Entrevista

Ensino Superior anima o debate

Gabriel Bunga| Saurimo

A décima edição do Campo Nacional de Férias para os Estudantes Universitários (Canfeu) que decorre na província da Lunda Sul, de 20 a 25 deste mês, tem como principal novidade a discussão da agenda “Angola 25 anos”, que abarca os projectos estruturantes do desenvolvimento do país nos próximos anos. Os estudantes vão centrar os debates na qualidade do ensino superior e no primeiro emprego depois da formação.

Secretário nacional da JMPLA promete discussão sobre o primeiro emprego para jovens
Fotografia: José Soares

A décima edição do Campo Nacional de Férias para os Estudantes Universitários (Canfeu) que decorre na província da Lunda Sul, de 20 a 25 deste mês, tem como principal novidade a discussão da agenda “Angola 25 anos”, que abarca os projectos estruturantes do desenvolvimento do país nos próximos anos. Os estudantes vão centrar os debates na qualidade do ensino superior e no primeiro emprego depois da formação. O primeiro secretário nacional da JMPLA, Sérgio Luther Rescova, em entrevista ao Jornal de Angola, garantiu que as preocupações dos jovens, debatidas no quadro do programa “Diálogo Juvenil”, vão chegar ao Executivo. A iniciativa da JMPLA congrega mais de 1.600 jovens de todo o país e durante cinco dias vão desenvolver diversas actividades académicas, culturais e socais, onde o destaque vai para uma homenagem ao Presidente da República, José Eduardo dos Santos, pelo alcance da paz e a reconstrução do país.

Jornal de Angola - Participam na décima edição do Campo Nacional de Férias dos Estudantes Universitários (Canfeu), na Lunda Sul, cerca de 1.600 jovens. Quais foram os critérios de selecção dos participantes?

Sérgio Luther Rescova -
O facto de ser a JMPLA a realizar o Campo Nacional de Férias dos Estudantes Universitários não significa que só participam jovens militantes da JMPLA. Muito pelo contrário, infelizmente não é possível, da nossa parte, responder à procura muito elevada de jovens que querem participar nesta actividade. Reconhecemos a vontade de todos, pedimos a compreensão de que temos algumas limitações do ponto de vista de recursos para suportar este tipo de iniciativa, o que significa que no âmbito dos participantes tivemos que fazer uma selecção para que todas as províncias estivessem representadas.

JA - Que outros critérios foram tidos em conta?

SLR -
Tivemos também em conta a representatividade de todas as especialidades ou cursos leccionados em Angola nas universidades públicas e privadas. Outro critério tem a ver com a representatividade do género, para que se possa motivar a participação nesse tipo de actividade de meninas e rapazes, ou ainda a representação numérica das províncias que correspondesse ao número de instituições de ensino superior e número de estudantes que cada província tem. Foram seleccionados também militantes da JMPLA, que são a maioria, mas temos a participação de outros que, não sendo militantes, foram também seleccionados para participar. Também estamos a contar, nesta edição, com uma representatividade bastante reduzida, infelizmente, de jovens angolanos a estudar na África do Sul, França e Portugal.

JA - O país conta hoje com sete universidades públicas, além de institutos superiores e com mais de dez universidades privadas. O ensino cresce desde o alcance da paz, mas a qualidade é posta em causa. Os estudantes vão abordar esta questão?

SLR -
A qualidade do ensino superior no país vai ser analisada numa palestra, na presença da ministra do Ensino Superior. Desde 2002, quando iniciámos a realização do Canfeu, o país conheceu um crescimento de instituições do ensino superior do ponto de vista quantitativo. Hoje contamos com mais de 120.000 pessoas a frequentarem o ensino superior, em todas as províncias do país. O crescimento numérico deve ser associado à qualidade. Precisamos de melhorar e isto vai efectivar-se quando tivermos de modo absoluto as bibliotecas, laboratórios, a qualidade dos docentes no que diz respeito às habilitações e à sua formação contínua e outras condições académicas. Uma questão que tem sido debatida tem a ver com a investigação científica, porque sem investigação científica o ensino superior fica deficitário e a investigação científica vai ser também um dos temas a ser abordado no Canfeu.

