Entrevista

Economia de Angola é das mais pujantes

Adriano de Melo|

O Secretário Executivo da Comissão Económica para a África das Nações Unidas, Carlos Lopes, diz que Angola tem uma das economias mais pujantes de África, embora ainda dependa muito das suas exportações petrolíferas.

Educação de África é comparável à Ásia quando começou a transformação industrial
Fotografia: Dombele Bernardo

Sobre a situação em África defende uma aposta na indústria transformadora. Carlos Lopes publicou 20 livros, como autor ou organizador, e 180 artigos académicos. Foi o impulsionador do primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano da África Austral, com prefácio de Nelson Mandela.

Jornal de Angola - Qual o contributo da economia angolana no crescimento económico do continente africano?

Carlos Lopes -
A economia angolana é uma das mais pujantes do planeta e continua a crescer consideravelmente. As economias africanas já ultrapassaram o dobro do seu Produto Interno Bruto, desde o princípio do século. Angola já faz parte das cinco economias de maior dimensão do continente. Estas classificações são um pouco difíceis de fazer, porque alguns países estão a rever a sua conta nacional, como é o caso da Nigéria e do Quénia. Mas de qualquer forma, Angola está no pelotão da frente.

JA - A evolução da economia angolana com que indicadores se mede?

CL -
Tem vários indicadores. Primeiro,a produção petrolífera aumentou consideravelmente. Em termos de potencial, ainda continua a ser uma economia vastamente dependente do petróleo. São 80 por cento das suas exportações e 95 por cento das receitas do Estado. Neste momento a saúde da economia angolana é boa, mas é preciso ter cuidado, porque o petróleo é um produto muito volátil em termos de preços. Portanto a diversificação económica é fundamental para que o país se possa proteger.

JA - O crescimento dos países africanos é homogéneo?

CL -
Felizmente, a maior parte dos países africanos está em crescimento, até mesmo aqueles que não têm grandes recursos naturais, como é o caso do Ruanda e da Etiópia. Praticamente não há nenhum país africano que não esteja a crescer a mais de 3,0 por cento, mesmo quando existe uma crise ou um conflito. Posso dizer que há uma dinâmica positiva continental, embora haja alguns países que crescem mais que outros. Este crescimento é muito diversificado em termos geográficos.

JA - Quais são os países que servem de motor a esse crescimento?

CL -
Neste momento a principal economia africana é a Nigéria e vê-se que ela tem um papel de locomotiva na economia da África Ocidental, agora também puxada pela segunda maior economia da região, a Costa do Marfim. Temos, no caso da África Austral, uma diferença entre a economia sul-africana, a segunda maior do continente mas que não cresce muito, e os países à volta que têm crescimento muito elevado, mas com economias mais pequenas, como é o caso de Moçambique, Zâmbia e Tanzânia.

JA - Nesse conjunto, qual é a posição de Angola?

CL -
Na África Austral a economia angolana é muito forte e continua com um crescimento elevado. Temos ainda na África Central um crescimento muito grande da República Democrática do Congo, à volta de 8,0 por cento. O Quénia, que desacelerou neste último ano, é uma economia com um certo peso. Na África do Norte a principal economia, em termos de pujança, é a da Argélia.

JA - De que forma a instabilidade política nos Grandes Lagos afecta o crescimento?

CL -
Que afecta é seguro, porque se houvesse estabilidade as economias da região cresciam ainda mais. Mas a República Democrática do Congo cresce 8,0 por cento e existe instabilidade. O Ruanda, que fica ao lado e tem grande exposição a esta zona de conflito, cresce mais de 8,0 por cento. Às vezes os conflitos têm uma perspectiva mediática, que não corresponde ao seu impacto no crescimento, mas sim na forma de crescimento.

JA - Como se caracteriza essa forma de crescimento?

