Entrevista

"É preciso dar oportunidade às pequenas empresas"

Vladimir Prata

É um dos empresários do ramo da construção civil mais bem sucedidos na região Sul de Angola e que tem sabido tirar proveito da crise económica que o país enfrenta há alguns anos. Santiago Neto, líder do grupo empresarial com o mesmo nome e sede na província do Namibe, conta, em entrevista ao Jornal de Angola, como tem sobrevivido à falta de divisas; fala das vantagens e desvantagens em ser parceiro do Estado e aponta para o que deve ser melhorado e o que deve ser corrigido no sector da Construção. É de opinião de que as grandes empresas devem conceder empreitadas às pequenas e médias, para que estas sobrevivam.

Santiago Neto, empreiteiro da construção civil do Namibe

O país está a atravessar um momento de crise financeira há já alguns anos. Como é que o grupo CSN Lda tem resistido e enfrentado esta crise, numa altura em que as divisas são cada vez escassas e os preços de produtos como o cimento e outros estão a subir?
O que a CSN tem feito é utilizar a inteligência. Porque a inteligência é que faz o dinheiro; é que gera resultados. É preciso saber usar a inteligência. Quando as outras empresas começaram a pensar em diversificação, nós já estávamos, dois anos antes, expandindo o nosso leque de negócios.

Que impacto tem a crise económica sobre os resultados das empresas ligadas ao vosso grupo, em relação aos anos anteriores?
Em termos de desembolso, nós tínhamos muito mais, an­tes da crise. Não tem sido fácil, mas é possível. De um tempo a esta parte, a CSN sempre primou por ter um estaleiro repleto de materiais; faz grandes investimentos, em termos de materiais; tem facilidade para executar qualquer obra, porque tem stock, que nunca deixa acabar.
Qualquer obra que apareça, em qualquer momento e em qualquer parte do país, nós fazemos, sem qualquer dificuldade, porque temos material suficiente para atender. As empresas do grupo dão apoio à empresa de construção. Temos a fábrica de alumínios, a fábrica de blocos e tudo que é artefacto de cimen­to, entre outros, e todas apoiam a empresa mãe. Assim como a empresa de camionagem que temos. Somos auto-subsistente, não precisamos de muitos recursos fora do país, porque, praticamente, temos tudo. E isso facilita-nos e nos permite fazer preços competitivos, em relação a outros players do mercado. Nós fabricamos, transportamos, temos os meios e equipamentos para poder executar qualquer obra, em qualquer parte do país. Por isso, repito, é preciso saber usar a inteligência; gastar pouco e o necessário, mas fazer sempre bem, com qualidade e o rigor que se impõe.

Teve necessidade de fazer contenção de custos devido à crise? O volume de negócios diminuiu, neste período em particular?
Pelo contrário, o volume de negócios aumentou, porque nós fomos ao encontro das obras. Antes, era o contrário, éramos solicitados para fazer obras. Mas, com a quantidade de materiais que nós temos em stock, fomos ao encontro de grandes empresas, sobretudo públicas, como é o caso da ENDE, entre outras, assim como temos obras também
financiadas pelo BAD. Mas o que esta acontecer é que nós é que estamos a financiar as obras destes clientes; estamos a fazer precisamente o contrário do habitual. Estamos a ser os financiadores das obras e temos acordos para que, em determinados espaços de tempo, eles possam fazer os reembolsos. Eis a razão da nossa sobrevivência. Antes, eles vinham ter connosco; agora, nós é que vamos ter com os clientes. E quando um cliente é bem servido uma vez, ele vai querer continuar.

A CSN tem,  no seu quadro, funcionários colaboradores estrangeiros?
Sim, permanentemente, porque, enquanto empresa, notámos que havia necessidade de aprimorarmos determinadas áreas e uma delas era a área técnica. Precisávamos de engenheiros, arquitectos ...  Não que o nosso mercado não os tivesse ou que não os tenha,  o que acontece é que a maior parte dos nossos engenheiros ou arquitectos angolanos, além de querer ganhar balúrdios de dinheiro, quase não trabalha. E quando quer trabalhar, prefere a área da Fiscalização, que é chegar, ver, assinar um papel e ir-se embora.  Nós queremos técnicos ao pé da obra, que trabalham, que não têm nem sábado, nem domingo, nem feriado. Por isso é que nós apostamos, numa primeira fase, em técnicos vindos de Cuba, para, paulatinamente, irmos os substituindo por pessoal angolano que realmente trabalhe, que vai ganhando endurance com esses estrangeiros. Se eu, como patrão, trabalho sem ter em conta o fim-de-semana, sempre que for necessária a minha presença, por que razão o meu pessoal não o pode fazer?