JA - Depois da formação superior ou média, os jovens encontram várias dificuldades para encontrar o primeiro emprego, sobretudo pelas condições que lhes são exigidas pelas empresas privadas. Como a JMPLA encara essa situação?

SLR -
Uma das mais-valias do Canfeu é levar os estudantes a conhecer a realidade de Angola e interagir com as comunidades nas mais variadas localidades e aí perceber que temos muitos potenciais postos de trabalho a nível das províncias que podem ser absorvidos por estes jovens que se estão a formar e alguns já formados. Os empregos devem ser entendidos numa óptica nacional que significa que os jovens que se estão a formar devem estar preparados para prestar o seu contributo onde sejam solicitados. É uma questão mundial e estruturante e que deve ter resposta naquilo que é o esforço de desenvolvimento económico do país. Isso significa que quanto mais o país crescer mais postos de trabalho vão ser criados.

JA - Que apelos faz aos jovens e ao Executivo?

SLR -
O apelo que fazemos é que os planos do Executivo em várias modalidades possam continuar a conhecer melhores dias na sua aplicação, porque é desta forma que a economia gera empregos. Não existe uma forma automática ou mágica. Temos sensibilizado os jovens estudantes universitários e não só, quanto à atitude que devem ter quando arranjam um emprego, mas há outros que têm e não dignificam a sua postura, com dedicação, profissionalismo e com bastante humildade, como deve ser o processo de aprendizagem no trabalho.

JA - A JMPLA está a realizar o programa “Diálogo Juvenil”. Há espaço para o diálogo no Canfeu?

SLR -
Este programa surge do repto lançado pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, na sua mensagem sobre o estado da Nação. Como organização juvenil do partido no poder tomámos boa nota e com bastante satisfação demos início a este programa. Na verdade, já existia desde 2007, mas revitalizámos alguns objectivos e metodologia de actuação e procurámos criar um espaço no qual os jovens, independentemente da sua filiação partidária, possam partilhar questões relacionadas com o seu dia-a-dia, da sua comunidade e questões relacionadas com o país em geral. O Chefe de Estado quer que o diálogo seja produtivo, inclusivo e que produza resultados com as contribuições e as preocupações da nossa sociedade. Estamos a fazer uma compilação de todas as matérias que são fruto dos debates realizados em várias edições do “Diálogo Juvenil”. A orientação que temos é de envolver os jovens na comunidade de acordo com a sua realidade, daí que privilegiemos que esses encontros se realizem exactamente nos locais onde os jovens residem, para que possam confrontar melhor a realidade do que está em curso, o que há por fazer e como os jovens podem participar.

JA - Depois da compilação das contribuições e preocupações do jovens, qual vai ser o passo seguinte?

SLR -
Uma vez compiladas todas estas reflexões e contributos vamos fazer chegar à direcção do nosso partido que, naturalmente, vai levar ao Executivo, para que algumas das questões possam ser melhoradas. Temos uma ideia geral de que são situações preocupantes e com o diálogo juvenil vamos debater estas situações e sugerir modos de resolução.

JA - Além dos debates, os jovens universitários vão participar em diversas actividades, nas quais está prevista uma homenagem ao Presidente da República. Porquê este reconhecimento ao Chefe de Estado?

SLR -
Associamos este Canfeu a uma homenagem ao Presidente da República, José Eduardo dos Santos, precisamente porque o Canfeu é fruto da paz, na medida em que foi implementado logo que se conseguiu a paz definitiva em Angola. Esta paz tem alguém como grande precursor e só por isso é homenageado nessa edição. Porque depois da paz o país tem conhecido um grande processo de construção e reconstrução nacional, que deve continuar para garantir melhores condições de vida da nossa população, mais emprego para a juventude, melhoria das condições do ensino, melhoria no atendimento de saúde e outros serviços básicos para a população.

