dedicação e muito profissionalismo. Costumo dizer que, numa sociedade machista, a mulher, para ser reconhecida, tem que ser duas vezes melhor que o homem, e então esta entrega, este profissionalismo são fundamentais para que possam acreditar em nós. Quando vim trabalhar como directora de Informação da Angop, não olhava se estava a trabalhar com homens ou mulheres, olhava para profissionais, cada um dos quais devia cumprir com a sua função. Era uma mulher que estava a lidar com quadros que sabiam bem qual era a sua função e o que deviam fazer. A persistência, a perseverança e a dedicação levam as pessoas a chegar longe.

Como passa os tempos livres?
Nos tempos livres, gosto de ler e de ir ao cinema. É um hobbie que não dispenso, mas também gosto de praia e de cozinhar. Adoro cozinhar.

Que momentos destaca no seu percurso, da infância à actualidade?
Foram muitos momentos. Começo pela minha infância. Sou natural de Malanje, nasci em Malanje, filha de dois malanjinos. O meu pai, funcionário público, muito cedo foi transferido para Benguela. A minha infância foi passada em Benguela, onde forjei a minha educação patriótica na Organização dos Pioneiros (OPA). Posteriormente, o pai foi transferido para a província do Huambo e fomos com ele. Aos 16 anos, começo por trabalhar como quadro  profissional da JMPLA. É nessa altura que sou eleita secretária para a Educação e Ensino do Comité Municipal da JMPLA, no Huambo. Lembro-me bem de, como se fosse hoje, o meu pai ter-me dito: “abraçaste a política, já não vais estudar”. Mas, felizmente, consegui conciliar as tarefas. No quadro da minha função na JMPLA, comecei por gravar um programa para jovens na Emissora Provincial do Huambo, na altura, e, para a minha surpresa, o primeiro dia em que entrei na cabine para gravar este programa, o director da Rádio saiu do seu gabinete e veio espreitar para ver quem ali estava. Quando eu saio da cabine, propõe-me para trabalhar como locutora na Emissora Provincial do Huambo. O director era o senhor Carlos Pereira, e eu disse-lhe que não tinha muito tempo, uma vez que estava mais virada para a política e não teria tempo para fazer as duas coisas.
A verdade, é que continuou no jornalismo...
Daí foi nascendo o bichinho do jornalismo. Depois, foi-me dada a possibilidade de fazer um curso nesta área. Naquela altura, o DIP (Departamento de Informação e Propaganda) do MPLA seleccionou alguns quadros para fazerem curso básico de jornalismo, na República de Cuba, e é assim que eu vou, com outros colegas. Lembro-me do Victor Silva, da Raquel Betlehem, e encontramos lá o Óscar Silva e a já falecida Isabel Machado, que lá estavam a fazer o ensino superior. É assim que faço o curso e, quando regresso a Angola, senti a necessidade de aumentar os meus conhecimentos e matriculei-me no curso médio de jornalismo. Depois de o fazer, naquela altura, não escolhíamos onde trabalhar, era o partido que nos indicava, enviava-nos para onde fizéssemos falta. É assim que eu apareço nos quadros da Angop.

Depois começou a assumir outras responsabilidades...
Fui assumindo muitas outras tarefas. Cheguei a ser membro do Comité Nacional da OMA, secretária para a Informação, Propaganda e Novas Tecnologias; coordenadora do grupo de acompanhamento do Secretariado do Bureau Político para a província do Zaire e do Cuanza-Sul, e, em 2012, foi-me lançado o desafio de ser deputada, razão pela qual, por questões de incompatibilidade, tive que interromper o meu vínculo com a Angop.