Como é que tem sido a relação com o Estado, no que toca às políticas migratórias para contratação de pessoal estrangeiro?
O Governo Provincial tem apoiado muito, em termos de facilitação da documentação. O que tenho que lamentar são os Serviços de Migração e Estrangeiros, no que toca ao seguinte: quando o colaborador termina o seu contrato com a empresa, há a necessidade de se restituir o valor de caução que nós, empresa, pagamos e que nos é exigido para que qualquer colaborador estrangeiro venha trabalhar connosco. Já fizemos inúmeras cartas para a restituição desses va­lores e os SME nunca o fez. Com isso, estão a prejudicar as empresas. Quantos colaboradores vêm de outros países para trabalhar em em­presas angolanas e que, quando re­gressam, as empresas vêem-se na situação de não lhes ser devolvido o di­nheiro da caução por parte dos SME? Achamos que essa situação não é correcta e que os Serviços de Migração têm que rever.

Enquanto empresário, como é que vê a parceria com o Estado? Que vantagens e desvantagens?
O Estado é sempre Estado, em qualquer parte do mundo, e temos que considera-lo como rico. O Estado tem várias maneiras de ir buscar recursos, o que nós não temos. Vamos buscar apenas aquilo que produzimos e, muitas vezes, o que produzimos fica apenas no papel. Por exemplo, há mais de oito meses que não recebemos um pagamento de uma ordem de saque. Será normal? Por isso é que outras empresas não conseguem sobreviver, porque só dependem de obras do Estado. Esse é um grande problema. E o grande "Calcanhar de Aquiles", para nós, é que o Estado cobra e, se não pagares a Segurança Social, multas; se não pagares os impostos a tempo, multas. Mas o Estado não vê o lado dele, que atrasa também nos pagamentos. Isso prejudica muito o empresariado.
Há dias, estive a falar com o presidente da Associação dos Empreiteiros. Disse-me que sou o único que está a resistir, porque todos os outros estão falidos. Isso doeu-me! E são pessoas que até estavam muito melhores condições que eu, modéstia à parte. Será que esse é o caminho que o Estado quer para os empresários em Angola? Há, agora, a situação da desvalorização do Kwanza, em cerca de 25 por cento. O Estado deve-nos muito dinheiro. Será que o Estado vai reajustar, na altura dos pagamentos? Se reclamares ou disseres que não vais fazer, consideram-te "persona non grata".

Quanto lhe deve o Estado?
Muito dinheiro. E nós não vivemos de ar; vivemos de resultados. Quando digo Estado, digo empresas públicas que não convêm aqui citar, por questões sigilosas. Mas é preciso dizer que o Estado tem de encontrar políticas para nos pagar, porque não vivemos do erário pú­blico, vivemos de resultados daquilo que fizemos. Então? Quem trabalha é justo que tenha de receber. Quem re­cebe as obras executadas, de uma ou de outra forma, está bem servido. Mas quem fez o trabalho, quem o ajudou a fazer o trabalho no momento difícil, quando ele não tinha condições financeiras para o fazer, não é visto? Pelo menos para manter as empresas vivas, a trabalhar.

O Executivo saído das eleições de 2017 tem como slogan “melhorar o que está bem, corrigir o que está mal”. Na sua opinião, a nível da Construção Civil, o que é que precisa ser melhorado e o que dever ser corrigido?
Os pagamentos têm de ser feitos a tempo. As empresas de construção vivem disso. Para poder ter stock de materiais, têm de ter dinheiro;
tem de movimentar. O Estado atrasa muito com os pagamentos e isso tem de melhorar. Tem de haver mais trabalho nesse sentido. O Ministério das Finanças tem de honrar ss ordens de saque; tem de pagar os subsídios a preço às empresas públicas, para que elas também possam honrar com os seus compromissos.  Por exemplo, a situação da energia e água, na qual não pagamos o preço real. Eles têm despesas, também precisam de fazer obras. Eles dizem: "como é que eu vou te pagar, se não me pagam o valor real do consumo de energia ou água?" E, no fundo, tudo passa pelo Estado, que deve honrar os seus compromissos; não fazer despesas acima daquilo que pode realmente pagar, porque, muitas vezes, quer dez obras, mas só pode pagar cinco. Se o Estado melhorar os pagamentos, tudo vai entrar nos carris. E temos fé de que agora, com o camarada João Lourenço, as pessoas vão ser mais sérias, porque as pessoas não eram sérias. Outra coisa que tem de ser vista é o valor da obra por metro quadrado, porque muitas vezes as pessoas não fazem contas e dizem que se está a cobrar caro. Primeiro é que eu faço com qualidade e esta tem um preço. É muito
importante que se reveja o valor por metro quatro. Nós só queremos ganhar o que é justo, que dê para manter a empresa, o ordenado do pessoal e a chama viva, como se diz. Não precisamos de mexer no erário público, no que é do povo, porque o povo paga impostos. Só queremos o que é justo. Nunca deixamos de pagar impostos; não temos dívida com o Estado, mas o Estado tem dívida connosco. Mas isso também é um problema de consciência de algumas pessoas. Há muitos erros que já deviam ser corrigidos, já se devia falar deles, mas foram ocultos, porquê? Para melhor reinar. Há que melhorar e temos fé que o Presidente da República, que está há cento e poucos dias no poder, vai trabalhar nesse sentido. Só vimos ainda movimentações de pessoas, mas temos esperança de que as coisas vão andar.