CL -
A qualidade do crescimento é muito afectada pelos conflitos, mas a quantidade não. Pode-se continuar a crescer mesmo com o conflito. Por exemplo, quando houve guerra no Sudão em várias frentes, como Darfur, o país estava a crescer 9,0 por cento. Só deixou de crescer depois do surgimento do Sudão do Sul, por causa da distribuição do petróleo e a tensão entre os dois países, mas durante todo o período de conflito  esteve a crescer.

JA - A instabilidade na Nigéria tem efeitos negativos no crescimento dos países africanos?

CL -
Não. A Nigéria, apesar de estar a ter problemas com o terrorismo, não está a ser afectada em termos económicos. Antes pelo contrário. É uma das economias que mais cresce, à volta de 7,0 por cento. Neste momento, como é a única economia a atingir estes números, tem um impacto forte no conjunto das estatísticas do continente.

JA - As economias dos países africanos assentam em que modelos de desenvolvimento?

CL -
Desde o fim da década passada, passamos de um período de prescrição das políticas económicas, onde o ajustamento estrutural definia as políticas de cada país, para uma situação em que estamos a discutir os Objectivos do Milénio.Em 2015, temos os objectivos do Desenvolvimento Sustentável. Essa evolução de discutir uma política com características definidas para uma sobre objectivos, significa que os países têm mais espaços para seguir o seu próprio caminho.

JA - Quais são as consequências dessa transformação?

CL -
São consequências muito positivas para diversificar as várias opções de política económica. Enquanto na Europa estamos no pensamento único, todos têm que seguir uma tabela de convergência estrita, em África temos uma liberdade de escolha e existem países com modelos muito diferentes, alguns com grande intervenção estatal, outros com uma grande polarização entre sector privado e Estado. Temos países em que a tónica está na energia, transportes e logística, noutros o crescimento está mais baseado na exploração de minérios. Portanto temos modelos diferentes e alguns países têm a ambição de entrar, agora, para o grupo de países emergentes.

JA - Como se caracteriza essa mudança?

CL -
O mercado emergente significa, em termos práticos, que esses países vão passar de um processo um pouco reactivo em relação à economia para um mais intervencionista, em que o Estado tenta criar as condições de incentivo para que a economia mude de baixa para alta produtividade. Normalmente isso acontece quando se acrescenta valor às matérias-primas na transformação local, ou se não tiver em termos de serviço, criar condições para fazer uma conexão entre serviços e industrialização, ou com ofertas na área do turismo. Existem várias opções disponíveis para esses países.

JA - O mundo rural começa a ter peso nas economias africanas?

CL -
O mundo rural sempre teve peso, em termos do número de pessoas que dependem dele. Neste momento são 60 por cento, embora todos os anos este número esteja em diminuição, porque em África há um fenómeno de migrações e as cidades estão a ficar cada vez maiores. Dentro de alguns anos vamos ter metade das populações a viverem nas cidades, uma aceleração do crescimento urbano. O que acontece é que a agricultura está cada vez menos importante, em termos económicos, para o conjunto das economias dos países. As pessoas que ficam no campo não aumentaram a sua produtividade e portanto ficam pobres, porque a agricultura é muito pobre.

JA - Como se resolve o empobrecimento no mundo rural?

CL -
A produtividade em África está muito dependente de factores relacionados com a chuva e o clima e não de políticas, quando na maior parte dos países do mundo já se passou dessa fase e a agricultura depende muito mais de criação de incentivos políticos e muito menos do clima. Temos 95 por cento da agricultura africana que depende da chuva. Isso é muito e significa que temos uma baixa produtividade e é preciso alterar isso para combater a pobreza.

JA - A indústria transformadora nos países africanos já é uma realidade?

CL -
Existe alguma indústria transformadora, mas ainda muito pouca, em relação ao que devia ser. Temos, em média, um decréscimo da contribuição das manufacturas para o valor das economias. No caso de Angola, por exemplo, estamos em 6,6 por cento de contribuição da indústria transformadora para a economia nacional. É muito pouco, embora, apesar disso, Angola tenha aumentado 14,4 por cento no último ano. Com todo esse aumento só chegou aos 6,6 por cento. É muito pouco.