“A perseverança e a dedicação fazem as pessoas chegar longe”

De que precisa uma mulher para singrar no mundo da política?
Primeiro, muita disciplina, entrega, dedicação e muito profissionalismo. Costumo dizer que, numa sociedade machista, a mulher, para ser reconhecida, tem que ser duas vezes melhor que o homem, e então esta entrega, este profissionalismo são fundamentais para que possam acreditar em nós. Quando vim trabalhar como directora de Informação da Angop, não olhava se estava a trabalhar com homens ou mulheres, olhava para profissionais, cada um dos quais devia cumprir com a sua função. Era uma mulher que estava a lidar com quadros que sabiam bem qual era a sua função e o que deviam fazer. A persistência, a perseverança e a dedicação fazem as pessoas a chegar longe.

Como passa os tempos livres?

Nos tempos livres, gosto de ler e de ir ao cinema. É um hobbie que não dispenso, mas também gosto de praia e de cozinhar. Adoro cozinhar.

Que momentos destaca no seu percurso, da infância à actualidade?

Foram muitos momentos. Começo pela minha infância. Sou natural de Malanje, nasci em Malanje, filha de dois malanjinos. O meu pai, funcionário público, muito cedo foi transferido para Benguela. A minha infância foi passada em Benguela, onde forjei a minha educação patriótica na Organização dos Pioneiros (OPA). Posteriormente, o pai foi transferido para a província do Huambo e fomos com ele. Aos 16 anos, começo por trabalhar como quadro  profissional da JMPLA. É nessa altura que sou eleita secretária para a Educação e Ensino do Comité Municipal da JMPLA, no Huambo. Lembro-me bem de, como se fosse hoje, o meu pai ter-me dito: “abraçaste a política, já não vais estudar”. Mas, felizmente, consegui conciliar as tarefas. No quadro da minha função na JMPLA, comecei por gravar um programa para jovens na Emissora Provincial do Huambo, na altura, e, para a minha surpresa, o primeiro dia em que entrei na cabine para gravar este programa, o director da Rádio saiu do seu gabinete e veio espreitar para ver quem ali estava. Quando eu saio da cabine, propõe-me para trabalhar como locutora na Emissora Provincial do Huambo. O director era o senhor Carlos Pereira, e eu disse-lhe que não tinha muito tempo, uma vez que estava mais virada para a política e não teria tempo para fazer as duas coisas.

A verdade, é que continuou no jornalismo...

Daí foi nascendo o bichinho do jornalismo. Depois, foi-me dada a possibilidade de fazer um curso nesta área. Naquela altura, o DIP (Departamento de Informação e Propaganda) do MPLA seleccionou alguns quadros para fazerem curso básico de Jornalismo, na República de Cuba, e é assim que eu vou, com outros colegas. Lembro-me do Victor Silva, da Raquel Betlehem, e encontrámos lá o Óscar Silva e a já falecida Isabel Machado, que lá estavam a fazer o ensino superior. É assim que faço o curso e, quando regresso a Angola, senti a necessidade de aumentar os meus conhecimentos e matriculei-me no curso médio de Jornalismo. Depois de o fazer, naquela altura, não escolhíamos onde trabalhar, era o partido que nos indicava, enviava-nos para onde fizéssemos falta. É assim que eu apareço nos quadros da Angop.

Depois começou a assumir outras responsabilidades...
Fui assumindo muitas outras tarefas. Cheguei a ser membro do Comité Nacional da OMA, secretária para a Informação, Propaganda e Novas Tecnologias; coordenadora do grupo de acompanhamento do Secretariado do Bureau Político para a província do Zaire e do Cuan-za-Sul, e, em 2012, foi-me lançado o desafio de ser deputa-
da, razão pela qual, por questões de incompatibilidade, tive que interromper o meu vínculo com a Angop.

PERFIL

Luísa Pedro Francisco Damião
Naturalidade: Malanje
Data de nascimento: 31 de Agosto de 1963
Profissão: Jornalista
Percurso profissional: Muito cedo começou a sua carreira política, tendo passado pela JMPLA, OMA e pelo secretariado do Bureau Político do MPLA.
Em 2012, com a vitória do MPLA nas eleições legislativas, é eleita deputada à Assembleia Nacional, tendo assumido o cargo de presidente do Grupo de Mulheres Parlamentares.

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