Entrevista

Educação ganha a luta contra o analfabetismo

Alexa Sonhi|

O Ministério da Educação a­ponta 2025 como o ano da erradicação do analfabetismo no país. As autoridades reconhecem que o caminho é longo e difícil, mas não impossível.

Maculo Afonso destaca resultados positivos nas zonas urbanas
Fotografia: Rogério Tuti

O Ministério da Educação a­ponta 2025 como o ano da erradicação do analfabetismo no país. As autoridades reconhecem que o caminho é longo e difícil, mas não impossível. Os dados alcançados desde 1975, altura em que 85 por cento da população era analfabeta, mostram que, hoje, 67 por cento dos angolanos já sabem ler e escrever. O director Nacional de Educação de Adultos, Maculu Valentim Afonso, sublinha que os resultados são positivos, devido ao aumento do número de escolas, institutos médios, universidades e centros de alfabetização.

Jornal de Angola (JA) - Como está estruturado o processo de alfabetização?

Maculu Valentim Afonso (MVA) -
O processo de alfabetização é co­ordenado pelo Ministério da Educação que, através da Direcção Nacional de Educação de Adultos, traça as políticas de luta contra o analfabetismo  em Angola.

JA - O Ministério da Educação trabalha sozinho neste processo de alfabetização?

MVA –
Não, também existe a Comissão Nacional de Alfabetização (CNA), na qual estão integrados vários ministérios, organizações da sociedade civil e igrejas, e que é um órgão de acompanhamento das políticas contra o analfabetismo. Esta Comissão é presidida pelo ministro da Educação, que trimestralmente presta contas directamente ao Presidente da República.

JA - Quando foi criada a CNA?

MVA –
A CNA foi criada através dos Decretos Presidenciais números 62/12 e 86/12, que aprovam o plano estratégico para revitalização da alfabetização. Esta Comissão faz a avaliação periódica dos avanços das políticas de alfabetização a nível do país.

JA – Quais são os resultados da luta contra o analfabetismo?

MVA -
Em 1975, altura em que o país alcançou a independência, 85 por cento da população angolana activa não sabia ler nem escrever. Hoje, 67 por cento dos angolanos já sabem ler e escrever. Isto significa que os resultados são positivos, devido ao aumento do número de escolas, institutos médios, universidades e centros de alfabetização.

JA- Nas zonas rurais o processo  tem o mesmo êxito?

MVA –
As zonas rurais constituem a nossa maior preocupação, porque temos tido mais resultados positivos nas zonas urbanas. Neste momento, a taxa de analfabetismo nas zonas rurais é de 44,5 por cento, sendo as mulheres em maior número.

JA – O que a Direcção Nacional de Educação de Adultos está a fazer para alterar o quadro?

MVA -
Estamos a incrementar o Plano Estratégico de Revitalização da Alfabetização. Em 2012, o Executivo decidiu fazer uma avaliação de tudo o que foi feito, da qual resultou uma redinamização do processo de alfabetização, devido às insuficiências detectadas no Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar (PAAE), consubstanciada na alocação de recursos necessários para se fazer a alfabetização.

JA - As mulheres aderem mais . Isso deve-se ao facto de serem a maioria no país ou porque os homens têm algum complexo?

MVA –
As nossas turmas são constituídas na maioria por mulheres, porque as senhoras são mais pacientes e humildes. Muitos homens sofrem de complexos de inferioridade, superioridade e de falta de humildade, não admitem que precisam de aprender.

JA - E o que pretendem fazer para alterar isso?

MVA -
Para incentivar os homens precisamos de fazer mais. Estamos a trabalhar para articularmos a alfabetização com a formação profissional. Temos estado a trabalhar com a organização Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo (ADPP), para estimular mais os homens a aderirem ao processo de alfabetização.

JA - Além dos alfabetizadores, o que é necessário para que um processo deste tipo decorra sem sobressaltos?

MVA -
Além dos alfabetizadores, é necessário quadro, giz, caderno, lápis, borracha e manuais de instrução. Tudo isso é distribuído gratuitamente. O Executivo cria estas condições para que haja uma aprendizagem condigna. Anualmente, distribuímos um milhão de cadernos, lápis, borracha e manuais de instrução. São coisas que parecem insignificantes, mas que determinam o funcionamento e o sucesso deste processo.

JA - Quantos alfabetizadores já foram formados?

MVA -
Já formámos 9.490 alfabetizadores a nível nacional. A alfabetização é um processo participativo no qual o Estado trabalha com os ­parceiros sociais, em concreto as Organizações Não-Governamentais, igrejas, fundações, associações cívicas e as empresas, que também têm os seus alfabetizadores. Isto quer dizer que no país existem mais de dez mil.

