Entrevista

Empresários pedem crédito para financiar negócios

João Mavinga | Soyo

O jovem Adriano Manuel Dánia, da Associação dos empresários locais, conseguiu da banca um financiamento que lhe permitiu construir vários empreendimentos no município do Soyo.

Responsável da associação diz que o dialógo juvenil está a surpreender pela positiva
Fotografia: Adolfo Dumbo|Soyo

 Com o financiamento, aliado a capitais próprios, tem em construção um complexo habitacional de 60 casas do tipo T2 e um outro constituído por 54 de tipo T1. Adriano Manuel tem também investimento para área social. Projecta a construção de uma escola para 90 alunos e um posto médico para 100 pacientes em média, na localidade do Nenga, há 65 km da cidade petrolífera do Soyo. No domínio da agricultura, cultivou sete mil plantas frutícolas e lançou um projecto de aquicultura para criar oito mil cacussos. No ramo hoteleiro concluiu este ano um novo hotel com 32 quartos que se associa ao anterior, Hotel Nempanzu, com 102 quartos com a categoria de quatro estrelas. “Ser empreendedor é um sonho nutrido por mim para dar o meu contributo ao desenvolvimento do município, minha terra natal”, refere Adriano Manuel Dánia, em entrevista ao Jornal de Angola. O empresário acredita nas novas políticas bancárias e tem fé na prossecução dos objectivos do Executivo e diz ter muito a esperar do “Diálogo juvenil”. Diz que a província do Zaire já começa a evidenciar sinais palpáveis de crescimento do sector empresarial.

Jornal de Angola - Que apreciação faz sobre o diálogo juvenil?

Adriano Manuel -
É um projecto do Executivo, cuja projecção e o impacto que teve surpreendeu-nos pela positiva, na medida em que foi salutar. O projecto veio não só beneficiar os jovens como também os mais velhos. Passados três anos, após a abertura do grande empreendimento hoteleiro no Soyo, o Nempanzu, eu na qualidade de empreendedor sinto-me orgulhoso, não porque ganhei dinheiro, mas porque estou a dar emprego aos cidadãos angolanos. Vejo no seus rostos uma satisfação enorme, pois do pouco que ganham, conseguem educar os seus filhos. Fico feliz.

JA - Como avalia as novas políticas bancárias aprovadas pelo Executivo?

AM - São políticas boas que vieram ressuscitar a juventude e a classe empresarial. No meu caso particular 70 por cento dos meus projectos resultam de financiamentos bancários e 30 por cento de capitais próprios. A nossa maior dificuldade está em recebermos financiamentos a médio prazo. Era-nos favorável a existência de políticas de concessão de crédito a longo prazo, um modelo em voga a nível da Europa. Isso ia facilitar o retorno do dinheiro em tempo oportuno e sair do aperto. Mas em síntese o país está no bom caminho.

JA - O actual modelo de concessão de crédito não satisfaz?

AM -
Não tanto. Apesar das enormes dificuldades que atravessamos no cômputo geral, ainda é possível ter uma vida empresarial capaz de gerar empregos e rendimentos. Como deve calcular, o Soyo, apesar de ter todos acessos, aéreos, portuários e terrestre, ainda encontra constrangimentos na tramitação de cargas para reposição de stocks. Apesar de existirem já sinais plausíveis no domínio da reabilitação das estradas e agora na projecção do Porto comercial para navios de grande porte, essas dificuldades ainda estão presentes na nossa actividade.

JA – Até que ponto tais constrangimentos se reflectem no preço dos produtos básicos?

AM –
Encarece de facto. Estas dificuldades têm encarecido os produtos básicos pois, em termos portuários os navios têm que escalar o porto congolês de Ponta Negra. Mas são os navios de pequeno porte os responsáveis pelo transporte e a chegada da mercadoria ao Soyo, o que pode durar de 90 a 120 dias. Estes transtornos provocam o aproveitamento comercial, na medida em que a procura aumenta e a oferta escasseia. Acredito que o Executivo tem escutado os nossos apelos. A médio prazo teremos solução. Nós os empresários temos uma palavra a dizer na definição de qualquer estratégia do Governo. Por isso, não temos dúvidas de que as promessas serão cumpridas. Aliás nos últimos dias e por orientação do Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, a juventude foi ouvida.

 JA - Que estratégia advoga no capítulo da expansão de projectos de vulto na província?

AM -
Temos muito interesse em expandir os nossos negócios em todo país. Infelizmente, toda a nossa programação está quase estagnada, porque a crise económica complicou até as instituições financeiras. Enquanto não reduzirmos o nosso risco de solvabilidade nos financiamentos obtidos, não é possível recorrer a novos investimentos e negócios. Mesmo com estas dificuldades não paramos. Continuamos a investir. No segmento hoteleiro, vamos, em breve, colocar à disposição dos nossos clientes mais 30 quartos com todos serviços no Soyo, temos também 54 casas T1 em sistema de Resort, cujas obras estão em curso. Com este Resort, pretende-se oferecer quartos aos técnicos e funcionários da anunciada Refinaria do Soyo. Queremos estar prontos e oferecer os nossos serviços.