No que toca à contratação pública de empresas de construção, há sempre polémicas sobre a escolha dos empreiteiros.  Também há casos de empresas que não terminam as obras. Há muito a corrigir nesse capítulo?
É polémico falar disso. Mas é assim e disso pode ter a certeza: a maior parte das obras foram abandonadas foi porque houve falhas nos desembolsos. Nós vemos isso. A CSN só não tem obras abandonadas por causa da sua grande capacidade de mobilidade e a quantidade de material em stock.  Mas a maior parte das obras abandonadas deve-se a atrasos no desembolso. Quando assim é, a obra, que tem custos todos os dias, é abandonada. Não culpo os meus colegas por isso; é problema do Estado. Há também em­preiteiros que recebem o dinheiro, têm já os desembolsos todos, mas não terminam a obra. Isso acontece em conluio com alguém. É um problema de desonestidade.
Outros empreiteiros, no o intuito de ganhar a obra, faz valores baixos. Por exemplo, se o valor por metro quadrado for 1.200 dólares, ele faz por 700. É claro que não chega ao final e vai abandonar a obra. Muitas dessas obras são concedidas por interesse. Por isso, é importante ter um bom gabinete de estudos, uma boa área técnica, que te faça bem os orçamentos, as contas; que faça saber quanto é que vais pagar de impostos, qual será a a margem de lucros, quanto tempo vai demorar a obra, enfim.
Aproveito para dizer que, por exemplo, vêm grandes em­presas, grandes monopólios (posso citar, sem medo, a Omatapalo, China Jiangsung, Somague e outras, se a me-mória não me falha), para as grandes empreitadas que o Estado lhe concede. As pequenas e médias empresas deviam ter sub-empreitadas, aí na ordem dos 15 ou 20 por cento. Mas eles abocanham tudo. Onde é que está a fiscalização do Ministério da Construção nesse sentido? Assim, como é que as pequenas e médias empresas vão sobreviver? As grandes empresas têm de dar subempreitadas às pequenas e médias, para que estas também possam crescer. Mas isso não acontece no nosso país e não há quem vá actuar a favor dos pequenos e médios empreiteiros. E as obras grandes existem.

Já teve a oportunidade de estudar as vantagens e desvantagens da nova pauta aduaneira? Fala-se em algumas isenções, para importação de máquinas e equipamentos…
Para ser sincero, ainda não tive contacto com a nova pauta. Quanto às isenções, isso é sempre vantajoso, mas onde é que estão as divisas para importar? Isso é sempre muito bonito, para florear, mas estamos cansados disso. Por exemplo, a nossa fábrica de alumínios tem material para importar, mas a factura está há um ano no banco e estamos a falar de valores pequenos, 20 mil, 30 mil euros. Se não for um pé-de-meia que a gente faz ou que se fez no período das vacas gordas, não se consegue trabalhar.
Fala-se muito de uma situação que é a importação de viaturas de segunda mão. Como é que uma viatura em segunda mão paga montes de impostos e a nova não paga? Ainda por cima há os timings, segundo os quais, com x anos ano não entra. Uma viatura que andou na Europa dez anos, aqui ainda aguenta mais 15 anos. Mas não estamos a ver isso. desta forma, estamos a matar o pequeno ou o médio empreiteiro, que quer comprar uma carrinha em segunda mão, para trabalhar. Não é um carro para passear, é para trabalhar. Vamos a países como Holanda, Bélgica e outros potenciais vendedores de carrinhas e camiões, e encontramos empresários da Europa do Leste a comprarem tudo.  Também tiveram guerra, tiveram crises e são países da Europa, quanto mais nós africanos… porquê é que não fazemos? É um problema de consciência, de negócios, porque há quem ganha com isso tudo. Coitado do camponês, do pequeno agricultor, do pequeno em­preiteiro, esses que o dinheiro deles só chega para pagar um carro de segunda mão, en­quanto os outros vão buscar do erário público. Não é possível vermos pessoas com uma frota de 200 ou 300 ca­miões Volvo FM. Quanto é que custa uma Volvo FM? E se formos ver, não têm emprésti-mo bancário. De onde vem o dinheiro?