JA – Devem ter formação específica ou são professores comuns?

MVA –
Qualquer um, desde que tenha nível de escolaridade igual ou superior à 8ª classe, pode ser alfabetizador. Mas são todos submetidos a um processo de formação pedagógica que permite aprender   a manusear os manuais de alfabetização, que são multidisciplinares, uma vez que num mesmo livro, se encontram matérias sobre matemática, língua portuguesa e ciências.

JA - Quais são as províncias com maior índice de analfabetismo?

MVA -
As províncias do Bengo, Cunene, Lunda-Norte, Lunda-Sul, Moxico e Kuando-Kubango, devido a problemas de acesso e carência de alfabetizadores, porque existiam poucas pessoas com níveis de escolaridade que lhes permita participar no processo de alfabetização.

JA - Analfabeto é apenas aquele que não sabe ler e escrever?

MVA -
Existem dois tipos de analfabetos. Há o analfabeto absoluto, que nunca teve a oportunidade de aprender a ler e escrever, e há o analfabeto funcional, que é o indivíduo que aprendeu e depois desaprendeu, porque não teve oportunidade de prosseguir os seus conhecimentos.

JA- E como é que isso acontece?

MVA –
O manual de alfabetização está dividido em módulos: no módulo 1, a pessoa analfabeta em absoluto aprende a ler e escrever em três meses e se, de facto, neste período, conseguir ter êxito, isso equivale à 1ª e à 2ª classe concluídas. O módulo 2 tem a duração de seis meses e equivale à 3ª e 4ª classe. Logo, em dois anos e meio e se não houver interrupções, se o cidadão fizer os três módulos tem uma equivalência à 6ª classe. Aí, o Estado cumpriu o seu papel, porque a Lei Base do Sistema de Ensino estabelece que a instrução primária é um direito do cidadão.

JA – Quantos alunos são permitidos nas turmas de alfabetização?

MVA -
Permitimos 35 alunos e temos a previsão de alfabetizar 450 mil pessoas por ano. Por isso, dizemos que é um desafio para o Estado angolano, que estabeleceu que até 2017 deve baixar a taxa de analfabetismo.

JA - Tem registo de estudantes que passaram por este processo e que hoje continuam os seus estudos?

MVA -
Temos, porque muitos dos cidadãos que passaram por este processo de alfabetização continuaram os seus estudos. Hoje, muitos deles estão nas universidades. Inclusive, muitos jovens que ficaram anos sem estudar preferem vir para o Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar por ser um processo intensivo e rápido que lhes permite recuperar rapidamente o atraso escolar.

JA- Qual é a carga horária diária das aulas?

MVA -
Uma hora por dia, porque é um processo que está fora do sistema normal de ensino e como as mulheres são as que mais aderem à alfabetização, as aulas têm lugar no período da manhã, das 7h00 às 8h00, ou ao fim da tarde, nas igrejas e em algumas escolas devidamente definidas e nos Ministérios. Reconheço que se faz pouca divulgação dos lugares onde se dão aulas de alfabetização.

JA – Que plano estratégico existe para aumentar a divulgação desses locais?

MVA -
No quadro da própria revitalização da alfabetização, está prevista uma campanha de comunicação que visa divulgar aquilo que tem sido feito no processo de alfabetização, porque as pessoas pensam que se faz muito pouco mas faz-se muita coisa. E nós pretendemos que, até 2017, 85 por cento da população activa esteja alfabetizada. Em 2025 queremos ter um país livre do analfabetismo. Mas isso tudo só é possível se todos nos empenharmos no processo de alfabetização. Todas as empresas devem ter uma sala de alfabetização, para permitir que aqueles trabalhadores que não sabem ler nem escrever, como o pessoal de limpeza e segurança, possam aprender.

JA - O processo também abrange os reclusos e os jovens que passam mais tempo nas ruas?

MVA -
Todos estão incluídos neste processo. Estamos a alfabetizar até nas cadeias, nas unidades militares, na polícia, até os jovens que ficam nas ruas e as prostitutas estão a ser alfabetizados. Precisamos incluir no nosso programa todas as pessoas que tendem a ser excluídas na sociedade. A nossa perspectiva não é apenas ensinar a ler e a escrever e fazer contas. Queremos dar às pessoas a possibilidade de irem mais longe. O indivíduo aprende e em função da sua saída do obscurantismo sabe virar-se na vida. As igrejas têm ajudado muito neste processo e as Forças Armadas também.

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