JA - Que acções preconiza o empresariado para a capital Mbanza Congo?

AM - Estamos a programar um investimento sério para Mbanza-Congo, a nossa capital da província. Mas, os nossos bancos e o mercado financeiro em geral só concedem financiamentos de médio prazo, uma situação que nos dificulta a vida como empresário, ou seja, o empreendedor fica sufocado investindo em praças com exigências de retorno de cinco anos, sendo dois para o período de graça e cinco para amortização. Hoje quem investir em Mbanza-Congo terá como clientes delegações governamentais e turistas, e estes nem sempre escalam a capital da província. Se pensarmos em cinco anos de retorno do capital, o risco é oneroso, mesmo aumentando o preço do quarto ou dos serviços a prestar.

JA - É muito preocupante isto?

AM -
Claro que sim, por isso lançamos um veemente apelo ao nosso Executivo para rever a situação dos prazos de amortização do crédito. Hoje em outros mercados financeiros já se financia projectos para 20 ou muitos mais anos. Nós podemos começar a pensar assim até porque o nosso país já é estável e não é um mercado de risco absoluto, como se falava antes. Devemos reverter este quadro, porque não se justifica. Assim, não teremos investimentos nem investidores visíveis nas zonas onde não há grandes movimentos de pessoas e bens.

JA - Como conseguiu se afirmar no mercado?

AM -
Aprendi das palavras do nosso querido Presidente quando chamou a atenção aos empresários para a necessidade de diversificação da economia, para evitar a dependência do petróleo e do gás. E se nós não diversificarmos a economia, como poderemos viver? Foi o que fiz, quando começamos a trabalhar, criamos uma empresa de comércio geral que se dedica apenas a retalho e que fornece aos munícipes bens da cesta básica, equipamentos domésticos, material de construção etc. Também criei uma empresa de construção civil e camionagem e temos a hotelaria que se dedica a restauração e alojamento. Fruto da mensagem do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, hoje estamos a sobreviver aos efeitos da crise e vamos ver se num futuro próximo, com a libertação dos fundos por parte do Governo Provincial e do Executivo, conseguimos absorver as necessidades dos nossos clientes.

JA - O que o motivou a ser empreendedor?

AM -
Meu pai é empreendedor, inclusive tem uma empresa fundada no dia do meu aniversário. Isso é de sangue. Já sofri bastante e continuo a sofrer em prol da nossa Nação. Em abono da verdade, digo que não me preocupo em ter carros bonitos nem roupas de marca. Prefiro investir o pouco que ganho em projectos e gerar emprego, pois é também deste modo que se constrói o país. Criar emprego é a única maneira de acabar ou minimizar a pobreza e a miséria. Não é em vão que o Executivo angolano criou o INAPEM, Angola Investe, para promover negócios e empreendedores, pois assim estabiliza-se o país, fomentando as micro, pequenas e médias empresas.

JA - Apresentou projectos ao Angola Investe?

 AM -
A Associação dos Empresários do Zaire tem vindo a promover conversações e concertação com o Governo Provincial para vermos os nossos problemas resolvidos, o que tem sido salutar. No mês de Julho deste ano, em todos os municípios foram promovidos debates e esclarecimentos com a equipa do INAPEM, do Angola Investe e com representantes de alguns bancos comerciais. Ficamos esperançados, pois esses debates são essenciais para que o empreendedor saiba se situar e procure engrandecer o seu negócio ou procurar outras oportunidades no mercado.

JA - Que leitura faz sobre as actividades do Inapem e Angola Investe?

AM - Apesar de esquecerem que o ramo hoteleiro também é um sector produtivo, por atrair empregos, apresenta serviços e habilidades em termos hoteleiros. Fiquei triste e preocupado porque a hotelaria é um sector produtivo de serviços e gera muitas receitas do ponto de vista produtivo. Imagine se os 102 quartos da nossa unidade estiverem ocupados diariamente. Qual seria o resultado dos 10 por cento e do imposto de consumo durante 30 dias? Digo que a Hotelaria é, sim, um sector produtor de serviços. Aqui o Ministério da Hotelaria e Turismo deve ajudar-nos a incluir este segmento de negócios no plano do Angola Investe.

JA - Que projectos têm no quadro do Angola Investe?

AM- Não posso divulgar. É segredo ainda, pois não posso dar aos concorrentes as minhas ferramentas.

 JA – A relação com o Governo Provincial é boa?

AM –
A nossa relação com Governo Provincial é salutar e tem que ser salutar. Como religioso recorro sempre à frase que diz: “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Não tem como não ser salutar. A meta que nós atingimos hoje já não pode ser contraditória. Tenho 43 anos de idade, já não posso mudar de conduta. A relação é boa. O empreendedor é um elemento muito importante na vida política, económica e social.

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