Se tiver oportunidade de falar com o Presidente da República, que mensagem lhe transmitirá?
Que mantenha a transparência e a humildade, coisas dele que nos admiram. E que intervenha no pagamento das dí­vidas do Estado, senão o empresariado vai morrer. É muito dinheiro. Sabemos que o país está em dificuldades, mas fazer o pagamento, nem que seja faseadamente, é possível. Para podermos sobreviver, o Executivo tem de pagar, pelo menos, às poucas empresas que trabalham. E àqueles que mexerem no que é alheio, que a punição seja séria. Não podemos viver as mesmas impunidades do passado. Têm de ser julgados e condenados.


  “Temos obras distribuídas em outras províncias com meios e equipamentos”.

 

Quem o conhece ou acompanha a sua trajectória aponta-o como sendo um empresário que começou de baixo e atingiu o sucesso. Como é que tudo aconteceu?
Para já, deixa-me dizer-lhe: a minha profissão é professor.
Formei-me, no ensino médio, em Bioquímica, e, mais recentemente,licenciei-me em Engenharia do Ambiente, pelo Polo Universitário do Namibe. Mas quem me conhece sabe de facto que o Santiago é daqueles que começou numa brigada. Levava areia para a obra, recolhia os trabalhadores, era o encarregado de obras, enfim, fazia tudo. Foi preciso muita perseverança. Caí muitas vezes, consegui levantar sempre. Aliás, nenhuma criança nasce a andar; foi o que aconteceu.
Tive ajuda de muito boa gente e, graças a Deus, tudo o que vocês hoje vêem que a CSN tem não veio do erário público; é o resultado de muitas noites perdidas, de muito sacrificar a família. Aqui, cada Kwanza é gasto de forma inteligente, para que gere outros Kwanzas e dê resultado. Há dez anos que somos CSN, mas como brigada e empresário já lá vão 18 ou 20 anos.

Porque elegeu a província do Namibe como sede dos seus negócios?
Eu vim para o Namibe com quatro anos de idade, quando os meus pais vieram para cá, transferidos, saídos de Cabinda – meu pai trabalhava na capitania e, por isso, rodava pelo litoral. Nota que eu nasci no Ambriz, província do Bengo – antes era Luanda – de onde a minha mãe também é. De Ambriz, fomos para Cabinda, depois Moçâmedes, isso em 16 de Junho de 1976. Fiz os meus estudos primários aqui, primeiro na escola Pioneiro
Zeca, depois na 11 de Novembro, Cowboy – na altura Gabriel Kwanhama – e acabei no Pólo Universitário. Portanto, fiz todos os meus estudos aqui. Identifico-me mais com o Namibe; não conheço ninguém da terra em que nasci, aliás, minha mãe já nem tem família lá.

Não é um mercado complicado? Algumas pessoas pensam que, por ser uma província com pouca população, seja difícil fazer sucesso como empresário…
Nem tudo o que parece é. Repito: é preciso inteligência. Além disso, nós temos obras noutras partes de Angola. Aliás, é só notar que o nosso slogan é “de Cabinda ao Cunene, Angola é Nossa”, o que já deixa entender tudo. Trabalhamos em qualquer parte, temos uma capacidade de desdobramento muito grande; temos muitos meios e equipamentos, tantos que se nos disseram agora que há uma obra no Cuando-Cubango, amanhã tenho lá pessoal. Temos obras no Bengo, em Luanda, Cabinda, a província onde é mais difícil trabalhar. Temos meios e equipamentos para chegar lá, onde for preciso, desde que haja acesso rodoviário. Por exemplo, somos das poucas empresas que fazem a transportação das mercadorias da ENDE pelo país, nas 18 províncias. Temos obras pelo país que nos orgulham, como o condomínio Liberdade, com 84 casas, no Lubango, o hotel da caixa social das FAA, aqui no Namibe, com 64 quartos, escolas, centrosde pesca artesanal que estamos a fazer no Zaire e no Bengo; reabilitamos a Capitania do Porto do Namibe, enfim, muitas outras grande e pequenas, que nos orgulham.

Além da empresa de construção, quais são as outras empresas do grupo CSN e que actividades as mesmas desempenham?
Temos a FAC (Fábrica de Artefactos de Cimento), a Lumisul, que trabalha com portas de alumínios, vidros e tudo o que é caixilharia, divisórias; a CSN Máquinas e Equipamentos, que detém o negócio da camionagem e tudo o que é equipamento pesado para apoio às obras.


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