JA - Como se explica esse quadro?

CL -
Sabemos, através da Teoria Económica, que a indústria de exploração de minérios não cria empregos em quantidade e normalmente os países que dependem destas economias de exportação de produtos naturais têm de fazer um esforço na industrialização e transformação, se quiserem criar empregos. Caso contrário ficam muito dependentes, recebem riqueza e não podem distribuí-la, porque não há emprego. Assim, essa riqueza acaba por ser consumida de formas que não são as mais eficazes para a economia.

JA - A exportação de “cérebros” está em desaceleração?

CL -
Neste momento existem países que já estão a beneficiar daquilo que em inglês se chama “braingain”. É o caso da Nigéria, do Gana e África do Sul. Portanto já temos três países que os cientistas e outros quadros qualificados começam a voltar e esse fenómeno pode vir a acelerar-se rapidamente em África se forem criadas condições e oportunidades para que os técnicos voltem. Agora começa a existir uma classe média que quer consumir e essa procura traduz-se na busca de serviços mais sofisticados.

JA - Como se processa esse movimento?

CL -
O dono de uma pequena clínica em Londres agora pode abrir uma em Lagos e fazer mais dinheiro. O empresário de uma padaria em Paris pode ganhar dinheiro em Abidjan. O movimento de regresso não abrange só a alta qualificação dos cientistas e dos grandes empresários africanos. Engloba todas essas profissões liberais relacionadas com o consumo da classe média.Basta ver o número de centros comerciais que estão a abrir em África. Antes só existiam na África do Sul e meia dúzia de países. Agora a maioria dos países africanos tem grandes centros comerciais. Isso tudo cria outras formas de emprego mais sofisticadas, que fazem regressar os quadros africanos.

JA - África tem massa crítica para garantir o desenvolvimento sustentável?

CL -
África tem neste momento níveis de educação inferiores ao resto do mundo, mas tem níveis de educação que são absolutamente adaptados a certo tipo de produtividade  de que necessitamos na indústria transformadora. Neste momento os índices de educação de África são comparáveis com os da Ásia, quando esta começou a sua transformação industrial.

JA - Nos seus estudos detectou elementos que revelem o avanço da Investigação e Desenvolvimento em países africanos?

CL -
Infelizmente temos estatísticas muito pobres em termos de patentes e registo de patentes africanas, a nível mundial. Os africanos não controlam a propriedade intelectual. Ainda não chegámos lá. Nas negociações internacionais, nomeadamente as comerciais, temos uma situação em que os africanos não prestam ainda muita atenção às questões da propriedade intelectual. A criatividade intelectual em África ainda é muito informalizada, não se traduz em processamentos científicos, registos de patentes e sobretudo interesses comerciais. A maior parte dos países não dá muita importância à pesquisa e desenvolvimento.

JA - Qual é o impacto desse quadro na economia?

CL -
Por exemplo, na indústria farmacêutica os africanos continuam a importar mais de 70 por cento dos medicamentos que consomem, quando isso é uma área onde os africanos deviam ter uma indústria poderosa, porque para alguns produtos principais desta indústria, é possível produzir sem grande investigação e conhecimentos. Temos de fazer um esforço maior de investimento nestas áreas de pesquisa e desenvolvimento, que neste momento ainda é muito fraca.

JA - Qual é o papel da China no crescimento económico em África?

CL -
A China tem um papel importante, porque é o nosso parceiro comercial no continente e porque começa a ter uma importância muito grande na área do investimento. Em stock de investimento, quer dizer não só o investimento que chega agora, mas o que já está estabelecido, com a mesma origem, a China tem grande peso.

JA - Já é o país que faz mais investimentos em África?