JA - Os angolanos provenientes da Zâmbia, como refugiados, e que estão na Lunda-Sul, vão merecer atenção dos estudantes?

SLR -
Como é hábito e foi sempre assim nas nove edições, o Canfeu tem sempre uma grande componente social e que tem a ver com o apoio às comunidades. Brigadas juvenis vão contactar as comunidades e prestar apoio concreto e assistência às comunidades vulneráveis. Além dos refugiados angolanos oriundos dos países vizinhos, que vão merecer a nossa atenção, conseguimos identificar ainda algum trabalho que deve ser feito na sensibilização e educação das comunidades sobre a prevenção de doenças. Porque mais do que a cura em concreto, com medicamentos, uma das principais metodologias de cura deve ser sempre a prevenção. E isso passa pelo melhoramento das condições sanitárias das nossas comunidades. Muitos de nós somos os promotores da degradação do saneamento básico, por isso, os estudantes vão aos bairros fazer esta sensibilização.

JA - Estamos num ano de eleições. Que opinião tem sobre o processo eleitoral?

SLR -
A nossa mensagem não foge daquilo que é o interesse de todos os angolanos. Que as eleições decorram de modo pacífico, civilizado e que haja participação de todos. Só por isso apelamos aos jovens que nesta fase actual possam já cumprir os seus deveres, actualizando ou registando-se para garantir a participação como eleitores. Com civismo, de forma democrática, cada um deve fazer a sua opção política para aquilo que pretende que seja o futuro. Nós, a JMPLA, não temos dúvidas que o melhor para o futuro de Angola é o MPLA e somos a sua organização juvenil. Mas, como disse o nosso líder, nada de triunfalismo. Vamos continuar a trabalhar do ponto de vista político para fazer de Angola um país bom para se viver.

JA - Que conselho deixa aos participantes do acampamento?

SLR -
O nosso conselho aos jovens que participam nesta edição do Canfeu é que tirem o maior proveito deste evento para fortalecer o espírito patriótico e criar uma interacção com os jovens oriundos de várias localidades de Angola. O espírito de unidade deve existir entre os jovens e ser transmitido para aqueles que não estão no Canfeu. Quanto mais unidos estivermos, independentemente das nossas filiações partidárias, daremos um maior contributo ao nosso país. O nosso conselho deve ser estudar o máximo possível, porque desta forma vamos capacitar-nos ainda mais e melhor. Devemos ter muita esperança no futuro e confiar nas instituições públicas, respeitá-las e respeitar aqueles que ocupam cargos públicos. Não nos devemos deixar levar por conversas desmotivadoras, que em nada ajudam, pelo contrário só nos destroem. Esperamos que os participantes ao Canfeu pautem o seu comportamento pelo civismo e que evitem algumas atitudes que em nada nos dignificam, como o consumo de álcool.

JA - O Canfeu vai já na sua décima edição. Que inovações tem este ano?

SLR -
Este ano temos como inovação a introdução nos debates da agenda “Angola 25 anos”, que traz os projectos estruturais do desenvolvimento de Angola, a nova abordagem ao impacto das tecnologias de informação e comunicação na sociedade angolana e particularmente na juventude estudantil. No “Diálogo Juvenil”, temos programas relacionados com o resgate dos valores morais e cívicos, que vão ser a tónica da nossa abordagem. Do ponto de vista das delegações, vão ser introduzidas inovações durante as apresentações e as províncias são avaliadas através do seu empenho. Passados 10 anos da realização da primeira edição do acampamento, em 2003, cada experiência do Canfeu é única. Temos dito, a nível da JMPLA, que não existe uma edição do Canfeu melhor que a outra. O Canfeu acontece em realidades totalmente diferentes e o que fazemos, como organizadores, é melhorar as condições de realização.

Tempo

Multimédia