CL -
Ainda não é o mais importante, embora seja o que mais cresce. Os EUA ainda são o principal investidor em África, só que investem a maior parte do seu dinheiro em exploração petrolífera, em turbinas para a geração de energia. São coisas que não se vêm. As pessoas estão a ver as pontes, estradas, aeroportos e edifícios, e parece que a China é completamente dominante. Mas a China não é nem o primeiro, nem o segundo ou terceiro maior investidor. Está no meio da lista em termos de investimento africano.

JA - O pensamento político de Amílcar Cabral ainda suporta as vias de desenvolvimento no continente?

CL -
Como grande admirador e estudioso de Amílcar Cabral, acho que o seu pensamento tem uma grande actualidade. Utilizamos, às vezes, palavras mais bonitas e recentes para dizer coisas que ele dizia antes de uma forma diferente, mas o conceito é o mesmo. Por exemplo, o seu conceito de termos uma vontade própria, fazermos apropriação daquilo que criamos e protagonismo próprio, são coisas que Cabral dizia com toda a propriedade e hoje dizemos com outras palavras. O facto de ele dizer isso nos anos 50 e estarmos a descobrir estas teorias este século, mostra que era um homem visionário, a ser seguido.

JA - Tem dados sobre o efeito da Independência Nacional das colónias portuguesas na actual situação em África?

CL -
De uma maneira geral, o impacto político destes países foi muito grande. A descolonização dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) permitiu pôr fim aoapartheid na África do Sul. Do ponto de vista económico esses países primeiro passaram por uma fase que não eram tão grandes actores. Os casos mais flagrantes eram Moçambique e Angola, que estavam em guerra.

JA - E depois da guerra?

CL -
Os PALOP ganharam uma dimensão importante no xadrez africano, porque são economias que estão todas em crescimento, têm bons indicadores, como é o caso de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, países pequenos, mas com bons indicadores sociais. Angola e Moçambique, que estão em grande crescimento, são o pelotão da frente dos que crescem mais. O caso da Guiné-Bissau é um pouco paradoxal. As guerras levaram a que a sua economia não aumentasse e aos poucos ficou na cauda das economias africanas. Neste momento a Guiné-Bissau é a economia mais pequena do continente, apesar de não ter a menor população ou tamanho geográfico. É uma pena e esperamos que a situação possa ser revertida em breve.

JA - Que influência tem a Agenda 2063 no desenvolvimento humano em África?

CL -
É uma agenda que está ainda em construção, mas já tem uma inspiração definida, em detrimento das consultas que foram feitas junto de vários quadrantes africanos e foi apresentado na última Cimeira dos Chefes de Estado da União Africana, em Junho. Ainda estamos no processo de formulação desta agenda e é um pouco cedo para saber quais vão ser os seus contornos exactos. Sabemos apenas que vai dar grande importância à mobilização dos recursos financeiros africanos, em vez dos externos. Algo fundamental, por ser uma mudança de paradigma. Significa que vamos ter de melhorar a utilização das poupanças internas e isso não é possível sem uma grande mudança de pensamento.

JA - Quais são as cinco economias emergentes do continente?

CL -
As economias que têm mais peso, do ponto de vista da sua dimensão, são as da Nigéria, África do Sul, Egipto, Argélia e, dependendo das contas, Angola ou o Quénia.

JA -Como se diminui a dependência que Angola tem das exportações petrolíferas?

CL -
Angola só utiliza 5,0 por cento das suas terras aráveis. Só esse dado mostra que na agricultura tem um potencial gigantesco. Angola tem uma das maiores concentrações de peixes na sua costa, assim como uma riqueza extraordinária em termos de logística, porque está na via que pode desencravarpaíses da região, apesar de não contribuírem em nada nas trocas comerciais angolanas. Angola tem também uma grande concentração de água, numa altura em que este líquido vai começar a ter uma grande importância estratégica.

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